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![]() A festa - romance. Editora Vertente(76), Summus(79), Geração(96). Prêmio Jabuti, 1976. (Traduzido nos EUA: The Celebration; na França: La Fête Inachevée)
Biografia
encontrada pelo auto entre 1. Ela era muito bonita.Talvez a única verdade de Andrea, base de todas as posteriores mentiras, tenha sido essa: a beleza. As mulheres bonitas demais são colocadas sempre na frente – de uma família, de uma coroação de Nossa Senhora, de uma sala de aula, de um colégio, de uma festa, de uma sociedade – e acabam assumindo a responsabilidade de manter-se no centro o resto da vida, e essa ilusão cansa e faz sofrer. Na adolescência, Andrea já estava perdida no seu engano. Queria amar – não pouco, muito, como as heroínas. Antes dos quinze anos já amava violentamente, porque o beijo foi uma descoberta pertubadora. O medo de estar pecando – católica, de família classe média, nascida e criada na Tijuca – impediu que ela conhecesse na época outras carícias. Ficou-lhe para sempre uma sensação de leveza e perigo na hora de um beijo. Um dia o pai descobriu e leu o diário de Andrea, falando em beijo, demais. Enfurecido, mandou a filha para a casa de uma tia, em Vassouras, onde ela terminou o curso Normal e adquiriu uma inquietante ignorância, que conservou para sempre. As pernas de Andrea aos dezessete anos provocavam brigas nos bares de Vassouras. Um sujeito moreno arrebentou a cabeça de um outro com um taco de sinuca por causa das pernas de Andrea. Escondido da polícia, escreveu-lhe um bilhete – num português horrível que ela teve a delicadeza de desculpar – dizendo que brigara por causa. Ela amou durante muito tempo, sem nunca ter visto, aquele homem sanguinário, capaz de matar. Em sonhos, era vítima de violências dele. Guardou a carta. Voltou para a Tijuca no fim do curso. Falou-se da sua beleza naquele verão de 1951. Ficava alegremente emocionada sempre que alguém se apaixonava por ela. Achava natural gostarem de uma pessoa tão linda e era compreensiva com os rapazes. Os homens rondavam, os meninos masturbavam-se. Naquele verão de dezoito anos, Andrea apaixonoti-se por um rapaz que estava iniciando uma indústria de utensílios de plástico. Falavam em casar, quando o pai dela teve de “aceitar” transferência para outro estado. Andrea quis – romântica – fugir, mas o jovem industrial disse que não estava em condições. Dele guardou uma fotografia 3x4. 2. Começa aqui a fase de Andrea em Minas. As primas de Belo Horizonte apresentaram a moça à boa gente mineira; gente delicada, sentimental, vagarosa, prestativa, envolvente, mítica, organizada, mesquinha, maldosa. Andrea entrou num círculo de gente rica demais – e entrou desprevenida. As pessoas se conheciam o bastante para não confiarem, seus contatos eram cautelosos, jeitosos. Ela trazia o quê?: dois namorados quase esquecidos, egocentrismo, beleza, uma fotografia 3x4, alguns beijos, uma carta mal escrita, uma família em dificuldades. Era pouca coisa para opor a um grupo acostumado, e deixar-se fascinar foi seu primeiro erro. Não entendeu nunca – em Minas, entender logo já é muito tarde, o mais seguro é antecipar – que inverteu as posições pelo seu defeito básico de percepção: acreditou que era o centro das atenções, que a sociedade estava fascinada por ela, quando a verdade é que estava sendo explorada, estavam tirando dela o que não tinham mais: beleza e uma relativa inocência. Não o faziam como manobra, nada era deliberado. Uma das primeiras coisas que aprendeu na nova sociedade: a necessidade de colorir, de parecer. Aquele primeiro namorado e a transferência para Vassouras foram transformados por ela numa espécie de pecado original e expulsão do paraíso. O homem que andou fugido da polícia foi transformado num bandido com uma paixão irrefreável. O namorado industrial ela disse que se arruinou por causa dela. A vida social, uma loucura. Os provincianos ouviam, comentavam cúmplices aquela vida de aventuras e a engoliam um pouco mais. Seu