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VISÕES DO DESERTO:
SELVA E SERTÃO EM EUCLIDES DA CUNHA
Roberto
Ventura
Euclides
da Cunha publicou seu primeiro artigo, Em viagem, em 1884,
no pequeno jornal dos alunos do Colégio Aquino, no Rio de Janeiro. Registrava
as impressões captadas em um passeio de bonde, de onde via as encostas
cobertas de mata. Transfigurava a paisagem numa explosão de sons e cores,
em que a vida palpitava no esplendor da primavera: Guiam-me a pena
as impressões fugitivas das multicores e variegadas telas de uma natureza
esplêndida que o tramway me deixa presenciar de relance quase.
Introduzia,
neste quadro quase idílico, um tom sombrio ditado por sua sensibilidade
romântica, em que o progresso, representado pela estrada de ferro, era
visto como uma ameaça à natureza: o progresso envelhece a natureza,
cada linha do trem de ferro é uma ruga e longe não vem o tempo em que
ela, sem seiva, minada, morrerá! E concluía com um brado contra
o avanço da civilização, que degradava a beleza da paisagem: Tudo
isto me revolta, me revolta vendo a cidade dominar a floresta, a sarjeta
dominar a flor! (Cunha, 1995a, p. 567).
Tal
interesse pela natureza se tornou mais intenso a partir de sua mudança
para Campanha, no interior de Minas Gerais. Engenheiro militar e oficial
do Exército, foi transferido para a cidade serrana em 1894, após o término
da Revolta da Armada, como provável punição por ter protestado pelos jornais
contra a execução dos prisioneiros políticos pedida por um senador.
Examinou,
em Campanha, as características físicas e geográficas da região e estudou
geologia, lendo a obra de Emmanuel Liais, Climats, géologie, faune et
géographie botanique du Brésil, que depois citaria em Os sertões (Andrade,
1966, p. 72). Voltava-se para a paisagem como forma de superar sua desilusão
com a República e o Exército. Preparava-se ainda, com tais estudos, para
prestar concurso para vaga de professor na recém fundada Escola Politécnica
de São Paulo, aspiração que não pôde realizar.
Selva
e sertão
Euclides abordou duas regiões tidas como pouco propícias ao homem: o sertão
baiano e a selva amazônica. Enviado a Canudos como correspondente de guerra
em 1897, escreveu uma série de reportagens para O Estado de S. Paulo e
publicou, em 1902, Os sertões, em que criticou a violência da campanha
militar. Como chefe da comissão brasileira de reconhecimento do Alto Purus,
explorou as nascentes do rio e redigiu os ensaios sobre a Amazônia, reunidos
em Contrastes e confrontos, de 1907, e em À margem da história, de 1909.
Os
ensaios amazônicos são a face menos conhecida de sua obra. Encontram-se
dispersos em artigos e entrevistas de jornal, em crônicas e prefácios,
em sua correspondência, além dos documentos da viagem, que foram resumidos
no Relatório da comissão mista brasileira-peruana de reconhecimento do
Alto Purus (1906). Relatório que se completa com o registro visual da
expedição: as fotografias de Egas Florence e os mapas que fez como cartógrafo
do Itamarati. Alguns desses ensaios foram comentados por Sylvio Rabello,
Leandro Tocantins, Francisco Foot Hardman e Lourival Holanda Barros.
Euclides
descreveu o sertão baiano e a selva amazônica como paisagem fantástica
ou maravilhosa, que paralisa o observador, tomado por um misto de terror
e êxtase, de desilusão e deslumbramento, frente ao desconhecido. Em carta
escrita de Manaus, observou sobre a Amazônia: O forasteiro contempla-a
sem a ver através de uma vertigem. É um infinito que deve ser dosado
(Galvão et al., 1997, p. 268).
Recorreu,
em seus escritos sobre Canudos e o Purus, a uma mesma imagem: o deserto.
A imagem aproxima a floresta tropical da caatinga do semi-árido, os sertões
baianos dos amazônicos. Selva e sertão são vistos como desertos por seu
isolamento geográfico e povoamento rarefeito, e sobretudo por serem territórios
ainda não explorados pela ciência, que os viajantes evitavam e que os
cartógrafos excluíam de seus mapas.
