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O NOVO CONTO BRASILEIRO: APOCALIPSES
7
- João Carrascoza
João Carrascoza, nascido
em 1962, é autor de livros infantis, redator publicitário e professor
universitário. A palavra “lirismo” já foi usada duas ou três vezes
neste depoimento — talvez até mesmo de forma leviana, pois é nos
contos deste paulista de Cravinhos que ela adquire valor máximo.
Sua prosa é intimista, de tons suaves e ternos. Tanto nas narrativas
de Hotel
solidão quanto nas d’O vaso azul, o que se vê são pessoas
comuns, imersas na banalidade do cotidiano, porém flagrados — pessoas
e cotidiano — no instante em que começam a sofrer as agitações de
um vislumbre epifânico. O primeiro conto que li deste autor, Caçador
de vidro, justamente o que abre o livro de estréia de Carrascoza,
conseguiu provocar em mim o mesmo sentimento de absoluto, de vida
além da vida, que os demais só viriam a reforçar. O conto mostra
uma cena pueril: um pai e um filho de sete anos, num voyage a cem
quilômetros por hora num dia ensolarado. Seguem, os dois, na direção
da cidade dos vidros, e essa designação, “cidade dos vidros”, já
é o primeiro passo na direção da revelação mítica, pois com ela
Carrascoza transforma um local sem muitos atrativos, onde há algumas
fábricas de vidro, numa construção d’As
mil e uma noites, pelo menos aos olhos da personagem mirim e
do leitor.
João Carrascoza é um
lapidador de sentenças, orações, frases, sempre pronto a revelar
os vários sentidos de uma palavra ou imagem. Sua escrita é de relojoeiro,
de filigranista. É quase sempre do contato entre duas pessoas desconhecidas
— num aeroporto, numa viagem marítima, numa avenida sob a chuva
— que ele extrai a revelação mística de que falei acima. Tais desconhecidos
podem muito bem ser uma mãe e seu filho, como em O
vaso azul, ou um marido e sua esposa, como em Iluminados.
Este conto particularmente me é muito caro, por ser de uma delicadeza
ímpar. Marido e mulher, acomodados no sofá e na rotina de mais um
anoitecer, vêem-se subitamente pegos por um blecaute. O que, nas
mãos de outro autor, poderia transformar-se numa cena tensa e angustiada,
nas de Carrascoza toma o caminho da sensibilidade, dos detalhes
íntimos e sutis. Não há gritos, nem revelações hediondas, e muito
menos um crime passional. Há a ternura redescoberta, iluminada pela
chama das velas, pela luz de pequenos hábitos esquecidos. O casal
se ama no escuro, como já não se amava há muito tempo. Em seguida
brinca, canta e ri, como as crianças que um dia foram e das quais
não se lembravam mais. Isso sem jamais resvalar no piegas ou na
retórica de gosto duvidoso.
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