retrato começou a sair nos jornais, as colunas sociais ocupavam-se dela (recortava e guardava as notas), era convidada pelos clubes, dançava muito, inquietava o domingo nas piscinas. Saía com rapazes, mas estava perdida demais em seu próprio fascínio para ter tempo ou paciência de apaixonar-se: bastava-se, amorosa. Um dos rapazes obteve uma espécie de vitória qliando conseguiu enfiar a mão sob suas saias e mantê-la ali alguns minutos. Depois contou para qliem quis ouvir e não a procurou mais. Envolveram-na, atenciosos, numa trama de simpatia: ele não presta mesmo, todo mundo sabe disso, um aproveitador; conta para todo mundo as coisas que faz com as namoradas; obrigando-a a passar à defesa: de mim ele não tem nada para contar, eu já estava cansada da falta de classe dele, para mim foi até bom ele inventar essa cafajestada; levando essa defesa aos ouvidos dele e recebendo na volta: cansado dela estava eu, nunca vi pequena mais burra, cabaço é, mas gosta duma sacanagem, não comi porque não quis; contando isso ela e as outras pessoas, e recontando as repercussões.Em poucos meses a tinham envolvida, cúmplice. (Para quê? Para nada: para se sentirem irmanados, fortes, capazes de impor uma regra ao jogo; para conversarem, passarem o tempo, exercitarem-se, estarem em dia, informarem e serem informados, participarem, absorverem uma coisa viva, entrarem num movimento, esquecerem sua própria falta de sentido, alimentarem-se (como uma ameba) do que está mais próximo, sobreviverem: para tudo.) 3. Começaram, então, em 1953, o processo de Andrea. Não era mais a fascinante moça carioca; era alguém de quem sabiam coisas comprometedoras. Os depoimentos eram prestados ao ouvido, para não se ofender a ré: delicadeza mineira. Contra a
acusação de desfrutável, passou a oferecer a todos um corpo intocável.
Jogo inquietante, para os dois lados. Tornou-se um pouco exasperada, nervosa.
Voltou a sonhar com o homem moreno, o bandido, que a violentava. Entrou
num estado de excitabilidade que não compreendia. Coisas a que antes não
dava importância – um homem de tanga no cinema, Tarzan, uma palavra dúbia
como gozar, uma perna vizinha num ônibus, eram dados pertubadores. Masturbou-se
muito nessa época. Nas suas manobras de defesa, criou outra ilusão: de eficiência. Começou a trabalhar num banco, como recepcionista, no tempo em que isso era até meio chique e as moças bonitas da sociedade não sabiam fazer outra coisa. Séria, conseguiu testemunhos: Andrea é muito eficiente. A acusação de burrice era a que a deixava em maior insegurança. Então comparecia a concertos, vernissages, estréias teatrais, informava-se nos jornais, lia os livros da moda (ah, que perturbação o grande orgasmo de Lady Chartterley), decorou versos do poeta da moda, frases inteiras do cronista da moda.Os resultados tornaram esse ponto pelo menos polêmico: Andrea é muito inteligente, não acho, pois eu acho. Quando já não era muito difícil manter as posições conquistadas, moça adulta de vinte e dois anos, orgulhosa de uma ilusória independência, assunto principal das crônicas sociais e mesmo de algumas literárias, vítima de dois ou três poemas, ela conheceu o amor mais longo, mais integral, mais franco e mais carnal de toda a sua vida. 4. É possível – aqui, não ouso afirmar – é possível que o começo de seu caso com o jovem pleibói estivesse ligado ao processo, sem que tivessem consciência disso: ela pretendendo conquistar a moça de que todos falavam, ela afirmando-se também na conquista do homem difícil, batendo outro recorde. Nada era deliberado. O amor resultou da resistência mútua, um certo desafio, ambos querendo manter a posição e a reputação. Precisavam daquela luta senão teriam acabado logo. Precisavam tanto que se procuravam a toda hora. Não tinham, muitas vezes, nada para dizer; havia apenas aquela oposição unindo-os. O período da resistência foi sendo vencido, eles se afastaram. Um mês depois, todo mundo dizia que se amavam. Procuraram-se devagar e submissos. Aceitavam-se