Sertão
designa, segundo o dicionário de Morais Silva, o interior ou o coração
das terras, região longe da costa e do mar. Sertão é, para Euclides, tudo
aquilo que está fora da escrita da história e do espaço da civilização:
terra de ninguém, lugar da inversão de valores, da barbárie e da incultura.
São territórios misteriosos, fora da história e da geografia, que não
foram mapeados de forma sistemática. São regiões à margem da empresa escritural
e discursiva que se apropriou do além-mar e do Novo Mundo transatlântico
como parte da expansão e da implantação das operações militares, comerciais
e religiosas da civilização ocidental (Certeau, 1982).
Descreveu,
em Os sertões, a região de Canudos, no vale do rio Vaza-Barris, no nordeste
da Bahia, como estranho território ou paragem sinistra
e desolada, que teria atravessado quatrocentos anos de história
absolutamente esquecida: As nossas melhores cartas enfeixando informes
escassos, lá têm um claro expressivo, um hiato, Terra ignota, em que se
aventura o rabisco de um rio problemático ou idealização de uma corda
de serras (Cunha, 1985, pp. 96-8). Considerou o sertão baiano como
área com leis climáticas próprias e um tipo humano definido, o sertanejo,
que idealizou como homem forte, mistura de cavaleiro medieval e de vaqueiro
romântico, rocha viva, sobre a qual se poderia criar o brasileiro
do futuro.
Enfocou,
tanto em Os sertões, quanto nos ensaios amazônicos, um mesmo personagem:
o sertanejo, expatriado dentro da própria pátria. Denunciou
a antinomia vergonhosa, em que o civilizado se tornava bárbaro
em Canudos ou no Purus. Reunido em comunidade sob a liderança do Conselheiro,
ou em migração para os seringais do Acre, o sertanejo fugia das calamidades
da seca. Inimigo da República em Canudos, passou a ser visto com maior
simpatia na Amazônia, como agente de povoamento nos confins da selva,
responsável pela expansão do território brasileiro.
Euclides
trouxe a público, em artigo na revista Kosmos, do Rio de Janeiro, e em
À margem da história, o trabalho semi-escravo nos seringais do Acre, que
atacou como a mais criminosa organização do trabalho, paraíso diabólico
ou prisão sem muros, em que o homem, acorrentado a dívidas,
trabalhava para se escravizar. As estradas que ligavam as barracas às
árvores lembravam, com seu traçado, os tentáculos de um polvo desmesurado,
imagem monstruosa e expressiva da sociedade torturada (idem,
1995c, pp. 558-60; idem, 1995g, p. 258).
O
narrador-viajante, batedor do processo histórico e civilizatório, segue
trilhas e pistas pelo deserto. Fora da história e da geografia, o sertão
tornou possíveis atos de violência e barbárie, como o massacre dos conselheiristas,
o cárcere dos seringueiros e a destruição das matas e florestas, devastadas
pelas queimadas indígenas, pela exploração dos plantadores e pelas caldeiras
dos barcos e locomotivas a vapor.
Os
sertões baianos
Flora Süssekind mostrou, em O Brasil não é longe daqui, que o narrador
romântico da prosa de ficção brasileira, surgida em meados do século XIX,
incorporou a forma literária dos relatos de viagem e a visão pictórica
dos desenhos dos paisagistas. O sujeito ficcional tinha, nesse momento,
um perfil bastante próximo ao narrador de viagens, ao cartógrafo e ao
paisagista, e atuava, ao mesmo tempo, como historiador e cronista de costumes.
Ao
escrever sobre Canudos e a Amazônia, Euclides adotou o ponto de vista
do viajante em movimento, que dá expressão artística ou científica à paisagem.
Não se colocou, em Os sertões, como narrador, com exceção da Nota
preliminar e de alguns poucos trechos, em que admitiu ter registrado
suas impressões pessoais: O que se segue são vagas conjecturas.
