Amor - novela.
        • Companhia das letras, 1996.
        • Prêmio Jabuti.

 

AMOR?



Dezembro, 22



Aeroporto. Estranha despedida, nada a ver com tanto amor. Lábios que não se demoram, a mão dela preocupada com o passaporte, a falta de uma palavra amorosa, substituída por palavras casuais como “não deixe de ver minha mãe, ela gosta de você”, a visível urgência de passar pelo controle de passaportes e começar logo a sentir saudades ou outra coisa qualquer. Qualquer coisa que não aquilo no aeroporto, um momento suspenso naquele ponto máximo a que chega o pêndulo de um relógio exatamente antes de voltar, e que aí ficasse parado à espera de que fizéssemos alguma coisa, nos apressando. Se o embarque demorasse mais seria necessário perguntar: esse nosso caso continua ou acaba aqui? E isso não deveríamos fazer, porque seria permitir-nos considerar que houve um fracasso, antes de sabermos se poderia ser outra coisa, como o atropelo de um outro amor, por exemplo, que poderia acontecer a qualquer de nós durante os próximos seis ou três meses de viagem de Vi. A última palavra dela foi “te cuida” e não “te amo” e a minha foi “juízo” e não “te amo”, e assim ficou combinado que não nos amávamos mais e não mais nos machucaríamos. Saí aliviado do aeroporto, pensando: ela nunca mais sofrerá por mim.


Dezembro, 23

Organiza-se o Natal: pacotes, viagens. O peru suspeita que se trama algo, e cala-se. Papai Noel prepara seu saco, eu o meu.

Olho o relógio, nove horas, e me bate: ela acaba de desembarcar em Hamburgo. Está gelado lá? Venta? Qual foi a primeira impressão? Foram esperá-la? Está insegura? Com medo? Confiante? Pensa em mim?

(Sossega, cara, esquece. Acabou.)

Consolo: um presente a menos para batalhar nas lojas.


Dezmbro, 24

Por que escrever um diário? Sempre quis, mas parado, à espera de uma data para começar, uma morte, uma doença, um Primeiro de Janeiro. Resolvi começar pelo banho-maria de um amor, nem paz nem guerra, provocado pela viagem de Vida para Hamburgo, que muda meu dia-a-dia e me deixa sem culpas nem desculpas para decidir se me separo ou não de Isabel.

Não quero que alguém pense “trocou os filhos pela amante”; que Vi mesma, ou Isabel, ou as crianças, pensem assim. Crianças? Ernesto, vinte anos, não está nem aí; Carolina, doze anos, sofreria se fosse uma troca; Fernando, sete, se sentiria roubado. Não é uma troca, só tem que ver comigo e com Isabel. Estando Vida fora por seis meses ou para sempre isso fica mais claro e me deixa livre para decidir.

Vi me ama, demais até, e pode esperar. Sem esperar, porque não pedi nada, nem amor, nem fidelidade, nem paciência. Até avisei (e aqui admito certo cálculo pragmático, porque sei que durante alguns meses ela estará hipnotizada por esse amor que a paralisa há quatro anos), até avisei: cada um vive seu desejo. Disse isso para que ela não se sentisse presa nem cobrasse depois um compromisso. Não é fuga; aceito ser seu espelho enquanto ela precisar de amor.

Onde estará, nesse Natal alemão? Feliz Natal, Vidinha.

Na falta de seio, vamos à ceia.

O peru assado me lembra Isabel.


Dezembro, 25

Se eu fosse Jesus não nascia, para não dar a chance desta festinha de aniversário.

Comemos as sobras, no almoço.

Depois Isabel se oferece, peru assado. Oferta recusada.


Dezembro, 26

Saio à noitinha com os dois menores, para um sorvete. Na sorveteria, uma negra belíssima de jeans e de top solto que descobre barriga, ombro e meio seio me olha, como se quisesse. Tem um filho também. Gingle balls. Me sorve te sorvo. Sorvemos sorvete, línguas obscenas. Ah, Vida!


Dezembro, 27

Casar não tinha essa importância. Era tanto faz. Como que ficou essa coisa tão prisão? Com o tempo, eu, nós fui, fomos pegos pelo não faça isso, você não é mais uma criança, cautelas, travas, essas coisas que os atados passam para frente como sabedoria e amadurecimento. Também Isabel não tinha essa cara de fracasso, essa dependência, esse amor servil. Era orgulhosa, misteriosa, fechada como uma pedra. E eu não tinha essa crueldade, esse foda-se. Os silêncios dela me perturbavam – que foi que eu fiz?; hoje me descansam, me dispensam de me envolver. Eu sorria; hoje me tranco para ela não achar que sou feliz. O que temos em comum? Passado, Filhos e conta no banco.

