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EXILADOS EM FERNANDO DE NORONHA
(O moleque Ricardo - Trecho)
Eles iam para Fernando de Noronha. O governo caíra em cima dos
centros operários com uma fúria de ciclone. Não
ficou um que não fosse arrebentado e que os seus diretores não
comessem virola e cadeia. O Dr. Pestana, metido em prisão por
umas horas, teve a mulher para gritar por ele, habeas-corpus que o livrasse
dos constrangimentos. Os chefes operários iriam para Fernando.
Lá estavam os ladrões e criminosos curtindo penas. Para
lá iriam os operários. Sebastião e o povo da padaria
de seu Alexandre estavam na lista para seguirem. Diziam os jornais que
Sebastião era um perigoso agitador e a padaria onde ele trabalhava
um foco terrível. Fernando de Noronha com eles.
Seu Lucas andava triste. Foi ao desembargador que ele curara da mulher,
mas o homem lhe desenganou. Ninguém fosse falar ao governo em
favor de operário. O governador queria fazer uma limpeza na cidade,
porque a canalha não deixava ninguém descansar com esta
história de greve todos os dias. Ele estava perdendo o tempo.
E a mulher de Jesuíno e os filhos nas grades do jardim do seu
Lucas, chorando.
- Vai para casa, mulher! - dizia o pai-de-terreiro. Ele volta! Um dia
ele volta!
E os fihos de Deodato e os de Simão pedindo notícias a
seu Alexandre:
- Foram para os infernos! Perderam-se porque quiseram! Agora que agüentem!
Mas seu Alexandre se lastimava. Os homens sabiam trabalhar de verdade.
Os outros que tinham vindo substituí-los não valiam nada.
Onde encontrar um boca-de-fogo como Deodato, um pãozeiro como
Ricardo, um masseiro como Simão? Seu Antônio foi ao patrão
e disse mesmo:
- Precisas fazer voltar esses homens senão eu me retiro.
- Voltar como, homem de Deus? Já falei com o Dr. Demócrito.
O governo faz questão de castigar, de dar um termo a esta greve.
Não havia mesmo jeito. Os homens iriam mesmo para Fernando. Seu
Lucas, no jardim, andava triste, debruçava-se sobre as roseiras
sem entusiasmo. Os negros iriam para Fernando. Jesuíno e Ricardo
na ilha com os ladrões e criminosos. O jardineiro olhava o chão
pensando nos homens. O que tinham feito eles demais? Jesuíno
e Ricardo não mataram ninguém, não tiraram o alheio.
Iam para Fernando. Seu Lucas viu o sol nas suas plantas sem saber o
que o sol fazia. Botava água nos canteiros, sem saber o que a
água fazia. Os amigos dele seriam mandados de navio para o mar,
para o meio do mar, com ladrões e assassinos. E os outros? Simão
e Deodato? Eram bons também, as mulheres também chorariam
de fome. Por que não mandavam o Dr. Pestana? De cócoras,
mexendo na terra molhada, o velho censurava as coisas, o velho sentia
a miséria das coisas. Aquilo era uma ruindade sem tamanho.
Numa manhã, os homens saíram para Fernando. Ricardo, Deodato,
Simão, Jesuíno para um canto do navio olhavam o Recife
coberto ainda de sombras da madrugada. Viam vapores grandes no cais,
catraieiros trabalhando àquela hora. Mas havia um silêncio
grande, um silêncio medonho nos barcos dormindo e nas águas
do rio. Eles olhavam para o lado do cais e viam as casas e a terra que
iam deixar. Simão para um lado, triste, de cabeça baixa,
Deodato dizendo:
- Se ao menos eu pudesse ver os meninos!
E o negro Jesuíno sentado em cima de umas cordas. Sebastião
só fazia dizer:
- A gente volta. Um dia a gente volta.
Ricardo olhava para todos. Ele sentia uma vontade desesperada de vomitar,
aquele cheiro aborrecido de bordo lhe embrulhava o estômago. Iam
para Fernando. Conhecera no engenho um homem, um assassino que estivera
em Fernando de Noronha. Chamava-se Noé e contava tanta coisa
triste de lá. Fernando de Noronha, ninho de tudo que era homem
sem remédio e sem jeito. Ele ia para lá e não sabia
o mal que tivesse feito.
- Homem, dizia Jesuíno para Simão, o governo só
faz isto porque não tem família.
- Eu até nem penso mais nos meninos, respondia Simão.
Vai se perder tudo, Jesuíno. Vai se perder tudo.
Deodato era mais forte:
- Não faz mal, eles arranjam jeito de viver.
Sebastião, de pé:
- É isto mesmo. Se a gente esmorecer, sofre mais.
Ricardo se lembrava da mãe Avelina. Com que alegria ela recebera
a carta dizendo que ele ia! Os negros todos da rua se assanharam na
certa com a notícia. Ricardo ia chegar calçado de botina
e de gravata no pescoço, como o José Ludovina no dia da
eleição. Ricardo no Recife não tirava a botina
dos pés, mas agora era isto que estava se vendo. Cercado de água
por todos os lados, para o resto da vida. Morreriam por lá.
Agora o sol já cobria o cais, já os sobrados altos se
mostravam para eles. E o navio ia sair com pouco mais, com as máquinas
dando sinal. Eles viram então seu Lucas em pé no cais.
O vapor já não estava atracado. Seu Lucas dava com as
mãos para eles. O negro velho em pé, com o sol na cabeça
branca, dando com os braços para eles. Ricardo olhava para o
amigo.Sempre ele tinha o que lhe perguntar nas grades de seu jardim.
O negro velho gostava dele. E o vapor ia saindo devagarinho. Simão
botava as mãos na cabeça para chorar. Deodato firme e
Jesuíno gritando:
- Lá está pai Lucas! Pai Lucas, toma conta dos menino!
Sebastião não dizia nada. O vapor ia virando para o outro
lado e eles correram para dar com as mãos para o velho amigo.
O negro velho em pé como uma estaca de cercado no cais de cimento.
