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A Escrava Isaura
(Capítulo 1 e 2)
Capítulo 1
Era nos primeiros anos do reinado do Sr. D. Pedro II.
No fértil e opulento município de Campos de Goitacases,
à margem do Paraíba, a pouca distância da vila de
Campos, havia uma linda e magnífica fazenda.
Era um edifício de harmoniosas proporções, vasto
e luxuoso, situado em aprazível vargedo ao sopé de elevadas
colinas cobertas de mata em parte devastada pelo machado do lavrador.
Longe em derredor a natureza ostentava-se ainda em toda a sua primitiva
e selvática rudeza; mas por perto, em torno da deliciosa vivenda,
a mão do
homem tinha convertido a bronca selva, que cobria o solo, em jardins
e pomares deleitosos, em gramais e pingues pastagens, sombreadas aqui
e acolá por gameleiras gigantescas, perobas, cedros e copaíbas,
que atestavam o vigor da antiga floresta. Quase não se via aí
muro, cerca, nem valado; jardim, horta, pomar, pastagens, e plantios
circunvizinhos eram divididos por viçosas e verdejantes sebes
de bambus, piteiras, espinheiros e gravatás, que davam ao todo
o aspecto do mais aprazível e delicioso vergel.
A casa apresentava a frente às colinas. Entrava-se nela por um
lindo alpendre todo enredado de flores trepadeiras, ao qual subia-se
por uma escada de cantaria de seis a sete degraus. Os fundos eram ocupados
por outros edifícios acessórios, senzalas, pátios,
currais e celeiros, por trás dos quais se estendia o jardim,
a horta, e um imenso pomar, que ia perder-se na barranca do grande rio.
Era por uma linda e calmosa tarde de outubro. O Sol não era ainda
posto, e parecia boiar no horizonte suspenso sobre rolos de espuma de
cores cambiantes orlados de fêveras de ouro. A viração
saturada de balsâmicos eflúvios se espreguiçava
ao longo das ribanceiras acordando apenas frouxos rumores pela copa
dos arvoredos, e fazendo
farfalhar de leve o tope dos coqueiros, que miravam-se garbosos nas
lúcidas e ranqüilas águas da ribeira.
Corria um belo tempo; a vegetação reanimada por moderadas
chuvas ostentava-se fresca, viçosa e luxuriante; a água
do rio ainda não turvada pelas grandes enchentes, rolando com
majestosa lentidão, refletia em toda a pureza os esplêndidos
coloridos do horizonte, e o nítido verdor das selvosas ribanceiras.
As aves, dando repouso ás asas
fatigadas do contínuo voejar pelos pomares, prados e balsedos
vizinhos, começavam a preludiar seus cantos vespertinos.
O clarão do Sol poente por tal sorte abraseava as vidraças
do edifício, que esse parecia estar sendo devorado pelas chamas
de um incêndio interior. Entretanto, quer no interior, quer em
derredor, reinava fundo silêncio, e perfeita tranqüilidade.
Bois truculentos, e médias novilhas deitadas pelo gramal, ruminavam
tranqüilamente à sombra de altos troncos. As aves domésticas
grazinavam em tomo da casa, balavam as ovelhas, e mugiam algumas vacas,
que vinham por si mesmas procurando os currais; mas não se ouvia,
nem se divisava voz nem figura humana. Parecia que ali não se
achava morador algum. Somente as vidraças arregaçadas
de um grande salão da frente e os batentes da
porta da entrada, abertos de par em par, denunciavam que nem todos os
habitantes daquela suntuosa propriedade se achavam ausentes.
A favor desse quase silêncio harmonioso da natureza ouvia-se distintamente
o arpejo de um piano casando-se a uma voz de mulher, voz melodiosa,
suave, apaixonada, e do timbre o mais puro e fresco que se pode imaginar.
Posto que um tanto abafado, o canto tinha uma vibração
sonora, ampla e volumosa, que revelava excelente e vigorosa organização
vocal.
O tom velado e melancólico da cantiga parecia gemido sufocado
de uma alma solitária e sofredora.
Era essa a única voz que quebrava o silêncio da vasta e
tranqüila vivenda. Por fora tudo parecia escutá-la em místico
e profundo recolhimento.
As coplas, que cantava, diziam assim:
Desd'o berço respirando
Os ares da escravidão,
Como semente lançada
Em terra de maldição,
A vida passo chorando
Minha triste condição.
Os meus braços estão presos,
A ninguém posso abraçar,
Nem meus lábios, nem meus olhos
Não podem de amor falar;
Deu-me Deus um coração
Somente para penar.
Ao ar livre das campinas
Seu perfume exala a flor;
Canta a aura em liberdade
Do bosque o alado cantor;
Só para a pobre cativa
Não há canções, nem amor.
Cala-te, pobre cativa;
Teus queixumes crimes são;
E uma afronta esse canto,
Que exprime tua aflição.
A vida não te pertence,
Não é teu teu coração.
As notas sentidas e maviosas daquele cantar escapando pelas janelas
abertas e ecoando ao longe em derredor, dão vontade de conhecer
a sereia que tão lindamente canta. Se não é sereia,
somente um anjo pode cantar assim.
Subamos os degraus, que conduzem ao alpendre, todo engrinaldado de viçosos
festões e lindas flores, que serve de vestíbulo ao edifício.
Entremos sem cerimônia. Logo à direita do corredor encontramos
aberta uma larga porta, que dá entrada à sala de recepção,
vasta e luxuosamente mobiliada. Acha-se ali sozinha e sentada ao piano
uma bela e nobre figura de moça. As linhas do perfil desenham-se
distintamente entre o ébano da caixa do piano, e as bastas madeixas
ainda
mais negras do que ele. São tão puras e suaves essas linhas,
que fascinam os olhos, enlevam a mente, e paralisam toda análise.
