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GEOLOGIA
EM OS SERTÕES DE EUCLIDES DA CUNHA:
UMA ABORDAGEM HISTÓRICA*
Summary
In Os sertões, one the most important
books of Brazilian Litterature there is an approach, whose geological
content based upon theories of the end of XIX century and the very beginning
of the XX century, reflects the historical moment in which the geological
knowledge of the time was built up.
The first part of Os sertões deals
with the Land, the geological content is described in it from the general
to the particular, and presents, in form of a map, a geological drawing
as a proposal of genesis to the American Continent.
Some evidences show that the author - Euclides da
Cunha, has been involved with geological themes before writing the book,
and his relationship with members of geological community allowed him
to be in contact with the most relevant ideas concerning this field of
knowledge.
The ideas and works of Charles Frederick Hartt, Orville
Derby (geologist) and Teodoro Sampaio (engineer) had a strong influence
on the content of Os sertões.
Introdução
Para o historiador José Calazans, o ano de
1902 foi caracterizado por uma boa safra de início de século,
afinal, neste ano nasceram Carlos Drummund de Andrade, Pierre Verger e
os livros Canaan (de Graça Aranha) e Os sertões
(de Euclides da Cunha) (Calazans, 1992:2).
Quando da sua publicação, o sucesso
de Os sertões foi tão avassalador que o seu autor
ganhou fama como o maior escritor brasileiro, e, autor e obra, passaram
a ser considerados um marco na cultura brasileira em áreas diversas
como Sociologia, Antropologia, Literatura, História, Jornalismo,
Psicologia, Geografia etc.
Noventa anos após o seu lançamento,
mais de 50 edições brasileiras, traduzido para dez idiomas
(em 1993 foi lançada uma nova tradução francesa e
em 1994 uma nova tradução alemã), cursos, palestras,
semanas comemorativas e um número superior a 10.000 trabalhos (artigos,
livros, folhetos, dissertações etc.) traduzem de alguma
forma a importância do livro e autor para a compreensão e
desvendamento de aspectos da realidade brasileira.
Tendo como elemento norteador um acontecimento concreto
do século passado, a Guerra de Canudos, no interior da Bahia, Os
sertões é, acima de tudo, um livro de tese, onde o autor
promoveu um amplo debate a respeito da nacionalidade a partir de sua concepção
sobre como se encontram encadeados o Meio Físico, o Homem e a Cultura,
resultando uma obra estruturada em dois mundos, "um foi a natureza, orgânica
e inorgânica, desenvolvendo-se segundo a lei da finalidade; outro
a cultura em cuja formação trabalham a tradição
histórica e a vontade individual" (Pereira, 1966:63).
Em Os sertões a natureza compõe
toda a 1» parte, subdividida em cinco
capítulos onde são descritos a geologia, o relevo, o clima
e a vegetação e constitui a base em que o autor se apoiou
para compreender a ação do meio na formação
das etnias e sua influência na gênese das personagens típicas.
A geologia é descrita do geral para o particular, parte do que
Euclides denomina de "planalto central" para o sertão de Canudos,
apresentando ainda, em mapa, um "esboço geológico para o
estado da Bahia", e com o subtítulo de "Um Sonho de Geólogo",
propõe uma gênese para o continente americano.
Como a existência em Os sertões
de uma abordagem geológica, construída entre o final do
século XIX e o limiar do século XX, reflete o momento histórico
pelo qual passava o conhecimento geológico de então, será
discutido ao longo deste trabalho.
Para viabilizar o nosso intento tomaremos por base
a trajetória de Euclides da Cunha a partir da sua formação
profissional até a publicação do seu grande livro,
ressaltando os aspectos que evidenciem o envolvimento do escritor com
temas, obras ou autores ligados ao conhecimento geológico.
Euclides e a Geologia antes de Os sertões
Engenheiro, formado em 1891 pela Escola Militar da
Praia Vermelha, Euclides da Cunha cursou a disciplina Mineralogia e Geologia,
2» cadeira do 2¼
ano do curso de Engenharia daquela escola (Motta, 1976:216).