Os negros bons iam para Fernando. O que tinham feito eles? dizia seu
Lucas voltando para casa. O que tinham feito eles, os negros que não
faziam mal a ninguém? Jesuíno era uma besta de bondade,
Ricardo tão bom! Os outros deviam ser também. O que tinham
feito eles para ir pra Fernando? Seu Lucas não sabia. Queriam
de comer, queriam de vestir, queriam viver. E seu Lucas chegou no jardim
com esta dor no coração. Vira os seus negros no vapor
mandados para Fernando. Murchassem as roseiras, cortassem as formigas
as folhinhas das plantas, secassem os canteiros. Os seus negrinhos iam
pra Fernando. Que tinham feito eles para ir pra Fernando? Seu Lucas
cuidava das plantas. Os trens passavam roncando pelas grades de seu
jardim. Passavam vendedores cantando as suas vendagens. O homem da vassoura
parou para falar:
- Soube, seu Lucas, o navio saiu hoje cheio de gente. Da minha rua foi
um. Ninguém fez nada não. Foi por causa da greve.
Seu Lucas não disse nada e o homem se foi. O feiticeiro sentiu
uma cousa de fora entrando dentro dele. Era bem diferente da entrada
de Deus em seu corpo. Era uma coisa que nunca tinha sentido em sua vida.
Tinha sofrido muito neste mundo de Deus. Prisões, cadeia, mas
tudo ele agüentava com fé, agüentava sabendo que era
bom para ele sofrer. Agora não. Uma coisa de fora mexia com o
negro velho. O sol queimava as folhas de suas plantas, as roseiras abriam-se
para o sol. Seu Lucas não via o jardim, a sua cássia-régia
gloriosa, as dálias cheias de vida. Não olhava, não
via. Os seus negrinhos iam para Fernando. Num mar navegando, num mar
carregados para o cativeiro. Ficou pensando. Uma coisa esquisita entrava
pelo seu corpo. Que fizeram os negros? Que fizeram Ricardo e Jesuíno?
Mataram? Roubaram? O governo mandara os infelizes pra Fernando.
Seu Lucas ficou assim até de noite. Era noite de culto, noite
de rezar para o seu Deus.
Os cantos das negras, os passos das negras, no Fundão, tiniam
no terreiro com os instrumentos roncando. Naquela noite o negro velho
vestia as suas vestes sagradas sem saber o que ia fazer. Todos já
estavam prontos para os ofícios, para as rezas familiares. Seu
Lucas de lado tirava as rezas. Era o cantar mais triste que um homem
podia tirar de sua garganta. Os negros respondiam no mesmo tom. E foi
crescendo a mágoa e foi subindo a queixa para o céu estrelado
do Fundão. O sapatear dos negros estremecia o chão, os
instrumentos acompanhavam as queixas, os lamentos. E com pouco seu Lucas
começou a dizer o que não queria, o que sentia. As palavras
do ritual não eram aquelas que lhe queriam sair da boca. Deus
estava no céu. Ogum no céu com S. Sebastião. Ele
queria cantar outra coisa que não aquilo que ele cantava todas
as noites. E os negros na dança iam ouvindo o que pai Lucas dizia.
O mestre falava dos negros que iam pra Fernando.
- Que fizeram eles? Que fizeram eles?
- Ninguém sabe não.
Que fizeram os negros que iam pra Fernando? A voz de Lucas vibrava.
Todo o seu corpo se estremecia.
- Que fizeram eles que vão pra Fernando?
E os negros respondiam misturando a língua da reza deles com
as perguntas do sacerdote, de braços estendidos para o céu.
- Que fizeram eles? Ninguém sabe não!
E o canto subia, subia com uma força desesperada. As negras sacudiam
os braços para os lados como se sacudissem para fora do corpo.
Os peitos, as carnes se movimentando numa impetuosidade alucinante.
A terra do Fundão estremecia. Pés de doidos, de furiosos
furavam a terra. E seu Lucas com a boca para cima misturando as mágoas
com as suas rezas:
- Que fizeram ele que vão pra Fernando? Ninguém sabe não!
O sacerdote quebrando o ritual para deixar escapar a sua dor. Seu Lucas
era mais um Deus naquela hora. Como um homem qualquer ele falava pelos
pobres que no mar se perdiam. O canto dele varava a noite, varava o
mundo:
- Que fizeram eles que vão pra Fernando? Ninguém sabe
não! 
O ENGENHO DE SEU LULA
(FOGO MORTO - Segunda Parte - Capítulo 4)
Chegou a abolição e os negros do Santa Fé se foram
para os outros engenhos. Ficara somente com seu Lula o boleeiro Macário,
que tinha paixão pelo ofício. Até as negras da
cozinha ganharam o mundo. E o Santa Fé ficou com os partidos
no mato, com o negro Deodato sem gosto para o eito, para a moagem que
se aproximava. Só a muito custo apareceram trabalhadores para
os serviços do campo. Onde encontrar mestre de açúcar,
caldeireiros, purgador? O Santa Rosa acudiu o Santa Fé nas dificuldades,
e seu Lula pôde tirar a sua safra pequena. O povo cercava os negros
libertos para ouvir histórias de torturas.
Fazia-se romance com os sofrimentos das vítimas de Deodato. Quando
o carro do capitão Lula de Holanda passava, corria gente para
ver o monstro, todo bem vestido, com a família cheia de luxo,
que ia para a missa. Um jornal da Paraíba falara em crimes da
escravidão e nomeava o Santa Fé, o Itapuá, como
de senhores algozes. D. Amélia leu o artigo e chorou com as palavras
impiedosas. Não era assim. Tudo aquilo perturbava a vida do Santa
Fé. Ela bem que sentia que o marido vinha mudando de humores.
Raras vezes era aquele Lula de outrora, de olhar cismarento, o homem
de tanta ternura para com sua mulher. Agora não parecia que a
quisesse como antigamente. Via-o no pegadio com a filha que voltara
do colégio de Recife, uma moça feita. Neném era
a cara do pai. Dela não tenha coisa nenhuma. Achava linda a sua
filha. Tinha aqueles cabelos louros, e os olhos azuis, a pele macia,
branca como alfenim. E era uma menina doce, tão sem gênio
que encantava a todo o mundo. Viera do primeiro ano do colégio
das freiras cheia de devoção, com modos de moça.
O pai cercava-a de cuidados, de um zelo que ela, como mãe, achava
até exagerado. Seria a sua filha a moça mais bem educada
da várzea. Iam ao Pilar de carruagem, e reparava como o marido
olhava embevecido para a menina, no banco da frente, vestida como gente
grande. Sabia que o povo falava mal de seu marido. Via os olhares que
sacudiam em cima de todos quando entravam na igreja. No tempo de seu
pai tudo era bem diferente. Viam-se cercados dos conhecidos do Pilar,
das filhas do juiz, das irmãs do padre, dos amigos do capitão
Tomaz. Agora era sair do carro e entrar na igreja: voltar da igreja
para o carro. O que haveria contra Lula para aquela hostilidade? Seria
que fosse inveja? Lula era homem de sua casa, de certo trato, de orgulho
que ela não apoiava. Era o orgulho do marido. Havia nele uma
maneira de sentir as coisas que talvez desgostasse a gente do Pilar.