Mesmo quando estava com Vida a sombra irritante de Isabel vinha me lembrar que já era hora. Isabel é meu Grilo Falante.

Alguma coisa na história de Pinóquio me irritava, quando criança. Agora já sei: era o grilo.

Foi Vinicius de Moraes quem lançou a teoria do poeta sórdido? Não me lembro. Um dia desses vou lançar a do herói canalha, ou do imperfeito canalha, ou do herói imperfeito. Venho elaborando isso há algumas semanas, burilando, e a coisa vai ficando divertida. O que eu queria mesmo era ser escritor, não publicitário. Ou cineasta. Mas – fazer o quê? – preciso ganhar a vida.


Dezembro, 28

Está me sobrando o que antes me faltava: tempo. Tempo é um fator importante na vida do imperfeito canalha.

Sem Vida aqui, o que botar no lugar das manhãs em que eu chegava ao apartamento que havíamos alugado e descobria seus seios lindos quentinhos das cobertas e neles encostava meu rosto; da hora do almoço e de nos almoçarmos; das tardinhas tão pele com pele?

Amanhã faz uma semana que ela foi para Hamburgo. Acho que vou dar um alô.


Dezembro, 29

Alguma coisa na voz de Vi ao telefone me fez perguntar-lhe mais de uma vez se estava tudo bem. “Tudo.” O pessoal do estúdio era ótimo, contou, tinha recebido o grupo brasileiro muito bem, super gente fina.

(Uma grande cadela de lojas de departamentos alemã queria revolucionar seu lançamento anual de moda de primavera com um tema brasileiro, cores brasileiras, música brasileira, manequins brasileiros. Quatro manecas e um maneco, escolhidos em seleções de novos talentos, iam dar a ginga necessária ao desfile. Vi era uma delas. Se houvesse sucesso, haveria outro contrato para a moda de verão.)

Não a senti maravilhada com as coisas, com a paisagem, a neve, as cores, o lago gelado, patins, novidades. Não me passou nenhuma emoção da sua primeira viagem internacional. Com que estará ocupada sua cabeça? O grupo, disse, tinha ido a uma boate muito bonita. Quis saber se eu sentia falta dela, se pensava nela, talvez observando-se, comparando examinando suas próprias emoções. E o Natal, Vi? Uma alfinetada no tom de voz dela: muito bom, não passei sozinha como passava aí, tivemos jantar e pessoas, alegria. Nunca mais, ela disse convicta, como um juramento, nunca mais ia passar o Natal sozinha. A não ser nesse momento, parecia desatenta, observando-se, ocupada consigo. Impressão? O primeiro desfile seria na passagem do ano, confessou que estava insegura.

Falo com ela no domingo, dia 1, para dar uma força.


Dezembro, 30

Nada a declarar. Não penso em mulheres. Por quê?

Boa oportunidade para dar o tratamento final na teoria do herói canalha.

Há três tipos de homens que traem a mulher: o perfeito canalha, o pobre-diabo e o canalha imperfeito, ou herói canalha.

Em época mais romântica, o perfeito canalha era don Juan Tenorio, de esgrima exata e palavra maviosa. Hoje é um Palhares qualquer, aquele personagem do Nelson Rodrigues que não perdoa nem as cunhadas, sem nenhum romantismo. O perfeito canalha, na verdade, não quer amor e nem gosta realmente dás mulheres. Gosta é de si mesmo. Na relação amorosa ele faz dois papéis, duplamente sexuado: o seu próprio papel e o da mulher. Em complicado jogo de espelhos ele se vê possuído por aquele amante habilíssimo e inesquecível, que é ele mesmo. O canalha, quando perfeito, não sai de si, não dá nada, faz amor pelo amor do amor-próprio e não pelo amor do amor. Marca encontros escondidos consigo mesmo. Precisa sempre de uma nova conquista, para confirmar que continua irresistível na cantada e imbatível na cama. Não se separa da mulher para não perder conforto e bens materiais. E, secundariamente, pelo prazer de continuar traindo-a. É um safado.

O pobre-diabo é o traidor que dramatiza, que encena para o grande público a sua descida aos infernos. Bebe, faz confidências apoiando um braço pesadíssimo nos ombros de quem ouve, deixa a barba por fazer, chora no prato de carne, falta ao trabalho na segunda-feira, um mais grosseiro chega a bater na mulher ou na outra, para descarregar energias, acha que a vida não presta. O pobre-diabo é socialmente desagradável. Passa anos ameaçando a mulher com a separação, aos berros, decisão que só toma num rompante insensato. É comum o pobre-diabo ser abandonado pela mulher. No amor, deixa-se levar. Gosta de ser paparicado, cuidado, acariciado – nostálgico de mãe e de seio. Por incrível que pareça, algumas mulheres gostam desse bebê grande.