Andrade (1960) não considerou esta fase de
formação profissional a mais importante para o interesse
do escritor pelas questões relacionadas à natureza. As raízes
de tais interesses estariam no período de "exílio disfarçado"
a que foi submetido o escritor em função de desentendimentos
públicos com um senador que, pensando defender dos movimentos revoltosos
a recém implantada República, pretendia a "repressão
sumária aos autores de crimes políticos", a quem Euclides
acusou de almejar "(...) o morticínio sem os perigos do combate".
Por determinação do Presidente Floriano Peixoto o autor
de Os sertões, funcionário público - Engenheiro
da Diretoria de Obras Militares, foi transferido em, 28 de março
de 1894, da Capital do país para a cidade de Campanha - MG, onde
lhe sobraria tempo para os estudos e onde tomaria contato com variada
bibliografia, inclusive a "Géologie, Flore, Faune et Climats du
Brésil" de E. Lias, que está citada pelo menos três
vezes em Os sertões.
Os estudos iniciados naquela cidade prosseguiriam
em São Paulo, onde em meados de 1894 Euclides foi trabalhar como
Engenheiro Civil e estreitou amizade com Teodoro Sampaio, cuja influência
nas leituras científicas daquele é registrada por autores
como Sodré (1966) e Andrade (op. cit.). Entre os autores que passaram
a preponderar nas suas alusões e referências se encontram
"os antigos cronistas, os viajantes estrangeiros, os autores de monografias
sobre a terra e a gente do Brasil, as obras de Vernhagen, Morize, Caminhoá,
Sílvio Romero, Capistrano de Abreu, Teodoro Sampaio, Orville Derby,
Saint-Hilaire, Liais..." (Andrade, op. cit:80)
Em São Paulo, uma pouco estudada pretensão
do futuro autor de Os sertões mostra-o envolvido em estudos
específicos de Geologia. Trata-se da realização do
seu "(...) grande sonho, a única aspiração que de
há muito tenho: tirar por concurso uma cadeira na Escola de Engenharia
daqui", conforme expressa em carta ao amigo dos tempos de Campanha-Mg,
João Luís (Cunha, 1966b:604-5).
A cadeira pretendida era a de "Mineralogia e Geologia"
do Curso de Engenharia Agrícola (Escola Politécnica, 1900:88-96)
e para alcançar seu objetivo o escritor se achava "absorvido pelo
estudo de mineralogia (...)" conforme relatou em carta dirigida ao mesmo
João Luiz, datada de 23 de abril e 1896 (Arquivo do Museu Nacional).
Esta correspondência revela um Euclides torturado com as "notícias
dos bastidores" do concurso, informando ao amigo que "(...) o cidadão
A, cheio de íntima convicção, baseado em anteriores
exemplos, fatos passados com outros, afirmava-me que isto de concurso
em São Paulo não valia nada, sendo invariavelmente nomeado
persona grata do governo (...) Logo após o cidadão B, confidencialmente,
fazia alusão à minha seita positivista (eu, positivista!)
e à birra especial de algumas influências pelos que a professam.
O cidadão C, lembrava-me artigos meus, de
92, no Estado [jornal "O Estado de São Paulo"], em que combati
energicamente a maneira pela qual foi organizada a Escola etc. Um outro,
comunica-me a existência de terrível adversário, um
dos primeiros geólogos do Brasil, discípulo e braço
direito de Gorceix etc. etc..
Imagina que imenso esforço para ficar a cavaleiro
de tudo isto...".
Euclides da Cunha não se inscreveu para o
concurso, mas o ano de 1896 viu explodir a Guerra de Canudos, nos Sertões
da Bahia, e isto iria modificar a vida do engenheiro.
Este episódio brutal, acontecido nos primórdios
da República Brasileira foi registrado por Euclides em artigos,
reportagens, ilustrações e anotações, compondo,
junto com o livro em si, o que se chama "O Ciclo d`Os Sertões".