Lula falava de sua família de Pernambuco com soberba. Não
procurava discussão com o marido por motivos assim, sem importância.
Deixava que ele ficasse com seu orgulho de raça. Para que brigar?
Família era para Lula coisa sagrada. Fora infeliz com o pai,
sofrera o diabo com a mãe viúva, perseguida pela política.
Lula tinha razão de falar do seu povo com aquela arrogância
toda. Em casa ele só via a filha. Dizia sempre que Neném
era a cara da sua mãe. Nunca vira semelhança igual. Tinha
tudo da família de Recife, dos velhos Chacon, gente que sabia
entrar e sair, gente de trato, sem aquela bruteza dos engenhos. D. Amélia
não contrariava o marido mas sentia-se com aquele falar de desprezo
com os seus. Por que Lula falava assim contra o povo dos engenhos?
Não era ele parente do povo do seu pai? Até aquele dia
não tivera a menor rusga com o seu marido. O que ele queria que
fizesse, fazia sem protesto. Neném era como se só fosse
filha dele. Lula fazia de pai e de mãe da menina. A princípio
achou bonito aquela dedicação do marido. Tudo que fosse
para Neném teria que ser feito por ele. Agora via que Lula exagerava.
Moça só se entendia bem com a mãe. Seria a mãe
quem saberia melhor de sua precisão, de seus desejos. Lula fazia
de Neném toda a razão de sua vida. Quando a menina estava
no colégio escrevia cartas compridas, longas cartas que ela não
sabia o que mandavam dizer. Que assunto teria o seu marido para escrever
tanto a uma filha moça de colégio? Não lhe falava
daquilo para que ele não desconfiasse. Neném escrevia
muito ao pai. Às vezes, Lula lhe lia as cartas da filha, doutras
não lhe mostrava nada. Perguntava-lhe:
- Então, Lula, o que Neném mandou dizer?
O marido dava uma desculpa qualquer e mudava de assunto. Neném
era uma menina tão cândida, tão doce. Tinha receio
que as cavilações do pai estragassem a menina. Por mais
que temesse não se meteria a contrariar o marido. Lembrava-se
da fúria que se apoderara dele quando o procurou para condenar
as ações de Deodato. Sabia que os negros estavam apanhando
sem necessidade e procurara Lula para lhe falar daquela miséria.
Nunca vira uma pessoa exasperar-se tanto. Era como se ela tivesse se
revoltado. Vira o que sua mãe sofrera com a malquerença
de Lula. Pobre de sua mãe que se dera como uma escrava aos seus
deveres. Fora ingrata com ela. Uma das coisas que mais lhe doíam
era pensar na morte dela, depois daquela noite da discussão com
Lula. Tudo por causa de Neném. Aquele amor de seu marido, aquele
cuidado pela filha, não podia ser boa coisa para a criação
da moça. E era todo o pensamento de D. Amélia. Os negros
do engenho se foram, até as negras de sua mãe não
quiseram ficar na cozinha. Os do Santa Rosa haviam ficado na senzala.
Eram amigos do senhor de engenho. Se o seu pai estivesse vivo, tudo
seria como no Santa Rosa. Via-se D. Amélia cercada de pensamentos
que não desejava que fossem seus. Lula não gostava dos
negros. No dia da abolição os pobres foram para a frente
do engenho, doidos de alegria. Teve medo. O feitor ganhara a catinga,
e Lula trouxera para a sala os clavinotes armados. Os negros cantavam
no pátio, com uma fogueira acesa. Ninguém dormiu naquela
noite. A negra Germana chorava como menina. A cantoria era de coco,
era de reza, era dança, e ao mesmo tempo parecia um bendito de
igreja. Lula trancara Neném no quarto, e de clavinote entre as
pernas ficara sentado no sofá, à espera de inimigo que
lhe viesse ao encontro. A noite se foi, a madrugada apareceu. Na estrada,
os negros dos outros engenhos passavam aos gritos. Gritaram na porta
da casa-grande. Lula permanecera na porta e eles partiram. Era um cabra
do Pilar, com um grupo de negros.
- Capitão, nós estamos atrás de Deodato.
Lula, com a voz trêmula de raiva, não se conteve. Aos gritos
respondeu que fossem para o inferno. O cabra não continuou, mas
quando o capitão Lula de Holanda cessou a raiva ele foi dizendo:
- Capitão, nós estamos aqui para pegar o seu feitor. É
ordem do delegado.
- Ordem de quem? Ordem de quem?
E D. Amélia viu o seu marido pegar do clavinote e apontar para
os negros:
- Cambada de cachorros, saiam de minha porta senão mando fogo.
Os negros se foram de cabeça baixa, e ela viu pela primeira vez
uma coisa horrível. O seu marido empalidecer, procurar o sofá
e cair com o corpo todo se torcendo, como se tudo nele fosse se partir.
Aquilo durou uns minutos, mas foram os instantes piores da sua vida.
A baba branca que saía da boca de Lula, o bater desesperado dos
braços, das pernas, fizeram-lhe medo. Correu para dentro de casa.
E não havia uma viva alma lá dentro. Todas as negras tinham
se ido. A casa vazia. Só Olívia no quarto falava, falava
sem parar. Voltou para a sala e viu que Lula voltava a si, e teve pena
de ver o marido no estado em que estava.
- Amélia, Amélia, manda Germana preparar um escalda-pé
para mim.
E com aquela impressão terrível voltou para a cozinha.
Lá havia um silêncio mortal. A cozinha do Santa Fé,
sem uma negra, despovoada de sua gente. Todos se foram, todas as negras
ganharam o mundo, até a negra Margarida que criara Neném.
Não havia quem quisesse ficar no Santa Fé. O ataque de
Lula obrigara-a a pensar na vida com medo. O marido era um homem doente.
Vivera com ele até aquele dia e nunca acontecera nada demais.
