|
A Senhorita Simpson
por
José Maria Cançado
A literatura, para Sérgio SantAnna, é intrigante
cosa mentale. Ele é dessa linhagem de criadores que são
tanto mais inventivos quanto mais saturados de informações
é o universo de que tratam Phillip Glass, Bob Wilson,
João Gilberto, Gerald Thomas, John Cage. Como eles, o que
Sérgio SantAnna busca, mais do que a consumada e arrebatante
emoção estética, é a cena, a encenação,
a lei dessa emoção. Um fino olha como isso funciona.
Ele é desses escritores da suspeição:
avança apontando com o dedo a máscara no rosto, como
que dizendo: Isso aqui é astúcia e representação.
Definitivamente quem toca esse livro não toca um homem.
É mais engenhosa a mirada mínima,
miniatural, do autor de Notas de Manfredo Rangel, repórter,
As confissões de Ralfo, O concerto de João Gilberto
no Rio, A tragédia brasileira. Em Senhorira Simpson,
essa miniaturização da representação
e da realidade literária corta fôlego. Num curso noturno
de inglês em Copacabana, freqüentado por executivos do
Banco Central, investidores, sujeitos do pregão, futebolistas
com um pé sonhador no Cosmos de Nova York, a cândida
família Jones do livro didático salta
para fora das páginas, confundindo-se sem mais com as atribulações
e existência dos alunos (nos livros de Sérgio SantAnna,
as criaturas de papel ou não estão sempre
mudando de lado). À frente, rege uma bostoniana senhorita
Simpson, a professora de inglês, que parece saída de
um romance de Henry James ou Edith Wharton. É a quebra completa
dos padrões de rigidez e estratificação
social. A emblemática senhorita Simpson é consumida
amplamente no interior daquela fábula anglo-americana-carioca.
Completamente avesso à chamada literatura
de fundação, ao romance crédulo do esquema
nacional-popular, Sérgio SantAnna segue por outra:
conhecedor de todas as trucagens da criação e do texto
literário, patichador finíssimo,
ele é desses criadores que se movem naquele espaço
mínimo, naquela equação artística
invisível, naquele rien, presque um art que faz da literatura,
literatura.
|