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GEOLOGIA E METÁFORAS GEOLÓGICAS EM OS SERTÕES
GEOLOGY AND GEOLOGICAL METAPHOR
IN OS SERTÕES*
José Carlos Barreto de Santana
Professor Titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Rua São Jorge, 63 - Bairro Eucaliptos
44.720-770 - Feira de Santana - BA
Tel.: 55 075 616 4307
E-mail: zecarlos@uefs.br
Doutor em História Social /
História das Ciências pela Universidade de São Paulo
(USP), desenvolve pesquisas sobre a história das ciências
no Brasil entre os séculos XIX e XX. É autor do livro Ciência
e arte: Euclides da Cunha e as ciências naturais, a ser publicado
pela HUCITEC.
Este trabalho é uma versão com pequenas modificações
do trabalho de mesmo título publicado em História, Ciências,
Saúde Manguinhos, Rio de Janeiro, FIOCRUZ/Casa de Oswaldo
Cruz, v. V, suplemento, p. 117-131, 1997.
RESUMO
Neste trabalho é feita uma interpretação
da construção do conhecimento geológico do principal
livro de Euclides da Cunha. Visando caracterizar este conhecimento são
buscadas em cadernetas de anotações, reportagens e artigos
(de e sobre) Euclides da Cunha e no próprio livro, as evidências
que possam nortear o entendimento de porque o conteúdo geológico
ganha tão forte significação em Os sertões,
a ponto de constituir-se em elemento para construções metafóricas
em momentos importantes da sua narrativa.
Partindo dos escritos de Euclides da Cunha, relacionados
à Guerra de Canudos, mas anteriores ao livro, busco uma interpretação
sobre a maneira como se processava o conhecimento do engenheiro nas suas
mediações com autores e trabalhos das ciências naturais
e mais especificamente geológicas, o que significa, em certos momentos,
uma comparação textual de Os sertões com livros
e artigos, cujas evidências apontem a possibilidade de terem servido
de fonte para o escritor.
PALAVRAS-CHAVE: Os sertões,
Euclides da Cunha, história das ciências, metáforas
geológicas, conhecimento geológico.
ABSTRACTS
In this paper an interpretation of the building of the
geological knowledge of the main book by Euclides da Cunha has been done.
With the purpose to characterize this knowledge, the evidences are searched
in notebooks, reports and articles (by and about) Euclides da Cunha and
in the book itself, those evidences may guide the understanding of why
the geological content has such a remarkable meaning in Os sertões
that even constitute an element for metaphorical constructions in important
moments of its narrative.
From Euclides da Cunhas writing on Guerra de Canudos,
previous to the book, I seek for an interpretation about the way the engineers
knowledge was processed in his mediations with authors and Natural Science
works and more specifically the Geological Science, what means, sometimes,
a text comparison between Os sertões and books and articles,
whose evidences point at a possibility of having served as a source for
the writer
KEYWORDS: Os sertões,
Euclides da Cunha, History of Sciences, geological metaphors, geological
knowledge.
"A nossa Vendéia", o "Diário
de uma expedição" e a Caderneta de campo:
fontes primárias de Os sertões
Antes de escrever Os sertões, Euclides
da Cunha tratou, pela primeira vez, da Guerra de Canudos no artigo "A
nossa Vendéia", publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo em
14 de março de 1897. Motivara o artigo o revés sofrido pela
Expedição comandada pelo Coronel Moreira César, no
enfrentamento com os seguidores de Antônio Conselheiro.
Sendo um artigo para tratar da guerra que se desenrolava
no interior da Bahia, o artigo surpreende pela abordagem, onde o autor
se demora a tratar de aspectos do meio físico da região,
vista como definidora do homem que ali vivia e combatia, prefigurando
a orientação determinista que seria adotada em Os sertões.
A natureza já aparece antropomorfizada, como partícipe da
própria luta e, pelas características de suas rochas, solo
e vegetais, é, mais que os sertanejos, "o mais sério
inimigo das forças republicanas". O homem local reflete as
características físicas da natureza e, sendo identificados
à própria aspereza do solo em que nasceram, educados numa
rude escola de dificuldades e perigos, têm, naturalmente, "toda
a inconstância e toda a rudeza do meio em que se agitam" (Cunha,
1897/1966a, p.575-578).
Retornando ao assunto em novo artigo com o mesmo título
(17 de julho de 1897), novamente reaparece a apresentação
detalhada do meio ambiente, que oscila entre os extremos da maravilhosa
exuberância, durante as quadras chuvosas e benéficas, e da
completa esterilidade, correspondente aos longos intervalos das secas.
A natureza ainda tem o papel de proteger o sertanejo durante a luta, erguendo
trincheiras na movimentação irregular do solo e facilitando-lhe
a fuga no meio de uma vegetação que se torna impenetrável
aos que lhe são estranhos. A própria inferioridade dos sertanejos
em armamentos é compensada pelo fornecimento natural do salitre
para a composição da pólvora e dos seixos rolados
de quartzo, que "são depósitos inexauríveis
de balas" (Cunha, 1897/1966a, p.578-582).
