Trecho de Vestido de Noiva
A morte segundo Nelson Rodrigues





Trecho de Vestido de Noiva

(...)
Madame Clessi
Quer falar comigo?
Alaíde (aproximando-se, fascinada)
Quero, sim. Queria...
Madame Clessi
Vou botar um disco. (Dirige-se para a invisível vitrola, com Alaíde atrás)
Alaíde
A senhora não morreu?
Madame Clessi
Vou botar um samba. Esse aqui não é muito bom. Mas vai assim mesmo. (Samba surdinando) Está vendo como estou gorda, velha, cheia de varizes e de dinheiro?
Alaíde
Li o seu diário.
Madame Clessi (cética)
Leu? Duvido! Onde?
Alaíde (afirmativa)
Li, sim. Quero morrer agora mesmo, se não é verdade!
Madame Clessi
Então diga como é que começa. (Clessi fala de costas para Alaíde)
Alaíde (recordando)
Quer ver? É assim... (Ligeira pausa) "Ontem, fui com Paulo a Paineiras"... (feliz) É assim que começa.
Madame Clessi (evocativa)
Assim mesmo. É.
Alaíde (perturbada)
Não sei como a senhora pôde escrever aquilo! Como teve coragem! Eu não tinha!
Madame Clessi (à vontade)
Mas não é só aquilo. Tem outras coisas.
Alaíde (excitada)
Eu sei. Tem muito mais. Fiquei!... (Inquieta) Meu Deus! Não sei o que é que eu tenho. É uma coisa - não sei. Por que é que eu estou aqui?
Madame Clessi
É a mim que você pergunta?



A morte segundo Nelson Rodrigues

A morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. É todo um
lento, suave, maravilhoso processo. O sujeito já começou a morrer e não
sabe.

Morrer significa, em última análise, um pouco de vocação. Há vivos tão
pouco militantes que temos vontade de lhes enviar coroas ou de lhes
atirar na cara a última pá de cal. Esses, sim, têm a vocação da morte.

Há, em qualquer infância, uma antologia de mortos.

Na hora de morrer, e quando sabe que está morrendo, todo homem tem um
olhar de contínuo.

Há na morte por intoxicação alimentar um inevitável toque humoristico,
que humilha o cadáver e compromete o velório.

Para mim, qualquer morta tem mais densidade do que qualquer morto.

A morte natural é própria dos medíocres. O medíocre tem de fazer uma
força tremenda para morrer tragicamente. Ele morre de gripe, de
pneumonia oun da empada que matou o guarda. Já o grande homem sempre
morre tragicamente. Veja o caso de Lincoln, de Gandhy, de Kennedy.

Há uma inteligência da morte, assim como há uma bondade da morte. O que
vai morrer já olha as coisas, as pessoas, com a doçura do último olhar.
Eu diria que é a saudade antes do adeus.

O sujeito procura esquecer que o homem é também o seu próprio cadáver. E
ele, queira ou não, não destruirá jamais a sua vocação para a morte.

Nada mais falso do que o medo de morrer, e eu diria que nós fazemos tudo
para morrer o mais depressa possível. Os nossos hábitos, os nossos usos,
os nossos vícios, as nossas irritações mal disfarçam a vontade, a
urgência, a fome da morte.

Chegou às redações a notícia da minha morte. E os bons colegas trataram
de fazer a notícia. Se é verdade o que de mim disseram os necrológios,
com a generosa abundância de todos os necrológios, sou de fato um bom
sujeito.

A morte é um grande despertar.

 

Do livro "Flor de Obsessão", Reunião das 1000 melhores frases de Nelson Rodrigues
Seleção e organização: Ruy Castro / Companhia das Letras - 1997 Paginas 110.