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O Sul-Americano
Calabar
Torcida indígena a favor de um imperialismo "civilizador".
Leitor pequeno-burguês, não será você?
No Brasil há duas correntes de opinião: os que acreditam
que a guerra holandesa acabou e os que sabem perfeitamente que ela continua,
através de fundings, empréstimos e tomadas de poder por
este ou aquele grupo calabarista.

Botafogo etc.
Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das
avenidas marinhas sem sol. Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam
o verde dos montes interiores. No outro lado da baía a serra
dos Órgãos serrava. Barcos. E o passado voltava na brisa
de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava entrava em túneis.
Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas
da cidade.

Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
-Sois cristão?
-Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
-Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval

O Gramático
Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou.
3 de maio
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
Errro de Português
Quando o português chegou
Debaixo de uma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
(in: Poesias Reunidas. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1978.)
Canto de Regresso à Pátria
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os pássaros daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
(in: Poesias Reunidas. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1978.)
hípica
Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails
(in: Poesias Reunidas. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1978.)
Memórias Sentimentais de João
Miramar (trechos)
À guisa de prefácio
João Miramar abandona momentaneamente o periodismo para fazer
a sua entrada de homem moderno na espinhosa carreira das letras. E apresenta-se
como o produto improvisado e portanto imprevisto e quiçá
chocante para muitos, de uma época insofismável de transição.
Como os tanks, os aviões de bombardeio sobre as cidades encolhidas
de pavor, os gases asfixiantes e as terríveis minas, o seu estilo
e a sua personalidade nasceram das clarinadas caóticas da guerra.
Porque eu continuarei a chamar guerra a toda esta época embaralhada
de inéditos valores e clangorosas ofensivas que nos legou o outro
lado do Atlântico com as primeiras bombardas heróicas da
tremenda conflagração européia.
O glorioso tratado de Versalhes que pôs termo à loucura
nietzschiana dos guerreiros teutões, não foi senão
um minuto de trégua numa hora de sangue. Depois dele, assistimos
ao derramamento orgânico de todas as convulsões sociais.
Poincaré, Artur Bernardes, Lênine, Mussolini e Kemal Paxá
ensaiam diretivas inéditas no código portentoso dos povos,
perante a falência idealista de Wilson e o último estertor
rubro do sindicalismo. Quem poderia prever a Ruhr? Quem poderia prever
o "pronunciamento" espanhol? E a queda de Lloyd George? E
o telefone sem fio?
Torna-se lógico que o estilo dos escritores acompanhe a evolução
emocional dos surtos humanos. Se no meu foro interior, um velho sentimentalismo
racial vibra ainda nas doces cordas alexandrinas de Bilac e Vicente
de Carvalho, não posso deixar de reconhecer o direito sagrado
das inovações, mesmo quando elas ameaçam espedaçar
nas suas mãos hercúleas o ouro argamassado pela idade
parnasiana. VAE VICTIS!
Esperemos com calma os frutos dessa nova revolução que
nos apresenta pela primeira vez o estilo telegráfico e a metáfora
lancinante. O Brasil, desde a idade trevosa das capitanias, vive em
estado de sítio. somos feudais, somos fascistas, somos justiçadores.
Época nenhuma da história foi mais propícia à
nossa entrada no concerto das nações, pois que estamos
na época do desconcerto. O Brasil, país situado na América,
continente donde partiram as sugestões mecânicas e coletivistas
da modernidade literária e artística, é um país
privilegiado e moderno. Nossa natureza como nossa bandeira, feita de
glauco verde e de amarelo jalde, é propícia às
violências maravilhosas da cor. Justo é pois que nossa
arte também o queira ser.
Quanto à glótica de João Miramar, à parte
alguns lamentáveis abusos, eu a aprovo sem, contudo, adotá-la
nem aconselhá-la. Será esse o Brasileiro do Século
XXI? foi como ele a justificou, ante minhas reticências críticas.
O fato é que o trabalho de plasma de uma língua modernista
nascida da mistura do português com as contribuições
das outras línguas imigradas entre nós e contudo tendendo
paradoxalmente para uma construção de simplicidade latina,
não deixa de ser interessante e original. A uma coisa apenas
oponho legítimos embargos - é à violação
das regras comuns da pontuação. Isso resulta em lamentáveis
confusões, apesar de, sem dúvida, fazer sentir "a
grande forma da frase", como diz Miramar pro domo sua.
"Memórias Sentimentais"- por que negá-lo? -
é o quadro vivo de nossa máquina social que um novel romancista
tenta escalpelar com a arrojada segurança dum profissional do
subconsciente das camadas humanas.
Há, além disso, nesse livro novo, um sério trabalho
em torno da "volta ao material" - tendência muito de
nossa época como se pode ver no Salão d'Outono, em Paris.