Era um homem de boa saúde. E de repente vira-o naquele estado
de penúria. Sofria de ataques. E quando apareceu com a bacia
com a água quente, Lula parecia que voltara da morte. Tinha os
olhos fundos, a cara de um homem dez anos mais velho. Ficara ele em
silêncio absoluto até o dia seguinte. A noite, na casa-grande,
Olivia resmungava, falava, com aquela agonia de sempre. Ela estava só,
completamente só. Lula deitara-se para dormir. Começou
a ter medo. Era capaz de os negros libertos de outros engenhos aparecerem
ali para atacá-los. As cantorias do coco enchiam a noite de um
batecum que não parava. Agora percebia bem o canto da negrada,
lá para as bandas do Pilar. Os negros dançavam de alegria,
na festa da liberdade. Os negros de seu engenho, os que foram de seu
pai, estavam no coco fazendo o que bem quisessem.
[...]
O senhor de engenho do Engenho Velho começou a luta contra o
Santa Fé. O Dr. Eduardo do Itambé, moço de fama,
advogado de força, tomara a defesa do seu Lula. Todos os senhores
de engenho da várzea ficaram com ele. O José Paulino do
Santa Rosa mandou chamar o catingueiro e pediu para ele parar com a
questão. O homem, porém, estava com vontade de ir longe.
Viu-se então seu Lula criar alma nova para lutar pela terra.
O homem calado, taciturno, deu para andar pelo Pilar, pelo Itambé,
pela Paraíba, com uma energia que não se esperava dele.
Não era um ladrão de terra. No jornal "O Norte"
apareceu um artigo assinado pelo seu adversário pedindo justiça
ao governador. Sentia-se perseguido pelos senhores de engenho da várzea.
Seu Lula revidou com palavras duras. Falou em Nunes Machado, na família
dos homens sérios, na miséria da injustiça. E a
questão correu, com a diligência e os incidentes normais.
Mas tudo ficaria sem nada demais, se não fosse a agressão
que o cabra do Engenho Velho tentou contra seu Lula no cartório
de Manuel Viana. Quando descera ele do cabriolé e ia falar com
o escrivão, o homem apareceu-lhe para tomar satisfações.
Seu Lula virou-lhe as costas e o homem insistiu. Então trocaram
palavras e o homem levantou a mão para seu Lula, com gritos de
injúria. Manuel Viana evitou a agressão.
E pela várzea correu a história como um crime. Tinham
querido dar no senhor de engenho do Santa Fé. O cel. José
Paulino do Santa Rosa montou a cavalo e foi ao Engenho Velho. E de lá
voltou com a questão morta. No outro dia passariam a escritura
da propriedade. Comprara o Engenho Velho para servir ao inimigo apertado.
Dera pelas terras mais do que elas valiam para que ali na várzea
não existisse um cabra atrevido que ousasse fazer aquilo que
estava fazendo com o Santa Fé.
Seu Lula e a família foram de cabriolé agradecer a intervenção
generosa do vizinho. E nem parecia aquele homem calado, seco, taciturno.
Falou naquela tarde para espanto de sua gente. D. Amélia e a
filha na conversa com as moças da casa-grande, e seu Lula a falar
em voz alta, a contar casos de parentes do Recife, a falar de Nunes
Machado, das lutas do seu pai, no berço das matas de Jacuípe.
Quando voltaram para a casa, já era de noite. As cajazeiras da
estrada pareciam cobertas de cal, de tão brancas. As rodas do
cabriolé enterravam-se na areia fofa e os cavalos corriam e as
campainhas acordavam os pássaros dormiando, espantavam os calangros.
Uma raposa cortou a estrada aos saltos, e os faróis do carro
pareciam olhos que se encandeavam na luz branca da lua. D. Amélia
e Neném falavam das filhas do cel. José Paulino, da alegria,
da bondade de todas elas. Mas seu Lula de repente sentiu-se coberto
de vergonha. Era um medroso, era um homem sem força, no meio
dos outros. O boleeiro desviava o carro duma poça d'água.
Mais para diante era a casa do seleiro Amaro, homem valente que viera
de Goiana, com uma morte nas costas. Seu Lula passou pela porta do seleiro
e pela cabeça atravessou-lhe uma idéia como um relâmpago.
Por que não se servira do velho Amaro para se defender contra
o cabra atrevido? Poderia ter liquidado o atrevido e não ficar,
como ficara, um homem que precisara da proteção dos outros
para resolver uma questão que era sua só. Não era
um senhor de engenho. O carro parou na porta, e a lua iluminava os números
do portão: 1850. Tempo de fartura, de força. Entraram,
e o cheiro de mofo da sala de visita era como um bafo de morte. O piano,
os tapetes, os quadros na parede, o retrato de olhar triste de seu pai.
O capitão Lula de Holanda pegou no braço da cadeira, e
a sua vista escureceu, um frio de morte varou-lhe o coração.
Caiu no chão, estrebuchando. A mulher e a filha pararam estarrecidas
perto dele, que batia com uma fúria terrível. Era o ataque.
D. Amélia não deixou que Neném se chegasse para
perto, mas ela pegou-o, pôs-lhe a cabeça no seu colo, e
as lágrimas corriam de seus olhos sobre o pai, como morto, parado,
agora, como se estivesse num sono profundo. Na cozinha, D. Amélia
esquentou a água para o escalda-pé do marido. Passara
uma tarde tão feliz, e agora Lula tinha aquele ataque, na presença
da filha. D. Olívia falava muito alto, gritava. A lua entrava
pelas telhas de vidro da casa-grande, a lua que pintava as cajazeiras,
que dava ordens em D. Olívia, que fazia os cachorros uivarem
na solidão.
Dois dias depois, seu Lula ainda estava de cama e o cel. José
Paulino passava no Santa Fé para oferecer ao vizinho a patente
de tenente-coronel do batalhão da guarda nacional que o governo
pedira para ele organizar no Pilar.
SEU LULA DE HOLANDA
(FOGO MORTO
- Segunda parte - capítulo 5)
O caso de Neném com o promotor crescia para ele cada dia. Uma
desconfiança constante não o deixava descansado. Na tarde
em que viu o rapaz passar pela sua porta, num cavalo muito bonito, com
destino ao Santa Rosa, imaginou que lhe preparasse uma traição
em casa. Neném e Amélia estariam combinadas para qualquer
movimento contra ele. Viu-o sumir-se na estrada e foi ver se a filha
estaria na janela do alpendre do jardim. Lá estava Neném,
debruçada, com os cabelos louros soltos. Seu Lula, quando a viu,
não teve força para andar para a frente, mas gritou-lhe:
- Hein, menina sem-vergonha? Eu bem sabia que tu estavas aí esperando
aquele cachorro, hein?
Neném, estupefata, não teve coragem para uma palavra.
