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A PERFEIÇÃO
O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, co nfusos,
a perfeição. 
A LUCIDEZ PERIGOSA
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.
QUERO ESCREVE O BORRÃO VERMELHO DE SANGUE
Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder. 
OS LAÇOS DE FAMÍLIA
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que
as levaria à Estação. A mãe contava e recontava
as duas malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A
filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro estrabismo dava um contínuo
brilho de zombaria e frieza assistia.
- Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.
- Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha
divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre
sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as duas semanas
da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e
as boas-tardes soavam a cada momento com uma delicadeza cautelosa que
a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem
no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido
se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal dita",
dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio
não saber o que fazer das malas nas mãos, a gaguejar -
perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio, eles pensam que estou
louca", pensara Catarina franzindo as sobrancelhas. "Quem
casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um",
acrescentara a mãe, e Antônio aproveitara sua gripe para
tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido,
cuja segurança se desvanecera para dar lugar a um homem moreno
e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha...
Foi então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente
nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir: seus olhos
tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos
- e o riso saía pelos olhos. Sempre doía um pouco ser
capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos
olhos, desde sempre fora estrábica.
- Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe
resistindo aos solavancos do carro. E apesar de Antônio não
estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação
que empregava diante dele. Tanto que uma noite Antônio se agitara:
não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de
Severina, pois antes do casamento projetava serem sogra e genro modernos.
Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina
tornara-se difícil na boca do marido, e agora, então,
o fato de chamá-la pelo nome não impedira que... - Catarina
olhava-os e ria.
- O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi
avançava monótono.
- Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.
- Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso,
distraído. Durante a visita da avó tornara-se ainda mais
distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos
beliscões de amor da velha. Antônio, que nunca se preocupara
especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas
à sogra, "a proteger uma criança" ...
- Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando
uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra
e fez despencarem as malas. - Ah! ah! - exclamou a mãe como a
um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça
em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também
a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram surpreendidos,
ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente
possível remediar a catástrofe. Porque de fato sucedera
alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada
contra Severina, numa intimidade de corpo há muito esquecida,
vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se
haviam realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre
fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos obrigando-os
a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe
nem notava. Mas depois do choque no táxi e depois de se ajeitarem,
não tinham o que falar - por que não chegavam logo à
Estação?
- Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.
- Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.
- Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se
espiaram realmente quando as malas foram dispostas no trem, depois de
trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha
os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe
tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu chapéu novo, comprado
no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente
severo onde não faltava alguma admiração por si
mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar
senão eu, pensou a mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade
deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se "mãe e
filha" fosse vida e repugnância. Não, não se
podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía,
era isso. A velha guardara o espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo.
O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar
aos outros alguma impressão, da qual o chapéu faria parte.
A campainha da Estação tocou de súbito, houve um
movimento geral de ansiedade, várias pessoas correram pensando
que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina!
disse a velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça
de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz correndo
segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola
do vestido. Quando puderam ver-se de novo, Catarina estava sob a iminência
de lhe perguntar se não esquecera de nada...
- ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.
- Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa,
e ambas se olhavam atônitas - porque se realmente haviam esquecido,
agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança
chorava, novamente a campainha da Estação soou... Mamãe,
disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a outra? e agora
era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou
tua mãe, Catarina. E ela deveria ter respondido: e eu sou tua
filha.
- Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.
- Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar
porém de se preocupar com a própria aparência. A
mão sardenta, um pouco trêmula, arranjava com delicadeza
a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe perguntar
se fora feliz com seu pai:
- Dê lembranças a titia! gritou.
- Sim, sim!
- Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no
meio da fumaça as rodas já se moviam.
- Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro
solavanco a filha viu-a levar as mãos ao chapéu: este
caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova
dentadura. O trem já andava e Catarina acenava. O rosto da mãe
desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu,
o coque dos cabelos desmanchado caindo em mechas brancas sobre os ombros
como as de uma donzela - o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez
mesmo sem enxergar mais a filha distante.
No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta,
as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos estrábicos.
Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar:
sozinha era mais fácil. Alguns homens a olhavam, ela era doce,
um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos
curtos pintados de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas
que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão
vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja
- a força fluia e refluia no seu coração com pesada
riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada
na sua época e na cidade onde nascera como se a tivesse escolhido.
Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher
tinha pelas coisas do mundo. Espiava as pessoas com insistência,
procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido
de lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu
aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia; nada
impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse
mais um degrau misterioso nos seus dias.
O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto
se libertava do chapeuzinho com a outra mão; parecia disposta
a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe
que lhe ardia no peito. Antônio mal levantou os olhos do livro.
A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo depois
da partida de Severina, ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.
- "Ela" foi?
- Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho.
Ah, sim, lá estava o menino, pensou com alívio súbito.
Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara
firme; mas quase aos quatro anos falava como se desconhecesse verbos:
constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá
estava ele mexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia
um calor bom e gostaria de prender o menino para sempre a este momento;
puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino
olhava indiferente para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre
distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe verdadeiramente
a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia
com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse o menino.
Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia "mamãe"
nesse tom e sem pedir nada. Fora mais que uma constatação:
mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência
e perguntou-se a quem poderia contar o que sucedera, mas não
encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse
explicar. Desamarrotou a toalha com vigor antes de pendurá-la
para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que
o filho dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez:
mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos
a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam.
Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo
da própria tolice, fugindo de Severina, a mulher inesperadamente
riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo
todo riu quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo
como uma rouquidão. Feia, disse então o menino examinando-a.
- Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.
Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a
porta do apartamento.
Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro - e com surpresa
espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas já se ouvia
o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto,
tossindo e assoando o nariz. Porque sábado era seu, mas ele queria
que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o
seu sábado. Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela
não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e
um segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.
Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar.
E de súbito pondo-se em marcha.
Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança?
pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da
criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e,
mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca endurecida. A criança,
não se sabia por que obscura compreensão, também
olhava fixo para a frente, surpreendida e ingênua. Vistas de cima
as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao
solo e mais escuras à luz do mar. Os cabelos da criança
voavam...
O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência
de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via preocupado que
sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que
ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho... mas
o quê? "Catarina", pensou, "Catarina, esta criança
ainda é inocente!" Em que momento é que a mãe,
apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que
se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho,
já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela,
batendo dedos nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um
morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao
filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e
filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois
ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade
de um homem. "Catarina", pensou com cólera, "a
criança é inocente!" Tinham porém desaparecido
pela praia. O mistério partilhado.
"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois tinham ido
embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu sábado."
E sua gripe. No apartamento arrumado, onde "tudo corria bem".
Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da sala de luz bem
regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros?
fora isso o que ele lhe dera. Apartamento de um engenheiro. E sabia
que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço
e cheio de futuro - deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos,
fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem inquietou-se. Porque
não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E
porque sabia que ela o ajudaria a consegui-lo e odiaria o que conseguissem.
Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava
propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações
entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes ele procurava
humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque
sabia que ela detestava ser vista nua. Por que precisava humilhá-la?
no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto
fosse orgulhosa. Mas tinha se habituado a torna-la feminina deste modo:
humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor?
Talvez de tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas,
e aquelas conversas em voz tranqüila que faziam a atmosfera do
lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às
vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos.
De onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher
e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão tranqüilos
que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente,
quase irônicos, e os olhos de ambos diziam: não vamos gastá-lo,
não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido
desde sempre.
Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas
com o filho, e dissera-se: ela está tomando o momento de alegria
- sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia
viver senão com ela. E ela conseguia tomar seus momentos - sozinha.
Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não
que a suspeitasse mas inquietava-se.
A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade
sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia inteiro estivera
sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento,
sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez mais e zumbia no elevador
ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam
afastando as mariposas. O menino gritaria no primeiro sono, Catarina
interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia
por um instante sequer?! Não, o elevador não pararia um
instante.
- "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem. Porque
depois do cinema seria enfim noite, e este dia se quebraria com as ondas
nos rochedos do Arpoador. 