A Geologia no "Ciclo d`Os Sertões"
Quando os acontecimentos em Canudos foram pela primeira
vez tratados por Euclides o resultado foi o artigo "A Nossa Vendéia",
em 1897 (Cunha, 1966: 575-578), onde são largas as citações
de Martius, Saint-Hilaire, Humboldt, Caminhoá e Livingstone e a
descrição do meio físico se faz significativa para
entender o revés sofrido pela Expedição do Exército,
comandada pelo Coronel Moreira no enfrentamento com os seguidores de Antônio
Conselheiro, na medida em que "(...) pela ocorrência simultânea
de quartizitos e gneisse graníticos característicos, o solo
daquelas paragens, arenoso e estéril, revestido sobretudo nas épocas
de seca, de vegetação escassa e deprimida, é, talvez
mais do que a horda dos fanatizados sequazes de Antônio Conselheiro,
o mais sério inimigo das forças republicanas". Relacionado
com as características físicas se encontra o homem, os rudes
sertanejos "identificados à própria aspereza do solo em
que nasceram, educados numa rude escola de dificuldades e perigos (...)
tem naturalmente toda a inconstância e toda a rudeza do meio em
que se agitam". Essa relação homem X natureza será
desenvolvida, ampliada e marcante em Os sertões.
Escolhido pelo jornal "O Estado de São Paulo"
para fazer a cobertura da Guerra, Euclides da Cunha chegou à Bahia
em 7 de agosto de 1897 e, durante a sua permanência na capital do
Estado, manteve freqüentes contatos com os órgãos da
imprensa local, que o recebeu com destaque.
O jornal "Diário da Bahia", informa que o
"(...) Dr. Euclides da Cunha vem incumbido de estudar as condições
geológicas do terreno de Canudos e escrever um livro sobre a atual
guerra em que naquela localidade se empenha o exército nacional
contra o fanatismo" (Calazans, 1969:48).
Já o jornal "A Bahia", registrou a pretensão
do correspondente de "O Estado" "(...) de estudar a região de Canudos
sob o ponto de vista militar e científico (Calazans, op. cit.:48).
Partiu Euclides de Salvador com destino a Canudos
em fins de agosto, descrevendo, no seu "Diário de uma Expedição",
a Geologia da região por onde passa a estrada de ferro que liga
Salvador a Queimadas, notadamente no trecho até a cidade de Alagoinhas,
e parecendo distinguir a transição entre "grandes camadas
terciárias de grés [arenito] - um solo clássico de
deserto - em que tabuleiros amplos se desdobram a perder de vista, mal
revestidos, às vezes, de uma vegetação torturada"
e rochas "cretáceas subjacentes cuja decomposição
determina a formação de um solo mais fértil", o escritor
ressaltou que a sua observação "(...) já de si mesma
resumida aos breves horizontes de imperfeitíssimos conhecimentos
geológicos, fez-se em condições anormais na passagem
rápida de um trem". Esta evidente preocupação
com as características do seu conhecimento geológico pode
ser encontrada também em outros trechos do seu "Diário"
a exemplo de visita feita ao rio Itapicuru "de margens ridentes e pitorescas
em cujo seio afloram ilhas de belíssimos gneisses (...) recolhi
um pouco de areia clarissíma, destinada ao exame futuro de pessoa
mais competente".
As anotações sobre a geologia da região
prosseguem no "Diário" e são encontradas também na
sua "Caderneta de Campo" (Cunha, 1975) onde meticulosos croquis ilustram
as suas observações sobre o relevo e onde pela primeira
vez aparece o roteiro de um estudo a ser realizado e que resultaria em
Os sertões.
Ao retornar de Canudos para Salvador novamente os
jornais da Bahia fizeram referências aos seus estudos das condições
geológicas e das etnias que serviriam de base para um livro a ser
escrito por solicitação do jornal paulista.
Após o fatídico 5 de outubro de 1897,
que mais tarde imortalizaria ao relatar "quando caíram os seus
últimos defensores [de Canudos], que todos morreram. Eram quatro
apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos
quais rugiam raivosamente cinco mil soldados" (Cunha, 1985), Euclides
regressou para São Paulo, "traz um rascunho de um livro, um depoimento
áspero, um libelo arrazador. Há de escrever algum dia, quando
tiver uma pausa" (Sodré, op. cit.:30).
Euclides retomou em 1898 as suas atividades de funcionário
da Superintendência de Obras Públicas do Estado de São
Paulo. No ano seguinte foi designado para a reconstrução
de uma ponte que desabara na cidade de São José do Rio Pardo
onde "passará três anos num lugar, e isso constitui, em sua
vida nômade, a pausa de que necessita (...) ali encontra um ambiente
amigo, gente que participa do seu problema", conforme entende Nelson Werneck
Sodré. Ainda segundo Nelson Werneck, quanto às suas anotadas
"deficiências em Geologia, em Botânica e em outros campos",
ele "tentou supera-las todas, antes de lançar-se ao trabalho final
(...) operou uma completa revisão de seus conhecimentos (...)"