Quando aconteceu o desastre da Expedição
Moreira César, Euclides da Cunha participou de uma conversa na
casa de Teodoro Sampaio sobre a questão, e teria levado deste algumas
notas sobre as terras do sertão baiano, além de pedir autorização
para fazer uma cópia de um mapa, ainda inédito na parte
referente a Canudos, que Teodoro Sampaio organizara (Sampaio, 1919). Mapa
e notas devem ter servido de base para os seus primeiros escritos sobre
o sertão da Bahia.
Todos os grandes jornais da época mandaram enviados
especiais para Canudos, e os dois artigos publicados sobre a luta valeram
a Euclides da Cunha o convite de Júlio Mesquita, dono de O Estado
de S. Paulo, para fazer a cobertura da guerra como correspondente
do jornal paulista.
Euclides da Cunha chegou à Bahia em 7 de agosto
de 1897 e, durante a sua permanência na capital do Estado, manteve
contatos e esteve presente nas redações dos órgãos
da imprensa local, que o receberam com destaque. Os jornais do dia
8 de agosto noticiaram que o engenheiro/jornalista vinha incumbido de
estudar "as condições geológicas do terreno
de Canudos" e escrever um livro sobre a guerra que se desenrolava
naquela localidade, o que significaria "estudar a região sob
o ponto de vista militar e científico" (Calasans, 1969, p.48).
Partiu Euclides da Cunha de Salvador com destino a Canudos
em fins de agosto, descrevendo, no seu Diário de uma Expedição1
(Cunha, 1897/1966b), a geologia da região por onde passa a estrada
de ferro que liga Salvador a Queimadas, notadamente no trecho até
a cidade de Alagoinhas, e parecendo distinguir a transição
entre formações geológicas, o escritor ressaltou
que a sua observação "(...) já de si mesmo resumida
aos breves horizontes de imperfeitíssimos conhecimentos geológicos,
fez-se em condições anormais na passagem rápida de
um trem". Essa evidente preocupação com as características
dos seus conhecimentos geológicos pode ser encontrada, também,
em outros trechos do seu Diário, a exemplo da visita feita
ao Rio Itapicuru de onde ele recolheu amostra de areia, que pretendia
fosse examinada por "pessoa mais competente" (Cunha, 1897/1966b,
p.535).
As anotações sobre a geologia da região
prosseguem no Diário e são encontradas também na
sua Caderneta de Campo2 (Cunha, 1975) onde meticulosos
croquis ilustram as suas observações sobre o relevo e onde,
pela primeira vez, aparece o roteiro de um estudo a ser realizado, que
resultaria em Os sertões.
Foi na estrada entre Queimadas e Monte Santo que Euclides
da Cunha entrou pela primeira vez em contato direto com as caatingas,
que ele considerou capazes de assombrar ao mais experimentado botânico:
"De um, sei eu [dizia Euclides], que ante ela faria prodígios.
Eu porém, perdi-me logo, perdi-me desastrosamente no meio da multiplicidade
das espécies (...)" (Cunha, 1897/1966b, p.531).
Esses trechos retirados do Diário de uma Expedição
e da Caderneta de Campo, pinçados não por acaso,
permitem colocar a seguinte interrogação: quem seriam essas
"pessoas mais competentes" que iriam analisar amostras recolhidas
e quem seria o botânico que faria prodígios diante daquela
"estranha e impressionadora" caatinga do sertão baiano?
Certamente Euclides da Cunha estava se referindo aos
seus amigos da Comissão Geográfica e Geológica de
São Paulo, dirigida por Orville Derby e local onde trabalhava Alberto
Loefgren3, este último provavelmente o botânico
que Euclides imaginava ser capaz de "fazer prodígios"
diante da vegetação sertaneja. Derby, Loefgren e Teodoro
Sampaio haviam indicado o nome de Euclides da Cunha para sócio
do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
antes da viagem para a Bahia.
Parece-me interessante observar que os elementos até
aqui levantados mostram um Euclides da Cunha envolvido com pessoas da
comunidade científica da sua época e que, ao se apresentar
nas redações dos jornais baianos como alguém capacitado
para realizar levantamento geológico da região de Canudos,
o próprio Euclides identificava-se como um integrante dessa comunidade.
Um outro aspecto significativo diz respeito ao conhecimento
que Euclides da Cunha já demonstrava ter sobre a região.
Conhecimento mediado pelas leituras feitas ainda em São Paulo ou
já na Bahia, e que permitiram ao engenheiro realizar a distinção
entre diferentes camadas geológicas durante uma viagem de trem,
num trecho cujas informações poderiam ser obtidas através
de consulta ao mapa fornecido por Teodoro Sampaio, ao artigo "A bacia
cretácea da Bahia de todos os Santos" (1878), de Orville Derby
ou ao livro Geology and Physical Geography of Brazil (1870), de
Frederick Hartt.
"A Terra"
Quem lê Os sertões depara-se com
uma estrutura em três partes ("A terra", "O homem"
e "A luta"), encadeadas de tal maneira que a sua representação
da natureza, em "A terra", configura-se como uma antecipação
do que vai ser encontrado nas partes seguintes.
