O NOVO CONTO BRASILEIRO: APOCALIPSES





10 - Desfecho




Gostaria de encerrar de maneira fulminante. Ou seja, em silêncio. Assim, o que fica no ar é apenas o cheiro da pólvora desses jovens prosadores em início de carreira, que, por isso mesmo, não economizam munição. Mas antes do silêncio, um último gesto arrebatado, tão-só para unir as duas pontas que até agora permaneceram soltas: a do dionisíaco e a do apocalíptico. Proponho, em nome de todos os xamãs que já pisaram o solo da terra brasilis, que a partir de agora a primeira categoria seja substituída pela segunda, que a postura apocalíptica deixe de ser antagônica à do otimista e passe a caracterizar o vigoroso passo da literatura brasileira contemporânea. Dessa forma, há boas chances de que cada autor continue dono do seu Apocalipse particular.

Nomes faltaram. Nomes sempre faltam, daí a impossibilidade da elaboração de um painel coeso e harmônico do novo conto brasileiro. Quem conhece um pouco do que os novos autores estão publicando — e foi suficientemente paciente para me acompanhar até aqui — deve estar experimentando certa frustração. Afinal, onde ficam as Aberrações, de Bernardo Carvalho, os Contos tortos, de Airton Paschoa, A vida secreta dos relógios, de Roney Cytrynowicz, e O sucesso não acontece no meu caso, de José Mucinho? Onde ficam O homem e o labirinto e O visitante noturno, de Carlos Ribeiro, As baleias de Saguenay e Um pouco mais de swing, de João Batista Melo, e, por que não, Os saltitantes seres da lua, Naquela época tínhamos um gato, Treze e Às moscas, armas!, de Nelson de Oliveira? Tudo o que posso dizer é que a asserção que dá início a este pronunciamento se mostrou, no final, não um recurso retórico e muito menos um blefe a fim de impressionar a audiência, mas a mais pura verdade. Minha apresentação foi apenas parcial, não passando de simples depoimento pessoal sobre os autores que conheço e admiro. Tentar transformar este depoimento num estudo que ambicionasse cartografar o novo conto brasileiro, seria cair numa cilada. Continuo não crendo que tal empreendimento seja passível de ser levado a cabo neste momento.

Antes do tão aguardado silêncio, um convite ao apocalipse. Toda crítica é, em suma, um brinquedo de armar. Convido o leitor a invadir livrarias e, conseqüência lógica, a montar sua própria constelação de novos contistas.

Ao silêncio, enfim!

   

AUTORES E LIVROS

 

Ademir Assunção
A máquina peluda
, Ateliê Editorial, 1997.
 

Airton Paschoa
Contos tortos, Nankin Editorial, 1999.

 

Aleilton Fonseca
Jaú dos bois, Relume Dumará, 1997.
 

Altair Martins
Como se moesse ferro, VS Editora, 2000.
 

Bernardo Carvalho
Aberrações, editora Companhia das Letras, 1996.
 

Carlos Ribeiro
O homem e o labirinto, editora BDA Bahia, 1995.
O visitante noturno, Fundação Cultural da Bahia, 2000.
 

João Batista Melo
As baleias de Saguenay, editora Rocco, 1997.
Um pouco mais de swing, editora Rocco, 1999.
 

João Anzanello Carrascoza
Hotel solidão, editora Escritta, 1997.
O vaso azul, editora Ática, 1999.
 

Jorge Pieiro
Fragmentos de Panaplo, editora Letra e Música, 1989.
Caos portátil, editora Letra e Música, 1999.
 

José Mucinho
O sucesso não acontece no meu caso, editora ComArte, 2000.
 

Luiz Ruffato
Histórias de remorsos e rancores, editora Boitempo, 1998.
(os sobreviventes), editora Boitempo, 2000.
 

Marçal Aquino
As fomes de setembro, editora Estação Liberdade, 1991.
Miss Danúbio, editora Escritta, 1997.
O amor e outros objetos pontiagudos, Geração Editorial, 1999.
 

Marcelino Freire
Angu de sangue, Ateliê Editorial, 2000.
 

Marcelo Mirisola
Fátima fez os pés para mostrar na choperia,
editora Estação Liberdade, 1998
.
O herói devolvido, Editora 34, 2000.
 

Michel Laub
Não depois do que aconteceu, Instituto Estadual do Livro, 1998.


Nelson de Oliveira

Os saltitantes seres da lua, editora Relume Dumará, 1997.
Naquela época tínhamos um gato, editora Companhia das Letras, 1998.
Treze, Edições Ciência do Acidente, 1999.
Às moscas, armas!, Coleção Catatau, 2000.


Ronaldo Bressane
Os infernos possíveis, editora ComArte, 2000.

 
Roney Cytrynowicz
A vida secreta dos relógios, editora Scritta, 1994.


Sérgio Rodrigues
O homem que matou o escritor, editora Objetiva, 2000.