Ivan Angelo cria linguagem mordaz em
contos para público adolescente

Bernardo Ajzenberg

Depois de oito anos de ausência, o escritor mineiro Ivan Angelo volta à tona, desta vez com um livro de vocação paradidática destinado ao chamado “publico jovem”. “O Ladrão de Sonhos e Outras Histórias” reúne 12 contos curtos de pronta fruição, embora o autor afirme, na entrevista que abre o livro, não ter escrito pensando em “facilitar” a leitura. Esse tipo de criação, voltada basicamente para as salas de aula, é arriscada. Preocupados em não “adensar” demais o texto, em não afastar os leitores iniciantes, muitos autores acabam prisioneiros de um “Bem contra o Mal” emburrecedor, de uma limitação nos traços dos personagens ou no enredo.

Trata-se de uma atitude que, em última instância, além de empobrecer a obra, desrespeita a capacidade de abstração do adolescente público que não tem a carga acumulada do leitor adulto, mas certamente já se distanciou do João e Maria das classes primárias.

Escritor de linguagem contundente, de uma urbanidade seca e mordaz (conforme “A Festa”, de 1976, e “A Casa de Vidro”, de 1979, por exemplo), Ivan Angelo domina bastante os seus instrumentos de trabalho para não Ter caído nessa vala. Sua dosagem consegue ser correta, provocadora, equilibrada.

Com exceção de “Negócio de Menino com Menina”, por seu enredo excessivamente maniqueísta, e de “A Voz”, por sua previsibilidade, os demais contos permitem viagens interessantes na cabeça do leitor e boas discussões em sala de aula. Seja por seus temas – insegurança, crise conjugal, violência, desemprego, sexo – seja por seu estilo.

O melhor exemplo é “Tão Felizes”, feito de um único parágrafo, ao longo do qual uma mulher fala a seu marido sobre a festa em que os dois estiveram na noite anterior. O mesmo impacto positivo de estilo aparece em “Desligado” e “Talismã”.

Ivan Angelo afirmou certa vez, sobre Ter escrito uma novela depois de lançar contos e um romance: “Gosto de me testar, saber se posso fazer bem uma coisa”. A nova experiência, indiscutivelmente, deu certo. Mas o autor fica devendo algo, com a sua competente contundência, ao chamado “publico adulto”.



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