agora amolecidos de amor. Tinham tempos. Ela, finalmente, amava como uma heroína. Dois anos de uma felicidade difusa chamada namoro. Quando ele começou a negligenciar, ficou desnorteada. Sentiu-se infeliz, de algum modo infeliz há muito tempo, desde mocinha. No esforço para mantê-lo, e julgando completar a imagem de moça independente que o atraíra, deixou-se possuir por ele em 1956. Não o ter feito de maneira lúcida, mas um pouco embriagada, no banco traseiro do automóvel, deixou-lhe uma sensação de frustração, engano e culpa. (No rádio do carro, Nat King Cole cantava “cachito, cachito, cachito mio, pedazo de cíelo que Diós me dió”.) Discutiam e ele desaparecia semanas, que ela atravessava miseravelmente. Na volta dele tentava – não sabia por que – evitar sexo, sem conseguir. Insegura, porque deixara de ser o centro; infeliz, porque não sendo o centro o sexo que fazia não a satisfazia. E havia também uma confusa sensação de pecado. Ele andava com outras, soube; quando sumia, andava com outras. Ela estava infeliz demais para ter cautela. Deixou-se envolver, aceitou a solidariedade, chorou nos ombros das amigas, divulgou sua infelicidade: afinal de contas, era seu grande amor. Ele voltava, ela ria; ele sumia, ela chorava – tudo muito simples. Nos salões, nas piscinas, nos cabeleireiros, nos bares, era oficialmente a bela moça que sofria de amor, uma personagem de sucesso. Nunca chegaram a terminar o caso, e durante muitos anos acontecia receber visitas dele, com as mesmas conversas, o mesmo sensualismo preguiçoso, às vezes um pouco saudoso do corpo dela. 5. De vez em quando Andrea considerava sua situação com algum desespero: vinte e cinco anos, mulher feita numa terra em que a donzelice é virtude necessária, procurando culposamente manter isso em segredo (se a família soubesse!), tratada com desinteresse por um homem que ainda amava.Tinha crises de choro, ajudada por um pilequezinho. Tomava comprimidos para dormir (lógico: todo mundo sabe que a infelicidade tira o sono das pessoas), excitantes, tranqüilizantes, alkaseltzers e outros produtos da química do drama.Cada bula ele remédio que lia reforçava sua certeza de que era realmente infeliz. Não seria errado datar dessa época – sem nenhuma rigidez, claro – sua tendência para a confidência, o álcool e o prazer de presentear. Contava pequenos problemas pessoais, inventava dramas pelo prazer de ter alguém ouvindo. (Soube-se, então, que teria havido um caso de desfalque na sua família, o pai, parece.) Dava muitos presentes – gostava –, escrevia nos embrulhinhos dedicatórias começando com “ao meu amigo”, “à minha amiga”.Geralmente eram lembrancinhas, chaveiros, canetas, anéis, brincos, lenços, isqueiros, pentes – pequenos subornos inconscientes. Naquele período em que se acomodava à sua infelicidade, ainda a estranhando um pouco, recorria aos presentinhos temendo que a abandonassem. Mantinha a ilusão de centro acreditando que sua infelicidade comovia a todos. Na tentativa de escapar, saiu do emprego, descansou, evitou bebidas, reuniões, comprimidos, começou sua psicoterapia (estava entrando na moda). Por cinco meses não se ouviu falar muito dela.Viajou, parece que para Vassouras.Voltou melhor, morena, bonita, com o crédito de alguns beijos e o débito de alguns presentes. Tratou o pleibói friamente. De algum modo, desfizera-se o encanto. Disse que gostaria de trabalhar e esperou uma oferta. O antigo desejo que sentiam por ela ainda funcionava: ofereceram-lhe vários. Aceitou jornalismo. A posição de cronista social deu-lhe ascendência sobre o círculo que a julgava. Inocente, não se aproveitou disso: adulou-o. Não por bondade, mas para ouvir: Andrea é muito boazinha. Pela mágica de pensamento de que sempre será capaz, escamoteou-se o fato de que a convidavam para reuniões cada vez mais fechadas por ser cronista social. Naqueles seis anos ela fora para eles uma dessas pequenas cortesãs com quem seus filhos brincavam antes de procurar alguém para casar. Agora convidavam-na, precisavam dela, e ela não percebia que estava sendo usada pelos pais depois de usada pelos filhos.Voltaram sua confiança e alegria. Entre os jornalistas era também centro e agradável novidade. Outro erro: deixou-se novamente fascinar. 