A primeira parte do livro, "A terra", é
uma narrativa da natureza, subdividida em cinco capítulos nos quais
são abordados a geologia, o relevo, o clima e a vegetação,
constituindo a base em que o autor se apoia para compreender a ação
do meio na formação das etnias e sua influência na
gênese das personagens típicas. Antecedendo o texto encontra-se
um encarte contendo um mapa do Estado da Bahia, intitulado "Esboço
Geológico", com autoria atribuída a autores diversos,
correspondendo a uma síntese feita por Euclides da Cunha a partir
de informações daqueles4 (Cunha, 1902/1985:89).
Ao optar pelo mapa como elemento de recepção
ao leitor, antes de iniciar o texto de Os sertões, Euclides
da Cunha nós dá a conhecer aqueles que serão os seus
interlocutores ao longo do livro: os viajantes naturalistas e cientistas,
apresentados como autores do mapa. O que vamos encontrar em seguida é
um imenso diálogo a muitas vozes, mediado pelo narrador.
A apresentação destes viajantes naturalistas
e cientistas, e mais outros que aparecerão ao longo do texto; outros
três mapas, com ou sem atribuição de autoria; um desenho
de trecho das caatingas e três fotografias, encontram-se distribuídos
em Os sertões, e se encaixam no panorama de "minuciosos
inventários de estudiosos, cheio de pranchas e mapas (...) interlocutores
preferenciais de uma prosa que se deseja capaz de definir o próprio
país, inventariar suas paisagens e populações, mapeá-lo,
enfim", a que se refere Flora Sussekind (1980:60) ao investigar a
constituição de um narrador de ficção na prosa
brasileira em O Brasil não é longe daqui. Para Roberto
Ventura (1995:610) o diálogo de Euclides da Cunha com o cientista
ou viajante naturalista seria ainda evidenciado pelo predomínio
do "ponto de vista impessoal do viajante em movimento, que dá
expressão artística ou científica às suas
impressões", quer se trate dos ensaios sobre a Amazônia
ou do relato dos acontecimentos da guerra de Canudos.
"Ponto de vista impessoal do viajante em movimento,
que dá a expressão artística ou científica
às suas impressões". Esta parece ser a intencionalidade
presente em Os sertões já desde as primeiras linhas
de "A terra", quando Euclides da Cunha descreve o que ele chama
de "planalto central do Brasil". Ao eleger o que seria para
ele uma grande unidade do relevo do país, o narrador necessita
utilizar uma escala muito reduzida, como faria um geólogo, por
exemplo, na qual só os grandes traços se farão presentes,
e à medida em que o observador se aproxima do objeto em estudo,
vai verificando uma mudança de escala. O relevo começa a
ser percebido nas suas variações e nas suas relações
com a orla marítima, e o narrador introduz novos elementos, como
a bacia do São Francisco. Serras menores e formações
geológicas começam a se individualizar. Depois, ainda num
movimento descendente, com a aproximação variando a escala,
já são os rios que aparecem, as povoações
também, até que, saindo do sul, "o observador que seguindo
este itinerário deixa as paragens em que se revezam, em contrastes
belíssimos, a amplitude dos gerais e o fastígio das montanhas,
ao atingir aquele ponto estaca surpreendido... Está sobre um socalco
do maciço continental, ao norte" (Cunha, 1902/1985, p.96).
E novos elementos vão surgindo, traços menores são
visíveis nesta nova escala: pequenos rios aparecem, a vegetação
finalmente pode ser percebida e o observador afinal avista os habitantes
daquelas paragens.
Nesta viagem fantástica, do sul ao norte, de
alto a baixo, Euclides da Cunha realiza algumas das suas generalizações,
tentando fundir, em poucas páginas, o conhecimento que vinha sendo
construído num largo tempo pelos viajantes naturalistas e cientistas.
O roteiro percorrido é o mesmo por onde transitaram alguns, como
Spix, Martius e Gardner, onde se fixaram outros, como Eschwege e Lund,
e ainda o espaço onde se verificaram as atividades, por exemplo,
da Comissão Geológica do Império, da Escola de Minas
de Ouro Preto, das Comissões de Exploração do Rio
São Francisco, da Comissão Geográfica e Geológica
de São Paulo e da Comissão de Exploração do
Planalto Central.
As generalizações indicam que o diálogo
de Euclides da Cunha se faz com atores e tradições diferentes,
o que significa dizer que, neste caso, o autor não se permitiu
uma "linha reta", onde o seu texto possa ser imediatamente cotejado
com o de um outro narrador. Vale então o alerta de Leopoldo Bernucci
para a necessidade de perseverança ao ler Os Sertões,
"quando esta leitura significa um duro e muitas vezes frustado exercício
de exegese e hermenêutica", sem o qual se estará
fadado a comentar questões periféricas sem poder chegar
aos aspectos centrais do texto, lembrando ainda que isto se aplica para
as relações textuais que se dão entre Os
Sertões e as demais disciplinas que com grande freqüência
contribuem para o seu discurso intertextual: história, literatura,
geologia, geografia, antropologia e ciências sociais (Bernucci,
1995, p.52-53).
