|

Andradinos
e Napoleônicos
Uma batalha silenciosa
está sendo travada ao nosso redor, sem que nos
demos conta. Uma batalha pela posse da língua.
De um lado, em maior número, o povo brasileiro
em sua quase totalidade; do outro, constituindo um grupo
menor, mas nem por isso frágil, os gramáticos.
Duas facções armadas até os dentes,
comandadas por generais de primeiríssima linha,
cujo objetivo é decidir se o português
deve usar terno e gravata e ser fiel às normas
de etiqueta, ou se deve correr descalço pelas
ruas e pelos campos, quando não estiver pegando
jabuticaba no pé. Trocando em miúdos:
Mário de Andrade e a patota modernista versus
Napoleão Mendes de Almeida e os acadêmicos
do vernáculo.
 |
Napoleão
Mendes de Almeida
Autor do Dicionário de Questões
Vernáculas, com mais de cinco mil
problemas gramaticais e de estilo.
|
Durante muito tempo, alinhei-me com o povo; principalmente
por que, dessa forma, estava me alinhando não
só com Mário, mas também com todos
os filhos do modernismo, de Manuel Bandeira a Guimarães
Rosa. De Macunaíma a Grande sertão: veredas,
respeitando-se as diferenças de matiz que há
num e noutro, refaz-se a viagem de descoberta do Brasil,
por meio da observação atenta da voz popular,
de fala impura de imigrantes e sertanejos, ao se assumir
literariamente o regionalismo, o arcaísmo e a
gíria. Pregões de rua, relato oral, paródias
cantadas, etnografia, etnologia e folclore - como bem
nos lembra Telê Porto Ancona Lopez: "Na presença
da voz popular, firma-se o reconhecimento, por parte
do poeta culto, da dignidade da criação
que existe fora da esfera erudita".
Nesse pingue-pongue com certeza fútil para os
que não nutrem grande interesse pela literatura
- o coloquial versus a norma culta -, o que está
em jogo não é apenas a pertinência
ou não do trema ou do hífen nos compostos,
mas, no meu caso, a procura do equilíbrio pessoal.
Não há como suportar estar a toda a hora
passando de um extremo a outro, hoje entre os que pretendem
ser os donos da língua, amanhã entre os
que desejam ser seus mais fiéis servidores.
Das trincheiras dos escritores, durante anos observei
com um misto de curiosidade e ceticismo a figura do
professor Napoleão Mendes de Almeida. Numa guerra,
é difícil deixar de reconhecer e respeitar
as qualidades de um grande general, mesmo que este faça
parte das hostes inimigas. Ainda mais em se tratando
de luta pacífica, envolvendo tão-só
a inteligência e a erudição dos
contendores. Neste caso, torna-se questão de
ética profissional honrar e homenagear um grande
adversário, principalmente quando de sua morte.
Do meu posto de observação, observava-o.
Fazia-me torcer o nariz sua defesa inflamada, beirando,
às vezes, o retórico e o panfletário,
de certas particularidades gramaticais a meu ver fúteis,
somada à sua conhecida ojeriza aos modernistas.
No verbete "Ensino do vernáculo", do
Dicionário de questões vernáculas,
podemos ler: "Escritor é o que tem forma
e conteúdo; aquela terá quem conhecer
o idioma; este, quem tiver erudição e,
principalmente, cultura. Se somente a forma, temos o
frívolo; se somente o conteúdo, temos
o técnico; se as duas coisas, temos os escritor;
se nenhuma delas, teremos o
modernista."
Logo adiante, no mesmo verbete do Dicionário,
enquanto critica duramente um professor (cujo nome prefere
omitir) por falta de ética profissional, Napoleão
aproveita, mais uma vez, para atacar o modernismo: "Continua
o iconoclasta, que chegou a candidatar-se a uma cadeira
na Academia Brasileira de Letras: 'Ter por haver tem
a consagração de um de nossos maiores
poetas,
- 'Tinha uma pedra no meio do caminho'
(As reticências estão em lugar do nome
de um dos escritores julgados 'de vanguarda', por explicável
coincidência um dos mais encontrados em modernos
livros de leitura que se intitulam 'livros de português',
'português através dos textos', 'português
dirigido')."