6. A atração que exercia sobre o grupo de jornalistas tinha alguma coisa de distância, glamour e sex-appeal das estrelas de cinema; a que sentia por eles vinha das coisas estranhas que sabiam. Parecia-lhe incrível que alguém pudesse saber ao mesmo tempo o que se passava no incompreensível reino dos Laos, nos bastidores da prefeitura municipal, nomes e posições de tantos deputados, informações confidenciais sobre o presidente JK, além de futilidades artísticas e sociais.Tudo isso misturado com ironia, gargalhadas, chope, má educação, maldade. Nessa época, 58, começou a inventar, dar-se títulos, enumerar seus feitos, reivindicar amizades com pessoas famosas (“Fulano?, é muito meu amigo”), posar, representar, atribuir-se uma importância na sociedade. Foi muitas vezes indiscreta sobre: quem é amante de quem, quem faz o quê com quem, quem gosta como onde e quando, de onde veio o dinheiro de quem, o que se fala etc. Fulano?, é muito meu amigo. Diziam no jornal que ela era muito burra e não sabia escrever. Andrea suspeitava do que falavam. O sintoma era quase físico: sentia-se desnorteada ao entrar na redação. Buscou apoio contra a insegurança apaixonando-se pelo chefe de reportagem, que a chamava “a Vestal”. Paixão de outra maneira inexplicável por um homem casado e feio que zombava dela. Deitou-se com seu segundo homem querendo provar-lhe que não era aquilo que ele estava pensando (o que será vestal?) e, mais uma vez, não encontrou no sexo aquela satisfação das grandes amorosas da literatura. Procurando experimentar o orgasmo avassalador de Constance Chatterley, entregou-se em lugares estranhos, como a torre do edifício Acaiaca, um lote vago (barulhos de passos ali perto!); a carroceria de um caminhão na madrugada. A paixão se foi aos poucos, na mesa de chope. Aos vinte e sete anos, cansada de rosto, bebendo, tomando comprimidos, chegou ao fim da sua década de juventude e formação, os anos 50, que deixaram nela para sempre a sua marca. 7. Afastou-se também da turma do jornal, chocada com uma espécie de torneio em que se pressentiu prêmio, um agora vamos ver quem pega primeiro. Dedicou-se um pouco mais à coluna, conseguiu publicar algumas notícias em primeira mão e esqueceu com os elogios a sua nova infelicidade. Promoveu artistas, foi júri de glamour-girl, de miss, organizou festas. Atarefada, não pensava em homens. Saía com amigos, dançava, trabalhava, e nada de intimidades. Não lhe custava muito porque não tivera ainda um orgasmo de ganir; tinha achado delicioso ter um homem dentro, mas não conseguia ir adiante. Durante mais de dois anos, antes de resolver ir embora de Minas, tentou seu grande orgasmo só uma vez, com um desconhecido que encontrou numa boate. Fracassou. Trabalhando, foi envolvida pelos intelectuais jovens, envolveu-os. Achou agradável a ronda discreta que lhe faziam, tímidos, respeitosos. Gostava um pouco mais de um jovem escritor que colaborava no suplemento do jornal. Contava-lhe tudo, talvez com esperanças de personagem. Compreendia pouca coisa do que eles discutiam. Palavras desconhecidas, inquietantes, atravessavam a mesa do bar, ricocheteavam nas garrafas e em Andrea: infra-estrutura, pop-art, fenomenologia, estruturas bilaterais do verso decassílabo, ontológico, estruturalista, transcendência, imanência. Falavam no fim do parlamentarismo, nas reformas de base, nos centros populares de cultura, teatro popular, poesia popular – e ela tentava aprender por que o isso-que-está-aí não podia continuar. Uns dois da Polop (que seria isso?) passavam palavras de ordem no meio da conversa de botequim. Sentia-se perturbada e feliz no meio da revolução. Alguém afirmava uma coisa, o escritor protestava, dizia que era ridículo, ela não sabia exatamente o que era