A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra,
embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis
dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. O colo donoso
e do mais puro lavor sustenta com graça inefável o busto
maravilhoso. Os cabelos soltos e fortemente ondulados se despenham caracolando
pelos ombros em espessos e luzidios rolos, e como franjas negras escondiam
quase completamente o dorso da cadeira, a que se achava recostada. Na
fronte calma e lisa como mármore polido, a luz do ocaso esbatia
um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada
de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração.
Tinha a face voltada para as janelas, e o olhar vago pairavalhe pelo
espaço.
Os encantos da gentil cantora eram ainda realçados pela singeleza,
e diremos quase pobreza do modesto trajar. Um vestido de chita ordinária
azul-clara desenhava-lhe perfeitamente com encantadora simplicidade
o porte esbelto e a cintura delicada, e desdobrando-se-lhe em roda amplas
ondulações parecia uma nuvem, do seio da qual se erguia
a cantora como Vênus nascendo da espuma do mar, ou como um anjo
surgindo dentre brumas vaporosas. Uma pequena cruz de azeviche presa
ao pescoço por uma fita preta constituía o seu único
ornamento.
Apenas terminado o canto, a moça ficou um momento a cismar com
os dedos sobre o teclado como escutando os derradeiros ecos da sua canção.
Entretanto abre-se sutilmente a cortina de cassa de uma das portas interiores,
e uma nova personagem penetra no salão. Era também uma
formosa dama ainda no viço da mocidade, bonita, bem feita e elegante.
A riqueza e o primoroso esmero do trajar, o porte altivo e senhoril,
certo balanceio afetado e langoroso dos movimentos davam-lhe esse ar
pretensioso, que acompanha toda moça bonita e rica, ainda mesmo
quando está sozinha. Mas com todo esse luxo e donaire de grande
senhora nem por isso sua grande beleza deixava de ficar algum tanto
eclipsada em presença das formas puras e corretas, da nobre singeleza,
e dos tão naturais e modestos ademanes da cantora. Todavia Malvina
era linda, encantadora mesmo, e posto que vaidosa de sua formosura e
alta posição, transluzia-lhe nos grandes e meigos olhos
azuis toda a nativa bondade de seu coração.
Malvina aproximou-se de manso e sem ser pressentida para junto da cantora,
colocando-se por detrás dela esperou que terminasse a última
copia.
- Isaura!... disse ela pousando de leve a delicada mãozinha sobre
o ombro da cantora.
- Ah! é a senhora?! - respondeu Isaura voltando-se sobressaltada.
- Não sabia que estava aí me escutando.
- Pois que tem isso?.., continua a cantar... tens a voz tão bonita!...
mas eu antes quisera que cantasses outra coisa; por que é que
você gosta tanto dessa cantiga tão triste, que você
aprendeu não sei onde?... - Gosto dela, porque acho-a bonita
e porque... ah! não devo falar...
- Fala, Isaura. Já não te disse que nada me deves esconder,
e nada recear de mim?...
- Porque me faz lembrar de minha mãe, que eu não conheci,
coitada!... Mas se a senhora não gosta dessa cantiga, não
a cantarei mais.
- Não gosto que a cantes, não, Isaura. Hão de pensar
que és maltratada, que és uma escrava infeliz, vítima
de senhores bárbaros e cruéis. Entretanto passas aqui
uma vida que faria inveja a muita gente livre. Gozas da estima de teus
senhores. Deram-te uma educação, como não tiveram
muitas ricas e ilustres damas que eu conheço. És formosa,
e tens uma cor linda, que ninguém dirá que gira em tuas
veias uma só gota de sangue africano. Bem sabes quanto minha
boa sogra antes de expirar te recomendava a mim e a meu marido. Hei
de respeitar sempre as recomendações daquela santa mulher,
e tu bem vês, sou mais tua amiga do que tua senhora. Oh! não;
não cabe em tua boca essa cantiga lastimosa, que tanto gostas
de cantar. - Não quero, - continuou em tom de branda repreensão,
- não quero que a cantes mais, ouviste, Isaura?... se não,
fecho-te o meu piano.
- Mas, senhora, apesar de tudo isso, que sou eu mais do que uma simples
escrava? Essa educação, que me deram, e essa beleza, que
tanto me gabam, de que me servem?... são trastes de luxo colocados
na senzala do africano. A senzala nem por isso deixa de ser o que é:
uma senzala.
- Queixas-te da tua sorte, Isaura?...
- Eu não, senhora; não tenho motivo... o que quero dizer
com isto é que, apesar de todos esses dotes e vantagens, que
me atribuem, sei conhecer o meu lugar.
- Anda lá; já sei o que te amofina; a tua cantiga bem
o diz. Bonita como és, não podes deixar de ter algum namorado.
- Eu, senhora!... por quem é, não pense nisso.
- Tu mesma; pois que tem isso?... não te vexes; pois é
alguma coisa do outro mundo? Vamos já, confessa; tens um amante,
e é por isso que lamentas não teres nascido livre para
poder amar aquele que te agradou, e a quem caíste em graça,
não é assim?...
- Perdoe-me, sinhá Malvina; - replicou a escrava com um cândido
sorriso. - Está muito enganada; estou tão longe de pensar
nisso!
- Qual longe!... não me enganas, minha rapariguinha!... tu amas,
e és mui linda e bem prendada para te inclinares a um escravo;
só se fosse um escravo, como tu és, o que duvido que haja
no mundo. Uma menina como tu, bem pode conquistar o amor de algum guapo
mocetão, e eis aí a causa da choradeira de tua canção.
