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Relato de um Certo
Oriente
por Davi
Arrigucci Jr. (1989)
Este
é o relato da volta de uma mulher, após longos anos
de ausência, à cidade de sua infância, Manaus,
num diálogo com o irmão distante. História
de um regresso à vida em família e ao mais íntimo,
no fundo é uma complexa viagem da memória a uma
ilha do passado, onde o destino do indivíduo se enlaça
ao do grupo familiar na busca de si mesmo e do outro. Odisséia
sem deuses ou maravilhas de uma pobre heroína desgarrada,
cujo destino problemático tem seus fios no enredo de um
romance, tramado com calma e sabedoria pela mão surpreendente
de um jovem escritor.
O romance é aqui uma arquitetura imaginária:
a arte de reconstruir, no lugar das lembranças e vãos
do esquecimento, a casa que se foi. Uma casa, um mundo. Um mundo
até certo ponto único, exótico e enigmático
em sua estranha poesia, mas capaz de se impor ao leitor com alto
poder de convicção.
Não se resiste ao fascínio dessa
prosa evocativa, traçada com raro senso plástico e
pendor lírico: viagem encantatória por meandros de
frases longas e límpidas, num ritmo de recorrências
e remansos, de regresso à cidade ilhada pelo rio e a floresta
amazônica, onde uma família de imigrantes libaneses,
há muito ali radicada, vive seu drama de paixões contraditórias,
de culpas e franjas de luto ao redor de mortes trágicas.
A essa ilha familiar retorna a narrativa como a um ponto de recordações,
aberto à atmosfera ambígua de um certo Oriente
espaço flutuante onde velhas tradições religiosas
e culturais vieram se misturar às margens da terra, com a
aura do sagrado e o gosto sensual de coisas e palavras.
A narração remonta ao passado
por lances retrospectivos, pela voz da narradora em que se encaixam
outras vozes num coral coeso, lembrando a tradição
oral dos narradores orientais: caixa de surpresas, de que saltam
as múltiplas faces das personagens, num jogo de sombra e
silêncio, sob a luz ardente do Amazonas. Nela se guardam as
hesitações e lacunas da memória, o que não
se alcança do passado modo oblíquo de se deparar
com os limites do conhecimento do outro e de si mesmo, enigma último
do ser.
Reino de figuras fugazes, mas fortes: Emir,
que transita para a morte, levando nas mãos a misteriosa
flor em que se cifra seu destino; o fotógrafo alemão
Dorner, que capta com sua generosa atenção o final
simbólico do suicida; o leitor calado e solitário
da Parisiense, velho comerciante árabe, capaz de contar histórias
parecidas às das Mil e uma noites; e a extraordinária
Emilie, matriarca e matriz de toda a vida da casa, que traz aninhado
no colo o novelo de história da família, origem e
fim do enredo do romance.
Como outros em nosso tempo, é este o
relato de uma volta à casa já desfeita, reconstruída
pelo esforço ascético de um observador de olhar penetrante,
mas pudoroso, que recorda e imagina. História de uma busca
impossível, o romance é ainda uma vez aqui a aventura
do conhecimento que empreende o espírito quando se acabam
os caminhos. É aí que começam as viagens da
memória.
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