COMEÇOS DE UMA FORTUNA
Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar. E que mais
se assemelhavam à idéia que fazemos do tempo.
A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava
do jardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia.
Só algumas moscas brilhantes haviam penetrado na sala de jantar
e sobrevoavam o açucareiro. A essa hora, Tijuca não havia
despertado de todo. "Se eu tivesse dinheiro..." pensava Artur,
e um desejo de entesourar, de possuir com tranqüilidade, dava a
seu rosto um ar desprendido e contemplativo.
- Não sou um jogador.
- Deixe de tolices, respondeu a mãe. Não recomece com
histórias de dinheiro.
Na realidade ele não tinha vontade de iniciar nenhuma conversa
premente que terminasse em soluções. Um pouco da mortificação
do jantar da véspera sobre mesadas, com o pai misturando autoridade
e compreensão e a mãe misturando compreensão e
princípios básicos - um pouco da mortificação
da véspera pedia, no entanto, prosseguimento. Só que era
inútil procurar em si a urgência de ontem. Cada noite o
sono parecia responder a todas as suas necessidades. E de manhã,
ao contrário dos adultos que acordam escuros e barbados, ele
despertava cada vez mais imberbe. Despenteado, mas diferente da desordem
do pai, a quem parecia terem acontecido coisas durante a noite.
Também sua mãe saía do quarto um pouco desfeita
e ainda sonhadora, como se a amargura do sono tivesse lhe dado satisfação.
Até tomarem café todos estavam irritados ou pensativos,
inclusive a empregada. Não era esse o momento de pedir coisas.
Mas para ele era uma necessidade pacífica a de estabelecer domínios
de manhã: cada vez que acordava era como se precisasse recuperar
os dias anteriores. Tanto o sono cortava suas amarras, todas as noites.
- Não sou um jogador nem um gastador.
- Artur, disse a mãe irritadíssima, já me bastam
as minhas preocupações!
- Que preocupações? perguntou ele com interesse.
A mãe olhou-o seca como a um estranho. No entanto ele era muito
mais parente que seu pai, que, por assim dizer, entrara na família.
Apertou os lábios.
- Todo o mundo tem preocupações, meu filho, corrigiu-se
ela entrando então em nova modalidade de relações,
entre maternal e educadora.
E daí em diante sua mãe assumira o dia. Dissipara-se a
espécie de individualidade com que acordava e Artur já
podia contar com ela. Desde sempre, ou aceitavam-no ou reduziam-no a
ser ele mesmo. Em pequeno brincavam com ele, jogavam-no para o ar, enchiam-no
de beijos - e de repente ficavam "individuais" - largavam-no,
diziam gentilmente mas já intangíveis: "agora acabou",
e ele ficava todo vibrante de carícias, com tantas gargalhadas
ainda por dar. Tornava-se implicante, mexia num e noutro pé,
cheio de uma cólera que, no entanto, se transformaria no mesmo
instante em delícia, em pura delícia, se eles apenas quisessem.
- Coma, Artur, concluiu a mãe e de novo ele já podia contar
com ela. Assim imediatamente tornou-se menor e muito mais malcriado:
- Eu também tenho as minhas preocupações mas ninguém
liga. Quando digo que preciso de dinheiro parece que estou pedindo para
jogar ou para beber.
- Desde quando é que o senhor admite que podia ser para jogar
ou para beber? disse o pai entrando na sala e encaminhando-se para a
cabeceira da mesa. Ora essa! que pretensão!
Ele não contara com a chegada do pai. Desnorteado, porém
habituado, começou:
- Mas papai! sua voz desafinou numa revolta que não chegava a
ser indignada. Como contrapeso, a mãe já estava dominada,
mexendo tranqüilamente o café com leite, indiferente à
conversa que parecia não passar de mais algumas moscas. Afastava-as
do açucareiro com mão mole.
- Vá saindo que está na sua hora, cortou o pai. Artur
virou-se para sua mãe. Mas esta passava manteiga no pão,
absorta e prazerosa. Fugira de novo. A tudo diria sim, sem dar nenhuma
importância.