O canalha imperfeito, herói canalha, é talvez o mais comum dos traidores, embora o que apareça menos. Sua essência é o segredo, que é também a sua danação. Porque não pode explicar que se sacrifica, e por que se sacrifica. Descoberto, é colocado pelos indignados no rol dos canalhas, lago ele, que se considera um herói, imperfeito mas herói. É das poucas coisas que não suporta, ele que, por ser clandestino, é obrigado a aceitar tanta coisa, dos dois lados da sua vida.

Matar-se, nunca. É espetáculo, gesto que pertence à categoria dos pobres-diabos. O herói imperfeito não admite misturar-se com essa gente. Se tivesse de escolher, tenderia para os perfeitos canalhas. Esse é, bem lá no fundo do inconfessável, seu tipo ideal, o que ele sonha ser quando está abatido e deprê com sua condição de canalha imperfeito.

É consciente de que seu papel é conservador, embora os conservadores o condenem, quando descoberto. E só o condenam quando é desmascarado, porque secretamente fazem a mesma coisa. Conservador por quê? Porque é um dos responsáveis pela manutenção do sistema familiar tradicional. Ao trair sua mulher em segredo, elimina a hipótese de desenlace, de separação. Ele sabe, por conversas, rumores, confidências, sabe que não há um entre seus amigos – nem um – que não pule fora algumas vezes, ou sempre. Daí a ter um pequeno ou um grande caso é um passo. O imperfeito canalha é professor, artista, médico, jornalista, publicitário, comerciante, economista, engenheiro, deputado, industrial, arquiteto, programador, projetista, advogado, diplomata, motorista de táxi, corretor, empresário, gerente e executivo em todas as áreas de atividades – legião.

Se o observarmos pela sua face de herói, não pela de canalha, veremos que ele sacrifica o bem pessoal pelo coletivo. É um herói de pequenos gestos, de renúncias cotidianas. Renuncia à felicidade amorosa, ao espaço próprio, à organização pessoal de vida, a um renascimento, a novos ideais, à honestidade, em nome do grupo familiar, do qual se acha, talvez pretensiosamente, o ponto de equilíbrio. Temendo o caos, a desordem, a infelicidade – cala-se. Renuncia ao grande gesto e vive a miudeza, por isso é herói imperfeito, ou imperfeito canalha.

O herói canalha opera milagres. Nisso ele se parece um pouco com personagens de comédias do cinema italiano. Faz com desenvoltura os milagres da transformação dos cheiros, da escamoteação dos indícios, da criação das oportunidades, da credibilidade do incrível... Ao fim de cada escapulida o amante inflamado grita shazam! e se transforma no herói da família, com seu terno, gravata e pastinha na mão, voando para casa a oitenta por hora porque já está atrasado. O mais incrível dos milagres é o da multiplicação do tempo. Só assim consegue cumprir quase todas as obrigações, em casa e fora de casa, e ainda dormir cinco horas. O canalha imperfeito tem olheiras.

Vive o inferno da contradição. Se acha honesto, mas naquele ponto, mente. Pratica no seu entender a grandeza da renúncia, e vive a miudeza. Liberta-se num momento, sufoca-se em outro. É um herói na corda bamba, ameaçado de virar crápula a qualquer instante. Feliz e logo infeliz. Traindo, trai a si mesmo. Generoso pelo que sacrifica por um lado, mesquinho pe pouco que pode dar a outros. Ama os filhos e está sempre ameaçando de perder boa parte da vida deles, com a separação. E, contradição final: esse inferno nasce no seu único prazer pessoal.

É um romântico. Trai por amor. Quando, em casa, a relação amorosa desaparece, o que o impulsiona para a vida é o amor clandestino. Reensaia o amor, na parte invisível dos seus dias. Nos abraços, reaprende. Supõe, romântico, que está vivendo um grande amor impossível e nisso quase derrapa para o papel de pobre-diabo. O temor de que isso aconteça é que o segura, salva. Vive, portanto, um amor comum fantasiado de grande, ou então um amor sufocado para não crescer, como pé de princesa chinesa. Se fosse mesmo o grande amor da sua vida ele não o viveria assim, espremido entre espaços e horas roubadas. Às vezes, só percebe sua verdadeira dimensão quando o perde. É comum o herói imperfeito não suspeitar da parte escondida do amor, não ver o tigre dentro do gato. O amor enjaulado espera uma oportunidade para, saltar sobre ele e estraçalhá-lo.