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Basta Um Verniz Para Ser Feliz
Marcelo Mirisola
O
que eu gosto nele é a vida minúscula e bem-sucedida que leva. O medo de
mostrar o rabo, sujar a gravata. Duarte jamais vai cagar em cima do bolo
de aniversário. É do tipo que freqüenta sauna finlandesa às terças-feiras
e reputa uma ‘personalidade vitoriosa’ por conta e obra da colônia importada
que usa depois da barba: “gasto mil dólares por mês com a educação das
crianças”, para ele a vida é um barbear rente, hipócrita e macio, “outros
tantos em Pet-shop, treinador”; e tudo, desde o nome (ou marca, tanto
faz) do “Colégio” das crianças até a conta do veterinário, absolutamente
tudo, poderíamos incluir plano de saúde e câncer no cu, é uma sinopse
deste sentimento comprado de vitória e frescura depois da barba. Duarte
é um babaca.
O
melhor é que me empresta dinheiro. Fica todo Pimpão quando lhe peço dinheiro
— e empresta, o babaca. O mérito é meu, tenho talento pressas coisas.
A mulher dele é baixinha e tem as tetas grandes. Eu e ele parecemos irmãos
(nossa bunda é grande). Qualquer dia chupo as tetas dela. O babaca confia
em mim. Eles são rotarianos. Um dia chamei ela num canto e disse: “você
gosta de mulher, não gosta?”.
O problema é que
ela não tem coragem de enfiar o dedo no cu dele: “Enfia! Enfia Que Vai
Salvar Seu Casamento!”. O casamento deles tá em crise. Eu vivo falando
para ela enfiar o dedo no cu dele. Mas ela não tem coragem.
Ela tem raiva da
filha. E protege o veadinho do filho.
Casou
na Capela de São José. O padre disse: “Você, fulana de tal, baixinha das
tetas grandes, promete (...) na alegria e na tristeza e etc. enfiar o
dedo no cu dele quando for necessário...?”.
— Eu prometo — (ela
prometeu, eu tava lá e ouvi). Eu ouvi, sim. Blota Jr. foi padrinho.
Mas ela não tem
coragem. Às vezes peço dinheiro para ela e o babaca nem fica sabendo.
Ainda chupo aqueles peitões.
“Enfia!
Enfia Que Vai Salvar Seu Casamento!”
Ela tem uma loja
de “Conveniência” na Gabriel Monteiro, perto da Brunella. Ele é executivo
da Ultrafértil (e, pelo jeito, deve roubar). A loja é a cara deles. Outro
dia fomos ao Karaoquê.
Eu sou um cara simpático.
Capaz de cantar “Feelings” inteirinha e desafinar no momento adequado
somente para agradá-los. Não me envolvo em polêmicas, nem fudendo. Quando
solicitado lanço mão do meu repertório ‘excêntrico e divertido’ e até
sou um pouco efeminado sob este aspecto e, entre outras coisas, faço questão
de ressaltar a importância do pensamento positivo, de sonegar impostos
e de estar sempre com o corpinho malhado; minha falsa modéstia, em conluio,
digamos assim, com a civilidade de direita, bom-mocismo, aversão disfarçada
por nordestinos e demais babaquices para consumo da classe média alta
(isso não tem explicação, mas eu faturo, e faturo em cima), tem o poder
de aplacar a conscienciazinha pesada do casal Duarte e ainda por cima
ensejar uma atmosfera “night and day” para boi dormir. Uso de má-fé e
cores modernas.
Aos domingos uso
mocassim apache, bermuda da ‘Fórum’ e camiseta pólo. Também tenho algumas
frases de efeito em inglês e francês. Além de pronúncia e desconhecimento
impecáveis em ambos os idiomas. Basta um verniz para ser feliz. Meu veneno
é sempre “em off”. Tudo isso com graça, leveza e comprometimento. Tudo
isso para não pagar a conta dos restaurantes. Odeio sushi e até que fico
original quando admito isso em público. Sou o tipo do alcoviteiro, filho
da puta, puxa-saco e ótima companhia. Um “entertainment”, como dizem por
aí.
