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Volta
Narrativa em prosa, Editora Iluminuras, 160 p.



por Betty Milan

Volta é o título do novo livro de Claudio Willer, que generosamente nos convida a com ele voltar aos muitos lugares onde esteve, a dar uma volta circular em São Paulo e em Paris sem medo de errar.

Trata-se pois de um convite à errância, um texto mais feito para surpreender do que para informar. – Venha comigo, diz o poeta, por estas ruas e vielas, e é o cenário de um sonho que você aí descobrirá.

Willer escreve sobre o vivido, porém o seu livro não é uma autobiografia – ele aliás nega explicitamente que o seja. A narrativa pertence ao gênero que o escritor argentino Hector Bianciotti batizou de autoficção, pois o autor de Volta só se interessa pelos fatos que pode reinventar poeticamente. Não quer o tempo irreversível da sucessão de que se ocupam os biógrafos e os memorialistas e sim o tempo que suspende o tempo – o tempo circular ou mágico da poesia.

Por isso ele erra pela memória e nos faz redescobrir São Paulo. A do Teatro Municipal, iluminado pelo lustre do salão nobre e pelas luminárias da Praça Ramos de Azevedo, reluzindo encantatoriamente nas cores dos vitrais e nos dourados das paredes. A de Santa Cecília, onde há ruas dando "a impressão de lugar inerte, parado no tempo, mesmos prédios e sobrados há décadas, inalterados, exceto pelo inevitável envelhecimento, como se fizessem parte de um bairro em miniatura incrustado no cerne da metrópole". Ou a São Paulo do Bexiga, que mais convida ao estranhamento do que as outras, onde há casas art decô, cujo desenho "merecia continuar sendo o traço dominante da fisionomia arquitetônica da cidade".

Nesse caminho em que somos levados pelo vento que o poeta, tão lindamente, chama de eventual, surge e ressurge a cidade de Paris, que Baudelaire e Breton eternizaram evocando os seus percursos sem destino pelas ruas, inventando e renovando a tradição do caminhante desgarrado da metrópole, a do flâneur se não do flanador – tradição em que se inscreve Claudio Willer.

Por flanar, ele mostra que toda cidade é poética, conquanto seja olhada com olhos de criança e o escritor a nomeie. "Em São Paulo, escreve o autor de Volta, a Rua Lopes Chaves seria anônima se não estivesse nos poemas de Mário de Andrade, que também tornou visíveis o Largo do Cambuci ou a Ponte das Bandeiras ao inscrevê-los em sua obra (...)".

Mas Willer não erra somente pelas cidades, ele se perde sem medo na obra de Breton, lamentando o que não pode saber através deste, como, por exemplo, se Nadja chegou ou não nas mãos da mulher que suscitou a narrativa.

Desta errância privilegiada, resulta ainda a evocação das mulheres que o escritor paulista surreal amou, um texto que todas gostaríamos de ter inspirado: "jazíamos sobre uma geometria harmoniosa de travesseiros náufragos a flutuarem nos lençóis amassados, quando o tempo se convertia em horas multiplicadas pelo mesmo gesto de acariciar-se".

Amigo dos amigos que menciona, dos autores e das mulheres, ele também faz jus ao surrealismo pela indiferença manifesta aos gêneros literários, deixando que o ensaio e a narrativa se alternem, coroando-os aqui e ali pela poesia, gênero em que já foi consagrado.

Um belíssimo livro, embora não comece onde o texto deslancha, ou seja, no capítulo 2 – um defeito que talvez possa ser atribuído à falta de aconselhamento editorial nestas paragens ainda tão indiferentes à Literatura.




por Sergio Telles*


Como o próprio nome – VOLTA – o indica, neste seu último livro, Claudio Willer explicitamente retoma e amplia algumas teses defendidas anteriormente num ensaio em seu livro JARDINS DA PROVOCAÇÃO e em palestras proferidas em diversos lugares, qual seja o caráter divinatório, premonitório, mágico no sentido estrito da palavra, da poesia e da literatura em geral, sua eventual ligação com o "oculto".

