“Casa de Vidro”, obra de um grande escritor.

 Galeno de Freitas

Aleluia! Ivan Angelo está de volta à ficção. E a postura exclamativa se justifica plenamente. A expectativa criada pela força do romance “A Festa”, de 1976, não apenas se confirma neste novo livro como também, em vários momentos, é superada pelas cinco narrativas reunidas em “A Casa de Vidro”, que a editora Cultural acaba de lançar.

Por certo, as peculiaridades e as restrições do mercado de livros no Brasil abafaram a merecida repercussão de “A Festa” onde já se podia perceber um autor senhor do oficio de escrever e recriar a realidade, com um virtuosismo na armação da partitura ficcional que provocou a admiração até mesmo de críticos severos como o professor John Parker, da Universidade de Glasgow.

As cinco narrativas que compõe “A Casa de Vidro” parecem, à primeira vista, dispares em termos temáticos e estruturais. O livro, todavia, tem uma sutil unidade, que se realiza pelo entrelaçamento de personagens e situações. E o que é importante: se constitui em potente retrato do nosso tempo, do Brasil de hoje com suas contradições e chocantes desigualdades.

A primeira novela é aparentemente inocente. Em “A Conquista” um bom burguês, aproveitando a doença da sogra e da ausência da esposa, se põe à caça de fêmeas. O homem é o sucesso em pessoa, exemplo do “executivo” que subiu na vida. Todavia, algo lhe falta. O que falta é meio indefinido, mas que se revela aos poucos numa conversa de bar através de uma fina nostalgia.

O virtuosismo da construção ficcional de Ivan Angelo está presente em sua plenitude na novela “Sexta para Sábado”. Utilizando quase que telegraficamente nove personagens, e fazendo de pessoas tão antagônicas fios de uma mesma meada, o autor consegue não apenas desnudar o quanto de violência há por trás das relações de classes numa cidade como o Rio de Janeiro mas também mostrar a essência da própria violência, hoje tão em voga como artigo de capa de nossas revistas semanais.
O mesmo tom de “thriler” policial da narrativa anterior permanece e permeia "O Verdadeiro Filho da P...”. Aqui fica evidente a familiaridade do autor com a linguagem dos destituídos e sua vivência jornalística. De novo a violência é o personagem subjacente. E ela se abate inexoravelmente sobre os mais fracos.

Porém, o momento alto deste livro é a novela que dá o título “A Casa de Vidro”. De passagem, o autor não se esquece de homenagear seu predecessor no desnudamento da repressão, nada menos do que o tcheco Franz Kafka, mas a atmosfera é bem paulista do inicio dos anos70. A “genial” idéia tecnocráfica de se construir uma prisão totalmente de vidro esteve muito próxima da realidade vivida pelo País. A função de repressão, nesta pequena obra-prima, ganha uma explicitação mais eficiente do que em muitos tratados de sociologia e política.


Outro traço fundamental da narrativa de Ivan Angelo que reaparece com força explosiva neste novo livro é o sentimento lúdico da escrita. Na novela final “Achado”, este brincar com as palavras atinge a níveis alcançados por Carlos Drummond de Andrade na poesia e Guimarães Rosa e Roa Bastos na novelística. O autor enfrenta o quebra-cabeça que é um velho texto de Estevam Saa Perdigão, que aliás serve de contra ponto para todo o livro, e através dele se interroga brincalhonamente sobre o mistério que é desvendar o mistério de escrever. A madureza, essa ingaia ciência de que o autor dá provas neste texto não deixam margem a dúvidas de que é um dos melhores escritores de ficção, no Brasil de hoje.






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