Atravessamo-lo [o sertão] no prelúdio de um estio ardente e, vendo-o apenas
nessa quadra, vimo-lo sob o pior aspecto (idem, 1985, p. 110). Incorporou,
como narrador, a cultura escrita e dialogou com a tradição dos relatos
de viagem e das expedições científicas.
Publicou,
em 14 de março de 1897, no Estado de S. Paulo, A nossa Vendéia,
seu primeiro artigo sobre Canudos. Comparava a guerra à rebelião camponesa,
monarquista e católica, da região da Vendéia, ocorrida na França, de 1793
a 1795, como reação à derrubada do Antigo Regime. Assim como a Revolução
Francesa havia sido ameaçada pelos camponeses da Vendéia, a recém-proclamada
República brasileira estaria em perigo pela atuação dos seguidores de
Antônio Conselheiro. A comparação garantia, pela crença na repetição da
história, a certeza da vitória sobre os rebeldes: Este paralelo
será, porém, levado às últimas conseqüências. A República sairá triunfante
desta última prova.
Escrito
em São Paulo, antes de ser enviado ao local do conflito, o artigo surpreendeu
pela riqueza de detalhes geográficos, climáticos, botânicos e geológicos
sobre o vale do Vaza-Barris, recriados a partir dos mapas e informações
fornecidos pelo engenheiro baiano Teodoro Sampaio, seu colega na Secretaria
de Agricultura, Comércio e Obras Públicas de São Paulo, que percorrera
o interior da Bahia em 1880. Citava viajantes e naturalistas, como Martius,
Saint-Hilaire, Humboldt, Caminhoá e Livingstone e antecipava algumas das
teses de Os sertões sobre a simbiose entre o homem e a terra do sertão
Descrevia
o meio físico como o maior aliado dos conselheiristas, na tentativa de
explicar a surpreendente derrota de três expedições militares enviadas
contra o arraial. A natureza agreste seria o maior obstáculo ao avanço
das tropas, por apresentar solo arenoso e estéril, com vegetação escassa
e deprimida. Destacava ainda as oscilações climáticas extremas, da
maravilhosa exuberância à completa esterilidade, em que os períodos
de seca se alternavam com chuvas torrenciais, que faziam a vegetação voltar
a florescer (idem, 1939, pp. 161-7).
Em
um segundo artigo, publicado em julho no Estado, considerou o jagunço,
contra o qual lutavam os soldados republicanos, como reflexo do meio rude
e inconstante: Não há persegui-lo no seio de uma natureza que o
criou à sua imagem - bárbaro, impetuoso e abrupto (idem, ibidem,
p. 172). O inimigo era auxiliado pela natureza, que formava cerrados impenetráveis
nas encostas e serras e levantava trincheiras na movimentação irregular
do solo, fornecendo ainda salitre para o preparo da pólvora e grãos de
quartzo depositados nos leitos dos rios que serviam como balas.
Euclides
adotou, em Os sertões, publicado cinco anos após o término do conflito,
uma concepção naturalista, baseada no historiador francês Hippolyte Taine,
que lhe forneceu a base científica, ou o pretexto, para buscar correspondências
poéticas entre os fatos narrados e a paisagem à sua volta. Taine considerou,
na Histoire de la littérature anglaise (1863), que a história de um povo
seria determinada por três fatores: o meio, ou o ambiente físico e geográfico;
a raça, responsável pelas disposições inatas e hereditárias; e o momento,
resultante das duas primeiras causas.
Euclides
dividiu seu livro em três partes, correspondentes aos fatores apontados
por Taine: A terra, O homem e A luta.
Tratou, em A terra, da geologia e da geografia do sertão baiano,
incluindo o clima do semi-árido, a vegetação da caatinga e a problemática
das secas que assolam a região. Barbaramente estéreis, maravilhosamente
exuberantes, os sertões formariam uma categoria geográfica própria,
paradoxal e antitética, capaz de oscilar entre a aridez das estepes e
desertos e a abundância dos vales férteis. O martírio da homem,
submetido à violência dos agentes exteriores e às estiagens prolongadas,
seria apenas o reflexo de uma tortura maior: Nasce do
martírio secular da Terra...
