"Com as mãos em concha, molhou o rosto. Quem sabe as mãos, rainhas, não eram cúmplices, não estavam ali para tecer, junto com os sonhos, a teia de fantasia que acabaria por envolvê-la definitivamente? Ou talvez não. Talvez, ao contrário, as mãos fossem as guardiãs, as guerreiras, lutando ainda para defender Dana, salvá-la da loucura e da morte. Talvez por isso as mãos quebrassem pratos, despejando, através do vigoroso movimento de músculos e ossos, os ódios e terrores acumulados. Talvez por isso quisessem escrever. Empunhando a pena como arma, somente elas talvez ainda pudessem subjugar os sonhos, prendendo-os no papel, âncora e porto, para que não mais vagassem pelo mar revolto de sua alma. Se assim fosse, seria uma luta feroz, embate de deuses do Olimpo. Mas, se elas conseguissem – se as mãos vencessem –, estaria quebrado o encanto."

Heloisa Seixas

(Trecho do romance Diário de Perséfone.)