Em contrapartida, era-me - e ainda o é - difícil
não levar a sério justamente seu lado
menos sisudo, mais histriônico e esculhambador,
ao vê-lo, por exemplo, no verbete "Língua
portuguesa", descer a lenha na miscigenação
lingüística da casa grande com a senzala
: "Contaminados pela aversão ao dicionário
e à gramática, aversão adquirida
nas próprias faculdades de letras e de jornalismo
em que colaram grau, noticiaristas encontramos que não
se limparam em anos de escola das impurezas léxicas
e sintáticas das cozinheiras e das babás.
Se para elas a própria expressão "processos
sintáticos" é desconhecida, como
deles exigir que demonstrem tê-los estudado um
a um e os apliquem cuidadosamente para evitar que o
leitor se enfade com a própria notícia
diante de desacerto de redação? A cultura
do vernáculo no Brasil está sendo feita
nas cozinhas, onde a contextura do período e
do emprego dos vocábulos deixa de obedecer a
receitas para constituir, quando muito, num trivial
insulso, servido em mesa desarrumada. (
) Para
justificar seu descaso à língua, ou acobertar
sua ignorância, que muitas vezes é apenas
pouca vontade de esforçar-se por sabê-la,
os que são pouco diligentes no escrever procuram
acobertar-se com o falso argumento de atribuir à
língua vivacidade, não lembrados de que
vivacidade de um idioma não se manifesta com
enxertias bastardas, com estropiamento de sua sintaxe,
com mutilação dos seus verbos, com demonstração
de patriotismo doentio de dialetos, com emprego das
armas de comunicação para transformar
o idioma em algaravia de bárbaros, em terreno
destruído pela ignorância de cultivo. Jornalistas
medram, desassombrados, no trabalho de introduzir praga
daninha nas colunas de que dispõem."
Ou ao vê-lo, neste outro exemplo, descer a chibata
nos vendilhões do templo que insistiam - e insistem
- em usar abusivamente o artigo um: "Onomatopaicamente,
um é a voz do habitante da pocilga; sendo em
latim suinum adjetivo que significa relativo ao porco,
a suinização da língua é
o ato de em nosso idioma a todo o momento intercalarem,
quer por ignorância, quer por influência
do francês ou do inglês, o indefinido um."
O pontapé inicial do quebra-quebra foi a pergunta
de um leitor. Resposta: "Sem dúvida, 'São
Paulo é uma cidade limpa' não é
frase castiça; o uma esta de mais." Seguem-se
às chibatadas três regras para o correto
uso do indefinido, sendo a última a que sugere
que o suprimamos, "com elegância, antes de
substantivo com função predicativa do
verbo ser, se tal supressão convém à
harmonia: 'João é homem de mérito',
(
) 'São Paulo é cidade limpa'.
Mesmo sem o um, a afirmação do funcionário
da prefeitura parece continuar errada."
Ou nestoutro, do verbete "Redação":
"'Quem faz a língua é o povo' significa:
A língua é feita por soldados que invadem
territórios sem escolas. Em países de
escolas como a Inglaterra, a Alemanha, a França,
a Itália e outros, cuida-se de conservar, não
de deteriorar o vernáculo. Quem apregoa a inutilidade
da gramática, baseado em 'Quem faz a língua
é o povo', é cooperador da barbarização
massificante de nossa gente. 'Uma raça cujo espírito
não defende o seu idioma entrega a alma ao estrangeiro,
antes de ser por ele absorvida' - é afirmação
hoje tão desacreditada por certos professores
quanto para eles é desacreditado o seu autor,
Rui Barbosa. (
) Se uma das primeiras preocupações
de Hitler ao tomar a Polônia foi impor aulas diárias
de alemão com prejuízo das do vernáculo,
em nossa terra vemos nossa gramática e nosso
vocabulário desprezados, não por ditador
alienígena mas por derrotistas indígenas.