Discutiu,
em O homem, as origens do homem americano, a formação racial
do sertanejo e os malefícios da mestiçagem. Explicou a guerra como o resultado
do choque entre dois processos de mestiçagem: a litorânea e a sertaneja.
Glorificou o mestiço do sertão, que apresentaria vantagem sobre o mulato
do litoral, devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes
africanos, que tornariam mais estável sua evolução racial e cultural.
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo
dos mestiços neurastênicos do litoral (idem, 1985, pp. 137, 179).
Finalmente,
em A luta, denunciou o Exército e o governo pela destruição
da comunidade e pela degola dos prisioneiros, realizados em nome da consolidação
da ordem republicana. Procurou mostrar como os dois lados do conflito
- o litoral e o sertão - se encontravam tomados por fanatismos religiosos
e políticos. Os soldados saudavam a memória do marechal Floriano Peixoto,
cuja efígie traziam no peito, com o mesmo entusiasmo doentio com que os
jagunços bradavam pelo Bom Jesus. O coronel Moreira César, comandante
da terceira expedição, líder epiléptico dos florianistas, é tido como
tão desequilibrado quanto o Conselheiro. Ambos refletiriam a instabilidade
dos primórdios da República.
Euclides
viu o sertão como reflexo do litoral: a barbárie estaria por toda parte.
Criticou as jornadas jacobinas no Rio de Janeiro, em março de 1897, quando
multidões reagiram à notícia da derrota da terceira expedição contra Canudos
com a destruição de jornais monárquicos e o assassinato de um jornalista.
Considerava os manifestantes da rua do Ouvidor, centro do comércio elegante
e das redações de jornais, mais perigosos do que o homem do sertão: são
trogloditas completos, enluvados e encobertos de tênue
verniz de cultura. E observou: O mal era maior. Não se confinara
num recanto da Bahia. Alastrara-se. Rompia nas capitais do litoral
(idem, ibidem, pp. 373-4).
Acreditava
que o crime cometido em Canudos se tornara possível pelo isolamento geográfico
e cultural da região: Ademais, não havia temer-se o juízo tremendo
do futuro. A História não iria até ali. E evocava o cronista Gaspar
Barlaeus sobre os desmandos da época colonial: Canudos tinha muito
apropriadamente, em roda, uma cercadura de montanhas. Era um parêntese;
era um hiato; era um vácuo. Não existia. Transposto aquele cordão de serras,
ninguém mais pecava (idem, ibidem, pp. 537-8). Imersos em um território
fora das leis da história e da geografia, os soldados e oficiais tinham
certeza da impunidade e recuavam no tempo, agindo de forma bárbara e selvagem.
Mas
Euclides se afastou, em parte, do determinismo geográfico, ao admitir
a possibilidade de o homem amenizar os efeitos das secas pela construção
de açudes e canais, tomando, como exemplo, a atuação dos romanos na Tunísia.
Criticou também a devastação do meio-ambiente promovida pelas queimadas
que o colonizador aprendera com os indígenas, assumindo o papel de terrível
fazedor de desertos. Capaz de criar desertos, o homem poderia também
extingui-los, corrigindo o passado.
Distanciou-se
ainda do naturalismo ao transformar a natureza em símbolo, que projeta
sombras e imagens sobre a narrativa. A vegetação da caatinga permitiria
antever o sacrifício dos sertanejos executados pelos soldados. As flores
rubras dos cabeças-de-frade, deselegantes e monstruosos, lembravam cabeças
decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica.
As palmatórias-do-inferno, diabolicamente eriçadas de espinhos,
evocavam o martírio dos seguidores do Conselheiro (idem, ibidem, pp. 54-5,
65).
O
livro da natureza
Euclides confessou, em carta de 1903 a Luís Cruls, que alimentava, havia
muito, o sonho de uma viagem ao Acre, mas que não via como realizá-la
(Galvão et al., 1997, p. 149). A região era palco desde 1902 de conflitos
entre soldados peruanos e seringueiros brasileiros e se tornara alvo de
disputas territoriais entre o Brasil, o Peru e a Bolívia. O engenheiro
belga Luís Cruls chefiara, em 1901, a comissão de reconhecimento do Alto
Javari, na região do Acre, para o Ministério das Relações Exteriores.