Mas não te aflijas,
minha Isaura; eu te protesto que amanhã mesmo terás a
tua liberdade; deixa Leôncio chegar; é uma vergonha que
uma rapariga como tu se veja ainda na condição de escrava.
- Deixe-se disso, senhora; eu não penso em amores e muito menos
em liberdade; às vezes fico triste à toa, sem motivo nenhum...
- Não importa. Sou eu quem quero que sejas livre, e hás
de sê-lo. Neste ponto a conversação foi cortada
por um tropel de cavaleiros, que chegavam e apeavam-se á porta
da fazenda.
Malvina e Isaura correram à janela a ver quem eram.
Capitulo 2
Os cavaleiros, que acabavam de apear-se, eram dois belos e ele- gantes
mancebos, que chegavam da vila de Campos. Do modo familiar, por que
foram entrando, logo se depreendia que era gente de casa. De feito um
era Leôncio, marido de Malvina; e outro Henrique, irmão
da mesma.
Antes de irmos adiante forçoso nos é travar conhecimento
mais íntimo com os dois jovens cavaleiros.
Leôncio era filho único do rico e magnífico comendador
Almeida, proprietário da bela e suntuosa fazenda em que nos achamos.
O comendador, já bastante idoso e cheio de enfermidades depois
do casamento de seu filho, que tivera lugar um ano antes da época
em que começa esta história, havia-lhe abandonado a administração
e usufruto da fazenda, e vivia na corte, onde procurava alivio ou distração
aos achaques que o atormentavam. Leôncio achara desde a infância
nas larguezas e facilidades de seus
pais amplos meios de corromper o coração e extraviar a
inteligência. Mau aluno e criança incorrigível,
turbulento e insubordinado, andou de colégio em colégio,
e passou como gato por brasas por cima de todos os preparatórios,
cujos exames todavia sempre salvara à sombra do patronato.
Os mestres não se atreviam a dar ao nobre e munífico comendador
o desgosto de ver seu filho reprovado. Matriculado na escola de medicina
logo no primeiro ano enjoou-se daquela disciplina, e como seus pais
não sabiam contrariá-lo, foi-se para Olinda a fim de freqüentar
o curso jurídico. Ali depois de ter dissipado não pequena
porção da fortuna paterna na satisfação
de todos os seus vícios e loucas fantasias, tomou tédio
também aos estudos jurídicos, e ficou entendendo que só
na Europa poderia desenvolver dignamente a sua inteligência, e
saciar a sua sede de saber, em puros e abundantes mananciais. Assim
escreveu ao pai, que deu-lhe crédito e o enviou a Paris, donde
esperava vê-lo voltar feito um novo Humboldt. Instalado naquele
vasto pandemônio do luxo e dos prazeres, Leóncio raras
vezes, e só por desfastio, ia ouvir
as eloqüentes preleções dos exímios professores
da época, e nem tampouco era visto nos museus, institutos e bibliotecas.
Em compensação era assíduo frequentador do Jardim
Mabile, assim como de todos os cafés e teatros mais em voga,
e tomara-se um dos mais afamados e elegantes leões dos bulevares.
No fim de alguns anos, ora de residência em Paris, ora de giros
recreativos pelas águas e pelas principais capitais
da Europa, tinha ele tão copiosa e desapiedadamente sangrado
a bolsa paterna, que o comendador a despeito de toda a sua condescendência
e ternura para com seu único e querido filho, viu-se na necessidade
de revocá-lo à sombra dos pátrios lares a fim de
evitar uma completa ruína. Mas, mesmo assim, para não
magoá-lo colhendo-lhe súbita e rudemente as rédeas
na carreira dos desvarios e dissipações, assentou de atraí-lo
suavemente acenando-lhe com a perspectiva de um rico e vantajosíssimo
casamento.
Leôncio pegou na isca e voltou à pátria um perfeito
dândi, gentil e elegante como ninguém, trazendo de suas
viagens, em vez de conhecimentos e experiência, enorme dose de
fatuidade e petulância e um tão perfeito traquejo da alta
sociedade, que o tomaríeis por um príncipe. Mas o pior
era que, se trazia o cérebro vazio, voltava com a alma corrompida
e o coração estragado por hábitos de devassidão
e libertinagem.
Alguns bons e generosos instintos, de que o dotara a natureza, haviam-se
apagado em seu coração ao roçar de péssimas
doutrinas confirmadas por exemplos ainda piores.
De volta da Europa, Leóncio contava vinte e cinco anos. O pai
advertiu-lhe com palavras insinuantes e jeitosas, que já era
tempo de empregar-se em alguma coisa, de abraçar alguma carreira;
que já se tinha aproveitado da bolsa paterna mais do que era
preciso para sua educação, e que era mister ir aprendendo
se não a aumentar, ao menos a conservar uma fortuna, à
testa da qual teria de achar-se mais tarde ou
mais cedo. Depois de muita hesitação, Leôncio optou
enfim pela carreira do comércio que lhe pareceu ser a mais independente
e segura de todas; mas as suas idéias largas e audaciosas a este
respeito aterraram o bom do comendador. O comércio de importação
e exportação de gêneros, mesmo em larga escala,
o próprio tráfego de africanos, lhe pareciam especulações
degradantes e impróprias de sua alta posição
e esmerada educação. O negócio de balcão
e a retalho, esse inspirava-lhe asco e compaixão. Só lhe
convinham as altas especulações cambiais, as operações
bancárias e transações em que jogasse com avultados
capitais. Só assim poderia duplicar em pouco tempo a fortuna
patema. Com o que tinha observado na Bolsa de Paris e em outras praças
européias, presumia-se com habilitação bastante
para dirigir as operações do mais importante estabelecimento
bancário, ou as mais grandiosas empresas industriais.