(
) Umas poucas dezenas de locutores, de dirigentes,
de artistas de televisão poderiam expurgar o
idioma de todas as mazelas e diminuir de muito o trabalho
de corrigir do professor de português.
(
) 'Nosso idioma é difícil' - afirmam.
Pergunto: Não será melhor dizer 'Nosso
idioma é desprezado'?" Que ecoa neste trecho
do verbete "Vernáculo": "A imposição
de regras em lugar de sua explanação trouxe
sua abolição, e a gíria substitui
o vocabulário, o erro perverte o comportamento
lexiológico, a incompreensão tomou lugar
da sintaxe. (
) Não sabemos como fazer concordar
este comentário, feito por um professor de matemática:
'A maior dificuldade que meus alunos enfrentam ao estudar
a matéria é não conhecerem português'
com esta deslavada confissão, feita por um pretenso
professor de português em aula de escola superior:
'A língua é o que o povo fala; a gramática
é o uso popular'."
Napoleão, por onde passava, não deixava
pedra sobre pedra. Mas, diabos! por que gramático
tem de ser tão radical? Uma possível resposta
envolve fatalmente um pouco de abstração:
A língua é muitas vezes comparada a um
organismo vivo, em constante mudança e adaptação
ao ambiente. Acho o exemplo apropriado - a essência
da língua, como a da vida, é informação
-, mas os que se utilizam dele precisam aprender mais
biologia. A gramática da vida é armazenada
no genoma, o conjunto de todo o DNA de um organismo.
Se o DNA não preservasse eficientemente a informação
original, teríamos câncer com freqüência
ou não seríamos a cópia mais ou
menos fiel que somos de nossos antepassados. Por outro
lado, se o DNA fosse copiado perfeitamente todas as
vezes, não haveria evolução e a
base para a criação de espécies
novas, mais adaptadas ao ambiente, já teria desaparecido.
Os mecanismos de reparo do DNA permitem um meio termo
entre estes dois extremos. Na natureza, sob a ação
de pressões ambientais, as mudanças que
ofereçam uma vantagem competitiva são
selecionadas e transmitidas às gerações
seguintes através do DNA. Voltando à minha
comparação, o falar do povo, os experimentalismos,
os estrangeirismos e os meios de comunicação
produzem as mutações no padrão
da língua. As pressões ambientais derivam
de mudanças sociais, políticas e tecnológicas.
Nesse contexto, os gramáticos são o mecanismo
de reparo, as enzimas do DNA lingüístico.
Protegem a língua dos ataques da mutação
desenfreada e garantem sua estabilidade. Sem eles, desfigurado
pelos barbarismos, o português viraria um caçanje.
Mas, como as espécies, a língua precisa
evoluir senão morre. Se os gramáticos
cumprirem seu papel, no entanto, apenas as mutações
que se provarem resistentes ao tempo e eficientes no
novo ambiente serão introduzidas na língua
oficial. O conservadorismo dos gramáticos é
necessário para evitar a proliferação
de estruturas exógenas, para que o tumor não
entre em metástase.
O parágrafo acima é brilhante. E radical.
É a resposta de um amigo, José Colucci
Jr., que me foi enviada por e-mail, à minha indagação
eloqüente e azeda: "Por que gramático
tem de ser tão radical?" Do lado de cá
do campo de batalha, instigado por essa resposta sóbria,
poética, e seguindo a orientação
de Oswald de Andrade, que me dissera que deixasse de
antropofagizar apenas os europeus e que também
começasse a pôr no caldeirão mais
iguarias nacionais, decidi deglutir o professor Napoleão.
A parte mais dura da empreitada seria me despojar de
meu uniforme de combate e tentar vestir o do inimigo,
a fim de entrar em seu território sem ser notado.
Ou pior: Uma vez lá, estaria correndo o risco
de ser alvejado por meus próprios compatriotas.
