Viciado em palavras

"Jimi Hendrix e Janis Joplin gostavam tanto de entorpecentes que morreram de overdose. O editor Pedro Paulo de Sena Madureira costuma acender o próximo cigarro com a brasa do que acabou de fumar. Dizem que o ex-presidente americano John Kennedy não suportava a dor de cabeça no dia em que não fizesse amor. Num samba-canção famoso, o furibundo quebrador de discos da televisão Flávio Cavalcanti relacionava entre manias a de misturar fósforos usados com virgens e guardá-los na caixa. Num espetáculo em cartaz na cidade, registra-se que outra compositora, Dolores Duran, gostava
tanto de dormir que morreu no meio do sono.

Cada louco com sua mania. A minha são as palavras. Quando encarno numa não a largo mais. Uma época, viciei-me na expressão 'um breve contra a luxúria', forma elegante (nem tanto) de definir a escassez de atributos físicos de uma dama. Usava o breve (no caso, sinônimo de escapulário, nada que ver com os docinhos portugueses) para tudo. Até o dia em que um redator reclamou da ausência de um substantivo para completar o adjetivo breve numa frase. Aí, percebi que a expressão era bonita, mas ignota. E nada pior para alguém que pretende se comunicar do que a falta de clareza. Deixei, então, de usar o breve contra qualquer coisa.

Alguns amigos identificam minha autoria secreta em textos não assinados pelo uso de termos que eles sabem me ser caros. Outros garantem que todos os resquícios de sotaque nordestino que me restam concentram-se no jeito de pronunciar as vogais abertas no advérbio evidentemente no rádio.

Minha última paixão foi o palavrão tautologia. Era tautologia para lá, tautologia para cá... Sempre no sentido de 'excesso de obviedade'. Fui forçado a largar essa mania da mesma forma brusca pela qual o autor de Terra Nostra, Benedito Ruy Barbosa, e seu amigo Mário Prata, escritor e colunista do Estadão, se obrigaram à abstinência de álcool.

Tudo começou quando Fernão Mesquita consultou o dicionário e me informou que tautologia não era bem uma obviedade, mas, como informa o Aurélio, um 'vício de linguagem que consiste em dizer, por formas diversas, sempre a mesma coisa'. Ou, ainda, um 'erro lógico que consiste em aparentemente demonstrar uma tese repetindo-a com palavras diferentes'. Ou seja, como define com brevidade o autor do Manual de Redação do Estado, Eduardo Martins, 'uma redundância'.

Em seguida, uma amiga de Campina Grande telefonou para contar que o namorado, um inglês aficcionado de meus textos, tinha deixado de lê-los por causa do mau emprego da tautologia num deles.

Antes que a velha amiga seja abandonada pelo namorado recente, resolvi, em benefício de futuros leitores, largar a mania, exatamente o oposto do significado do vício: o uso das mesmas palavras para definir idéias diferentes.

O vício das palavras não mata de overdose como as drogas nem compromete o pulmão como a nicotina. Infelizmente, também não provoca o prazer do ato sexual. De qualquer forma, melhor evitá-lo. Como todo vício, faz mal à saúde.

À minha e à sua: à nossa.

Perdão, leitores!"

José Nêumanne Pinto