O pai porém não se animou a confiar sua fortuna aos azares
especulativos daquele financeiro em botão, e que até ali
só tinha dado provas de grande talento para consumir, em pouco
tempo e em pura perda, somas consideráveis. Resolveu portanto
a não tocar-lhe mais naquele assunto, esperando que o mancebo
criasse mais algum juízo. Vendo que seu pai esquecia-se completamente
dos planos de criar-lhe um pecúlio próprio, Leôncio
olhou para o casamento como o meio suave e natural de adquirir fortuna,
como a única carreira que se lhe oferecia para ter dinheiro a
esbanjar a seu bel-prazer.
Malvina, a formosa filha de um riquíssimo negociante da corte,
amigo do comendador, já estava destinada a Leôncio por
comum acordo e aquiescência dos pais de ambos. A família
do comendador foi à corte; os moços viram-se, amaram-se
e casaram; foi coisa de poucos dias. Pouco tempo depois de seu casamento
Leôncio passou pelo desgosto de perder sua mãe por um golpe
inesperado. Esta boa e respeitável senhora não tinha sido
muito feliz nas relações da vida íntima com seu
marido, que, como homem de coração árido e frio,
desconhecia as santas e puras delícias da afeição
conjugal, e com suas libertinagens e devassidões dilacerava cotidianamente
o coração de sua esposa. Para cúmulo de males linha
ela perdido ainda na infância todos os seus filhos, ficando-lhe
só Leôncio. Lastimava-se principalmente por não
ter-lhe deixado o céu ao menos uma filha, que lhe servisse de
companhia e consolação em sua desolada velhice. Quis entretanto
a sorte deparar-lhe em sua própria casa uma tal ou qual compensação
a seus infortúnios em uma frágil criatura, que veio de
alguma sorte encher o vácuo que sentia em seu bondoso e terno
coração, e tornar menos triste e solitário o lar,
em que passava os dias tão monótonos e enfadonhos.
Havia nascido em casa uma escravinha, que desde o berço atraiu
por sua graça, gentileza e vivacidade toda a atenção
e solicitude da boa velha.
Isaura era filha de uma linda mulata, que fora por muito tempo a mucama
favorita e a criada fiel da esposa do comendador. Este, que como homem
libidinoso e sem escrúpulos olhava as escravas como um serralho
à sua disposição, lançou olhos cobiçosos
e ardentes de lascívia sobre a gentil mucama. Por muito tempo
resistiu ela ás suas brutais solicitações; mas
por fim teve de ceder às ameaças e violências. Tão
torpe e bárbaro procedimento não pôde por muito
tempo ficar oculto aos olhos de sua virtuosa esposa, que com isso concebeu
mortal desgosto. Acabrunhado por ela das mais violentas e amargas exprobrações,
o comendador não ousou mais empregar a violência contra
a pobre escrava, e nem tampouco conseguiu jamais por outro qualquer
meio superar a invencível repugnância que lhe inspirava.
Enfureceu-se com tanta resistência, e deliberou em seu coração
perverso vingar-se da maneira a mais bárbara e ignóbil,
acabrunhando-a de trabalhos e castigos. Exilou-a da sala, onde apenas
desempenhava levianos e delicados serviços, para a senzala e
os fragueiros trabalhos da roça, recomendando bem ao feitor que
não lhe poupasse serviço nem castigo. O feitor,
porém, que era um bom português ainda no vigor dos anos,
e que não tinha as entranhas tão empedernidas como o seu
patrão, seduzido pelos encantos da mulata, em vez de trabalho
e surras, só lhe dava carícias e presentes, de maneira
que daí a algum tempo a mulata deu à luz da vida a gentil
escravinha, de que falamos. Este fato veio exacerbar ainda mais a sanha
do comendador contra a mísera escrava. Expeliu com
impropérios e ameaças o bom e fiel feitor, e sujeitou
a mulata a tão rudes trabalhos e tão cruel tratamento,
que em breve a precipitou no túmulo, antes que pudesse acabar
de criar sua tenra e mimosa filhinha. Eis aí debaixo de que tristes
auspícios nasceu a linda e infeliz Isaura. Todavia, como para
indenizá-la de tamanha desventura, uma santa mulher, um anjo
de bondade, curvou-se sobre o berço da pobre criança e
veio ampará-la à sombra de suas asas caridosas. A mulher
do comendador considerou aquela tenra e formosa cria como um mimo, que
o céu lhe enviava para consolá-la das angústias
e dissabores, que tragava em conseqüência dos torpes desmandos
de seu devasso marido. Levantou ao céu os olhos banhados em lágrimas,
e jurou pela alma da infeliz mulata encarregar-se do futuro de Isaura.
criá-la e educá-la, como se fosse uma filha.
Assim o cumpriu com o mais religioso escrúpulo. À medida
que a menina foi crescendo e entrando em idade de aprender, foi-lhe
ela mesma ensinando a ler e escrever, a coser e a rezar. Mais tarde
procurou-lhe também mestres de música, de dança,
de italiano, de
francês, de desenho, comprou-lhe livros, e empenhou-se enfim em
dar à menina a mais esmerada e fina educação, como
o faria para com uma filha querida. Isaura, por sua parte, não
só pelo desenvolvimento de suas graças e atrativos corporais,
como pelos rápidos progressos de sua viva e robusta inteligência,
foi muito além das mais exageradas esperanças da excelente
velha, a qual em vista de tão felizes e brilhantes resultados,
cada vez mais se comprazia em lapidar e polir aquela jóia, que
ela dizia ser a pérola entrançada em seus cabelos brancos.