Mas D. Amélia chegou-se para saber o que se passava.
- Tu chegaste aqui, hein? Tudo está combinado.
- Combinado o que, Lula?
- Hein, pensam que me enganam? Vai lá para dentro, Neném.
D. Amélia ficou só com ele. Fez-se um silêncio pesado
entre os dois. Foi o marido quem começou :
- Eu sei de tudo, hein, Amélia? Vocês duas pensam que me
enganam, não é, Amélia? Hein, Amélia?
D. Amélia, mansa, com a voz trêmula:
- Mas Lula, você não está vendo que não há
coisa nenhuma? Que tudo isto é sonho seu?
- Sonho, hein, Amélia ? Ninguém me engana. E com a voz
dura: Mato esta menina e ela não se casa com este cafajeste.
Ouviste, Amélia ?
E saiu para o alpendre onde a tarde amaciava tudo. Era tarde de junho,
de verde pelos matos, de campo coberto de flores. Pela estrada passava
uma tropa de aguardenteiros. Um homem parou para falar com o Coronel
Lula. Era um sujeito de Goiana, velho conhecido do capitão Tomaz.
- Coronel, tem açúcar sumeno?
Seu Lula fez um esforço tremendo para falar :
- Não tem não, seu Félix. Vendi tudo para o sertão.
Mas o homem queria falar mais.
- Coronel, não tem aqui uma terrinha que me ceda para um mano
meu? É homem trabalhador, Coronel, mas anda muito perseguido
lá em Goiana. Tudo por questão de uma filha a quem fizeram
mal a ela. E o mano teve que fazer um serviço no freguês.
Família é o diabo, meu Coronel.
Seu Lula despertou com aquela história e quis saber de tudo,
por que o homem matara o sujeito.
- Coronel, o tal era casado. E desencabeçou a menina. Ora, um
homem de sentimento não podia fazer outra coisa. Comeu o bicho
na faca. Foi pra rua, mas estão perseguindo ele por causa dum
senhor de engenho que protegia o canalha.
Seu Lula dava o sítio ao irmão do velho Félix.
E quando ele se foi, começou a imaginar em Neném. Não
deixaria que a sua filha, que ele criara com tanto mimo, se casasse
com um tipo de rua, um filho de alfaiate. Não, tudo que estivesse
em suas mãos ele faria para evitar. O pobre irmão de Félix
tivera coragem para liquidar o miserável que desgraçara
a filha inocente. Era o que faria também. Mataria, sim, mataria
o atrevido. Estava só, era doente, não tinha a fortuna
de José Paulino, mas saberia defender a sua filha com a vida,
com a sua morte, se preciso fosse. A casa-grande estava ainda no escuro
e a voz de sua cunhada começava a impotuná-lo. Era um
falar rouco, com as mesmas palavras. Nunca se importava com o que ela
dizia dias e noites seguidas, a falar sem que desse por isto; e no entanto,
agora dera para crescer-lhe aos ouvidos como gritos. Amélia acendeu
o candeeiro da sala de jantar e mosquitos rodeavam a luz em enxames.
A lâmpada do quarto dos santos queimava o azeite da lamparina
de prata. Seu Lula chegou-se para lá e viu a cara comprida, os
braços estendidos, as mãos sangrando de Deus. Olhou bem
para a cara de seu Cristo. Era uma cara que ele gostava de ver, de sentir
a dor que ela exprimia. Deus fora assim na terra, torturado, surrado,
morto pelos infiéis. A casa, no vazio de todos os seus. Ele só
naquela casa sabia que Deus derramara seu sangue para que o mundo o
amasse. Não. Não, ele não deixaria que a sua filha
se perdesse, se entregasse ao camumbembe. Por que amava a sua filha
um miserável daqueles? Que havia nela que a conduzisse para a
degradação? Antes morta, antes no caixão que nos
braços do camumbembe. Ajoelhou-se para rezar. Ali, só
no quarto, com os santos pelas paredes, com a imagem descarnada de S.
Francisco, com o corpo estendido no túmulo de S. Severino, ele
se sentia na maior intimidade com o seu Deus, com a sua Providência.
Rezou até tarde da noite. Uma dormência tomou-lhe a perna
direita. Amélia chamou-o para a ceia, e só com a voz da
mulher lembrou-se que estivera ali mais de duas horas.
Começara a chover forte. As portas da casa-grande estavam fechadas.
Saiu para examinar os ferrolhos, as trancas. Tudo estava muito bem fechado.
Neném não viera para a mesa do chá. Quis que ela
viesse. Mandou que a mulher fosse chamá-la. E quando a viu de
olhos vermelhos de chorar, com a cabeça baixa, imaginou o ódio
que não lhe teria. Era pai, e pai era somente para agüentar
as fraquezas dos filhos. Estava sereno. Deus lhe dera calma, força
para vencer os tumultos de sua alma. Não falou Amélia
parecia com medo de qualquer coisa. O vento batia nas portas, bulindo
com os ferrolhos. Tudo estava muito bem trancado. Então, seu
Lula pôde olhar para a sua filha como uma propriedade sua, que
ninguém tocaria. Uma onda de ternura envolveu-o naquele instante.
Teve vontade de acariciá-la, de tocar nos seus cabelos louros,
de vê-los entre as suas mãos como nos tempos de menina.
Por que não era mais aquela menina que ele punha nos joelhos,
que ele criara como a uma santa? Por que amaria aquele tipo, por que
fugia de sua casa, de seus olhos, de suas mãos? Seria castigo
de Deus? Não podia ser castigo de Deus. Deus era seu amigo, era
todo seu. Olhava para Neném, e via nela a imagem de Nossa Senhora,
a imagem de manto azul, de cabelos compridos, aquela que não
fora tocada pelos homens. Não, Neném não poderia
se entregar a um camumbembe, um pobre diabo. Quando ele se levantou
para ir para o quarto de dormir, lembrou-se da infância, das noites
de chuva, quando ia botá-la na cama, tão mansa, tão
serena, tão do céu naqueles instantes. Não, ele
não permitiria que mãos de homens fossem magoar a sua
filha.
[...]
Seu Lula estirou-se no marquesão. Nisto ouviu passos de cavalo
rondando a casa-grande. Acertou bem o ouvido e na calçada do
alpendre batiam cascos de cavalos. De repente lhe veio à cabeça
a idéia de um rapto. Sem dúvida que o promotor haveria
combinado o furto de Neném. Estremeceu com aquela idéia,
e quando deu por si já estava com o velho clavinote. Foi ao quarto
da filha e esta ainda estava vestida, de vela acesa, lendo um livro
de orações. A sua cara devia ser de uma fúria desesperada,
porque Neném se levantou com medo. Não lhe disse nada,
mas chamou Amélia que se recolhera.