Alguns trabalhos de Orville Derby, como a "Contribuição
para o estudo da geologia do vale do rio São Francisco" (1879),
"Os picos altos do Brasil" (1889 e 1890), e os capítulos
escritos por Derby para A Geografia Física do Brasil de
J.E. Wappaeus (1884) (IV -"Aspectos físicos, montanhas e chapadões"
e V - Estrutura geológica e minerais"), são as principais
fontes de Euclides da Cunha na elaboração das páginas
iniciais de Os sertões.
As "possantes massas gnaíssegraníticas"
que surgiriam primeiro, a partir do extremo sul, no "grande maciço
continental", "os extensos chapadões cujas urdidura de
camadas horizontais de grés argiloso, intercaladas de emersões
calcárias, ou diques de rochas eruptivas básicas lhe explica
a exuberância sem par e as áreas complanadas e vastas",
as descrições das serras da Mantiqueira e do Espinhaço,
ou dos tabuleiros onde predominam os lençóis de arenito
que vão se associar ao calcário, até que "reponta
a região diamantina, na Bahia, revivendo inteiramente a de Minas"
(Cunha: 1902/1985, p.92-95), encontram seus correlatos nos trabalhos de
Derby (1879, p.115; 1884, p.41-51 e 1889, p.132).
No entanto, Euclides da Cunha não segue a classificação
proposta por Orville Derby para o planalto brasileiro e escreve que o
"planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas
inteiriças, altas e abruptas" (Cunha, 1902/1985, p.91). Euclides
da Cunha chamava de planalto central o que era o planalto brasileiro na
classificação de Derby (1884).
Para entender esta opção de Euclides da
Cunha é preciso retornar antes ao texto de Flora Sussekind, mais
especificamente ao momento em que, analisando o diálogo entre o
narrador de ficção e os naturalistas viajantes, a autora
fala da necessidade de se "fundar uma geografia e uma paisagem
singulares e descrever acidentes, cenários e tipos peculiares"
a partir da cartografia e da "ciência da viagem" (Sussekind,
1990, p.:61). Mas, na elaboração euclidiana, este diálogo
não acontece num plano único pois, conforme lembra Lourival
Holanda, "o grande lance da construção do discurso
euclidiano está no modo de dar dupla direção ao discurso:
1o - há o nível corrente ao relato, onde tudo
parece circular à superfície, no sentido da evidência
do texto testemunhal; 2o - há outro nível, eixado
na habilidade lingüística para velar e revelar sentidos insuspeitados
através das conexões das imagens" (Holanda, 1992, p.8).
Assim, acredito que existe nas primeiras páginas
de Os sertões a intenção de se fundar uma
geografia e uma paisagem, baseadas inicialmente no diálogo com
os textos preexistentes, que ganham um caráter de testemunho do
que era conhecido. Mas esta geografia e paisagem guardam em si uma estreita
correspondência com o que será encontrado ao longo do livro,
ainda que seja necessário, para isto, criar um conceito que revela
"sentidos insuspeitados". Não é por acaso que
Euclides da Cunha inicia o seu texto com a descrição de
uma região que é conhecida e estudada pela ciência,
com as suas terras propícias á vida, e que "estaca
surpreendida" diante de um hiato, excepcional e selvagem. A natureza
prefigura então o embate entre o poder central e os sertanejos.
E, assim como não caberia se falar que o Brasil lutava contra Canudos,
não poderia ser outro que não o central, o planalto que
descamba sobre a Terra ignota, por mais que isto viesse a soar
como um "erro geográfico".
Uma das mais arrojadas generalizações
de Euclides da Cunha foi construída em torno da imagem do observador
que, deparando com a paragem impressionante do sertão, "tem
a impressão persistente de calcar o fundo récem-sublevado
de um mar extinto, tendo ainda estereotipada naquelas camadas rígidas
a agitação das ondas e das voragens...". (Cunha, 1902/1985,
p.103-104).
A "sugestão empolgante", que contemplava
um vasto oceano cretáceo-terciário cobrindo grande parte
dos estados do norte, foi baseada inicialmente nos capítulos V
e VI da primeira parte do livro de Emmanuel Liais, Climats, geologie,
faune et geographie botanique du Brésil (1872). Liais considerava
que entre as idades secundária (Era Mesozóica) e terciária
(Era Cenozóica) um rebaixamento do território brasileiro
permitiu o depósito de camadas terciárias em regiões
que atualmente constituem o planalto brasileiro. Para reforçar
as suas opiniões, Liais inclui, na descrição de tal
evento, referências a evidências levantadas por Hartt, Agassiz,
Gardner, Humboldt e outros investigadores da América do Sul e Central.