Euclides
se desligou, no início de 1904, da atividade de engenheiro que exercia
para o governo de São Paulo desde 1895, depois de sua saída do Exército.
Sem emprego fixo, retomou a colaboração com O Estado e passou a escrever
também para O País, no Rio de Janeiro, enquanto procurava nova colocação
na engenharia. Foi ao Rio pedir ajuda a Lauro Müller, ministro da Viação
e Obras Públicas, que fora seu colega na Escola Militar.
Em
dois artigos em O País, de maio de 1904, apresentava ao governo e aos
engenheiros o plano de uma cruzada ou de uma campanha
formidável contra o deserto: O deserto invoca o deserto. Cada
aparecimento de uma seca parece atrair outra, maior e menos remorada,
dando à terra crescente receptibilidade para o flagelo. Propunha
uma guerra dos cem anos de combate às secas do Nordeste, que
incluía a exploração científica da região e a realização de um conjunto
de obras, como a construção de açudes e poços artesianos, a arborização
em larga escala, a construção de estradas de ferro e o desvio das águas
do rio São Francisco para as regiões atingidas pela estiagem (Cunha, 1995e,
pp. 153-60).
Sem
perspectivas de obter trabalho como engenheiro, tornou público seu interesse
pela Amazônia, ao tomar parte, em maio de 1904, com artigos no Estado
de S. Paulo, do debate sobre a ocupação do Acre e os conflitos do Peru
com a Bolívia e o Brasil, que tomava como movimento de expansão para o
Atlântico. Revelava sua disposição para participar de uma das viagens
de exploração dos rios da região, Juruá e Purus, que se anunciavam para
o ano seguinte.
Temendo
a eclosão de uma guerra, criticava, nestes artigos, o envio de tropas
brasileiras para o Alto Purus e defendia uma solução diplomática, sem
intervenção militar, para as questões de fronteira. Mostrava-se favorável
aos termos do Tratado de Petrópolis, que o Brasil assinara com a Bolívia
no ano anterior, incorporando o território do Acre, que havia sido ocupado
por seringueiros vindos do Norte e do Nordeste (idem, ibidem, pp. 179-89).
O
barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores, nomeou Euclides,
em agosto de 1904, chefe da comissão brasileira de reconhecimento do Alto
Purus, com a missão de fazer o levantamento cartográfico das cabeceiras
do rio. Viajou, em 1905, de Manaus às nascentes do Purus, desbravando
uma nova fronteira, desconhecida da ciência.
Como
Alexander von Humboldt, que estudara mapas e documentos em Paris, para
se preparar para a viagem à América, narrada na Relation historique (1814-25),
Euclides consultou relatos de viagem, relatórios administrativos e mapas
das expedições anteriores. Leu Humboldt, Martius, Spix, Agassiz, Bates,
Chandless, Tavares Bastos, Sousa Coutinho e Soares Pinto, antes de mergulhar
na escuridão do desconhecido. Estudou sobretudo o relatório da expedição
à mesma região, realizada pelo inglês William Chandless em 1861.
Na
viagem para Manaus, desapontou-se ao entrar no rio Amazonas, que não correspondia
ao ideal que concebera a partir das páginas singularmente líricas
de Humboldt e de outros exploradores, como Frederick Hartt e Walter Bates.
Observou em À margem da história: ao defrontarmos o Amazonas real,
vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo prefigurada.
A
visão da paisagem entrava em conflito com a imagem pré-dada, criada a
partir da leitura dos viajantes, como contou em seu discurso de posse
na Academia Brasileira de Letras: Afinal, o que prefigurara grande
era um diminutivo: o diminutivo do mar, sem o pitoresco da onda e sem
os mistérios da profundura. Com seus horizontes vazios e indefinidos,
em que as linhas horizontais predominavam sobre as verticais, quase inexistentes,
o rio lhe provocava uma monotonia inaturável (idem, 1995b,
p. 229; idem, 1995g, p. 249).
