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Guardados da memória: as cadernetas de campo de Guimarães Rosa


                                                         Sandra Guardini Teixeira Vasconcelos
                                                              Universidade de São Paulo

 Durante a expedição de naturalistas que atravessa o sertão, em O Recado do Morro, seo Olquiste, de "codaque" e de binóculo, inventaria o perfil geográfico e geológico da região, com suas lagoas, lapas, cavernas, grutas e morros. A cavalo, tomando notas em sua caderneta, faz perguntas e desenha ("de tudo tirava traço e figura leal"). Nada lhe escapa: nem os detalhes da fauna e da flora, nem as conversas e casos, nem as minúcias do cotidiano de seus acompanhantes.

Esse forasteiro de óculos e fala enrolada em tudo lembra a figura de seu criador. Tal qual seu personagem, Guimarães Rosa também fez sua travessia do sertão, em maio de 1952, tangendo boi com a comitiva de Manoel Nardy pelo interior de Minas Gerais, como ilustram as fotos da reportagem publicada pela revista O Cruzeiro[1] em junho do mesmo ano. Se em Olquiste, entretanto, transfigura-se o cientista, preocupado em observar e registrar suas descobertas sobre a paisagem natural, Guimarães Rosa revela, no seu reencontro com sua terra natal, sua face de etnógrafo, interessado não apenas na cartografia da região, mas sobretudo na cultura dos boiadeiros e sertanejos que povoaram sua obra.

O testemunho de alguns daqueles que o acompanharam comprova seu hábito da anotação, sua curiosidade e vocação para a pesquisa. O vaqueiro Mariano, que Rosa conheceu por ocasião de  sua visita à Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul, relata que o escritor

"Tudo queria saber: os nomes dos pássaros, dos pés de folha, o nome das vacas. Não largava o caderninho, nem nos rodeios. De vez em quando parava o cavalo para perguntar as cousas, tirava o caderninho e escrevia."[2]

 

Zito, o "guieiro" João Henriques Ribeiro que fazia parte da comitiva de Manoelzão, nos deixou uma crônica da viagem e descreve em versos toscos

"Manoezão tá contente

Co a viajem que fazia

Todo que passava

Dotor João Zito escrevia."[3]

 

referindo-se, certamente, à famosa caderneta que Rosa levou presa ao pescoço por um barbante e onde fez anotações, a lápis e em letra irregular.

Dessa viagem, Rosa também deixou dois cadernos que chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2,[4] cujas anotações foram posteriormente aproveitadas na elaboração principalmente das novelas de Corpo de Baile e cujo conteúdo, composto de frases e palavras, cenas e paisagens, romances, desafios e lundus, traz observações fragmentárias do cotidiano dos boiadeiros e homens do sertão com quem Rosa conviveu nesse período.

Sua vocação de cronista está presente em cada página dos diários, de onde vão nascendo as imagens do sertão que Rosa documenta, em meio a comentários, quadras, cantigas e histórias. As notas vão desenhando um cenário construído de minúcias: são descrições de bois, de aves, de plantas, da cor do céu. Em tudo, o gosto pelo detalhe, o cuidado com o pormenor:

"No mato margem direita: alto, nas árvores, abundantes, sempre as flores roxas de olho-de-boi: cipó (trepadeira). Canta um pássaro.  (Nhambu?)." (E28, p. 16)

 

"À noite. Escuro. Estrelas. O cone negro - teto de rancho de buriti (inclinado, bem, para as águas correrem). As árvores, escuras, estrelas entre os ramos. O cincerro de um boi de carro badaleja. Os grilos." (E28, p. 34)

 

"Entre as pedras da beira do córrego, floresce roxinho o meloso!" (E29, p. 60)[5]

 