- Amélia, hein, Amélia, daqui ela não sai.
A mulher alarmada procurou falar e não pôde. Seu Lula de
arma nas mãos andava de um lado para outro, como se estivesse
acossado, pronto para um ataque de vida ou morte.
- Mato estes cachorros, hein, Amélia, tudo estava preparado.
Na porta da sala de visita parou para escutar numa posição
de caçador que espreita. Ouviram-se muito bem as passadas de
um cavalo.
O miserável pensa que estou dormindo. Mas este desgraçado
vai ver quem sou, hein?
As negras tremiam. D. Amélia correra para o oratório,
e Neném chorava alto, enquanto D. Olívia no quarto chamava
pela escrava que a criara.
- Ó Dorotéia, ó Dorotéia, vem me catar,
Dorotéia.
Ouvia bem a voz de D. Amélia, rezando alto.
- Pára Amélia, pára. O desgraçado vai ver.
Aí seu Lula levantou a voz, como se falasse com o inimigo a dois
passos:
- Miserável, sai de minha porta.
A chuva intensa e as passadas do cavalo continuavam na calçada
do alpendre.
Seu Lula gritou outra vez com mais força.
- Eu te mato, miserável.
Fez-se outra vez silêncio. Só a chuva roncava com ventania
que batia nas portas. O cavalo continuava pisando forte na calçada.
D. Amélia chegara-se para perto do marido para contê-lo.
Seu Lula empurrou-a para o lado.
- Eu mato este cachorro.
E num esforço desesperado, chegou-se para a porta, e abriu o
ferrolho de ferro. O cavalo batia no tijolo da calçada. Seu Lula,
com a porta aberta, correu para o alpendre e se ouviu o disparo rouco
do clavinote. Com o tiro houve uma correria para o terreiro da casa-grande.
Pouco depois o boleeiro Macário chegou espantado. Saíram
com uma lamparina e encontraram estendida no chão, banhada em
sangue, uma das bestas da almanjarra que havia saída do curral
e se abrigara no alpendre, com o frio da noite. Seu Lula estava lívido,
em pé, como se tivesse voltado dum imenso perigo. Não
via nada e com o corpo todo estendeu-se no chão, com o ataque.
FOGO MORTO - Trecho
(...) Era o capitão Tomás Cabral de Melo, senhor do engenho
Santa Fé, chefe do Partido Liberal, pai de filha educada em Recife,
com piano em casa, que falava francês, que bordava com mãos
de anjo. O capitão, nas tardes de domingo, quando nada tinha
que fazer, deitava-se no marquesão da sala de visitas e chamava
a filha:
- Amélia, vem tocar uma coisinha.
A casa-grande do Santa Fé enchia-se da valsa triste da moça.
A mãe deixava a cozinha, os negros a acompanhavam para ouvir
D. Amélia tocando no seu enorme piano, de som tão bonito.
O capitão fechava os olhos, babava-se na harmonia terna que a
filha arrancava do teclado. Era um primor. A mulher, cansada, de pele
encardida do sol, de mãos grossas dos trabalhos da cozinha, de
debulhar milho para negro, de cortar bacalhau, iluminava-se de alegria.
Tinha mais uma filha nos estudos, Olívia. Todos em sua casa não
deviam ser como ela fora, só do trabalho grosseiro, da vida como
de negro cativo. O marido, espichado no marquesão, babava-se
com a filha prendada. Não queria para Amélia um marido
assim como Tomás, homem que só tinha corpo e alma para
o trabalho. Homem devia ser mais alguma coisa para melhor do que era
Tomás. D. Amélia tocava as suas valsas com o coração,
as varsovianas tomavam conta de suas mãos, de seu sentimento.
O capitão dormia com a filha na música, aos domingos,
com os negros parados, com a terra dando vida às sementes. A
casa-grande do Santa Fé, naquela tarde de concertos, tinha outra
alma. Mãe, pai, negros participavam de uma existência bem
diferente da que viviam. Outra vida, outra força mandava naquela
gente enfeitiçada. As negras diziam que a menina tinha umas mãos
que eram como se fossem uma vara de condão. O capitão
Tomás Cabral de Melo chegara ao ponto mais alto de sua vida.
O que mais podia desejar um homem de suas posses? Família criada,
engenho moente e corrente, gado de primeira ordem, partidos de cana,
roçado de algodão, respeitado pelos adversários.
Criara um engenho. Disto se orgulhava. Não fora ali, como os
outros ricos da terra, encontrar tudo feito para continuar. Tudo saíra
de suas mãos, era obra exclusiva dele. Lá estava no frontão
de sua casa-grande a data de 1850. Naquele ano dera um pintura nova
na casa. Fora o ano da chegada do piano. Amélia voltava do colégio,
moça como não havia na várzea, cheia de prendas,
dona de muito saber. mas foram-se os anos, e o Capitão Tomás
tinha uma mágoa. Por que não se casara a sua filha mais
velha? O que faltava para encontrar um marido na altura de seus merecimentos?
Não era feia, tudo teria para ser uma esposa completa. E os anos
se iam e a filha do capitão não se casava. Quando a ouvia
no piano, media as coisas com tristeza. Então naquela Ribeira
não aparecia um homem que fosse digno de sua filha? A mulher
não lhe falava coisa nenhuma, mas ele sabia que devia sofrer.
Afinal de contas, por que pensar nestas coisas? Melhor que ele deixasse
que o tempo resolvesse tudo. O Santa Fé dava os seus mil pães
de açúcar, as suas sacas de lã, e tinha pasto para
as suas duzentas reses. E ainda contava com quarenta peças de
escravatura. Não queria mais do mundo. Por mais de uma vez viera
à sua porta bater senhor de engenho de grandes terras, para se
valer de sua bolsa. emprestava e os juros que cobrava não eram
de arrancar a carne de ninguém. O seu dinheiro era o seu sangue,
a sua vida. A várzea, as vazantes, os altos do Santa Fé,
era tudo da melhor qualidade. Lembrava-se de conversas com outros senhores
de engenho. Todos lhe gabavam as safras, o açúcar, o gado,
os roçados de algodão, as vazantes de milho.