Como se sabe, a valorização do "oculto" é elemento significativo no ideário estético e político dos surrealistas, tendo dado margem a inúmeras experiências de escrita automática, de procura dos "objects trouvées", às teorias dos "vasos comunicantes" com o inconsciente, etc.

Os surrealistas, por sua vez, davam seguimento a uma moda que se iniciara nos Estados Unidos nos meados do século passado [XIX], logo se transmitindo à Europa, que se fartou com mesas espíritas, a retomada da busca de "analogias" reveladoras de mistérios, fatos que alimentaram a fantasia e a produção de muitos poetas, nomeadamente aqueles que se filiaram ao Simbolismo, dentre eles, Mallarmé.

Willer, numa volta, apóia-se fortemente nesta tradição que vê o poeta como um vate, aquele que faz vaticínios, um profeta capaz de comunicação com uma outra realidade. Especialmente a tradição advinda do surrealismo, de André Breton, que em várias obras, como NADJA e O AMOR LOUCO, descreve episódios estranhos, onde fatos ocorrem como que confirmando e concretizando textos seus escritos anteriormente, como se o futuro tivesse sido inadvertidamente vislumbrado e registrado naquelas produções literárias.

Willer cita situações semelhantes em sua própria vida, como por exemplo os encontros com Soninha, com Ieda, as "coincidências" durante a leitura do livro de Colin Wilson, os vários episódios com o infeliz vate Augusto Peixoto.

Abstraindo o anedótico e circunstancial, a tese central de Willer é, deixemo-lo dizer diretamente: "Resta o movimento. O movimento entre dois pólos, do acontecido e do imaginado, da realidade e do texto. Consegui percorrê-lo em dupla mão. Do real ao signo, do acontecimento às palavras que o designam, e também no misterioso movimento oposto, avesso da escrita, do imaginário à realidade por ele constituída, não só trazendo o signo para perto do real, mas elevando o real ao plano do simbólico, para que o acontecido ganhe a luminosa liberdade do imaginado. O reverso da escrita é o que acontece depois do escrito. É a magia, o modo como signos contêm um futuro." (Grifos meus).

O que Willer diz pode e deve ser entendido como um preito de admiração e louvação a este reino do simbólico onde estamos todos imersos e onde os criadores literários somos seus oficiantes máximos. É um reconhecimento da extraordinária importância do simbólico como matriz da civilização e da cultura.

Até aí o acompanhamos. A dificuldade é que Willer, em seu justo arrebatamento e na tentativa de responder à permanente incógnita sobre a criação literária, "radicaliza" sua posição ao retomar, numa volta, a tradição ocultista, avançando por terrenos pelos quais a maioria – na qual me incluo – não ousa acompanhá-lo, desde que – para a maioria de nós – já é um mistério suficiente o que a arte pode fazer, sem recorrer à magia divinatória.

Em VOLTA, Willer, por diversas vezes, se pergunta o porquê da e se ressente com a falta de interlocutores frente suas teses. Talvez seja esta "radicalização" que afaste interlocutores literários, que não podem acompanhá-lo pela estreita trilha abandonada mas por ele escolhida e revalorizada, ao mesmo tempo que provoca estranhamento simétrico aos adeptos do ocultismo, que desconhecem o universo literário.

Se não podemos acompanhá-lo inteiramente em suas teses, acompanhamos com prazer o livro, escrito tersamente num gênero híbrido entre ensaio, ficção e memória, onde eclodem belos fragmentos, momentos em que o poeta se mostra excelente prosador, como – para citar alguns exemplos – nas páginas sobre a Feira de Arte e Poesia (p. 9 e seg.), sobre Tânia (p. 51 e seg.), sobre a morte do poeta (p. 79 e seg.), a procura do sebo (p. 101 e seg.), sobre os bares (p. 123 e seg.).


*Sergio Telles é psicanalista e escritor, autor de Mergulhador de Acapulco – Imago Editora.