Fechando a porta, ele de novo tinha a impressão de que a cada
momento entregavam-no à vida. Assim é que a rua parecia
recebê-lo. "Quando eu tiver minha mulher e meus filhos tocarei
a campainha daqui e farei visitas e tudo será diferente",
pensou.
A vida fora de casa era completamente outra. Além da diferença
de luz - como se somente saindo ele visse que tempo realmente fazia
e que disposições haviam tomado as circunstâncias
durante a noite - além da diferença de luz, havia a diferença
do modo de ser. Quando era pequeno, a mãe dizia: "fora de
casa ele é uma doçura, em casa um demônio".
Mesmo agora, atravessando o pequeno portão, ele se tornara visivelmente
mais moço e ao mesmo tempo menos criança, mais sensível
e sobretudo sem assunto. Mas com um interesse dócil. Não
era uma pessoa que procurasse conversas, mas se alguém lhe perguntava
como agora: "menino, de que lado fica a igreja?", ele se animava
com suavidade, inclinava o longo pescoço, pois todos eram mais
baixos que ele; e informava atraído, como se nisso houvesse uma
troca de cordialidades e um campo aberto à curiosidade. Ficou
atento olhando a senhora dobrar a esquina em caminho da igreja, pacientemente
responsável pelo seu itinerário.
- Mas dinheiro é feito para gastar e você sabe com quê,
disse-lhe Carlinhos intenso.
- Quero para comprar coisas, respondeu um pouco vago.
- Uma bicicletinha? riu Carlinhos ofensivo, corado na intriga.
Artur riu desagradado, sem prazer.
Sentado na carteira, esperou que o professor se erguesse. O pigarro
deste, prefaciando o começo da aula, foi o sinal habitual para
os alunos se sentarem mais para trás, abrirem os olhos com atenção
e não pensarem em nada. "Em nada", foi a resposta perturbada
de Artur ao professor que o interpelava irritado. "Em nada"
era vagamente em conversas anteriores, em decisões pouco definitivas
sobre um cinema à tarde, em - em dinheiro. Ele precisava de dinheiro.
Mas durante a aula, obrigado a estar imóvel e sem nenhuma responsabilidade,
qualquer desejo tinha como base o repouso.
- Você então não viu logo que Glorinha estava querendo
ser convidada pro cinema? disse Carlinhos, e ambos olharam com curiosidade
a menina que se afastava segurando a pasta. Pensativo, Artur continuou
a andar ao lado do amigo,olhando as pedras do chão.
- Se você não em dinheiro para duas entradas, eu empresto,
você paga depois.
Pelo visto, do momento em que tivesse dinheiro seria obrigado a empregá-lo
em mil coisas.
- Mas depois eu tenho que devolver a você e já estou devendo
ao irmão de Antônio, respondeu evasivo.
- E então? que é que tem! explicou o outro, prático
e veemente.
"E então", pensou com uma pequena cólera, "e
então, pelo visto, logo que alguém tem dinheiro aparecem
os outros querendo aplicá-lo, explicando como se perde dinheiro."
- Pelo visto, disse desviando do amigo a raiva, pelo visto basta você
ter uns cruzeirinhos que mulher logo fareja e cai em cima.
Os dois riram. Depois disso ele ficou mais alegre, mais confiante. Sobretudo
menos oprimido pelas circunstâncias.
Mas depois já era meio-dia e qualquer desejo se tornava mais
árido e mais duro de suportar. Durante todo o almoço ele
pensou com rispidez em fazer ou não fazer dívidas e sentia-se
um homem aniquilado.
- Ou ele estuda demais ou não come bastante de manhã,
disse a mãe. O fato é que acorda bem disposto mas aparece
para o almoço com essa cara pálida. Fica logo com as feições
duras, é o primeiro sinal.
- Não é nada, é o desgaste natural do dia, disse
o pai bem humorado.
Olhando-se no espelho do corredor antes de sair, realmente era a cara
de um desses rapazes que trabalham, cansados e moços. Sorriu
sem mexer os lábios, satisfeito no fundo dos olhos. Mas à
porta do cinema não pôde deixar de pedir emprestado a Carlinhos,
porque lá estava Glorinha com uma amiga.