(Sodré, op. cit.:31).
Em 1902 o livro foi lançado ao público
com retumbante sucesso. A crítica o acolheu em termos elogiosos,
chamando a atenção para o seu conteúdo científico.
Os poucos reparos existentes no tocante ao conteúdo
científico foram objeto de resposta de Euclides da Cunha, nas suas
"Notas à 2a edição" onde o autor cita geólogos
e livros de geologia em sua defesa, sendo bastante evidente a sua insatisfação
quanto a um certo "nefelibatismo científico" que lhe fora atribuído
por José de Campos Novaes (1903: 45-55), em artigo publicado na
revista do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas.
Interessante também é o registro, contido
em carta ao crítico José Veríssimo, de como Euclides
considerava importante o emprego de termos técnicos/científicos
na literatura, sendo estes, no seu entendimento, "(...) os aristocratas
da linguagem, nada justifica o sistemático desprezo que lhes votam
os homens de letras - sobretudo se consideramos que o consórcio
da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, é hoje
a tendência mais elevada do pensamento humano" (Cunha, 1966b:621).
Euclides e a comunidade geológica
Para entendermos como o autor de Os sertões
viabilizava o "consórcio da ciência e da arte", apresentaremos
alguns elementos sobre o trânsito de Euclides da Cunha em instituições
que, dentre os seus objetivos, tinham espaço para as ciências
naturais e mais especificamente das suas relações com elementos
da comunidade geológica da época.
O Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo foi a primeira instituição, com o caráter
descrito acima, da qual fez parte o escritor Euclides da Cunha. A sua
indicação para o quadro de sócios foi assinada pelo
Geólogo Orville Derby, o Botânico Alberto Lofgren e o Engenheiro
Teodoro Sampaio, fundadores do Instituto e integrantes da comunidade científica.
A sua admissão se deu em abril de 1897, antes,
portanto, do escritor empreender a viagem à Bahia. No entanto,
só após a cobertura da Guerra de Canudos, foi efetivada
a posse (fev/1897), "(...) perante um auditório constitutido de
personalidades da mais alta expressão intelectual (...) lia Euclides
da Cunha um trabalho intitulado 'Climatologia dos Sertões da Bahia'"
(Revista do IHG-SP, 1944:39), trabalho este que integraria posteriormente
o livro Os sertões.
A leitura da parte final do artigo de Novaes (op.
cit.:55) permite o conhecimento de que Euclides da Cunha tornou-se sócio
correspondente do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas
antes da publicação do seu livro, que, parcialmente impresso,
foi lido nesta cidade para uma platéia composta por José
de Campos Novaes, Cesar Bierrenbach e Coelho Neto (intelectuais que fundaram
o Centro). As revistas do Centro não foram veículo de trabalhos
de Euclides, mas constituíam-se em espaço para divulgação
de trabalhos científicos que, nos seus primeiros números,
predominavam quantitativamente sobre os trabalhos de Letras e Artes (Revistas
do CCLA, 1903-1908).
Já consagrado como escritor, Euclides da Cunha
faria parte do quadro de sócios do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro (Revista do IHGB, 1903), cuja importância
para as Ciências Naturais durante o sec. XIX e início do
sec. XX é ressaltado por Figueirôa (1992:141-146).
Em todas as instituições citadas, Euclides
da Cunha teve a companhia de Orville Derby e Teodoro Sampaio, que foram
importantes elementos de ligação do escritor com a comunidade
científica, e personagens fundamentais para se entender a construção
do conteúdo geológico em Os sertões.
Orville Derby e Teodoro Sampaio compõem uma
ampla galeria de naturalista e geólogos citados em Os sertões,
cujos nomes podem ser encontrados na "escassa bibliografia disponível
sobre a história geral das ciências geológicas no
Brasil" (Figueirôa, 1992:)
Utilizando-se da periodização proposta
por Dantes (1988:265-275), para a história das ciências naturais
no Brasil, constatamos que alguns dos nomes citados por Euclides são
relacionados à fase identificada como "o iluminismo e a tradição
naturalista (c. 1770 - 1850)", dentre eles encontram-se: Charles Darwin,
Alexandre Humboldt, George Gardner, John B. von Spix, Carl F. P. von Martius
e Jean Agassiz. Outros nomes estão relacionados à fase da
"introdução da ciência experimental (1850 - 1920)",
notadamente Charles Frederick Hartt e Orville Derby.
