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Três dias perfeitos
   
 

Ivan Angelo

Do sábado à segunda-feira,
a mesma sensação de domingo

Por artifícios do calendário, combinados com o fascínio paulistano pelas estradas, tivemos na capital três domingos enfileirados, 72 horas domingueiras, de 7 a 9 de julho. E não foram dias comuns, mas gloriosamente brilhantes, com a vantagem suplementar de não estarmos no verão e sim no inverno, quando o sol aparece para ajudar e não para ferir, encorajando o prazer, agora em declínio, de simplesmente passear, circular, andar por aí, que nos reconcilia temporariamente com nossa essência bípede. (Só os bípedes dão a impressão de estar passeando de verdade; os quadrúpedes movimentam muitos pés, parecem atarefados.) Para coroar nosso privilégio, foram domingos tipo férias, em que tudo, absolutamente tudo, combina para dar um tempo.

No sábado, enquanto o país acordava para o costumeiro dia das compras, do supermercado, dos salões de beleza e das baladas, São Paulo iniciava seu longo domingo. Primeiro sintoma: o silêncio. Suspenso o ronco habitual dos motores, caminhões nada entregam, ônibus escasseiam, automóveis dormitam. A cidade-locomotiva ensaia vagão-leito. A inusitada calma, mesmo para um sábado, nasceu da perspectiva de feriado na segunda-feira, e todo mundo deixou para depois. Não era preciso se apressar nem para o lazer: havia tempo.

Melhor mesmo foi o domingo que tivemos na segunda-feira, após o domingo verdadeiro. Saber que só São Paulo estava parada, enquanto Rio, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e todas as outras capitais resfolegavam em burburinho de trânsito, bancos, camelôs, comércio, escritórios, negócios, contribuía para o prazer. Os paulistanos estavam de-li-ci-a-dos.

O humor mudou. Não se ouvia uma buzina de automóvel, como se mão invisível houvesse desligado todas e os motoristas nem se dessem conta. Até parar no semáforo em verde para o pedestre distraído passar eles pararam, e ainda fazendo sinalzinho encorajador com a mão, vai, vai. Ninguém tinha pressa, inúteis as placas de velocidade máxima permitida e os radares. Quem dirigia aproveitava para ver a cidade, visão que nos dias comuns se limitava a outros veículos, pequenos, grandes e gigantescos. Fumaça, nem se notava. Paz: nenhuma moto no horizonte das avenidas.

O citadino reencontrou-se cidadão. Poder olhar, contemplar, sem alguém atropelando atrás. Conferir o estado das coisas, tomar pé. Estar, simplesmente estar, sem a urgência de ir. A civilidade redescoberta: por favor, o senhor primeiro. Logo de manhã, pouca gente na padaria, tempo para escolher entre a rosca de coco, a broinha e o brioche, sem o balconista apressar: "O próximo!" Cinemas sem filas, a maravilha de poder chegar bem na horinha. Inacreditáveis opções no restaurante da moda: esta mesa ou aquela, senhor? Garçons quase exclusivos.

Foi possível pressentir no paulistano o mesmo ser ávido de civilização da primeira metade do século passado e supor que agora não dá certo porque o excesso de gente causa a fricção que transforma um em lobo do outro. As pessoas ficaram até descuidadas, descrentes de que ladrões trabalhassem em dias tão perfeitos e ruas assim vazias. Camelôs? Nenhuns. Também de folga os pedintes, falsas mães, bebês de aluguel, desempregados profissionais e aquela chusma dos faróis, os lavadores de pára-brisa, vendedores de mil e uma inutilidades e o pessoal do pacotinho de balas pendurado nos espelhos retrovisores.

Pena que acabou.