Frederick Hartt, antes de Liais, admitia que durante
o terciário o planalto do Brasil esteve submetido a uma submersão
de extensão continental e suas idéias a respeito apareceram
no capítulo XIII do livro A journey in Brazil (Agassiz,
1868), e no livro Geology and Geography Physical of Brazil (Hartt,
1870). No trabalho "Recent explorations in the valley of the Amazonas"
publicado na revista do American Geographical Society of New York
(1872), Hartt estabeleceu uma hipótese mais geral sobre a gênese
do continente americano e parte dela foi transcrita por Orville Derby
no seu trabalho "Contribuições para a geologia da região
do Baixo Amazonas", publicado em 1877 nos Arquivos do Museu Nacional.
Frederick Hartt descreveu assim uma parte dos eventos
geológicos no continente sul americano, entre as Eras Mesozóica
e Cenozóica: "o vale do Amazonas, ao princípio, apareceu,
como um largo canal entre duas ilhas ou grupos de ilhas, dos quais uma
constituiu a base e o núcleo do planalto brasileiro, e a outra
ao norte, do planalto das Guianas. Estas ilhas apareceram no princípio
da idade siluriana ou pouco depois dele. Naquela época os Andes
não existiam ainda" (Hartt, citado por Derby, 1977, p.83).
Este trecho aparece em Os sertões com a seguinte redação:
"Não existiam os Andes, e o Amazonas, largo canal entre as
altiplanuras das Guianas e as do continente, separava-as, ilhadas. Para
as bandas do sul o maciço de Goiás - o mais antigo do mundo
- segundo a bela dedução de Gerber, o de Minas e parte do
planalto paulista, onde fulgurava, em plena atividade, o vulcão
de Caldas, constituiam o núcleo do continente futuro..." (Cunha,
1902/1985, p.104).
Euclides da Cunha utilizou esta hipótese para
tratar do movimento mais geral do continente com o pensamento voltado
para uma "corrente impetuosa" que, num longo embate, "modelava
aquele recanto da Bahia até que ele emergisse de todo, seguindo
o movimento geral das terras, feito informe amontoado de montanhas derruídas".
De uma forma geral é o retorno a um esquema básico
da narrativa euclidiana: forças que se embatem no mesmo "conflito
secular" que já se encontra desde a primeira página
de Os sertões, e a geologia aparece como que dotada de vontade
e sentimentos e se presta com perfeição a esta narrativa
de movimento, com suas camadas que se deprimem e se elevam, com suas forças
capazes de rasgar as formações rochosas e com massas magmáticas
que extravassam do interior desconhecido. Mais uma vez estamos diante
de uma representação da natureza em conflito, que prefigura
o embate secular entre o homem e o meio e ainda o combate entre o litoral
e o sertão ou entre o soldado e o jagunço.
Mas existe um aspecto que merece atenção
na construção da narrativa euclidiana e que envolve a maneira
pela qual ele dialogava com os dados fornecidos pela ciência, selecionando
as informações que melhor serviam para dar uma "confirmação
científica" às suas idéias, ainda que as mesmas
fontes contivessem elementos impeditivos destas idéias. Neste sentido
ganha significado a observação de Leopoldo Bernucci sobre
o aspecto da capacidade do escritor em transformar simples impressões
em dados minuciosos e completos, ainda quando pairem dúvidas sobre
a veracidade da narrativa. "Com efeito, para o leitor incauto, através
da linguagem estonteante e persuasiva de Euclides, a representação
da natureza chega a ser tão perfeita e detalhada, a despeito de
sua factibilidade, que o que passa a adquirir importância parece
já não ser propriamente o que se narra mas como se narra"
(Bernucci, 1995, p.107).
É o caso da contemplação de um
mar cretáceo extinto na região de Monte Santo, que deveria
ser inviabilizada pelos estudos de Hartt e Derby. Hartt acreditava, baseado
nas evidência dos fosseis, que a maior parte da série cretácea
da Bahia foi formada pela acumulação dentro de uma bacia
fechada de água doce (Hartt, 1870/1941, p.411 e 596). A mesma opinião
tinha Derby sobre a existência em redor da Bahia de Todos os Santos
de depósitos pertencentes à idade cretácea, numa
extensão muito maior do que a atual, que corresponderia a uma "antiga
baia ou antes laguna, porque os depósitos converteram-se em grande
parte, senão totalmente, em água doce" (Derby, 1878,
p.135).
Como me parece evidente que Euclides da Cunha conhecia
os trabalhos de Hartt e Derby citados anteriormente, é correto
afirmar que a sua escolha tinha a finalidade específica de validar,
pelo ponto de vista da ciência, uma "profecia retrospectiva"
que se diferenciaria da profecia de um sertão que um dia seria
praia, apenas pelo sentido da seta do tempo.
"O Homem" e "A Luta"
Após a narrativa da natureza, contida em "A
Terra", volta-se Euclides da Cunha para a análise do homem
que resultaria daquela. O tema central da segunda parte de Os sertões,
"O Homem", é a formação antropológica
do brasileiro, resultante da miscigenação de três
raças. A abordagem de "O Homem" não é essencialmente
diferente do que foi visto para "A Terra". Num primeiro momento
são apresentados os interlocutores, cientistas vários que
trataram em algum momento da questão racial. Tem início
então a apresentação, partindo de um esquema mais
geral, dos elementos formadores das etnias, passando-se para os produtos
da mestiçagem e, reduzindo a mira, aparece um objeto específico
do estudo, o sertanejo, e a trajetória pessoal do personagem em
trono do qual giram os sucessos passados nos sertões baianos.