- Vocês preferem sentar na frente ou no meio? perguntava Glorinha.
Diante disso, Carlinhos pagou a entrada da amiga e Artur recebeu disfarçado
o dinheiro da entrada de Glorinha.
- Pelo visto, o cinema está estragado, disse de passagem para
Carlinhos.
Arrependeu-se logo depois de ter falado, pois o colega mal ouvira, ocupado
com a menina. Não era necessário diminuir-se aos olhos
do outro, para quem uma sessão de cinema só tinha a ganhar
com uma garota.
Na realidade o cinema só esteve estragado no começo. Logo
depois ele relaxou o corpo, esqueceu-se da presença ao lado e
passou a ver o filme. Somente perto do meio teve consciência de
Glorinha e num sobressalto olhou-a disfarçado. Com um pouco de
surpresa constatou que ela não era propriamente a exploradora
que ele supusera: lá estava Glorinha inclinada para frente, a
boca aberta pela atenção. Aliviado, recostou-se de novo
na poltrona.
Mais tarde, porém, indagou-se se tinha ou não sido explorado.
E sua angústia foi tão intensa que ele parou diante da
vitrina com uma cara de horror. O coração batia como um
punho. Além do rosto espantado, solto no vidro da vitrina, havia
panelas e utensílios de cozinha que ele olhou com certa familiaridade.
"Pelo visto, fui", concluiu e não conseguia sobrepor
sua cólera ao perfil sem culpa de Glorinha. Aos poucos a própria
inocência da menina tornou-se a sua culpa maior: "então
ela explorava, explorava, e depois ficava toda satisfeita vendo o filme?"
Seus olhos se encheram de lágrimas. "Ingrata", pensou
ele escolhendo mal uma palavra de acusação. Como a palavra
era um símbolo de queixa mais do que de raiva, ele se confundiu
um pouco e sua raiva acalmou-se. Parecia-lhe agora, de fora para dentro
e sem nenhuma vontade, que ela deveria ter pago daquele modo a entrada
do cinema.
Mas diante dos livros e cadernos fechados, seu rosto desanuviava-se.
Deixou de ouvir as portas que batiam, o piano da vizinha, a voz da mãe
no telefone. Havia um grande silêncio no seu quarto, como num
cofre. E o fim da tarde parecia com uma manhã. Estava longe,
longe, como um gigante que pudesse estar fora mantendo no aposento apenas
os dedos absortos que viravam e reviravam um lápis. Havia instantes
em que respirava pesado como um velho. A maior parte do tempo, porém,
seu rosto mal aflorava o ar do quarto.
- Já estudei! gritou para a mãe que interpelava sobre
o barulho da água.
Lavando cuidadosamente os pés na banheira, ele pensou que a amiga
de
Glorinha era melhor que Glorinha. Nem tinha procurado reparar se Carlinhos
"aproveitara" ou não da outra. A essa idéia,
saiu muito depressa da banheira e parou diante do espelho da pia. Até
que o ladrilho esfriou seus pés molhados.
Não! não queria explicar-se com Carlinhos e ninguém
lhe diria como usar o dinheiro que teria, e Carlinhos podia pensar que
era com bicicletas, mas se fosse o que é que tem? e se nunca,
mas nunca, quisesse gastar o seu dinheiro? e cada vez ficasse mais rico?...
que é que há, está querendo briga? você pensa
que...
- ... pode ser que você esteja muito ocupado com os seus pensamentos,
disse a mãe interrompendo-o, mas ao menos coma o seu jantar e
de vez em quando diga uma palavra.
Então ele, em súbita volta à casa paterna:
- Ora a senhora diz que na mesa não se fala, ora quer que eu
fale, ora diz que não se fala de boca cheia, ora...
- Olhe o modo como você fala com sua mãe, disse o pai sem
severidade.
- Papai, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas, papai,
como é promissórias?
- Pelo visto, disse o pai com prazer -, pelo visto o ginásio
não serve para nada.
- Coma mais batata, Artur, tentou a mãe inutilmente arrastar
os dois homens para si.
- Promissórias, dizia o pai afastando o prato, é assim:
digamos que você tenha uma dívida.
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