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Ivan Angelo
Um dia você
cisma de arrumar aquele armário. Papéis, pastas, recibos,
recortes, projetos, entrevistas, resenhas, cartas. Vai tentando pôr
ordem na bagunça, colocando no lugar certo umas coisas, jogando
outras fora, e aí esbarra com uma agenda velha. Por que teria
sido guardada? Você abre ao acaso e lê:
O viajante alemão Von Martius conta que ouviu numa fazenda perdida
de Minas Gerais, em 1818, as filhas do fazendeiro cantarem acompanhando-se
ao piano uma música de Tomás Antônio Gonzaga, "No
Regaço". Pelo que fala Martius, Gonzaga era compositor conhecido
e apreciado. E note-se que já estava morto havia uns 10 anos
e havia mais de 20 fora degredado de Vila Rica para Moçambique.
Por que algum pesquisador universitário não procura as
músicas dele?
Abre noutra página e lê:
Stendhal - "Mesmo as mulheres mais bonitas parecem menos bonitas
no segundo dia". Que ele me perdoe a paráfrase: as mulheres
feias também parecem menos feias no segundo dia.
Você procura a data do seu aniversário e encontra:
"O melhor destino é não nascer, e o segundo, depois
desse, é morrer ao nascer". (Louis de Leon, teólogo
francês, 1528.) O astral católico andava baixíssimo
naqueles anos da Reforma. Luterana.
E logo abaixo:
O profeta Ezequiel viu uma roda cheia de luzes girando no ar, formada
por quatro rodas que giravam umas dentro das outras, deslocando-se nas
quatro direções, com seres luminosos dentro. Parecia um
disco voador cheio de ETs. Também quem mandou acatar a ordem
do Senhor e comer pão com cocô de vaca durante um ano inteiro?
Você vira páginas e encontra uma quase cheia de anotações,
escritas com tintas diferentes, separadas por um traço:
Idéias para histórias infantis. Pianista infantil de sucesso
viaja por vários países carregando uma grande frustração.
O que ele queria mesmo era ficar em casa jogando Mortal Kombat e espreitando
a governanta no banho. Dilúvio moderno, também simbólico,
mas cheio de aventuras: meninos isolados num prédio de apartamentos,
pais isolados no prédio do escritório, faltam gêneros,
luz, andares de baixo inundados, defesa contra piratas vindos de prédios
vizinhos, organização da comunidade, comunicações
interrompidas, é preciso reinventar muita coisa. Ladrão
de sonhos: um jovem vidrado em eletrônica inventa um aparelho
de captar sonhos, parecido com uma televisão, em que qualquer
um pode ver os sonhos do outro.
Você pensa que a anotação é velha, porque
esta história você já escreveu, olha outra vez a
data da agenda, 1991, e abre noutra página:
- Aonde é que o senhor quer chegar?
- Já estou de volta, minha senhora. Eu sou mineiro.
Abre no mês de dezembro e lê, no dia 10:
Placa DG-8865. Carro que bateu na traseira do meu. Mulher nervosa gritando:
"Por que o senhor parou?" - tentando me convencer de que sinal
amarelo é pra passar. Eta país...
Passa algumas páginas, anotações inúteis,
e pára no dia 19:
"Acabou em pizza". Era gíria de paulista. Nos anos
60, quando ouvi isso pela primeira vez, deliciado, me explicaram: é
briga de corintiano e palmeirense, não dá em nada, acaba
em pizza. Gaúcho também tem seu jeito de dizer a mesma
coisa: "Em briga de gaúcho, quem morre é o boi".
Acaba em churrasco.
Você lê na última página, sob o título
"Epígrafe", uma frase de Bernard Shaw, tirada do prefácio
de "Matusalém", e já não sabe para que
a anotou, talvez por ser intrigante, nem sabe para epígrafe de
qual conto, ou romance, ou artigo iria ela, e a acha de novo intrigante:
"A Natureza não privilegia o homem. Se o homem não
der certo, a Natureza tentará outra experiência."
Você olha aquela agenda quase sem serventia, como certas chaves
que não usamos nem tiramos do chaveiro, esquecidos de que portas
abriam, mas esperançosos de que abram alguma, algum dia, e a
coloca de novo no armário.
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