Apesar de se constituírem em um conjunto de anotações fragmentárias, os dois diários permitem recompor o trajeto do escritor. Em larga medida, um itinerário que revela algumas interseções com os caminhos trilhados pelos jagunços de Grande Sertão: Veredas, em sua demanda pelos campos gerais, e se configura como uma espécie de mapeamento da paisagem das narrativas de Rosa. São quase 160 páginas, somados os dois cadernos, que registram as impressões do viajante, entremeadas pela descrição do cenário natural, das atividades cotidianas dos vaqueiros na lida com os bois, suas falas, versos, aboios, provérbios e rezas. Em meio a todas essas notas e fragmentos, vai-se desenhando o universo desses homens do sertão, seu modo de vida, suas histórias. Das páginas dos diários salta um mundo marcado por práticas coletivas e presidido por um ritmo de trabalho que, obedecendo ao ritmo da natureza, é pontuado pelo tempo da chuva, pelo berro dos bois ou pelo canto dos pássaros, como as rolas fogo-apagou e os nhambus. Ouvem-se os cantos e quadras que embalam os afazeres dos boiadeiros e preenchem suas horas de descanso. Sua sabedoria transpira em frases ditas num saboroso linguajar sertanejo:

"Quem não tem dente, não toca berrante ..." (E28, p. 33)

"Lá é Cristo, e cá é isto ... (Manoelzão)"

"Lá chove, e cá corre ..."

"O mundo acaba é para quem morre..." (E29, p. 76)

 

A existência de dois fragmentos datiloscritos na pasta E26 da série de Estudos para Obra sugere que houve um ensaio de aproveitamento do material colhido nessa viagem em duas outras narrativas, a que Rosa deu o título de "A Saída (19.V.52)" e "A Boiada", respectivamente. O título "Boiada" aparece novamente na pasta E27, da mesma série, desta vez acompanhado de uma anotação de que o conjunto seria composto de duas partes: I) Os contos; II) As etapas (jornadas).

Essas etapas parecem ter começado a adquirir forma na retomada das notas dos diários de viagem, reunidas desta vez nas duas pastas O43 e O44 da série de Originais Inéditos, a primeira com 10 jornadas e a segunda com 6, contendo a maior parte delas a data de maio de 52 e correspondendo a cada um dos dias da viagem. Embora inacabadas, em ambos os casos, fica evidente o maior nível de organização das notas que constam da pasta O44, que também recebeu o título de "A Boiada".

A freqüência da palavra "Boiada" na marginália dos diários de viagem comprova a intenção do escritor de organizar e dar forma narrativa a esse material, pois era seu hábito fazer anotações marginais, indicando o texto onde suas notas seriam ou poderiam ser aproveitadas. Para o estudioso da obra de Rosa, esse cotejo é de grande valia, pois fornece pistas muito seguras a respeito dos seus processos de composição, ao mesmo tempo que comprova o  notável valor documental de sua obra.

Enquanto Mário se tornou turista aprendiz, em suas viagens ao norte e nordeste do país na década de 20, onde coletou farto material sobre lugares, modos de vida e expressões culturais daquelas regiões, Guimarães Rosa, depois de deixar Cordisburgo em 1918 para estudar em Belo Horizonte, também fez sua viagem etnográfica a Minas, que percorreu, seja como médico, na década de 30, ou já diplomata, em dezembro de 1945 e maio de 1952. Nessas ocasiões, curando doentes ou revendo o mundo em que vivera quando menino, Rosa retomou contato com os costumes, falas, histórias, cantos e danças dos homens do sertão.

Trata-se, portanto, de um escritor cuja formação foi profundamente marcada por essa experiência de mediação entre dois mundos, ou entre dois modos de vida, um rural e tradicional e outro urbano e moderno. Acostumado desde criança a ouvir as narrativas de Juca Bananeira, o pagem negro que lhe contava histórias de boiadeiros e jagunços, Guimarães Rosa formou-se lenta e gradualmente nas artes da narração. Mais tarde, como diplomata, correu mundo - Rio de Janeiro, Paris, Bogotá, Hamburgo -, armazenando o “saber das terras distantes”.[6] Esse “homem do sertão”, “meio vaqueiro”, como ele se define em entrevista a Gunther Lorenz[7], foi também o sofisticado leitor de uma gama extensa de assuntos, como zoologia, heráldica, religião, literatura, filosofia, pintura.[8] A mistura programática desses saberes faz da obra de Rosa um espaço permanente de negociação entre a modernidade urbana e a cultura tradicional-oral das comunidades rurais, ou de articulação entre o espírito de vanguarda e o interesse no regional, o que, superando dualismos e dicotomias, resultou numa mescla de formas cultas e populares, arcaísmos e neologismos e regionalismos e estrangeirismos.

