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Mysterium
(Trechos do depoimento de Lygia Fagundes Telles, na França,
Sorbonne (Paris, 1998) durante um seminário sobre sua obra).

"Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os mais ligeiros, nem a batalha para os mais fortes, nem o pão para os mais sábios, nem as riquezas para os mais inteligentes, mas tudo depende do tempo e do acaso."

Eclesiastes


A esse tempo e acaso, acrescento o grão do imprevisto. E o grão da loucura, a razoável loucura que é infinita na nossa finitude. Vejo minha vida e obra seguindo trilhos tão paralelos e tão próximos e que podem (ou não) se juntar lá adiante. Mas sem nenhuma explicação, não tem explicação. Os leitores são curiosos, fazem perguntas. Respondo. Mas quando me estendo demais nessas respostas, pulo de um trilho para outro, misturo a realidade com o imaginário e acabo por fazer ficção em cima de ficção. A constante vontade de seduzir esse leitor que gosta de devaneio. Do sonho. Quero provar sua fantasia mas agora ele está pedindo lucidez, quer esclarecimentos.


Não sei teorizar, me embrulho inteira. Faço um esboço, fico fria e me aventuro em busca de descobertas, chego ao requinte dos detalhes, me encorajo e avanço por entre signos e símbolos do processo criador. Mas de repente, a névoa. O indevassável. O que era claro fica escuro, me perco. Insisto. A nebulosa pode se iluminar e tenho revelações. Na tentativa de desembrulhar personagens, me embrulho e me desembrulho. Para me obumbrar de novo no emaranhado dos fios. Então a invenção vira verdade na viragem-voragem de ofício e vida.

A temática existencial da minha paixão. Quase peço desculpas por não ser mais otimista quando trato da crueldade. Do sofrimento. Do medo. Mas o amor (e desamor) não está sempre presente? Recorro ao humor que é a nossa salvação, ninguém é perfeito - e a loucura? Com suas infiltrações na rejeição. Um perguntador me olha agora com desconfiança, quer saber por que falo tanto da morte. Não sou inocente (o escritor não é inocente) e começo a dourar a pílula substituindo a perda, enveredo para o mistério.

Mais misterioso ainda nas suas raízes latinas, mysterium. Vai, repete agora comigo e em voz alta, mysterium. Pare na letra Y que é a boca aberta do abismo (abysmo) e mergulhe repetindo mysterium, mysterium, mysterium até ouvir lá no fundo do fundo o eco que se prolonga num rolar de pedras, ummmmmm...

Perguntei à minha mãe se podia escrever o meu nome com i, seria mais fácil. E ela respondeu que tinha que ser mesmo com y. Por quê? Perguntei. Não sou explicar mais tinha que ser assim. Pronto, mudei de trilho quando deveria estar falando apenas na razão (ou desrazão) dos meus textos. Levanto a pele dos personagens que é a pele das palavras, quero o mais íntimo, o mais secreto e nessa busca me encontro. E desencontro, chego a me lembrar para em seguida esquecer. È um jogo. Fico fascinada, meu pai era um jogador, herdei o vício do risco, a diferença é que ele jogava com fichas.


Meu jogo é com palavras, perdi? Ainda bem que neste país de raros leitores não fico pensando em lucros mês em alimentar esta viciosa esperança. Meu pai ficava apenas com o dinheiro da passagem de volta (o cassino era em Santos) mas como brilhava seu olho: Hoje perdemos mas amanhã a gente ganha.

Recuso meus primeiros livros que considero prematuros, não serão reeditados. Começo a contagem dos títulos a partir do romance Ciranda de pedra. Ano de 1954. Um divisor de águas dos livros vivos e dos outros.


Não espero ser compreendida, espero ser lida. Se possível, amada - confessei a um leitor que parecia preocupado, gostava dos meus livros, mas muita coisa não conseguia compreender. Não tem importância, respondi. Afinal, ninguém compreende ninguém, dificílimo conhecer pessoas, coisas. Quero que meu leitor seja parceiro-cúmplice nessa ambigüidade que é o ato criador. Ato que é desespero e apaziguamento. Ousadia e insegurança. Ansiedade e celebração.


A curiosidade em torno do livro que prefiro, dentre os que escrevi, do qual gosto mais? Do mais recente, respondo. Como acontece no amor, é o último que prevalece e agora estou falando nesse que foi publicado recentemente, A estrutura da bolha de sabão. Lamber a cria, a gente dizia no mundo dos cachorros e gatos. Esse é precisamente o título de uma conto que escrevi por volta de 1973. Paulo Emílio e eu falávamos sobre discos voadores quando, no meio da conversa, ele disse que um amigo em Paris estudava a estrutura da bolha de sabão. Estranhei. Ele deu de ombros, não sabia dos pormenores, sabia apenas que esse físico estudava a estrutura da bolha de sabão. Não pensei mais no caso. Aparentemente. As bolhas que eu sobrava no fino canudo de mamoeiro, tanto cuidado. Tanta paciência por que se o sopro saísse muito forte, a bolha estourava no nascedouro e uma cascata espumosa escorria pelo meu queixo. O sopro muito fraco também não funcionava, as bolhas subiam tímidas, não chegavam a plenitude. A medida exata. Então lá iam elas coloridas e trêmulas com sua bela superfície transparente refletindo a romã madura, a nuvem...


Ficávamos íntimas nos meus dias de gripe, prisioneiras no mesmo espaço do quarto. Aumentava o perigo, tantos objetos, móveis, eu subia na cama para protege-la com meu sopro, olha o armário! Sua tonta, olha a janela! Não olhava. Tinha mil olhos e era cega. Ficava no vidro um leve círculo de espuma. Salvei tantas. E de repente tinha que destruí-las quando corria atrás da bolha maior, daquela mais perfeita. Ficava olhando a espuma fria escorrer pelo meu dedo. Quando me sentei para escrever o conto, já intuía que a imagem da bolha de sabão era a imagem do amor. E a estrutura? Isso vou descobrir (ou não) através desse amor.


No caldeirão, a criação. O antigo caldeirão instalado no fogão de lenha. E Matilde soberana, preparando a sua sopa. Os morcegos dependurados no teto, ela também esfumaçada e escura na sua ronda sem pressa. Os ingredientes. Estendia o braço até o caldeirão fervente e deixava cair o punhado de cheiro-verde. Agora a vez daquelas ervas estranhíssimas, havia alguma hierarquia na entrada disso tudo? Mais uma aragem de sal. Nunca pude saber que grãos seriam aqueles que ela deixou cair do alto num gesto de quase desdém. Não tem receita, respondeu à minha mãe. Faço como me dá na telha. Na noite da tempestade, o fogo resistia, intratável. As goteiras. Mascava fumo e frase - mas o que ela dizia enquanto baixava a cara esbraseada para soprar fogo? Ela é louca, pensei e fugi espavorida. A sopa sem receita e sem cálculo. Matilde e Macbeth sugerindo que a vida "é história narrada por um idiota, cheia de som e de fúria e que não quer dizer nada".

A criação literária. E o escritor que pode ser louco mas não enlouquece o leitor, ao contrário, pode até desviá-lo da sua loucura. O escritor que pode ser corrompido mas não corrompe. Que pode ser solitário e triste mas ainda assim vai alimentar o sonho daquele que está na solidão.


Lygia Fagundes Telles



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