Nas mãos do Capitão Tomás tudo rendia, tudo dava
dinheiro. É verdade que tinha uma mulher que era a metade do
seu esforço. Cuidava ela dos negros, cosia o algodãozinho
para vesti-los, fazia-lhes o angu, assava-lhes a carne. A sua escravatura
era de gente boa. Trouxera do Ingá negros de bom calibre.
Nunca comprara peça barata, resto de gente que só lhe
desse trabalho. negro ruim e barato deixava para os pechincheiros. Queria
povo para o trabalho, negra que parisse braços e mais braços
para os seus partidos. Tudo que o Capitão Tomás pretendeu
fazer no Santa Fé saiu como ele bem quis. Mas a filha que tocava
piano como uma moça da praça, que lia livros bonitos,
que lhe custara tanto dinheiro nos estudos, não se casava. E
os homens da Ribeira não eram para ela. Não lhe batesse
em sua porta filho de João Alves do Canabrava, que ele não
dava uma filha em casamento por preço nenhum. Melhor ficar para
titia do que ligar-se àqueles vadios que andavam soltos de canga
e corda, comendo as negras do pai como pais-d'égua. E os filhos
de Manuel César do Taipu? Tinham ido para os estudos, eram doutores.
Seriam dignos de Amélia? Não seriam. Aquela gente do Taipu
tratava mulher como bicho. Amélia era uma seda, uma flor de jardim.
Não. Para vê-la casada com um daqueles animais, ele preferia
que ficasse toda a vida com ele. Tinha dinheiro de ouro que lhe daria
para comprar um engenho para a filha. Um engenho de porteira fechada.
Queria era que aparecesse um homem que fosse branco, de bons modos,
capaz de fazê-la feliz, de tratá-la como ela merecia.
MENINO DE ENGENHO - Trecho
A minha primeira paixão tinha sido pela bela Judite, que me
ensinara as letras no seu colo. O meu coração de oito
anos agora se arrebatava com mais violência. Estavam no engenho
passando uns tempos umas parentas do Recife. Era uma gente que não
tirava as meias da manhã à noite, falava francês
uma com a outra, só conversava negócios de teatro: o tenor
tal, que belo homem! a artista fulana, que chique!
As filhas do Tio João, quando chegavam no engenho, revolucionavam
os hábitos pacatos da casa-grande. Só viviam trancadas
nos banhos mornos, dando trabalho às negras, lendo romances nas
cadeiras de balanço. Punham esteiras de piripiri por cima dos
quartos delas, porque tinham medo da telha-vã: podia cair bicho
de lá. Os moleques passavam o dia inteiro espantando os sapos
das calçadas. Elas corriam das baratas, aos gritos. E até
em nós esta influência se exercia: não tirávamos
os sapatos dos pés, por causa da gente do Recife. A Tia Maria
desdobrava-se em cuidados, temendo a língua das parentas civilizadas.
Uma delas dissera em carta para uma amiga da cidade que o povo do Santa
rosa só tinha de gente os olhos. E enchiam a casa de chiliques
e de cheiros de extrato. Aos domingos iam de chapéu à
missa do
Pilar. E censuravam o pessoal do engenho, porque, a meia légua
da igreja, ficava em casa nos dias de obrigação.
- José Paulino é um herege, e cria essa gente daqui como
bichos. O menino de Clarisse nem fez primeira comunhão.
O meu avô ouvia as primas com aquele sorriso de justo. Ele sentia-se
bem amigo de Deus com o coração de bom que era o dele.
A grita de suas primas devotas não lhe doía na consciência.
O Santa Rosa com as meninas do Tio João parecia outro. A sala
de visitas aberta o dia inteiro, as negras conversando baixo na cozinha,
a Tia Maria de vestido de passeio, os moleques pequenos vestidos, sem
as bimbinhas de fora. Às tardes, visita de outros engenhos; brinquedos
de prendas de noite, conversas sobre a moda e queijo-do-reino na mesa.
Até o meu avô sem os seus gritos e palavrões para
os moleques da estrada.
Para mim, a visita viera me aperrear o coração de menino.
Maria Clara, mais velha do que eu, andava comigo pela horta. menina
da cidade, encontrara um bedéquer amoroso para mostrar-lhe os
recantos do Santa rosa. Queria ver tudo - o rio, os cajueiros, o cercado.
Maria Clara, com aqueles seus cabelos em cachos e uns olhos grandes
e redondos, me fizera esquecer o carneiro e os passeios solitários.
Brincávamos juntos, comíamos juntos, que todo mundo reparava
nesse pegadio constante. Ela me contava as histórias de suas
viagens de mar, pintava-me o vapor, os camarotes, o tombadilho e o mar
batendo no olho de vidro das vigias.
- Não havia perigo, parecia que se estava em casa. Havia mesa
para os meninos e gente grande. E banho de chuvisco. Passavam-se dias
só se vendo céu e mar.
Sentávamos por debaixo dos gameleiros, nestas conversas compridas.
Eu também contava as minhas coisas de engenho: o fogo no partido,
a cheia cobrindo tudo d'água. Exagerava-me para parecer impressionante
à minha prima viajada. Ali mesmo onde estava sentada, o rio passara
com mais de nado. A canoa se amarrara no gameleiro.
As nossas conversas iam longe. Maria Clara indagava por Antônio
Silvino. Então me derramava em histórias. O cangaceiro
se encantava em bicho. Uma tropa vinha atrás dele, e o que encontrava
era um rebanho de carneiros. Uma vez matara uma onça numa luta
corpo a corpo; quando não podia mais com a fera, lembrou-se do
punhal: meteu o chapéu de couro no focinho da onça e enfiou-lhe
a arma no coração. o couro desta onça era aquele
que meu avô tinha na sala.
Procurávamos a sombra dos cajueiros para os nossos colóquios.
Havia folhas secas pelo chão, como um grande tapete cinzento,
que rangiam nos pés. E o cheiro gostoso da flor do caju chegava
até longe.
- Vamos fazer piquenique nos cajueiros.
Levávamos merenda, pedaços de pão e queijo, que
as formigas comiam. Maria Clara me olhava séria, me pegava nas
mãos, perguntando o que a gente faria ali se Antônio Silvino
aparecesse.
- Ele casava a gente.
E me contava cena por cena das fitas de cinema que vira, dos amores
dos seus heróis prediletos e dos casamentos bonitos que faziam.
Os galos-de-campina cantavam bem perto de nós os seus números
de sucesso. E os concris pinicavam os cajus vermelhos, chiando de gozo.