O Arquivo João Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros, oferece uma prova cabal do ânimo investigativo e curioso do escritor, demonstrado na impressionante massa documental que lhe serviu de alicerce e material. Ali, se o pesquisador da língua aparece nos incontáveis estudos de vocabulário e expressões, o estudioso da cultura, tanto erudita quanto popular, também se faz presente. O que salta aos olhos, nas pastas e cadernos, é seu interesse especial pela cultura sertaneja e, no interior dela, o gosto indisfarçado por bois e vaqueiros, manifestado nos registros e anotações de suas andanças por Minas Gerais em 1945 e 1952. Desde Cordisburgo, cidade situada entre Curvelo e Sete Lagoas, na zona de fazendas de criação e engorda de gado, Rosa conviveu intensamente, mesmo que durante largo tempo apenas no plano da memória, com o universo daquilo que ele mesmo referiu como “pé-duro, chapéu-de-couro”[9].

O sertão, ainda que designe uma área vasta e indefinida no interior do Brasil, apresenta uma certa continuidade, conferida por uma das atividades econômicas ali predominantes, a pecuária extensiva. É a presença do gado que unifica o sertão, e sua importância se confirma na freqüência com que aparece nos topônimos, nos objetos do cotidiano, nos ditados e máximas e nas histórias que circulam entre sua população. Essa atividade econômica, dessa forma, acaba criando um modo de vida, com suas rotinas cotidianas, seu imaginário, sua teia de relações, que pode ser melhor descrito como uma subcultura, entendida aqui como um conjunto de indivíduos que partilham comportamentos, artefatos e elementos cognitivos que caracterizam a maneira como vivem e os diferenciam de outros grupos no interior da sociedade.

É dessa subcultura sertaneja, povoada por tropeiros, capiaus, boiadeiros, pequenos fazendeiros que trata a obra de Guimarães Rosa. É o mundo da arraia miúda, da roça, o espaço privilegiado por ele, em que “o boi e o povo do boi” ocupam o primeiro plano e se tornam protagonistas de suas vidas e histórias. O povo em Guimarães Rosa canta, diz versos, conta histórias, dança, reza, expressa suas superstições e crenças, repete provérbios. Sua cultura é uma fala, através da qual se revela seu modo de vida. O popular flui, nasce do texto, da boca dos homens, mulheres e crianças do sertão; é fruto de sua experiência e parte de suas vidas e cotidiano. A matéria popular vai se entretecendo na trama do texto, borrando as fronteiras entre o popular e o erudito. Sua função não é contribuir para a cor local, nem ela é tratada como um elemento pitoresco.

Várias de suas narrativas nasceram da convivência de Guimarães Rosa com os vaqueiros, seu mundo, costumes e imaginário, durante a viagem do escritor acompanhando a boiada com Manoelzão. Suas notas e observações registram o que se poderia chamar de uma cultura do boi, incluindo sua nomenclatura, paisagem física, costumes e atividades, como a apartação, contagem, estouros, ajunta, etc. Por outro lado, os diários de viagem também revelam o grande interesse do escritor pelos "romances" e histórias de boi correntes no sertão e por festas e folguedos, tais como a folia de reis, batuque, congada, lundu e o bumba-meu-boi. Esse é o material e o substrato de grande parte de seus contos, entre eles "Uma Estória de Amor (A Festa de Manuelzão)", um caso exemplar de incorporação de uma língua e de formas narrativas típicas de uma cultura pecuária, de cuja paisagem e realidade fazem parte bois e vaqueiros.

