Contista

Assis Brasil

Ao lado dos contistas baianos, agrupados no volume Reunião, já comentado aqui, surge um novo e surpreendente nome: Ivan Angelo. Seus sete trabalhos, reunidos no volume. Duas Faces (1) – que também traz duas novelas de Silviano Santiago – colocam-no na linha rara dos inventores e de par com os melhores contistas da atualidade. Em face à sua coletânea de contos, temos uma observação inicial a fazer: sendo um estreante em livro, Ivan Angelo não precisa melhorar, nem ninguém precisa esperar que ele adquira maior domínio sobre o que quer que seja. Esta observação é para mostrar aqueles que acham que todo estreante é, essencialmente, fraco e imaturo, e por isso a critica tem que ser condescendente para com eles. Por assumirmos posição completamente oposta, achamos que o livro do estreante pode ter as mesmas ou mais qualidades que o décimo segundo livro do mesmo autor. Só o medíocre tem direito a melhorar, diria Oscar Wilde. O certo é que o fato de qualquer rapazinho se lança à aventura do primeiro livro, sem consciência artesanal e sem consciência mesmo da própria vida, não poderá justificar a atitude a priori do critico, em face a sua obra.

Ivan Angelo surge, assim, como um ficcionista feito, definitivo – não terão importância alguma, em grau de qualidade, e em relação a esta primeira coletânea, seus livros futuros – é lógico que esperamos não que se repita mas que continue a publicar.

Falamos, lá atrás, referindo-nos ao jovem ficcionista, em inventor. Ivan Angelo consegue, nesses sete contos, uma independência criativa acima da comum. Temos observado, em alguns outros bons contistas, o fato de se entregarem a uma repetição de processos, o que tem, às vezes, prejudicado o maior desenvolvimento do conto sem enredo concatenado. Talvez ligados ainda a herança, o monólogo indireto tem sido o recurso mais freqüente usado pelos jovens que se propõem a renovar o gênero. Limitados por este recurso, temos quase caído num academismo incipiente, sem perspectiva de salvação.

Na verdade, fugindo o jovem contista da história cronológica, caiu no extremo oposto do monólogo indireto, tentando evitar assim o episódico e as ações externas que o levariam (talvez) a narrar linearmente. Por um lado conseguem uma unidade criativa em suas coletâneas – uma unidade conceptiva – e se salvam pela densidade humana que conseguem imprimir a seus trabalhos. Mas criou-se, assim – o que não é aconselhável - , uma espécie de chave para fugir ao conto tradicional.

Temos sentido, por experiência própria, que o conto não se renova apenas por uma extática de um suposto personagem pensante. O autor pode conseguir mais além daquela evanescência do monólogo. Sem perder o ponto-de-vista adotado, pode imprimir uma dinâmica aquele mundo, sem precisar recorrer ao episódio concatenado e falso em seu tempo narrativo.

Ivan Angelo consegue a proeza. Seus contos foram montados sob uma mesma linguagem – o que dá harmonia ao conjunto – mas sob processos diferentes – o que enriqueceu sua inventiva. Seu recurso primordial é, ainda, o monólogo, mas já o usando em várias perspectivas, e dinamizando, em alguns aspectos externos, os trabalhos.

No primeiro trabalho, O Suicida, usa o monólogo indireto livre, “pondo-se na pele do personagem” – como diria Henry James – embora narre na terceira pessoa; em alguns momentos, já com vistas a enriquecer o processo, o personagem fala na primeira pessoa no meio do monólogo. Aí teríamos apenas, com suas qualidades de estilo, mais um conto moderno extático mais Ivan Angelo vai mais adiante neste trabalho: o outro personagem que surge, não fica inteiramente adstrito à visão do personagem central; então o conto começa a entrar na sua fase dinâmica, e adquire outra nuança, quando aparece a alternância dos monólogos entre os dois tipos. Os ligeiros episódios externos – diálogo entre os dois – completam o espaço e conseqüentemente o mundo ali exposto.

Segundo conto, Dénouement, ativa a dinâmica do primeiro e temos várias ações episódicas, inclusive o seu final, um tanto armado para que a cortina descesse. O monólogo indireto surge também aqui mais vivo, uma vez que o personagem tem uma desenvolvida segundo personalidade. Dialogo com ele mesmo em relação aos conflitos externos, no caso uma mulher, que também é equacionada por meio de sua presença ativa no conto. Consegue assim estruturar num espaço orgânico, mudando de concepção em relação ao primeiro trabalho.

O terceiro conto, Menina, é uma obra-prima. Leva como epigrafe, uma frase de Clarice Lispector, cremos que uma fala ou de Joana (Perto do coração Selvagem) ou de Ermelinda (A Maçã no Escuro) – “Oh, ela sabia cada vez mais”. O espírito do personagem Menina é mais afim a Joana, e sob a perspectiva de uma menina que descobre as coisas, o mundo, e se dilacera e sofre com o conhecimento, Ivan Angelo constrói seu trabalho, sem se ater, ainda, ao recurso referido. Talvez por sugestão da epígrafe, sentimos nesse trabalho uma maior aproximação com Clarice Lispector, sem que haja uma influência decidida e limitadora. Menina traz a marca já agora firme de Ivan Angelo.

Consideremos o quarto conto da coletânea Homem Sofrendo no Quarto, o mais literário e o mais intelectualizado; a partir do monólogo joyciano (corrente da consciência) e das intercalações da narrativa direta, sentimos que é o seu trabalho mais cerebral, e o mais racionalmente construído. Sem querermos ver em tal atitude um desfeito de concepção, encaramos a empresa como mais uma prova da desenvoltura criadora de Ivan Angelo.

Os demais contos têm o mesmo nível, salientando-se os dois planos narrativos do último, O Castigo, e a beleza da Moça Amando. Eles começam assim: “Amor. Chegou juntinho à orelha e disse eu te amo, eu te amo”. Depois a orelha virou boca e ouviu: “eu também te amo”. E as mãos, abraçadas. E os olhos, de mãos dadas, eu-te-amo em tudo Bom, amar ninguém sabe nem mamãe: Devia dizer à mãe?, contar-lhe? como? Como? – Assim: eu amo um rapaz não um rapaz gosta de mim não “Mamãe, hoje vem aqui um rapaz” Etc. Depois sai de dentro do personagem para dinamizar o conto, e constrói-la sempre sob o ponto-de-vista do personagem. É uma coletânea de bons contos essa de Ivan Angelo.




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