Tal
confronto com a natureza é mediado pela leitura dos cronistas e viajantes,
com suas visões fantásticas e fabulosas, e pelo decifrar dos cartógrafos,
cuja geografia se confundia com a mitologia. Euclides projetava imagens
e noções sobre o meio amazônico e a floresta tropical, fornecidas pelos
exploradores, que não se ajustavam às emoções e sensações provocadas pela
realidade observada. Retificou tais visões até formar seu próprio conceito
da Amazônia como paraíso perdido, página incompleta do Gênesis,
cuja criação ainda não se concluíra.
Intoxicado
por leituras que apregoavam a impossibilidade de civilização nos trópicos,
Euclides se encantou com Belém, cujo esplendor desmentia as profecias
negativas dos filósofos europeus. A cidade lhe causou surpresa com seu
paisagismo moderno, avenidas largas e arborizadas, edifícios majestosos,
praças aprazíveis e gente de hábitos cosmopolitas. Passou ali duas horas
inesquecíveis, como escreveu ao pai, e visitou o Museu Paraense de História
Natural, onde se encontrou com os naturalistas Emílio Goeldi e Jacques
Huber, que lhe deu cópia de trabalho sobre a região (Galvão et al., 1997,
p. 249).
De
volta ao navio, varou a noite na leitura do estudo de Huber, como contou
no discurso na Academia Brasileira de Letras: Deletreei-me a noite
toda: e na antemanhã do outro dia -- um daqueles glorious days de que
nos fala Bates, subi para o convés, de onde, com os olhos ardidos da insônia,
vi, pela primeira vez, o Amazonas... Salteou-me, afinal, a comoção que
eu não sentira. O rio se converteu em mundo maravilhoso,
que estimulava a imaginação e a expressão artística: A própria superfície
lisa e barrenta era mui outra. Porque o que se me abria às vistas desatadas
naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas, lembrava [...]
uma página inédita e contemporânea do Gênesis (Cunha, 1995b, p.
230).
Em
um primeiro momento, anterior à viagem, prefigurou a visão da natureza
através da leitura. Desiludido com a paisagem observada, retornou aos
livros em busca de chaves ou pistas que pudessem levá-lo à estesia. Última
página do Gênesis, a Amazônia se oferece ao homem como livro aberto
à decifração, cuja escrita ou formação ainda não se completou: É
uma terra que ainda se está preparando para o homem - para o homem que
a invadiu fora de tempo, impertinentemente, em plena arrumação de um cenário
maravilhoso (Galvão et al., 1997, p. 252).
A
metáfora do livro da natureza e do mundo foi abordada por Ernst Robert
Curtius, em Literatura européia e Idade Média Latina, como um dos tópicos,
ou imagens recorrentes, da literatura ocidental. Seu percurso pode ser
rastreado da eloqüência sagrada à filosofia medieval, até passar ao uso
geral da linguagem, tendo sido empregada como metáfora laica, afastada
das origens religiosas, por Diderot, Voltaire e Rousseau, pelos pré-românticos
ingleses e pelos românticos alemães (Curtius, 1996, pp. 375-429).
Euclides
concebeu os sertões nordestinos e amazônicos como espaços vazios, fora
da escrita e da civilização, e recorreu ao livro como mediador na observação
da paisagem. Partindo da cultura escrita, o viajante se voltava para a
paisagem, de modo a reinterpretá-la por meio da notação literária e científica.
Os
sertões amazônicos
Euclides passou três meses em Manaus, de janeiro a abril de 1905, às voltas
com os preparativos da viagem ao Purus. Sentiu-se confinado na cidade,
como os seringueiros presos às zonas de extração do látex. Cercado de
obstáculos para a partida da expedição, irritava-se com a agitação de
Manaus, Meca tumultuária dos seringueiros, comercial
e insuportável, meio caipira, meio européia, em que o yankee
se punha lado a lado com o seringueiro (Galvão et al., 1997, pp. 252-6).
Ficou
doente, com febre alta, e passou mal com o calor e a umidade de um clima
que julgava, com ironia, bom apenas para as palmeiras. Tinha a sensação,
em plena cidade tropical, de estar preso em um quarto escuro e estreito.