Vários retornos são feitos à questão
climática e à "urdidura geológica da terra",
para que finalmente se possa tomar conhecimento do sertanejo como "perfeita
tradução moral dos agentes físicos de sua terra".
"É inconstante como ela, é natural que o seja. Viver
é adaptar-se. Ela o adaptou à sua imagem: bárbaro,
impetuoso, abrupto..." (Cunha, 1902/1985, p.183-184).
A antropomorfização da natureza, que,
desde a primeira parte do livro, parece dotada de vontade e sentimento,
e a associação natureza-sertanejo aparecem constantemente
no texto euclidiano. A natureza é sempre uma aliada dos sertanejos,
defendendo-os e amparando-os, e um inimigo dos soldados, que se apavoram
diante do desconhecido. A natureza chega mesmo a participar da luta, como
no caso das caatingas que "armam-se para o combate; agridem. Trançam-se,
impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multivias,
para o matuto que ali nasceu e cresceu" (Cunha, 1902/1985, p.277).
A participação direta do meio físico
nos combates é que possibilita em certos momentos que os sertanejos
superem as forças regulares do exército, invertendo a esperada
supremacia destes, que, embora mais possantes, se tornam a "fraqueza
do governo". Então "a luta é desigual. A força
militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E quando
o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é
difícil prever a quem cabe a vitória (...). A natureza toda
protege o sertanejo. Talha-o como Anteu indomável. É um
titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos"
(Cunha, 1902/1985, p.281).
Outras vezes a natureza não apenas combate, mas,
ao mesmo tempo, fornece a munição que necessitavam os sertanejos.
Estes, às vezes, deixavam que agisse, quase exclusiva a sua arma
formidável - a terra, que ainda lhe oferecia "blocos esparsos
ou arrumados em pilhas vacilantes prestes a desencadear o potencial de
quedas violentas, pelos declives", ou lhe facilitava o carvão,
o salitre para o explosivo e lascas de pedras e ossos para substituir
o chumbo, com o que não haveria de faltar a carga para a boca larga
dos bacamartes (Cunha, 1902/1985, p.311 e 332-333).
Mas, acima de tudo, a natureza toda era a proteção
do sertanejo, sob a qual o jagunço torna-se um guerrilheiro intangível.
"As caatingas não o escondem apenas, amparam-no" (Cunha,
1902/1985, p.278).
No campo oposto encontravam-se os soldados, que desconheciam
o espaço do teatro da luta e viam-se em pânico diante de
um meio que lhes era hostil e de um oponente que lhes aparecia cada vez
mais como ser fantástico. Os componentes das forças militares
mostravam-se amedrontados diante do desconhecido da terra que nunca tinham
visto. "Antes do sertanejo é o próprio sertão
que assusta os soldados" (Cunha, 1902/1985, p.292).
As metáforas
O encadeamento das partes integrantes de Os sertões
faz com que "A Terra" possa ser lida como uma espécie
de índice narrativo dos capítulos seguintes. Walnice Galvão
(1994, p.626) lembra que os capítulos da luta, "deflagram
retroativamente as duas partes inicias, onde se encontram sistemas de
metáforas que prefiguram aquilo que vai ser episódio de
crônica da guerra". Vem da geologia algumas das mais expressivas
representações metafóricas do livro.
A primeira aparição de Antônio Conselheiro
em Os sertões se dá através da sua associação
a uma "anticlinal extraordinária" "sublevada das
camadas mais profundas da nossa estratificação étnica".
Afirmando a correção da imagem, Euclides da Cunha equipara
o trabalho de um geólogo para traçar o perfil de uma montanha
antiga a partir dos indícios e evidências registrados nas
rochas, ao que desenvolve o historiador ao investigar na sociedade os
traços que determinaram a existência do Conselheiro (Cunha,
1902/1985, p.206).
A anticlinal, uma dobra com a convexidade voltada para
cima e os flancos para baixo, é um resultado de forças tectônicas
compressivas sobre as rochas. Antônio Conselheiro, como a dobra,
teria se originado das forças internas à sociedade sertaneja,
dela se destacando apenas em função do rebaixamento do meio
que o cercava, e se destinou à história como poderia ter
seguido para o hospício.
Nas primeiras páginas de "A Terra",
Euclides da Cunha fala de camadas primitivas que desaparecem sotopostas
a camadas mais modernas (Cunha, 1902/1985, p.93). Quase trezentas páginas
adiante, o conceito geológico serve para representar Canudos, que
aparece como um afloramento do passado, registro das falhas da nossa evolução.
"Só sugeria um conceito e é que assim como os estratos
geológicos não raro se perturbam, invertidos, sotopondo-se
uma formação moderna a uma formação antiga,
a estratificação moral dos povos por sua vez também
se embaralha, e se inverte, e ondula riçada de sinclinais abruptas,
estalando em faults, por onde rompem velhos estádios há
muito percorridos" (Cunha, 1902/1985, p.374-375).