- O céu não quis dar-me uma filha de minhas entranhas,
- costumava ela dizer, - mas em compensação deu-me uma
filha de minha alma.
O que porém mais era de admirar na interessante menina, é
que aquela predileção e extremosa solicitude de que era
objeto, não a tornava impertinente, vaidosa ou arrogante nem
mesmo para com seus parceiros de cativeiro. O mimo, com que era tratada,
em nada lhe alterava a natural bondade e candura do coração.
Era sempre alegre e boa com os escravos, dócil e submissa com
os senhores. O comendador não gostava nada do singular capricho
de sua esposa para com a mulatinha, capricho que qualificava de caduquice.
- Forte loucura! - costumava exclamar com acento de comiseração.
- Está ai se esmerando em criar uma formidável tafulona,
que lá pelo tempo adiante há de lhe dar água pela
barba. As velhas, umas dão para rezar, outras para ralhar desde
a manhã até à noite, outras para lavar cachorrinhos
ou para criar pintos; esta deu para criar mulatinhas princesas. É
um divertimento um pouco mais dispendioso na verdade;
mas.., que lhe faça bom proveito; ao menos enquanto se entretém
por lá com o seu embeleco, poupa-me uma boa dúzia de impertinentes
e rabugentos sermões... Lá se avenha!...
Poucos dias depois do casamento de Leôncio, o comendador, com
toda a família, inclusive os dois novos desposados, transportou-se
de novo para a fazenda de Campos. Foi então que o comendador
entregou a seu filho toda a administração e usufruto daquela
propriedade, com toda a escravatura e mais acessórios nela existentes,
declarando-lhe que achando-se já bastante velho, enfermo e cansado,
queria passar
tranqüilamente o resto de seus dias livre de afazeres e preocupações,
para o que bastavam-lhe com sobejidão as rendas que para si reservava.
Feita em vida esta magnífica dotação a seu filho,
retirou-se para a corte. Sua esposa porém preferiu ficar em companhia
do filho, o que foi muito do gosto e aprovação do marido.
Malvina, que apesar da sua vaidade aristocrática tinha alma cândida
e boa, e um coração bem formado, não pôde
deixar de conceber logo desde o principio o mais vivo interesse e terna
afeição pela cativa Isaura. Era esta com efeito de índole
tão bondosa e fagueira, tão dócil, modesta e submissa,
que apesar de sua grande beleza e incontestáveis dotes de espírito,
conquistava logo ao primeiro encontro a benevolência de todos.
Isaura tornou-se imediatamente, não direi a mucama favorita,
mas a fiel companheira, a amiga de Malvina que, afeita aos prazeres
e passatempos da corte, muito folgou de encontrar tão boa e amável
companhia na solidão que ia habitar.
- Por que razão não libertam esta menina? - dizia ela
um dia à sua sogra. - Uma tão boa e interessante criatura
não nasceu para ser escrava. - Tem razão, minha filha,
- respondeu bondosamente a velha; - mas que quer você?... não
tenho ânimo de soltar este passarinho que o céu me deu
para me consolar e tornar mais suportáveis as pesadas e compridas
horas da velhice.
E também libertá-la para quê? Ela aqui é
livre, mais livre do que eu mesma, coitada de mim, que já não
tenho gostos na vida nem forças para gozar da liberdade. Quer
que eu solte a minha patativa? e se ela transviar-se por aí,
e nunca mais acertar com a porta da gaiola?... Não, não,
minha filha; enquanto eu for viva, quero tê-la sempre bem pertinho
de mim, quero que seja minha, e minha só. Você há
de estar dizendo lá consigo - forte egoísmo de velha!
- mas também eu já poucos dias terei de vida; o sacrifício
não será grande. Por minha morte ficará livre,
e eu terei o cuidado de deixar-lhe um bom legado.
De feito, a boa velha tentou por diversas vezes escrever seu testamento
a fim de garantir o futuro de sua escravinha, de sua querida pupila;
mas o comendador, auxiliado por seu filho com delongas e fúteis
pretextos, conseguia ir sempre adiando a satisfação do
louvável e santo desejo de sua esposa, até o dia em que,
fulminada por um ataque
de paralisia geral, ela sucumbiu em poucas horas sem ter tido um só
momento de lucidez e reanimação para expressar sua última
vontade. Malvina jurou sobre o cadáver de sua sogra continuar
para com a infeliz escrava a mesma proteção e solicitude
que a defunta lhe havia prodigalizado. Isaura pranteou por muito tempo
a morte daquela que
havia sido para ela mãe desvelada e carinhosa; e continuou a
ser escrava não já de uma boa e virtuosa senhora, mas
de senhores caprichosos,
devassos e cruéis.
No meu aniversário
Ao meu amigo o Sr. F.J. de Cerqueira
Hélas! hélas! mes années
Sur ma tête tombent fanées,
Et ne refleuriront jamais.
(Lamartine)
Não vês, amigo? - Lá desponta a aurora
Seus róseos véus nos montes desdobrando;
Traz ao mundo beleza, luz e vida,
Traz sorrisos e amor;
Foi esta qu'outro tempo
Meu berço bafejou, e as tenras pálpebras
Me abriu à luz da vida,
E vem hoje no circulo dos tempos
Marcar sorrindo o giro de meus anos.
Já vai bem longe a quadra da inocência,
Dos brincos e dos risos descuidos os;
Lá s'embrenham nas sombras do passado
Os da infância dourados horizontes.
Oh! feliz quadra! - então eu não sentia
Roçar-me pela fronte
A asa do tempo estragadora e rápida;
E este dia de envolta com os outros
Lá s'escoava desapercebido;
Ia-me a vida em sonhos prazenteiros,
Como ligeira brisa
Entre perfumes leda esvoaçando.