Literatura brasileira e língua
portuguesa
Amigos escritores - a maioria de
minha geração - atendendo a um pedido
meu, mandam-me regularmente seus livros. Um deles, defendendo-se
das cricríticas que fiz ao romance que acabara
de publicar, foi sincero. Quando, depois de louvar diversas
passagens da obra, apontei-lhe de maneira petulante
dois ou três deslizes sintáticos, confessou-me
que, como a mim, também o incomoda bastante a
falta de domínio da língua portuguesa:
"Não acho que você esteja exagerando
quando diz que alguns deslizes gramaticais tiram um
pouco da credibilidade do autor. Também tive
carência de bons professores no ginásio
e no colégio, e também fui um aluno muito
relapso (um eufemismo que uso para não dizer
que sempre fui e ainda sou um tanto limitado para fixar
todas aquelas regras gramaticais). Acho que continuo
escrevendo 'de ouvido'. Falta-me conhecimento científico
da língua, o que não é pouca coisa."
Não mesmo. No verbete "Redação",
diferentes palavras expressam a mesma idéia de
força e precisão literárias: "É
a gramática munição para o combate;
quanto maior seu conhecimento, tanto mais provido o
combatente para a luta. Tanto mais apercebido de apetrechos,
tanto maior o preparo para o embate das armas. É
a gramática que provê o perfeito terçar
pela vitória; é ela quem fixa em moldes
uniformes a expressão; é o seu conhecimento
que dá lugar à elevação
do estilo; jamais a gramática tolheu ao gênio
a liberdade estética da linguagem. Enquanto o
estilo é a maneira peculiar, individual de expressar
cada escritor o seu pensamento, a gramática é
o esqueleto, é o andaime em que ele se apóia.
(
) 'Mandei ele vir' - É obrigação
de um mestre atalhar: 'Mandei-o vir' é que se
deve dizer. 'I told him to go' - não é
assim que o seu professor de inglês ensinou a
dizer? Se num idioma estrangeiro você constrói
exatamente como o latim, donde também veio a
nossa construção, por que você diz
'mandei ele vir'?
Da batalha campal entre os gramáticos e os escritores
que defendem a fala da terra, o próprio Napoleão,
no papel de correspondente de guerra, nos deixou alguns
relatos: "Monteiro Lobato chegou a declarar na
segunda edição dos Urupês que saía
ela aumentada com algumas pontuações e
alterada nalguns pronomes colocados por um gramático
seu amigo, dando-nos a entender que pouco apreço
ligava a tais emendas, impressão que veio a confirmar
em artigo em que defendia formalmente a libertação
dos clássicos e dos gramáticos portugueses
'porque falamos uma língua que deve ser nossa'."
(Do verbete "Língua portuguesa").
A partir do momento em que, com as vanguardas do início
do século, a transgressão foi eleita a
palavra de ordem da literatura contemporânea,
gramáticos ortodoxos, francamente avessos às
principais conquistas do modernismo - o fluxo de pensamento
e os jogos de palavras, por exemplo - passaram a concentrar
sua atenção nos Rui Barbosas e Alexandre
Herculanos, dificilmente aceitando que um texto, para
ser literário, tenha de estar sempre na contramão.
Os novos escritores, por seu turno, parecem temer o
estudo sistemático da gramática como algo
que irá cerceá-los, estancar-lhes o fluxo
criativo, torná-los caretas ou, pior, parnasianos.
No entanto, quem há de negar que - da mesma maneira
que o compositor erudito deve ter total conhecimento
de escrita musical, e o pintor, o gravurista e o escultor
das ferramentas que utiliza - o conhecimento de particularidades
semânticas e sintáticas da última
flor do Lácio, inculta e bela, só faz
conferir maior liberdade de movimentos ao escritor?
Literatura é o terreno da ruptura, da rejeição
da tradição. Mas tão mais forte,
tão mais coerente será está rejeição,
quanto mais conhecedor da tradição for
o escritor. Com a palavra, quem é do ramo:
Ariano
Suassuna:
Quem faz a língua falada é o povo. Os
escritores e gramáticos de bom senso cuidam de
imprimir alguma ordem, que mantenha una a linguagem.
Não acho que se trate de discussão frívola.