- O engenho é melhor do que o Recife, me dia Maria Clara. - Mamãe
conta que morando aqui, a gente vira bicho. Ela quer que eu toque piano
e fale francês. Aqui é bom porque não tem aula,
não tem professora.
Uma ocasião, depois que ela terminou uma fita de dois namorados
deitados na relva, nos braços um do outro, eu peguei Maria Clara
e beijei-a forte na boca. Corri como um doido para casa, com o coração
batendo.
- Este menino fez arte. Chega estar afrontado - repararam, quando apareci
na cozinha.
Escondi-me da namorada o resto da tarde. Na hora da ceia, ela estava
com os seus olhos redondos e pretos, olhando para mim. A noite toda
foi um sonho só com Maria Clara. Ia com ela no navio não
sei por onde. E o mar batia com raiva no meu barco. Chovia que a água
começava a encher o casco. só se via mar e céu.
Eu tinha medo de afundar. Maria Clara dizia que não havia perigo.
E nós chegávamos nos cajueiros e ficávamos nas
folhas secas, dormindo.
Um dia ela me chamou para ver uma coisa: a canalha do curral estava
em amor livre, num canto da cerca. Tirei a minha namorada dali. Aquilo
era porcaria para os seus olhos limpinhos. E o meu amor crescia, dilatava
o meu verde coração de menino.
As meninas do Tio João já estavam em despedidas. Para
a semana voltariam para Recife. De engenho a engenho andavam passando
dias. E chegavam presentes de toda parte: rendas da terra, colchas bordadas,
panos de filé. Os bichos dos engenhos gostavam das primas assanhadas.
A viagem seria na terça-feira. Depois de amanhã não
veria mais a minha companheira. Fizemos os idílios derradeiros,
correndo os nossos recantos preferidos, como um casal de namorados de
livro.
De manhã, o carro de boi saía com o povo para a estação.
As meninas de Tio João dando dinheiro às negras, a velha
Generosa chorando, todos na sala em abraços e beijos. O Tio Juca
iria com a Tia Maria à estação. Para menino não
havia lugar. Maria Clara nem parecia que me queria bem, toda satisfeita,
sentada no carro. Pensava que ela estivesse triste como eu. Mas qual!
Alegre com a viagem, bem contente no meio do alvoroço das despedidas.
Já saíam do terreiro, ganhando a estrada. corri para as
estacas do cercado a fim de olhar ainda o carro. Trepei-me na cerca
até que se sumisse a carruagem com a minha ingrata. Quando cheguei,
de volta, não
sei quem, na cozinha:
- Ficou sem namorada, hein?
As lágrimas chegaram-me aos olhos, e disparei num choro que não
contive. Foi a graça da casa durante o dia. Na mesa contaram
ao meu avô. O velho José Paulino riu-se:
- A quem puxou esse menino assim namorador?
E o meu amor ficava na conversa de toda gente.
Dormi à noite, com Maria Clara junto de mim. Os sonhos de um
menino apaixonado são sempre os mesmos. Acordei-me, porém,
com a primeira angústia de minha vida. os pássaros cantavam
tão alegres no gameleiro, porque talvez não soubessem
da minha dor. Senti nesse meu despertar de namorado um vazio doloroso
no coração. tinha perdido a minha companheiro dos cajueiros.
E chorei ali entre os meus lençóis lágrimas que
o amor faria ainda muito correr dos meus olhos.
O RIO
O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no
"o rio". E era tudo. Em tempos antigos fora muito mais estreito.
Os marizeiros e as ingazeiras apertavam as duas margens e as águas
corriam em leito mais fundo. Agora era largo e, quando descia nas grandes
enchentes, fazia medo. Contava-se o tempo pelas eras das cheias. Isto
se deu na cheia de 93, aquilo se fez depois da cheia de 68. Para nós
meninos, o rio era mesmo a nossa serventia nos tempos de verão,
quando as águas partiam e se retinham nos poços. Os moleques
saíam para lavar os cavalos e íamos com eles. Havia o
Poço das Pedras, lá para as bandas da Paciência.
Punham-se os animais dentro d"água e ficávamos nos
banhos, nos cangapés. Os aruás cobriam os lajedos, botando
gosma pelo casco. Nas grandes secas o povo comia aruá que tinha
gosto de lama. O leito do rio cobria-se de junco e faziam-se plantações
de batata-doce pelas vazantes. Era o bom rio da seca a pagar o que fizera
de mau nas cheias devastadoras. E quando ainda não partia a corrente,
o povo grande do engenho armava banheiros de palha para o banho das
moças. As minhas tias desciam para a água fria do Paraíba
que ainda não cortava sabão.
O rio para mim seria um ponto de contato com o mundo. Quando estava
ele de barreira a barreira, no marizeiro maior, amarravam a canoa que
Zé Guedes manobrava.
Vinham cargueiros do outro lado pedindo passagem. Tiravam as cangalhas
dos cavalos e, enquanto os canoeiros remavam a toda a força,
os animais, com as cabeças agarradas pelo cabresto, seguiam nadando
ao lado da embarcação. Ouvia então a conversa dos
estranhos. Quase sempre eram aguardenteiros contrabandistas que atravessavam,
vindos dos engenhos de Itambé com destino ao sertão. Falavam
do outro lado do mundo, de terras que não eram de meu avô.
Os grandes do engenho não gostavam de me ver metido com aquela
gente. Às vezes o meu avô aparecia para dar gritos. Escondia-me
no fundo da canoa até que ele fosse para longe. Uma vez eu e
o moleque Ricardo chegamos na beira do rio e não havia ninguém.
O Paraíba dava somente um nado e corria no manso, sem correnteza
forte. Ricardo desatou a corda, meteu-se na canoa comigo, e quando procurou
manobrar era impossível. A canoa foi descendo de rio abaixo aos
arrancos da água. Não havia força que pudesse contê-la.
Pus-me a chorar alto, senti-me arrastado para o fim da terra. Mas Zé
Guedes, vendo a canoa solta, correu pela beira do rio e foi nos pegar
quase que no Poço das Pedras. Ricardo nem tomara conhecimento
do desastre. Estava sentado na popa. Zé Guedes porém deu-lhe
umas lapadas de cinturão e gritou para mim:
- Vou dizer ao velho!
Não disse nada. Apenas a viagem malograda me deixou alarmado.
Fiquei com medo da canoa e apavorado com o rio. Só mais tarde
é que voltaria ele a ser para mim mestre de vida.

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