Dos autores citados por Euclides da Cunha escolhemos
três para exemplificar a influência que possam ter exercido
na elaboração de Os sertões.
Charles Frederick Hartt (1840 - 1878), geólogo
canadense naturalizado americano, cuja importância para o conhecimento
geológico brasileiro é ressaltado por vários estudiosos,
responsável pela implantação da Comissão Geológica
do Império, publicou em 1870 a "Geologia e Geografia Física
do Brasil" e mais outros 50 trabalhos sobre o Brasil, dentre os quais
figuram a "Teoria da origem glacial da Bacia Amazônica", "Recentes
explorações da porção oriental da Bacia do
Amazonas", "Origem da Bacia do Amazonas" (todos datados de 1872) e "Contribuição
à geologia e à geografia física do Baixo-Amazonas"
(1874).
É de Hartt o seguinte trecho sobre a gênese
do Continente Americano:
"O vale do Amazonas, ao princípio, apareceu
como um largo canal entre duas ilhas ou grupo de ilhas, das quais uma
constituiu a base e o núcleo da planalto brasileiro, e a outra
ao norte, do planalto da Guiana. Estas ilhas aparecem no princípio
da idade siluriana ou um pouco depois dele. Naquela época os Andes
não existiam ainda" (Hartt, citado por Derby, 1877:83).
Este trecho aparece em Os sertões com
a seguinte redação:
"Não existiam os Andes, e o Amazonas, largo
canal entre as altiplanuras das Guianas e as do continente, separava-as,
ilhadas. Para as bandas do sul o maciço de Goiás - o mais
antigo do mundo - segundo a bela dedução de Gerber, o de
minas e parte do planalto paulista, onde fulgurava, em plena atividade,
o vulcão de Caldas, constituíam o núcleo do continente
futuro..." (Cunha, 1985:104).
Orville Adelbert Derby (1851 - 1915), um dos mais
importantes nomes das ciências geológicas brasileira, fez
parte da equipe de Geólogos da Comissão Geológica
do Império, montada por Hartt, dirigiu a Comissão Geográfica
e Geológica da Província de São Paulo, a quem Euclides
se refere como "...o meu grande amigo Dr. Derby" (em carta ao Dr. Pedro
Aquino - citado por Andrade op. cit.) e de quem Gilberto informa "ter
o autor d'Os Sertões recebido forte auxílio técnico"
em questões relacionadas à Geologia.
Derby partilhava com Gorceix (francês que criou
e dirigiu a Escola de Minas de Ouro Preto até 1891) a convicção
de que as regiões diamantíferas de Minas Gerias e da Bahia
possuíam a mesma gênese (Praguer, 1899). Sobre estas regiões
Escreveu Euclides:
"Reponta a Região Diamantina, na Bahia, revivendo
inteiramente a de Minas, como um desdobramento ou antes um prolongamento,
porque é a mesma formação mineira (...)" (Cunha op.
cit.:95)
Teodoro Fernandes Sampaio, Engenheiro, organizou
a Escola Politécnica de São Paulo. A quem Gilberto Freyre
(op. cit.) atribui ter prestado colaboração a Euclides da
Cunha e possuir características de "paciente pesquisador de Geografia
Física e de História Colonial do Brasil".
Teodoro Sampaio percorrera os sertões da Bahia
desde o ano de 1878, como integrante da Comissão Milnors Roberts,
da qual também fez parte o geólogo Orville Derby. Autor
de trabalhos que variavam desde temas relacionados à língua
Tupi até assuntos geológicos. Gozava de respeito e livre
transito junto a geólogos como Derby e John C. Branner para quem
redigiu algumas "notas" sobre as rochas arqueanas na Bahia.