ridículo, concordava. Aprendia também frases como: a mulher não pode ficar marginalizada. Em 62, era uma das duas frases preferidas. Estava sempre precisando do socorro dele, na sutileza. Se viam um peça, por exemplo: ele ia dizendo o que achava bom ou ruim e quando terminava o espetáculo ela já tinha uma opinião, estava salva, segura, podia conversar tranqüila à saída do teatro. Um jogo sutil não revelado; sabiam-se ajudador e ajudada sem o menor sinal exterior de que o sabiam. O Jovem Escritor é um dos mitos efêmeros da cidade. O principal: ele é a Esperança. Os ex-jovens-escritores municipais que não conseguiram ser federais têm inveja e Fé. Ali pode estar o novo Carlos Drummond, o novo Guimarães Rosa, e eles não querem, mais tarde, estar entre os fariseus, entre os que não acreditaram. Depois de uns três anos de Fé, a cidade começa a cobrar milagres, transformações de água em vinho, seqüência natural daquele primeiro livro, a Anunciação. Um dois três anos de esquivas, insinuações de Iluminação nos suplementos – mas nenhum milagre. Começa o declínio da Fé, os velhos escritores e os de meia-idade já o tratam com mais intimidade, daí a pouco vão abraçá-lo como a um irmão da Congregação. O jovem escritor de plantão naquele ano de 1963 fugiu da cidade antes do abraço. (Acabava de desfazer-se, dispersa, mais uma geração literária mineira.) Andrea mudou-se para o Rio dois meses depois que ele saiu. Durante quase seis anos, soube-se muito pouco sobre ela. Boatos. 8. Voltou. Ah, como a cidade recebe de maneira aduladora e irresistível os que voltam. Pequenas que tenham sido as aventuras de Andrea no mundo, seria ali, só ali, entre os prisioneiros da montanha, que teriam o dom de fascinar; lá, os moinhos de vento seriam gigantes. Andrea e a cidade eram adequadas uma à outra. Não se soube de muita coisa, mas... havia a história de um conde meio bicha apaixonado por ela... um homem desmemoriado quis casar com ela... Vinícius fez um samba para ela... a revista Playboy ofereceu dois mil dólares... se Jango não tivesse caído ela estaria em Roma... despedia-se de um rapaz na porta de casa quando três pretos enormes... meio sócia de uma butique em Copacabana... dizem que voltou porque teve uma experiência homossexual com uma das dez mais elegantes do Rio e o marido flagrou as duas... Galopando com ela em suas aventuras, os da montanha a reconquistaram. Encantaram-se – forma mineira muito branda de domínio. A fascinante aventureira, então considerada musa da geração literária anterior a 64, aproximou-se dos novos intelectuais. Recuperou, naquele ano da volta, 69, seu emprego no jornal. Descansada, mulher de estilo carioca na cor, na fala e no vestir, pouco usada sexualmente, Andrea era uma mocinha de trinta e sete anos. Dizia que tinha trinta. Passou a ser vista com o novo pintor jovem da cidade, premiado na Bienal de São Paulo, figurinista e cenarista do grupo de teatro, herdeiro rico de uma grande firma de importação e exportação.Ele também estava perdido em seu próprio jogo de aparências. atarefado com comportamentos que devia esconder ou convinha divulgar, em gestos estudados: sensualmente, transmitir insegurança e esperança aos dois sexos; socialmente, apenas à mulher.Alguns homens usam a mulher como um patuá contra o mau-olhado. Homossexual? – ela não acreditaria. 9. Andrea o deixava alerta.Não queria perder nada daquilo que chamava representação magistral de uma canastrona. Esperava um colapso, o clímax do drama, o momento insuportável em que ela interromperia a representação. Julgavam alguns que ela representava para uma platéia, mas é parcial verdade, e o jovem pintor penetrou mais fundo. Ela se sabia medíocre e criara para sua própria admiração uma mulher variavelmente fabulosa, linda, louca, heroína, inteligente, amada, infeliz, livre, pura, dramática, inalcançável, fascinante, sensual, desejada, competente, devassa, viciada, boa, jovem. Naquele prolongado delírio egocêntrico ela era incapaz de saber onde começava ou acabaria a