Um cotejo entre "Uma Estória de Amor" e os diários de viagem demonstra de forma cabal quanto do convívio de Rosa com o mundos dos vaqueiros foi aproveitado na elaboração do conto.[10] Cenas da viagem foram muitas vezes transpostas por inteiro no conto. Uma foto da capelinha de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na fazenda à margem do rio São Francisco, e a descrição de Manoelzão deixam claro que Rosa levou para a ficção o que sua memória registrara. O personagem central de "Uma Estória de Amor" guarda traços de semelhança com Manoel Nardy, assim descrito pelo repórter Álvares da Silva:

"(...) pelo capataz Manoelzão - cidadão experimentadíssimo nas lidas da civilização 'couro do boi', alto, magro, tipo de asceta, rosto longo e barba de Cristo, bem viajado, (...)"[11]

 

O aproveitamento das notas de viagem se dá em diferentes níveis: na linguagem, por exemplo, com a incorporação de nomes de bois, aves e árvores, ou termos e expressões ouvidos no sertão. Ou no nível do narrador, que assume, no seu discurso, a dicção dos vaqueiros, seus torneios de frase, ou um certo tom proverbial. Ou, sobretudo, no plano da narrativa, que transforma em personagens vaqueiros e pessoas com os quais o escritor conviveu durante o acompanhamento da boiada  - o próprio Manoelzão, Chico Bràaboz, Raimundo Bindóia, o velho Camilo, Aquiles Luiz de Carvalho; e inclui, na ação do conto, situações e cenas que Rosa vivenciou no sertão,   como o ajuntamento da boiada e a missa na capela da fazenda do primo.

Entre o documento e a ficção, no entanto, se interpõe a figura do poeta, que transfigura essas imagens e institui o sertão como um espaço matricial, onde se cruzam particular e universal, real e mítico, fala e escritura.






[1] Silva, Álvares da e Silva, Eugênio H. Com o vaqueiro Guimarães Rosa: um escritor entre seus personagens. O Cruzeiro, Rio de Janeiro, 21 de junho de 1952.

[2] Ver o recorte "O vaqueiro e o ministro: o personagem fala sobre o autor". In: Flan, s.d. Arquivo João Guimarães Rosa, IEB/USP. O relato desse encontro foi publicado com o título de "Entremeio: com o vaqueiro Mariano". In: Rosa, João Guimarães. Estas Estórias. 2.ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1976, p. 67-98.

[3] Esses versos fazem parte da "Descrição dos vaqueiro do Jerais", registrados num caderno escolar de capa azul, escrito à lápis numa caligrafia muitas vezes quase ilegível. O Caderno do Zito historia em versos a viagem de acompanhamento da boiada em maio de 1952. Instituto de Estudos Brasileiros, USP.

[4] Os diários de viagem encontram-se no Arquivo João Guimarães Rosa, no Instituto de Estudos Brasileiros (USP). A boiada partiu no dia 19 de maio da fazenda Sirga, de propriedade de Francisco Guimarães Moreira, primo do escritor, e chegou à fazenda São Francisco no dia 29 de maio de 1952. Além disso, sobre a viagem de 1945, há notas reunidas numa pasta com o título de "Grande Excursão a Minas".

[5] As referências entre parênteses indicam o código sob o qual os diários de viagem podem ser localizados no Arquivo do escritor. E28 e E29 se referem à série Estudos, pastas 28 e 29.

[6] Ver Benjamin, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política (Ensaios sobre literatura e história da cultura). São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 197-221.

[7] Lorenz, Gunther W. & Rosa, João Guimarães. Literatura deve ser vida - um diálogo de GWL e JGR (Gênova, janeiro de 1965). In: Exposição do novo livro alemão no Brasil, 1971, p. 321 e 323, respectivamente.

[8] As pastas de Estudos do escritor, depositadas no Instituto de Estudos Brasileiros (USP), dão testemunho dessas leituras, assim como o livro de Suzi Frankl Sperber, Caos e cosmos: leituras de Guimarães Rosa. São Paulo, Duas Cidades/SCCT, 1976.

[9] Ele mesmo explica que “pé-duro” são “os bois de raça conformada à selvagem semi-aridez".

[10] Esse levantamento e cotejo foram realizados por mim e constituem o capítulo "Documento e Ficção" em Vasconcelos, Sandra Guardini T. Baú de Alfaias, op. cit., p. 194-214.

[11] Silva, Álvares da e Silva Eugênio H. Ver nota 1.