Em Os sertões o nome de Teodoro Sampaio
é mencionado três vezes, numa delas como um dos autores do
"esboço geológico para o estado da Bahia", parece muito
pouco para alguém a quem diferentes autores (Abreu, 1977; Freire,
1944; Azevedo, 1950 - dentre outros) atribuem uma influência acentuada
sobre Euclides da Cunha.
A influência de Teodoro Sampaio sobre o autor
de Os sertões pode ser entendida a partir de relato do próprio
Teodoro ao se referir às relações dos dois:
"Uma vez tornou-me mais depressa do interior, e vinha
mais animado. Era outro e tinha como que um vago pressentimento de que
o seu destino ia mudar. Aquela pasmaceira de tantos anos ia ter o seu
fim.
Foi quando se ateou a guerra de Canudos(...)"(Sampaio,
1919).
Desta visita Euclides levou do amigo "(...) algumas
notas das que eu lhe ofereci sobre as terras do sertão que eu viajara
antes dele em 1878. Pediu-me cópia de um meu mapa ainda inédito,
na parte referente a Canudos e vale superior do Vasa Barris, trecho do
sertão ainda muito desconhecido, e eu lhe as forneci (...)".
Vejamos alguns dos trabalhos de Teodoro que devem
ter sido oferecidos a Euclides: "A respeito dos caracteres geológicos
do território compreendido entre as cidades de Alagoinhas e a de
Juazeiro pelo trajeto da linha férrea em construção",
publicado na Revista de Engenharia, em 1884 com comentários de
Orville Derby (parte do trecho apresentado nesta comunicação
foi percorrido pelo autor de Os sertões, que no seu "Diário
de uma Expedição" descreve a Geologia entre Salvador e Alagoinhas,
como a complementar as do amigo); Mapa até então inédito,
na parte referente a Canudos e vale superior do Vasa Barris; Notas sobre
a geologia da região compreendida entre o rio S. Francisco e a
Serra Geral (do Espinhaço) nas imediações da cidade
do Juazeiro; As rochas arqueanas na Bahia.
Deixemos, mais uma vez, que o próprio personagem
conte a história de como se deu o início do famoso livro.
Nos diz Teodoro (1919) sobre este momento:
"A princípio trazia-me aos domingos os primeiros
capítulos, os referentes à natureza física dos sertões,
geologia, aspecto, relevo e liamos naquela sua caligrafia minúscula
que era como a minha também. A leitura fazia-se pausada a meu pedido
(...). Passávamos em revista essas terras adustas do Nordeste Brasileiro
que o homem ainda não subjugou e em que a natureza de continuo
vitima o homem, selecionando-o pela energia e resistência que ele
opõe às crises periódicas da seca e da fome. Recordávamos
a geologia através de Hartt, de Derby, e neste examinar em que
contemplávamos aquelas extensões de terras salgadas, ou
com inflorescências salinas, na catinga como nas margens do S. Francisco,
passávamos dos depósitos calcários, decalheira silicosa
das varresses onde dos rios temporários só se vê o
sulco profundo e estéril, que as águas abandonaram, ao relevo
altiplano das montanhas de quartizitos e de xistos cristalinos do divisor
das águas; revíamos de memória aquele cenário
imenso das planuras sertanejas com os seus serros isolados, de um pitoresco
sem par, perdidos na catinga como se foram ilhas num mar petrificado;
revíamos os tabuleiros onde por léguas não se encontra
uma baixada úmida que sirva de refrigério".
Conclusão
Do até aqui apresentado percebe-se um Euclides
da Cunha continuamente envolvido com temas relacionados às ciências
naturais, e, mais que isto, decidido e empenhado em atualizar-se e aprofundar-se
no conhecimento científico de sua época, considerado por
ele a pedra angular para o entendimento da sua tese sobre a nacionalidade
brasileira.
Ao contextualizar o autor e sua obra no ambiente
dominado pelo cientificismo, é possível entender que na
época tratada as barreiras entre as especialidades científicas
não eram tão distintas quanto hoje.
Finalizando, a compreensão de que o conteúdo
cientifico e, mais especificamente, geológico, de Os sertões
é fruto de um árduo processo de construção,
e o seu estudo, feito a partir de uma perspectiva histórica, contextualizada
no tempo e espaço, podem ajudar no entendimento de como o conhecimento
geológico produzido no final do séc. XIX se tornava acessível
a setores que não os membros da própria comunidade geológica
de então.
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