Mas hoje que caiu-me a venda amável!
Que as misérias da vida me ocultava,
Eu vejo com tristeza
O tempo sem piedade ir desfolhando
A flor dos anos meus;
Vai-se esgotando a urna do futuro
Sem do seio sair-lhe os dons sonhados
Na quadra em que a esperança nos embala
Com seu falaz sorriso.
Qual sombra vá, que passa
Sem vestígios deixar em seus caminhos,
Eu vou transpondo a arena da existência,
Vendo irem-se escoando uns após outros
Os meus estéreis dias,
Qual náufrago em rochedo solitário,
Vendo a seus pés quebrar-se uma por uma
As ondas com monótono bramido,
Ah! sem jamais no dorso lhe trazerem
O lenho salvador!
Amigo, o fatal sopro da descrença
Me roça às vezes n'alma, e a deixa nua,
E fria como a laj em do sepulcro;
Sim, tudo vai-se; sonhos de esperança,
Férvidas emoções, anelos puros,
Saudades, ilusões, amor e crenças,
Tudo, tudo me foge, tudo voa
Como nuvem de flores sobre as asas
De rábido tufão.
Onde vou? Para onde me arrebatam
Do tempo as ondas rápidas?
Por que ansioso corro a esse futuro,
Onde reinam as trevas da incerteza?
E se através de escuridão perene
Só temos de sulcar ignotos mares
De escolhos semeados,
Não é melhor abandonar o leme,
Cruzar no peito os braços,
E deixar nosso lenho errar às tontas,
Entregue às ondas da fatalidade?
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Ah! tudo é incerteza, tudo sombras,
Tudo um sonhar confuso e nebuloso,
Em que se agita o espírito inquieto,
Até que um dia a plúmbea mão da morte
Nos venha despertar,
E os sombrios mistérios revelar-nos,
Que em seu escuro seio
Com férreo selo guarda a campa avara.
À sepultura de um escravo
Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Uma lágrima só corra sobre ela
De compaixão ao menos....
Filho da África, enfim livre dos ferros
Tu dormes sossegado o eterno sono
Debaixo dessa terra que regaste
De prantos e suores.
Certo, mais doce te seria agora
Jazer no meio lá dos teus desertos
À sombra da palmeira, não faltara
Piedoso orvalho de saudosos olhos
Que te regasse a campa;
Lá muita vez, em noites d'alva lua,
Canção chorosa, que ao tanger monótono
De rude lira teus irmãos entoam,
Teus manes acordara:
Mas aqui - tu aí jazes como a folha
Que caiu na poeira do caminho,
Calcada sob os pés indiferentes
Do viajor que passa.
Porém que importa - se repouso achaste,
Que em vão buscavas neste vale escuro,
Fértil de pranto e dores;
Que importa - se não há sobre esta terra
Para o infeliz asilo sossegado?
A terra é só do rico e poderoso,
E desses idolos que a fortuna incensa,
E que, ébrios de orgulho,
Passam, sem ver que co 'as velozes rodas
Seu carro d'ouro esmaga um mendigante
No lodo do caminho !...
Mas o céu é daquele que na vida
Sob o peso da cruz passa gemendo;
É de quem sobre as chagas do inditoso
Derrama o doce bálsamo das lágrimas;
E do órfão infeliz, do ancião pesado,
Que da indigência no bordão se arrima;
do pobre cativo, que em trabalhos
No rude afã exala o alento extremo;
- O céu é da inocência e da virtude,
O céu é do infortúnio.
Repousa agora em paz, fiel escravo,
Que na campa quebraste os ferros teus,
No seio dessa terra que regaste
De prantos e suores.
E vós, que vindes visitar da morte
O lúgubre aposento,
Deixai cair ao menos uma lágrima
De compaixão sobre essa humilde cova;
Aí repousa a cinza do Africano,
- O símbolo do infortúnio.
À uma estrela
Poesia oferecida a meu amigo
o Sr. A. G. G. V. C.
Salve, estrela solitária,
Que brilhas sobre esse monte,
Tímida luz maviosa
Derramando no horizonte.
Eu amo teu manso brilho
Quando lânguido se esbate,
Pelos campos cintilando,
De relva em úmido esmalte;
Quando trêmula argenteias
Um lago límpido e quedo,
Quando infiltras meigos raios
Pelas ramas do arvoredo.
Pálida filha da noite,
Sempre és pura e maviosa;
Fulge-te o rosto formoso
Qual branca orvalhada rosa.
Eu amo teu manso brilho,
Que como olhar amoroso,
Vigilante à noite se abre
Sobre o mundo silencioso,
Ou como um beijo de paz,
Que o céu sobre a terra envia,
Na face dela espargindo
Silêncio e melancolia.
Salve, ó flor do etéreo campo,
Astro de meigo palor!
Tu serás, formosa estrela,
O fanal do meu amor.
Neste mundo, que alumias
Com teu pálido clarão,
Existe um anjo adorável
Digno de melhor mansão.
Muitas vezes a verás
Sõzinha e triste a pensar,
E seus lânguidos olhares
Com teus raios se cruzar.
Nas faces a natureza
Lhe esparziu leve rubor,
Mas a fronte lisa e calma
Tem dos lírios o palor.
Mais que o ébano brunido
Lhe fulge a madeixa esparsa,
E cos anéis lhe sombreia
O níveo colo de garça.
Nos lábios de carmim vivo,
Rara vez paira um sorriso;
Não pode sorrir na terra,
Quem pertence ao paraíso.
Seus olhos negros, tão puros
Como o teu puro fulgor,
São fontes, onde minh'alma
Vai abrevar-se de amor.