Geralmente depois
do sushi o casal Duarte vai para casa tentar um foda. Ela pensando na
Marilise. E ele dá cinco, seis ou no máximo sete bombadas, e goza. Aí
vira para o lado do abajur, solta uns peidos e dorme. Ela tem vontade
de assassiná-lo e sente uma nostalgia furiosa do grelo da Marilise. Mas
os desejos de grelo e de assassiná-lo logo são sufocados junto com seus
peidos de mulher não soltados e acumulados durante dezoito anos dentro
da alma. Sempre a mesma coisa. Os dois usam pijama de seda. Alma é um
treco que fede.
Uso de cerimônia
com Duarte. Faz a cabecinha dele. Eu não me arrisco. A coisa é calculada.
Com ela já dá para falar umas baixarias. O brasão do pijama deles foi
confeccionado sob minha orientação. Presente de quinze anos de casamento.
Duas piadas. O casamento deles. E o brasão. Só eu sei que por detrás dos
archotes, disfarçado no meio daqueles elmos, penachos e heráldica da puta
que pariu, tem um macaco sacana faturando a bunda de um leão chamado George.
É o brasão da família Duarte.
Com ela. Ou com
ele. Ou com “o casal” que é uma invenção deles, sou falso de qualquer
jeito. Eles gostam, e me emprestam dinheiro. Eu com ele:
— Escuta, Duarte,
— (pego no braço dele e desempenho o bookmaker ao pé-do-ouvido) — nós
somos amigos faz um bom tempo. Você sabe que pode confiar em mim... não
sabe?
— claro, claro,
quanto é que você precisa?
Eu com ela:
— Enfia! Enfia Que
Ele Vai Gostar!
— Você prefere em
cheque ou em dinheiro?
Em dinheiro, sempre.
Ela não tem coragem. Ele vira pro lado do abajur, solta uns peidos e dorme.
Os filhos deles, Thiago e Fernanda, me chamam de tio. Thiago tem dezessete.
Fernandinha, quinze anos.
O garoto é bicha
e quer fazer ESPM. A menina é uma biscate. Eles me chamam de “tio”, os
cínicos. O uísque da casa deles é dos bons. A empregada é de confiança.
Eu batizei o cachorro de Elton John. Êta familiazinha de merda! Eu me
dou muitíssimo bem com todos eles. Eles me adoram. Eu os odeio.
— Sabia que sua
mãe não suporta você, Fernandinha? Aí o arremedo de
piranha chora. Se descabela, e eu lhe dou uns conselhos:
— Mas eu falo com
ela, vai se divertir que eu garanto.
— Jura, tio?Juro, é claro que
eu juro. A mãe se queixa da filha. Eu digo para não se preocupar com a
piranha:
— Fernandinha é
um anjo.Puta Que Pariu!
A mãe prefere o Thiaguinho! Duarte não quer nem saber. E faz muito bem.
Quando mãe e filha brigam eu aproveito para pedir mais dinheiro. Quero
que se fodam. Aí a mulher do Duarte descobriu a pólvora:
— Ele tem um amante.
Um homem!
— Eu não disse pra
Você Enfiar o Dedo no Cu Dele?
— E agora, meu Deus!
E agora?
— Pede um Honda
Civic pra ele. Ele adora você. E você adora o Duarte, não é assim?Aí eu falei que
a família dela era maravilhosa. Recomendei o grelo da Marilise e...
— Não vai ser um
Macho Que Come a Bunda do Duarte que vai mudar alguma coisa na vida de
vocês... etc.
Dois beijinhos.
Ela vai dar uma recauchutada nas tetas. Um veado quer fazer ESPM. Outro
veado provavelmente vai pagar a conta. Uma putinha desperdiçada na família.
Uma encoxada na empregada de confiança. Um pontapé no Elton John (é praxe).
E, em suma, vou faturar uma grana preta com toda essa bandalha. Ao fundo
pessoal do buffet, barulho de louça, talheres. Hoje tem festa no apartamento
dos Duarte. O endereço é dr. Mario Ferraz, 56, ap. 91, quase esquina
com a Tucumã. Pertinho da Bell’s Beach. É fácil chegar lá. Basta enfiar
o dedo no cu de alguém. Ou enfiá-lo no próprio rabo, e não olhar para
trás. Um pouco de vaselina. Outro tanto de verniz para ser feliz.
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