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O NOVO CONTO BRASILEIRO: APOCALIPSES
5
- Luiz Ruffato
Luiz
Ruffato, mineiro de Cataguases, nasceu em 1961 e publicou dois livros
de narrativas curtas: História
de remorsos e rancores e (os
sobreviventes). Juntas, as duas antologias somam treze contos
ambientados quase que exclusivamente na cidade de origem do escritor.
A marca que primeiro chama a atenção nas histórias de Ruffato são
os ganchos que ligam um conto ao outro, transformando os dois livros
no que eu chamaria de Crônicas
de Cataguases. Como costuma ocorrer em Balzac e em García Márquez,
os protagonistas de um determinado conto passam a atuar como meros
coadjuvantes no conto seguinte, e vice-versa. Com isso, ao final
da leitura de ambos os livros, além dos remorsos e rancores individuais
desenha-se diante do leitor o cenário ora trágico ora cômico de
uma pequena cidade mineira.
Os heróis de Ruffato,
retratista lírico por excelência, são a gente minúscula (se real
ou se imaginária, pouco importa) que, por ser muito maior do que
Cataguases, é antes de tudo a gente brasileira. Chamam-se João,
Vanin, Zazá, Zé Bundinha, Zé Pinto, Bibica, Zunga, Jorge Pelado,
Dusanjos, Alemão, Luzimar, Badeco e Geraldo da Farmácia. Moram em
barracos ou em casas humildes, não têm sobrenome nem grandes ambições.
Porém, cuidado: não estamos falando de nenhum tipo de neo-realismo,
mas de modernismo puro. Ruffato não é um escritor politicamente
engajado nem um defensor da literatura social. A condição miserável
de suas personagens vincula-se, sim, ao tipo de arte que valoriza
o descamisado, o sem-teto, o massacrado pelas instituições burguesas,
mas a forma de narrar adotada por Ruffato vai contra o simplismo
demagógico exigido pela literatura de denúncia social. O biscoito
fino deste contista não é para o paladar pouco sofisticado das massas.
Para falar das agruras de um ex-presidiário, de uma prostituta,
de biscateiros, dos operários de uma tecelagem, dos favelados do
Beco do Zé Pinto, Ruffato faz largo uso da gíria, do fluxo de consciência,
das grandes sentenças entre parênteses, do negrito e do itálico
(para distinguir a voz de diferentes narradores), das idas e vindas
no tempo, da fragmentação do discurso realista. Ao evitar todo o
tipo de maniqueísmo, ele consegue representar magnificamente o momento
estilhaçado em que vivemos, sem ser piegas ou populista.
Um bom exemplo desta
técnica é o conto O segredo,
um dos mais longos de Ruffato. Esta narrativa, dividida em vinte
e cinco pequenos capítulos, apresenta de maneira muito divertida
o desvario de um professor solteirão e paranóico que, por razões
pouco claras, vê a própria vida, antes pacata e medíocre, ir perdendo
o prumo. Numa das melhores cenas do conto, o professor é arrastado
por mãos surrealistas até o coreto de uma praça, onde é julgado
e condenado por toda a população da cidade. Os capítulos são na
verdade fragmentos — rápidas anotações de sonhos, de lembranças,
da rotina doméstica, de diálogos interrompidos. No entanto, nenhuma
destas lascas pontiagudas está fora do lugar. Como num mosaico,
todas elas têm razão de ser: indicar a grande revelação - o segredo
do título - no fragmento final.
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