Se a este mundo odioso,
Onde me langue a existência,
Me fosse dado roubar
Aquele anjo de inocência;
E nesses orbes que giram
Pelo espaço luminoso,
Pra nosso amor escolher
Um asilo mais ditoso...
Se eu pudesse a ti voar,
Astro de meigo palor,
E com ela em ti viver
Eterna vida de amor...
Se eu pudesse... Oh! vão desejo,
Que me embebe em mil delírios,
Quando assim de noite cismo
À luz dos celestes círios!
Porém ao menos um voto
Vou fazer-te, ó bela estrela,
À minha súplica atende,
Não é por mim, é por ela;
Tu, que és o astro mais belo
Que gira no azul do céu,
Sê seu horóscopo amigo,
Preside ao destino seu.
Leva-a sobre o mar da vida
Embalada em sonho ameno,
Como um cisne, que desliza
À flor de um lago sereno.
Se diante dos altares
Curvar os joelhos seus,
Dirige-lhe a prece ardente
Direito ao trono de Deus.
Se solitária cismar,
No mais brando raio teu
Manda-lhe um beijo de amor;
E puros sonhos do céu.
Veja sempre no horizonte
Tua luz serena e mansa,
Como um sorriso do céu,
Como um fanal de esperança.
Porém se o anjo celeste
Sua origem deslembrar,
E no lodo vil do mundo
As níveas asas manchar;
Ai! se louca profanando
De um puro amor a lembrança,
Em suas mãos sem piedade
Esmagar minha esperança,
Então, estrela formosa,
Cubra-te o rosto um bulcão
E sepulta-te para empre
Em perpétua escuridão!
Uma filha do campo
...Filha mimosa
De Atlântida formosa.
(Garrett)
O que há de mais puro do céu nos fulgores,
O que há de mais meigo num brando luar,
O que há de mais vivo do sol nos ardores,
Compõe seu olhar.
Os pudicos raios de aurora sem nuvens,
Por entre alvas névoas no monte a luzir,
Apenas imitam dos lábios formosos
O meigo sorrir.
As notas mais doces da lira do bardo,
Ou brisa amorosa cantando entre flores,
Não têm a doçura da voz, que me enleva
Qual hino de amores.
O sol destas plagas no rosto esparziu-lhe
De jambo e de rosa mimoso matiz;
E negra a madeixa, que tomba e flutua
Nos ombros gentis.
Não é flor nascida nos parques dos grandes,
Por mãos educada de um hábil cultor,
Em vasos custosos, onde a arte esmerou-se
Com luxo e primor.
E sim flor do campo, modesta e singela,
Que aos beijos da brisa nos ermos nasceu,
E abriu-se risonha, somente regada
Do orvalho do céu.
Quem dera colhê-la na sombra tranqüila,
Onde aura fagueira com beijos a embala,
O cálix beijar-lhe, beber-lhe o perfume,
No seio guardá-la.
Mas ai! peregrino, - não sei onde leva-me
O incerto destino destes dias meus!
E em minha passagem só posso deixar-lhe
Um hino e um adeus.
Araxá, 1855.
Ao cigarro
canção
Cigarro, minhas delícias,
Quem de ti não gostarás?
Depois do café, ou chá,
Há nada mais saboroso
Que um cigarro de Campinas
De fino fumo cheiroso?
Cigarro, quanto és ditoso!
Já reinas em todo mundo,
E esse teu vapor jucundo
Por toda parte esvoaça.
Até as moças bonitas
Já te fumam por chalaça !...
Sim; - já por dedos de neve
Posto entre lábios de rosa,
Em gentil boca mimosa
Tu te ostentas com vaidade.
Que sorte digna de inveja!
Que pura felicidade!
Anália, se de teus lábios
Desprendes subtil fumaça,
Ah! tu redobras de graça,
Nem sabes que encantos tens.
À invenção do cigarro
Tu deves dar parabéns.
Qual caçoula de rubim
Exalando âmbar celeste,
Tua boca se reveste
Do mais primoroso chiste.
A tão sedutoras graças
Nenhum coração resiste.
Embora tenha o charuto
Dos fidalgos a afeição,
E do conde ou do barão
Seja embora o favorito;
Mas o querido do povo
Es tu só, meu cigarrito.
Quem pode ver sem desgosto,
Esse charuto tão grosso,
Esse feio e negro troço
Nos lábios da formosura?...
E uma profanação,
Que o bom gosto não atura.
Mas um cigarrinho chique,
Alvo, mimoso e faceiro,
A um rostinho fagueiro
Dá realce encantador.
E incenso que vapora
Sobre os altares de amor.
O cachimbo oriental
Também nos dá seus regalos;
Porém nos beiços faz calos,
E nos faz a boca torta.
De tais canudos o peso
Não sei como se suporta!...
Deixemos lá o grão-turco
No tapete acocorado
Com seu cachimbo danado
Encher as barbas de sarro.
Quanto a nós, ó meus amigos,
Fumemos nosso cigarro.
Cigarro, minhas delicias,
Quem de ti não gostará?
Certo no mundo não há
Quem negue tuas vantagens.
Todos às tuas virtudes
Rendem cultos e homenagens.
És do bronco sertanejo
Infalível companheiro;
E ao cansado caminheiro
Tu és no pouso o regalo;
Em sua rede deitado
Tu sabes adormentá-lo.
Tu não fazes distinção,
És do plebeu e do nobre,
És do rico e és do pobre,
És da roça e da cidade.
Em toda a extensão professas
O direito de igualdade.
Vem pois, ó meu bom amigo,
Cigarro, minhas delícias;
Nestas horas tão propícias
Vem dar-me tuas fumaças.
Dá-mas em troco deste hino,
Que fiz-te em ação de graças.
