 |
|
 |
O NOVO CONTO BRASILEIRO: APOCALIPSES
8
- Jorge Pieiro
A produção do cearense Jorge Pieiro, nascido em 1961, foi aos poucos
sendo disseminada pelo próprio autor, quer na forma de livros autoeditados,
quer na de boletins eletrônicos distribuídos via Internet a todos
os interessados. Professor de literatura, Jorge Pieiro tem dois
livros de poemas, um de ensaios e dois de contos (de contemas,
que é como gosta de denominar suas narrativas curtas): Fragmentos
de Panaplo, de 1989, e Caos
portátil, de 1999. Na verdade, seus contos têm características
híbridas, com elementos trazidos principalmente da poesia. São textos
muito curtos, o maior não tendo mais do que duas páginas, de rico
conteúdo simbólico e estrutura surrealista. O último de seus livros,
Caos portátil, enfeixa
trinta e quatro dessas aventuras oníricas e uma novela intitulada
Episódios delirantes. Pieiro gosta de trabalhar
com ferramentas de corte e solda na microestrutura do discurso.
Ou seja, ele, a gramática em uma mão, a tesoura e o tubo de cola
noutra, recorta orações e vocábulos a fim de construir sentenças
que jamais se completam, cheias de interrupções e atalhos. O resultado
é sempre caleidoscópico, com cheiro de escrita automática desautomatizada.
Suas tramas parecem se passar em ambientes corriqueiros, na praça
e nas residências simples de pequenos municípios do nordeste com
aspecto mais de cidades fantasmas. Suas personagens são gente triste,
desterrada, com um pé no mundo dos espíritos. Seu narrador, uma
entidade alucinada, nem macha nem fêmea, com um olho de água e outro
de fogo. Percebe-se que toda a tentativa de esboçar e comentar a
prosa deste escritor redunda em definições pouco precisas e completamente
subjetivas. Não conheço outra forma de fazer justiça a seu talento.
O conto Meu tio e eu, por exemplo. Como sintetizá-lo,
sem correr o risco de tornar toda a síntese banal? O tom do sobrinho-narrador
é o tom nostálgico e melancólico dos que recordam um passado edênico,
muito comum nos autores dados a reconstruir, por meio da prosa,
as delícias da própria infância. O tio, em contrapartida, é o arlequim,
o bufão, o mago, o endemoninhado dos nossos sonhos e pesadelos.
É o porco, ingênuo e carinhoso, que almeja ser Deus. Mais não digo,
para não estragar a surpresa da leitura. Em outro conto, O
outro totem, um homem com cara triste perambula pelas ruas carregando
uma rosa de plástico, a procura de sabe-se lá o quê. A todo o momento
ele entra e sai de multidões que parecem estar lá apenas para serem
invadidas e abandonadas por essa figura de circo de horrores. A
possibilidade de um desfecho amoroso se insinua na metade na narrativa,
mas o adocicado final feliz, cheio de risos e de sonhos-de-valsa,
jamais foi lugar comum nos contos de fada de Pieiro.

|
Clique
aqui para
imprimir o conto.
 |