interpretação. Depois de cinco meses de descobertas e masturbações e frustrações mútuas, acreditaram-se casáveis. Foi idéia dele, que ela aceitou surpresa, noiva, mocinha casadoura dos anos 50. Descuidada, confiante, sentia-se protegida porque ele era muito parecido com ela (como sempre, escamoteava-se o fato de que aquilo era defesa), acreditava que o amava por causa disso – “encontrei minha alma gêmea” – e bem escondida no seu íntimo estava a segurança, porque ele não poderia feri-la sem ferir-se. Perdida no seu amor pela mulher que inventou, acreditou que o premiava, entregando-a a ele. Não a supôs (se supôs) oferta recusável. Pior: não saiu de dentro de si mesma para conhecê-lo e não sabia da crueldade, do assassino de mulheres que morava dentro dele. Deveriam poupar-lhe a verdade se não quisessem vê-la realmente sofrer. Quem abrisse sua armadura e não tivesse compaixão poderia feri-la de morte. Seu jovem pintor, bonito, inseguro, falso, quis um dia destruir nela o que tinha de beleza, insegurança, falsidade – e atacou-a com aquele prazer de destruição e esgotamento de que é feita a força dos artistas. Numa festa cheia de gente conhecida (inclusive seu antigo jornalista) (lembra-se dela como um dos episódios mais tristes de sua vida) (lá conheceu também aquele escritor comunista) (aniversário de seu noivo, amigo dos jovens intelectuais) (no dia da invasão da cidade por um bando de nordestinos) (depois dessa festa, Andrea não pôde mais fingir que era outra e não conseguiu ser uma só) foi massacrada por ele numa cena dolorosa e autodestrutiva de jogo da verdade.Colocado inicialmente como uma brincadeira de nostalgia dos anos 60, o jogo se transformou na faca de ponta que martirizou Andrea. O noivo e a platéia se possuíram na volúpia de destruí-la. Através dele, ficaram sabendo das coisas que ela guardava até de si mesma: – Um casal perfeito: ela é fria e eu sou impotente. – Claro que não.A gente se masturba. – Ela tem medo da penetração. Eu também. – O maior desejo dela é gozar. Chegou a trepar em lote vago para ver se gozava. – Herança? Só se herdar dívidas. – Sabe não. Quem escreve a coluna dela é o Jota Jota. Quer dizer: reescreve tudo, de tanto erro que tem. – Trinta porra nenhuma. Trinta e sete, já vi na carteira. – Trepou sim. Não sei o nome dela, mas Andrea me disse que já experimentou. – Muita bolinha. – Prefiro homem. Andrea tomou um grande porre, oferecendo-se a todos os homens em contatos crispados (chegava a marcá-los com as unhas!), estabelecendo em sua volta um clima de desejos incontrolados (campeões se ofereciam para quebrar seu gelo; alguém chegou a levar a mão dela até lá, para que ela visse!), uma lésbica beijou-a louca no banheiro (na boca!), e esse delírio salvou-a: era o centro triunfante do desejo de todos. 10. Nos longos dias de solidão e pileques daquele abril de 1970, ela relia, às vezes chorando, as velhas cartas, os recortes, revia retratos, desde aquele singelo 3x4, os presentes, crônicas, poemas. Um velho general considerando suas medalhas: testemunho de que tudo foi verdade. A sociedade reabriu seu processo, agora com provas; testemunhas segredavam depoimentos, intimidades eram reveladas. Dizia-se que um diário obsceno de um jornalista subversivo era vendido às escondidas em cópias mimeografadas e que nele havia detalhes incríveis sobre suas relações com Andrea; arrolavam tudo o que o pintor disse na festa, com acréscimos que variavam de acordo com o narrador – um modo de parecer mais informado, como se houvesse uma disputa e alguns roubassem no jogo. Agora, diante de tantas evidências, os filhos e filhas da aparência não poderiam mais sair com Andrea, os leitores não poderiam ficar ao alcance dos seus pecados. Condenada e incapaz de recompor-se, Andrea saiu da cidade, sem olhar para trás. Os prisioneiros de montanha respiraram aliviados. E nos anos que se seguiram foram vagarosamente tomados por uma inconfessável saudade.
ESTANTE
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