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Alexandre
Eulálio Escritor
exigente, Ivan Angelo publica pouco. Depois de 1961, data da sua estréia
em livro, quando morava ainda em Belo Horizonte – estréia saudada por
um “exercício de admiração” do crítico federal Fausto Cunha -, apenas
em 19976 daria novo sinal de si. Nada mais nada menos que A Festa, livro
que nascia clássico, um texto complexo e vibrante, dissimulado muitas
sutilezas e ambigüidades na sua agressiva crueza. A Casa de vidro, de
1980, manteria o mesmo nível de exigência poética. Tanto A Festa como
A Casa de Vidro seriam logo traduzidos para o inglês e o francês (La Fête
Inachevée, The Tower of Glass), confirmando o renovado interesse que esses
retratos sem retoque dos brasileiros debaixo do tacão militar causavam
no exterior quando abordados por um escritor de pulso. Agora, Ivan Angelo, empreendendo um balanço da sua formação de ficcionista, resolve reeditar os contos do seu livro inaugural, aos quais acrescentou outras narrativas esparsas. O título, A Face Horrível, alude ao Duas Faces de 1961, o volume de estréia dele, que abrigava, em condomínio, além de sete contos de sua autoria, duas novelas breves de um companheiro de geração e de formação literária, Silviano Santiago. O cuidado meticuloso com que Ivan Angelo entremeou, em A Face Horrível, os contos mais antigos aos de data mais recentes parece propor a mesma consideração para as diversas vertentes da sua narrativa curta desde 19959 até 1985. Uma pesquisa que trata de mapear as suas próprias raízes de inventor, e onde coexistem com simplicidade o melhor e o menos bom. Chama logo atenção o pingue-pongue formal-extremamente expressivo para o estudioso – entre o universo estilístico de Clarice Lispector, todo entretons e cambiantes, e a agressividade de situação e de diálogo do mundo de Nelson Rodrigues. Dois “modelos” opostos e complementares entre os quais vacila o contista de 1960; estilos que chegam a ser glosados literalmente até mesmo no nível dos maneirismos da escrita. A sutil delicadeza intimista de Menina Moça Amando, Tristeza (mais crônica de que conto), Promessa (que participa das preocupações metanarrativas centrais em A Festa), no entanto, resistiram ao tempo de forma infinitamente superior a narrativas de rebuscada argúcia técnica como Ocorrência Policial, Homem Sofrendo no Quarto, O Suicida, Castigo. Contos estes em que a peripécia trágica ou hiperdramática trai certo ranço letrado e poderiam ser mesmo lidos como histórias à maneira de Lúcio Cardoso, Otto Lara Resende e outros. As obras que transmitem por inteiro ao leitor a garra do autor serão assim Bar (que assinala nítida a transição entre o primeiro e o segundo Ivan Angelo, tanto do ponto de vista da temática do cotidiano como do desenvolvimento da escrita), Perdas e Danos (apesar da surpreendente frase de efeito do fecho), A Face Horrível e Dènouement. (Bons tempos esses, em que o autor podia colocar um título em francês, considerando garantido que o leitor não perderia nada das suas intenções sardônicas.). Aliás, sobre esse “desenlace” – que fechava Duas Faces e continua a ser a última história de a Face Horrível – construiu o autor duas fascinantes variações musicais a respeito do ato de criar e da dinâmica da composição: preciosos exercícios do “desescrever” (a expressão é do crítico Aires da Mata Machado Filho) que é inseparável da mesma composição literária. Na primeira destas variações, o autor de 1985revê, com total impaciência, a sua redação de 25 anos antes - e os comentários com que vai desmontando aqueles textos são do mais feliz humorismo. Na Segunda variação temos diante de nós a conto como o autor redigiu agora, aqui. Apesar de todas as astúcias que enriquecem o texto. Esta lipoaspiração estilística não recupera a densidade emotiva da primeira versão; ganha, antes certo tom ausente e abstrato, com qualquer coisa de secamente anacrônico, que acaba por empobrece-lo. Entropia que alcança o próprio título em francês, que passa a soar gratuito, eliminada a piscadela cúmplice autor-leitor. A posição
de Ivan Angelo entre os nossos ficcionistas é de primeira linha, um escritor
de grande legibilidade (o que esta longe de ser o caso da nossa produção
atual), toma o lançamento de A Face horrível contribuição importante que
nos permite compreender melhor o itinerário interior de alguém que é uma
das figuras mais expressivas das letras brasileiras hoje. ***** |