Cinco anos após o lançamento de Os
sertões, numa conferência para os estudantes do Centro
"XI de Agosto", no Rio de Janeiro, Euclides da Cunha voltaria
a se utilizar de imagens geológicas para tentar definir o que acontecera
no interior da Bahia. Para o escritor, "a luta de 1897, nos sertões
baianos, a despeito de sua data recente, foi um refluxo do passado; o
choque da nossa pré-história e da nossa modernidade; uma
sociedade a abrir-se nas linhas de menor resistência, e mostrando,
em plena luz, as suas camadas profundas, irrompendo devastadoramente,
a exemplo de massas candentes de diabásio que irrompem e se derramam
por vezes sobre os terrenos modernos, extinguindo a vida e incinerando
os primores da flora exuberante" (Cunha, 1907/1966, p.425).
É interessante observar que ao se referir ao
interior do país o escritor faz a opção de se utilizar
de processos tectônicos causadores de deformações
que afetam os níveis profundos da crosta terrestre, e que envolvem
a propagação de forças internas através do
substrato rochoso e sobre o qual elas se levantam. O interior do país
assume assim as feições de interior da própria terra.
Uma das representações imagéticas
utilizando referenciais geológicos identifica o sertanejo como
sendo a "rocha viva da nossa raça" (Cunha, 1902/1985,
p.559). e foi contestada por um crítico de primeira hora5,
por considerar que esta caracterização entrava em contradição
com uma afirmação anterior de Euclides da Cunha sobre a
inexistência de unidade racial brasileira.
A resposta de Euclides da Cunha faz-se através
de uma cuidadosa construção metafórica envolvendo
o granito:
"Rocha viva... A locução
sugere-me um símile eloqüente.
De fato, a nossa formação como
a do granito surge de três elementos principais6.
Entretanto quem ascende por um cerro granítico encontra
os mais diversos elementos: aqui a argila pura, do feldspato
decomposto, variamente colorida; além a mica fracionada,
rebrilhando escassamente sobre o chão; adiante a arena
friável, do quartzo triturado; mais longe o bloco moutonné,
de aparência errática; e por toda a banda a mistura
desses mesmos elementos com a adição de outros,
adventícios, formando o incaracterístico solo
arável, altamente complexo. Ao fundo, porém, removida
a camada superficial, está o núcleo compacto e
rijo da pedra. Os elementos esparsos, em cima, nas mais diversas
misturas, porque o solo exposto guarda até os materiais
estranhos trazidos pelos ventos, ali estão, embaixo,
fixos numa dosagem segura, e resistentes, e íntegros.
Assim, à medida que aprofunda, o observador
se aproxima da matriz de todo definida do local. Ora o nosso
caso é idêntico - desde que sigamos das cidades
do litoral para os vilarejos do sertão.
A princípio uma dispersão estonteadora
de atributos, que vão de todas as nuances da cor a todos
os aspectos do caráter: Não há distinguir-se
o brasileiro no intricado misto de brancos, negros e mulatos
de todos os sangues e de todos os matizes. Estamos à
superfície da nossa gens, ou melhor, seguindo
à letra a comparação de há pouco,
calcamos o húmus indefinido da nossa raça. Mas
entranhando-nos na terra vemos os primeiros grupos fixos - o
caipira no sul, e o tabaréu, ao norte -
onde já se tornam raros o branco, o negro e o índio
puros. A mestiçagem generalizada produz, entretanto,
ainda todas as variedades das dosagens díspares dos cruzamentos.
Mas à medida que prosseguimos estas últimas se
atenuam.
Vai-se notando maior uniformidade de caracteres
físicos e morais. Por fim a rocha viva - o sertanejo"
(Cunha, 1902/1985, p.580-581).
Mas a mais completa metáfora envolvendo o sertanejo
e a rocha talvez tenha sido obtida sem esta intencionalidade quando, ao
retornar dos sertões da Bahia para São Paulo, o escritor
trazia consigo, dentre outras coisas, uma criança , o "jaguncinho
de Euclides"7, e um saco contendo amostras de rochas e
sedimentos8. Estava ali representada a associação
natureza - homem, tão marcante na narrativa euclidiana.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Muito se tem escrito sobre o ambiente favorável
que Euclides da Cunha encontrou em São José do Rio Pardo,
e que teria sido de muita importância para a elaboração
de Os sertões. Naquela cidade o escritor encontrou amigos
que muito o ajudaram e estimularam durante a produção do
livro, destacando-se alguns deles, como Francisco Escobar, que o teria
ajudado em pesquisas bibliográficas, providenciado para que não
faltassem os livros que necessitasse e até mesmo traduzido trechos
de latim de livros como a Flora Brasiliense.