Vivo sem luz, meio apagado e num estonteamento, escreveu em
uma de suas cartas de Manaus, repletas de queixas e desabafos (idem, ibidem,
p. 266). A vastidão da natureza entrava em choque com o sufoco do espaço
urbano.
Passado
um mês, reconciliou-se com o clima amazônico, com suas manhãs primaveris
e admiráveis, mas continuou a enfrentar dificuldades para partir
rumo a seu duelo com o deserto. Escreveu, em março a Coelho
Neto, sobre a atração que sentia pelo deserto amazônico, onde poderia
satisfazer sua necessidade de solidão: Não te direi os dias que
aqui passo, a aguardar o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador
onde pretendo entrar com os arremessos britânicos de Livingstone e a desesperança
italiana de um Lara, em busca de um capítulo novo no romance mal-arranjado
desta minha vida (idem, ibidem, pp. 250, 266).
Havia
poucos barcos disponíveis para a comissão brasileira e as lanchas dos
peruanos estavam nos estaleiros em Belém para consertos. O Itamarati demorava
para enviar as instruções da viagem. O atraso foi desastroso para a expedição,
que saiu com os rios em baixa e enfrentou inúmeras dificuldades, que acabaram
por comprometer a saúde de Euclides e impediram a exploração de uma das
cabeceiras do Purus. Mas não se deixava abater. Certo não se me
fraqueará o ânimo: marcharei a pé para o meu objetivo, afirmou em
carta ao crítico José Veríssimo (idem, ibidem, p. 267).
A
expedição partiu de Manaus, para uma viagem de seis meses e meio, de abril
a outubro de 1905. Saindo na vazante dos rios, tiveram que abandonar as
lanchas a vapor e fazer grande parte do percurso a pé, com canoas arrastadas
a pulso. O barco com os víveres e mantimentos naufragou. Chegaram famintos
e esfarrapados ao Cujar, uma das cabeceiras do Purus, e desvendaram o
mistério de sua ligação com os rios Ucayali e Madre de Dios, feita através
de varadouros abertos pelo homem.
Euclides
fez o reconhecimento hidrográfico do Purus e preparou os mapas que, junto
com os resultados da expedição ao Juruá realizada pelo coronel Belarmino
Mendonça, permitiram ao barão do Rio Branco resolver as questões de fronteira
entre o Brasil e o Peru em setembro de 1909.
De
Manaus, após o retorno da expedição, Euclides escreveu novamente a Veríssimo,
seu colega na Academia Brasileira de Letras. Sentia que as privações e
os sofrimentos enfrentados em sua batalha obscura e trágica com
o deserto lhe prejudicaram a vida (idem, ibidem, p. 290). Voltou
ao Rio de Janeiro, no início de 1906, com a saúde debilitada. Contraiu,
na selva, malária crônica e incurável, com febres periódicas, que se juntou
à tuberculose da infância. Sofria de alucinações, com o espectro de uma
mulher de branco que o perseguia nas noites insones.
O
inferno urbano<
De
volta da selva, encontrou a capital da República transfigurada pelas reformas
urbanas do prefeito Pereira Passos. O antigo centro tinha sido remodelado
com a abertura da Avenida Central, atual Av. Rio Branco, inaugurada em
1905. A capital o irritava, com seu cosmopolitismo postiço e a presença
ostensiva dos bondes e automóveis, como contava em carta ao diplomata
Domício da Gama: Há um delírio de automóveis, de carros, de corsos,
de banquetes, de recepções, de conferências, que me perturba - ou que
me atrapalha, no meu ursismo incurável (idem, ibidem, p. 341).
Adido
ao Ministério das Relações Exteriores, encarregado de trabalhos de cartografia,
sentia o desconforto de uma posição instável, sem posto definido, sujeito
às graças do barão do Rio Branco, já que não pertencia ao quadro efetivo
de funcionários. O inferno se prolongava em casa, com a mulher
envolvida com um jovem cadete, Dilermando de Assis, que contava com a
amizade dos filhos.