Rio de Janeiro, 1864
A origem do mênstruo
De uma fábula de Ovídio achada
nas escavações de Pompéia e
vertida em latim vulgar por Simão de Nuntua.
Stava Vênus gentil junto da fonte
fazendo o seu pentelho,
com todo o jeito, pra que não ferisse
das cricas o aparelho.
Tinha que dar o cu naquela noite
ao grande pai Anquises,
o qual, com ela, se não mente a fama,
passou dias felizes...
Rapava bem o cu, pois, resolvia
na mente altas idéias:
- ia gerar naquela heróica foda
o grande e pio Enéias.
Mas a navalha tinham o fio rombo,
e a deusa, que gemia,
arrancava os pentelhos e peidando,
caretas mil fazia!
Nesse entretanto, a ninfa Galatéia,
acaso ali passava, e vendo a deusa assim tão agachada,
julgou que ela cagava...
Essa ninfa travessa e petulante
era de gênio mau,
e por pregar um susto à mãe do Amor,
atira-lhe um calhau...
Vênus se assusta. A branca mão mimosa
se agita alvoroçada,
e no cono lhe prega (oh! caso horrendo!)
tremenda navalhada.
Da nacarada cona, em sutil fio,
corre purpúrea veia,
e nobre sangue do divino cono
as águas purpureia...
(É fama que quem bebe dessas águas
jamais perde a tesão
e é capaz de foder noites e dias,
até no cu de um cão!)
- "Ora porra!" - gritou a deusa irada,
e nisso o rosto volta...
E a ninfa, que conter-se não podia,
uma risada solta.
A travessa menina mal pensava
que, com tal brincadeira,
ia ferir a mais mimosa parte
da deusa regateira...
- "Estou perdida!" - trêmula murmura
a pobre Galatéia,
vendo o sangue correr do róseo cono
da poderosa déia...
Mas era tarde! A Cípira, furibunda,
por um momento a encara,
e, após instantes, com severo acento,
nesse clamor dispara:
"Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,
que crime cometeste!
Que castigo há no céu, que punir possa
um crime como este?
Assim, por mais de um mês inutilizas
o vaso das delícias...
E em que hei de gastar das longas noites
as horas tão propícias?
Ai! Um mês sem foder! Que atroz suplício...
Em mísero abandono,
que é que há de fazer, por tanto tempo,
este faminto cono?
Ó Adonis! Ó Jupiter potentes!
E tu, mavorte invito!
E tu, Aquiles! Acudi de pronto
da minha dor ao grito!
Este vaso gentil que eu tencionava
tornar bem fresco e limpo
para recreio e divinal regalo
dos deuses do Alto Olimpo,
Vede seu triste estado, ó! Que esta vida
em sangue já se esvai-me!
Ó Deus, se desejais ter foda certa
vingai-vos e vingai-me!
Ó ninfa, o teu cono sempre atormente
perpétuas comichões,
e não aches quem jamais nele queira
vazar os seus colhões...
Em negra, podridão imundos vermes
roam-te sempre a crica,
e à vista dela sinta-se banzeira
a mais valente pica!
De eterno esquentamento flagelada,
verta fétidos jorros,
que causem tédio e nojo a todo mundo,
até mesmo aos cachorros!"
Ouviu-lhe estas palavras piedosas
do Olimpo o Grão-Tonante,
que em pívia ao sacana do Cupido
comia nesse instante...
Comovido no íntimo do peito,
das lástimas que ouviu,
manda ao menino que, de pronto, acuda
à puta que o pariu...
Ei-lo que, pronto, tange o veloz carro
de concha alabastrina,
que quatro aladas porras vão tirando
na esfera cristalina
Cupido que as conhece e as rédeas bate
da rápida quadriga,
co'a voz ora as alenta, ora co'a ponta
das setas as fustiga.
Já desce aos bosques onde a mãe, aflita,
em mísera agonia,
com seu sangue divino o verde musgo
de púrpura tingia...
No carro a toma e num momento chega
à olímpica morada,
onde a turba dos deuses, reunida,
a espera consternada!
Já Mercúrio de emplastros se aparelha
para a venérea chaga,
feliz porque aquele curativo
espera certa a paga...
Vulcano, vendo o estado da consorte,
mil pragas vomitou...
Marte arranca um suspiro que as abóbadas
celestes abalou...
Sorriu a furto a ciumenta Juno,
lembrando o antigo pleito,
e Palas, orgulhosa lá consigo,
resmoneou: - "Bem-feito"!
Coube a Apolo lavar dos roxos lírios
o sangue que escorria,
e de tesão terrível assaltado,
conter-se mal podia!
Mas, enquanto se faz o curativo,
em seus divinos braços,
Jove sustém a filha, acalentando-a
com beijos e com abraços.
Depois, subindo ao trono luminoso,
com carrancudo aspecto,
e erguendo a voz troante, fundamenta
e lavra este DECRETO:
- "Suspende, ó filha, os lamentos justos
por tão atroz delito,
que no tremendo Livro do Destino
de há muito estava escrito.
Desse ultraje feroz será vingado
o teu divino cono,
e as imprecações que fulminaste
agora sanciono.
Mas, inda é pouco: - a todas as mulheres
estenda-se o castigo
para expiar o crime que esta infame
ousou para contigo...
Para punir tão bárbaro atentado,
toda humana crica,
de hoje em diante, lá de tempo em tempo,
escorra sangue em bica...
E por memória eterna chore sempre
o cono da mulher,
com lágrimas de sangue, o caso infando,
enquanto mundo houver..."
Amém! Amém! como voz atroadora
os deuses todos urram!
E os ecos das olímpicas abóbadas,
Amém! Amém! sussurram...
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