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Pode me beijar se quiser - romance
Editora
Ática, 1997
Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte
- Categoria Juvenil
PODE ME BEIJAR SE QUISER
1- Negócio
de menino com menina
O menino,
de uns dez, onze anos, pés no chão, vinha andando pela estrada
de terra da fazenda com a gaiola na mão. Sol forte de uma hora
da tarde. A menina, de uns nove, dez anos, ia de carro com o pai, novo
dono da fazenda. Gente de São Paulo. Ela viu o passarinho na gaiola
e pediu ao pai:
- Olha que lindo! Compra pra mim?
O homem parou o carro e chamou:
- Ô menino.
O menino voltou, chegou perto, carinha boa. Parou do lado da janela da
menina. O homem:
-Esse passarinho é pra vender?
-Não senhor.
O pai olhou para a filha com uma cara de deixa pra lá. A filha
pediu suave, como se o pai tudo pudesse:
-Fala pra ele vender.
O pai, mais pata atendê-la, apenas intermediário:
- Quanto você quer pelo passarinho?
-Não tou vendendo não senhor.
A menina ficou decepcionada e segredou:
-Ah, pai, compra.
Ele não considerava, ou não aprendera ainda que negócio
só se faz quando existe um vendedor e um comprador. No caso, faltava
o vendedor. Mas o pai era um homem de negócios, águia da
Bolsa de valores, acostumado a encorajar os mais hesitantes ou a virar
a cabeça dos mais recalcitrantes:
- Dou dez.
- Não senhor.
- Vinte.
- Vendo não.
O homem meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro, mostrou três
notas, irritado.
- Trinta!
- Não tou vendendo não senhor.
O homem resmungou "que menino chato" e falou para a filha:
- Ele não quer vender. Paciência.
A filha, baixinho, indiferente às impossibilidades da transação:
- Mas eu queria. Olha que bonitinho.
O homem olhou a menina, a gaiola, a roupa encardida do menino, com um
rasgo na manga, o rosto vermelho de sol.
-Deixa comigo.
Levantou-se, deu a volta, foi até lá. A menina procurava
intimidade com o passarinho, dedinho nas gavetas da gaiola. O homem, maneiro,
estudando o adversário:
-Qual o nome desse passarinho?
-Ainda não botei nome nele não. Peguei ele agora.
O homem, quase impaciente:
-Não perguntei se ele é batizado não, menino. É
pintassilgo, é sabié, é o que?
- Aaaah. É bico-de-lacre.
A menina, pela primeira vez, falou com o menino:
-Ele vai crescer?
O menino parou os olhos pretos nos olhos azuis.
-Cresce nada. Ele é assim mesmo pequenininho.
O homem:
-E canta?
-Canta nada. Só faz chiar assim.
-Passarinho besta, hein?
-É. Não presta pra nada, é só bonito.
-Você pegou ele dentro da fazenda?
-É. Aí no mato.
-Essa fazenda é minha. Tudo que tem nela é meu.
O menino segurou com mais força a alça da gaiola, ajudou
com a outra mão nas grades. O homem achou que estava na hora e
falou já botando a mão na gaiola, dinheiro na outra mão:
-Dou quarenta, pronto. Toma aqui.
-Não senhor. Muito obrigado.
O homem, meio mandão:
-Vende isso logo, menino. Não ta vendo que é pra menina?
-Não, não tou vendendo não.
- Cinqüenta! Toma aqui! - e puxou a gaiola.
Com cinqüenta se comprava um saco de feijão, ou dois pares
de sapatos, ou uma bicicleta velha.
O menino resistiu, segurando a gaiola, voz trêmula:
-Quero não senhor. Tou vendendo não.
-Não vende por quê, hein? Por quê?
O menino acuado, tentando explicar:
-É que eu demorei a manhã todinha pra pegar ele e tou com
fome e com sede, e queria ter ele mais um pouquinho. Mostrar pra mamãe.
O homem voltou para o carro, nervoso. Bateu a porta, culpando a filha
pelo aborrecimento.
-Viu no que dá mexer com essa gente? É tudo ignorante, filha.
Vam'bora.
O menino chegou pertinho da menina e falou baixinho, para só ela
ouvir:
- Amanhã eu dou ele pra você.
Ela sorriu e compreendeu.
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