Apesar
das privações passadas no Acre e da saúde muito comprometida, esperava
que se abrisse de novo a trilha do deserto, como escreveu
a Oliveira Lima (idem, ibidem, p. 363). Pretendia fiscalizar a construção
da estrada de ferro Madeira-Mamoré, mas desistiu devido à oposição do
pai e na esperança de fazer viagem de demarcação de fronteiras com a Venezuela,
que acabou por não realizar.
Retomou,
em 1907, os assuntos latino-americanos com uma série de artigos no Jornal
do Comércio, do Rio, reunidos no livro Peru versus Bolívia, que logo foi
traduzido para a língua espanhola. Criticava as pretensões do Peru, que
reivindicava parte da região do Acre, incorporada ao território brasileiro
e boliviano, e tomava partido da Bolívia.
Pretendia
sintetizar suas impressões da Amazônia em Um paraíso perdido, título que
evocaria o poeta inglês John Milton de Paradise lost. Seria, em suas palavras,
o seu segundo livro vingador (idem, ibidem, p. 306). Queria
integrar, como em Os sertões, uma ampla interpretação histórico-cultural
ao clamor por justiça social e pela modernização do país. Sua morte repentina
em 1909, em tiroteio com o amante de sua mulher, Ana, interrompeu a redação
do livro.
O
fracasso de tal projeto encontra sua imagem na natureza amazônica, que
Euclides via como inacabada e tumultuada, em permanente instabilidade.
O traçado dos rios faz-se e desfaz-se. Ilhas surgem e desaparecem, margens
mudam de lugar. Observou em À margem da história: o homem, ali,
é ainda um intruso impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido -
quando a natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão.
E encontrou uma opulenta desordem... (idem, 1995g, p. 249)
A
passagem do homem é igualmente efêmera. São construtores de ruínas,
entregues ao extrativismo econômico e à devastação ambiental. Não haveria
como fixar, em linhas definitivas, uma natureza submetida, segundo ele,
ao exaspero de monstruoso artista incontentável. Como seu
intérprete, o rio é barroco na volúpia vertiginosa da recriação incessante:
retoca, refaz e recomeça um quadro perpetuamente indefinido. Recordava,
com suas curvas infindáveis, o roteiro indeciso de um caminhante
perdido, a esmar horizontes, volvendo-se a todos os rumos ou arrojando-se
à ventura em repentinos atalhos (idem, ibidem, pp. 255-6; idem,
1995f, p. 495).
Toda
cartografia ou interpretação da Amazônia não passariam, para Euclides,
de tentativas de captação de um objeto em mutação constante. O estilo
e a cognição giram, em seus ensaios amazônicos, como espirais em torno
do inapreensível. A vegetação labiríntica e o emaranhado dos rios encontravam
expressão em uma sintaxe igualmente sinuosa. A opulência da floresta se
recriava no vocabulário luxurioso.
Propôs,
no prefácio a O inferno verde, romance amazônico do engenheiro Alberto
Rangel, seu antigo colega da Escola Militar, uma guerra de mil anos
contra o desconhecido, que permitisse arrancar os derradeiros
véus da paragem maravilhosa, onde hoje se nos esvaem os olhos deslumbrados
e vazios. Imaginou a Amazônia como esfinge, que provocava a vertigem
do deslumbramento e encerrava os mais recônditos segredos, cuja
decifração traria o fim da história natural: Mas então não haverá
segredos na própria Natureza. A definição dos últimos aspectos da Amazônia
será o fecho de toda a História Natural... (idem, 1995f, p. 493)
Euclides
julgava inexorável a marcha do progresso e da civilização, que traria
a absorção do indígena e do sertanejo pelas raças e culturas tidas como
superiores. Os sertões quer nordestinos, quer amazônicos, são vistos como
desertos, espaços fora da escrita. Ao explorar a caatinga e a floresta
e resgatar o sertanejo esquecimento, o narrador-viajante procurava inseri-los
na história. O escritor defendia a integração dos sertões à escrita e
à história, cujos limites e fronteiras estariam em contínua expansão.
Povoar, colonizar e escriturar são os instrumentos de tal transplante
da civilização para os territórios bárbaros. Fora da escrita e da história,
não há salvação: só existe o deserto.
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