Pena é que os espíritos curtos e provincianos, se vejam
embaraçados no decifrar do estilo em que está escrito
tão atilado quão mordaz ensaio satírico.
Literatura
Para Aradópolis, junto à fazenda Nova-Lombardia de recordações
nupciais, fordei em primeira com o dr. Pilatos e meu querido Fíleas
em excursão histórica e marcada conferência de Machado
Penumbra convite do Grêmio Bandeirantes comemorador da malograda
morte do conselheiro Zé Alves.
Auditório de fascistas sicilianos com professorado cow-boy no
cine de zinco e palmas.
Ao longo da ribalta exígua o orador pôs frases alvíssimas
nos bigodes pretos.
E de lambuja grandiloquou o conferente destinos territoriais de São
Paulo na expectativa do trem com colegiada despedidora e vivante.
- a plenitude cafeeira e pastoril de nosso Estado se distende nos assaltos
ao hinterland que foge num último galopar de índios e
de feras! A cada investida vitoriosa, os novos bandeirantes são
a reencarnação estupenda da luta, a magnífica,
a eterna ressurreição simbólica da Força!
De chapéu no braço e gestos, Minão da Silva, meu
agregado lombardo e jovem orgulho mulatal do grêmio, retrucou
tomando a palavra pela ordem.
- Não preocupei as bancadas das escolas, meus senhores e ilustríssimas
senhoras e crianças! Mas o conselheiro Zé Alves que o
ilustre colega comemoramos, não morreu! Apenas desapareceu de
nossa competência. O Grêmio Bandeirantes com 500 membros
me mandou saudá-lo. Ele tem doutores que não quiseram
vim. Mas a norma do regulamento dos estatutos me mandou saudar. Desculpe
os erros!
E o trem taratinchou saudades.
Negrologia
Quando Machado Penumbra tomara-me a seu valente lado no jornal mundano
e moderno que o chamara para repentino diretor como orientador e grande
prosador.
E na sala aberta da redação o dr. Pilatos noturno de ohs
e ahs aportou a notícia de fraque do adoecimento final e morte
de minha sogra. E porque tia fosse tia exigia com abraços minha
inoportuna presença em Higienópolis de janelas cerradas
e acessos silêncios.
Não fui à casa que revi funerando inteira mutismos de
passos e tlictlics de coroas e onde mudo, pomposo e lívido, o
dr. Pepe Esborracha atenderia flor de laranjeiras crises de cá
pra lá.
Testamenteiros
Por cuidado cabogramado do grande divorciador, o matrimonial contrato
de Nice fora de precavidos efeitos, impondo a Chelinini não mais
que três contos mensais de aluguel marideiro com cem de jóia
e jóias. E o dono esperto da esperta Nair cerrara testamento
tapado a máquina pela mão manhosa do médico de
Célia e Pindobaville dr. Pepe Esborracha. Num choroso conluio,
ambos se tinham descoberto como Brasis e concordado junto à cama
desfalecida da enferma de aquecedor elétrico nos pés de
cera. E assinaram a rogo que o longe Pantico ingrato empregado em Antuérpia
e a Cotita de óculos contrariantes, bestenamorada dum mineiro
de Minas, podiam dispensar vantagens que a devotação das
duas outras merecia haver na sobrenadante fortuna fazendeiral em alta.
Ordem e Progresso
Ano Novo jantou juntados redatores e convivas pela administração
jornalal de largas vistas e construiu a meu lado um paralelepípedo
de carne com óculos sem pé que era o dr. Mandarim Pedroso.
Machado Penumbra diretivo nos enfrentava casaca de papo branco e flor.
- É um grego de tendências emotivais! apontou-o com o guardanapo
o toutiço vizinhante à chegada do trem da sobremesa. Vai
longe! Vou fazê-lo Vice-Presidente do Recreio Pingue-Pongue.
Explicou-me o que era às claras essa chiquíssima sociedade
de moças que a sua personalidade centrava como um coreto.
- Uma forja de temperamentos e um ninho de pombas gárrulas. O
Sr. precisa entrar para lá, principalmente depois que o seu nome
de poeta e jornalista começa a raiar nos galarins da fama. Quer
saber, digo-lhe confidencialmente, o Presidente da República
saiu de nossas fileiras, o Prefeito de São Paulo também,
o Vice-Prefeito idem idem. Já fornecemos à alta administração
doze estrelas de primeira grandeza. Santos Dumont é dos nossos.
E súbito, reservado como as senhoras que a gente encontra na
sala secreta do museu de Nápoles:
O Sr. possui filhas?
- Sim. Tenho uma de seis anos.
- Ponha-a lá, ponha-a lá, se quiser salvá-la dos
perigos contemporâneos. Ah! Lá não se dança
o paso doble, meu caro senhor! O paso doble! Devia chamar-se a cópula
de salão! Olhe, nós vivemos numa civilização
de dancings...
Facas bateram copos semafóricos. Face a nós, Machado Penumbra
elevara-se, neto de Lord Byron na Itália.
- É um discurso para amigos, meus senhores! E como esta florida
mesa reúne somente rapazes, eu beberei a cupido! A cada presente
a esta reunião de saúde e fraternidade, eu junto uma ausente
cara, numa argonave de esperanças eternas.
Porque nós, meus colegas, meus amigos, neste vale de emoções,
de apogeus e de quedas de Ícaro, vivemos apenas o romance da
eterna pesquisa, da eterna procura, da eterna recherche, da eterna mágoa
da miragem! mas não fiquemos apenas na visão desse desejo
do impossível que a todos nos inquieta e comove. Prossigamos
na realização do Inachado, do Irrealizável, do
Incrível, alcancemos a promessa lantejoulante do Nada! À
mulher, ergo a minha taça de vencido!
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