Parece-me importante lembrar que um ambiente favorável
e amigos dispostos a colaborar também foram encontrados na capital
paulista. A amizade com Teodoro Sampaio e Orville Derby, dentre outros,
garantiu a Euclides da Cunha substancial colaboração nos
estudos e até mesmo redação do livro. É admitido
por seus biógrafos, e confirmado pelo seu inventário, que
Euclides da Cunha não possuía uma biblioteca das mais amplas,
seja devido aos recursos financeiros limitados, ou porque as constantes
mudanças de cidades o impediam de juntar consigo um grande número
de livros. Na cidade de São Paulo esta limitação
seria relativizada pela solidariedade dos amigos, que eram também
autores de trabalhos por ele consultados, e também por que ali
o escritor dispunha de acervos como o do Instituto Histórico e
Geográfico e até mesmo da Comissão Geográfica
e Geológica, onde poderia encontrar parte dos trabalhos que necessitasse
para os seus estudos.
O prof. José Calasans anotou, num dos seus muitos
esboços de estudos9, que "não estaria longe
da verdade quem disser que Os sertões é um livro
de equipe. Uma obra de muitos colaboradores. Livro que Euclides fez questão
de ler para vários amigos". No que diz respeito ao conteúdo
geológico, acredito que a afirmativa encontra terreno fértil.
Sendo um livro impar na cultura brasileira, O sertões
não pode sequer ser confundido com uma descrição
da natureza e da luta do interior da Bahia, que poderia ser escrito por
qualquer dos seus colaboradores, em qualquer área, mas o esforço
de construção do livro envolveu Euclides da Cunha em estudos
e leituras que, sem as suas relações com autores e obras
aqui apresentados, poderiam se tornar um obstáculo da importância
que ele julgou ter o exército encontrado diante da natureza sertaneja.
NOTAS
1 As reportagens enviadas da Bahia por Euclides
da Cunha para o jornal O Estado de S. Paulo foram publicadas na
forma de livro em 1939, pela Editora José Olímpio, com o
titulo de Canudos (diário de uma expedição),
e posteriormente incluídas em 1966 na Obra Completa, organizada
por Afrânio Peixoto e publicada pela Editora José Aguillar.
2 Publicada em 1975, pela Editora Cultriz, com
o título de Caderneta de Campo e introdução,
notas e comentários de Olímpio de Souza Andrade, esta caderneta
de anotações de Euclides da Cunha, escritas durante a sua
permanência na Bahia, contém dados climáticos, esboços
do relevo da região de Canudos, croquis, anotações
para reportagens, sumário de um possível livro etc., e é
considerado por Olímpio Andrade como fonte primária de Os
sertões.
3 Em março de 1897, Albert Loefgren, Orville
Derby e Teodoro Sampaio indicaram Euclides para o quadro de sócios
do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.
4 Os nomes do Príncipe de Neuwied, Spix
e Martius, Ayres de Casal, Gardner e Burton podem ser relacionados com
a fase de implantação das ciências no Brasil que Dantes
(1988: 265-275) considera marcada pelo iluminismo e pela tradição
naturalista, que teria prevalecido até meados do século
XIX.
Halfeld, Hartt, Allen, Bulhões, Rathbun, Derby,
Wells e Teodoro Sampaio, por sua vez, estariam relacionados à fase
de introdução das ciências experimentais, que teria
atravessado a segunda metade do século XIX e se estenderia até
por volta da década de 20 do presente século.
5 Moreira Guimarães, ex-colega de Euclides
da Cunha na Escola Militar. Crítica publicada inicialmente no jornal
Correio da Manhã de 3 de fevereiro de 1903 e incorporada
aos Juízos Críticos, publicados em 1904 pela editora
Laemmert, RJ.
6 Os três elementos da "nossa formação",
a que se refere Euclides da Cunha seriam o indígena, o africano
e o europeu, enquanto os três elementos do granito seriam o feldspato,
a mica e o quartzo. Em algumas variedades de rochas graníticas
seriam possível imaginar que alusão de Euclides colocaria
numa relação direta os elementos étnicos e os elementos
do granito na seguinte ordem de correspondência: indígena
a feldspato (ortoclásio); africano
a mica (biotita); europeu a
quartzo.
7 Euclides da Cunha faz menção
na sua Caderneta de Campo (1897/1975:55) ao "jaguncinho que
me foi dado pelo general continua doente e talvez não resista à
viagem para Monte Santo". Tornou-se um comportamento comum, depois
da guerra, a guarda de crianças órfãs que teriam
sido levadas consigo por participantes dos acontecimentos. O "jaguncinho"
que foi levado por Euclides da Cunha para São Paulo foi entregue
aos cuidados de uma família paulista, levou o nome de Ludugero
Prestes e formou-se professor (Calasans, 1980).
8 Olímpio de Souza Andrade (1975:XXII)
faz referência a um "saco... de pedras, destinadas a exame
cuidadoso" que teria levado por Euclides da Cunha do sertão
para São Paulo.
9 A anotação encontra-se no arquivo
do Núcleo Sertão, do Centro de Estudos Baianos da
UFBA. O manuscrito é intitulado "Teodoro Sampaio", sem
qualquer referência bibliográfica, identificado como Doc.
C.1, 7 fls.
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