Agora, os escritores e gramáticos devem ter bom
gosto e boa vontade ao tratar dela. Quando menino, estudei
português na "Gramática metódica"
do Napoleão, mas não conheço os
artigos dele, de modo que não posso julgá-los
com imparcialidade

José
Paulo Paes:
"Nem tanto ao mar nem tanto à terra. A língua
pertence a todos nós, sim, mas da mesma maneira
como num país democrático são nossas
as ruas. Ninguém pode vir e erguer um muro fechando
a rua onde você mora, sem consultar os demais
usuários. A língua é um bem comum
que deve ser respeitado e cabe principalmente ao escritor
usá-la com responsabilidade e defendê-la
de políticos e publicitários. Isso não
significava que o escritor deva ser servil a todo o
tipo de gramatiquices e de tabus puristas. Nem que deva
se deixar levar por lingüistas que alardeam que
não existem mais regras. Isso é pura demagogia,
pois, na maioria dos casos, esses mesmos libertaristas
costumam escrever suas defesas do "não existem
regras" respeitando todas as normas gramaticais.
Cabe a nós selecionar o que é transitório
do que deve permanecer. Por exemplo, o termo "copacabanal",
que a TV anda veiculando, é hediondo, assim como
dezenas de outros pertencentes ao informatiquês:
"acessar", "deletar", "escanear".
Nada mais são do que traduções
imbecis, sem nenhum critério, de termos ingleses.
Em contrapartida, gírias como "curtir"
e "papo furado" são ótimas,
porque enriquecem o vocabulário. A língua
deve ser apreendida por impregnação, não
por decoração. Os gramáticos ortodoxos
são, infelizmente, doença que não
tem cura. Mas estão em extinção.

Ignácio
de Loyola Brandão:
É bom que as pessoas se peguem. Esse cabo-de-guerra
entre o povo e os gramáticos é salutar,
pois faz com que a língua enriqueça. Às
pessoas, no dia-a-dia, cabe criar novos vocábulos,
novas locuções; ao gramáticos cabe
zelar para que a língua não vire uma casa
da mãe Joana. Graças a essa soma de esforços,
há muita gíria legal, de épocas
passadas, que hoje já está dicionarizada.
A literatura brasileira contemporânea, se tomada
em bloco, reflete o que o povo fala. O escritor de hoje
se alimenta do coloquial. Mas se, de um lado, a fala
das ruas contribui para a boa literatura, do outro,
é necessário policiamento para que os
erros não se tornem norma, não desvirtuem
tudo. A presença do Napoleão era muito
bem-vinda. Ele costumava ser bastante pertinente, mesmo
quando esculhambava, quando nos forçava a botar
o pé no chão. Com qual dos dois grupos
estou alinhado? Com ambos - ou seja, com o grupo da
língua portuguesa.

Ferreira
Gullar:
Quem faz a língua é o povo, sem dúvida
nenhuma, mas é
claro que há que se preservar as normas fundamentais
do idioma. É absurda a quantidade de expressões
pernósticas como "isso não significa
dizer" e "vou me trocar", importadas
sem nenhum critério do inglês. O coloquial
é um recurso precioso, desde que usado com equilíbrio.
É fundamental que o poeta tenha sensibilidade
para zelar pela qualidade linguística, mesmo
quando quiser reproduzir o falar nordestino, por exemplo.
Erros crassos, como o que vemos a toda a hora nos jornais
e nas novelas, são inaceitáveis. Dizer
"foi um dos que fez", "agudizar a percepção"
é inaceitável. O Presidente da República
falou, tempos atrás: "Não podemos
mais postergar a solução dos problemas".
Que palavrão é esse? Por que "postergar",
e não "adiar"? A língua é
um organismo vivo, ela cresce e se transforma, mas de
maneira criteriosa. É claro que o escritor tem
de ter liberdade pra violar certas regras. Mas essa
violação tem de fazer sentido. O poeta
só corrompe o que tem forma correta, o que tem
norma. Violar uma prostituta? Não faz sentindo
nenhum. Só faz sentido se for uma virgem.
Décio
Pignatari:
"Quem faz a língua é, de um lado,
os gramáticos, do outro, o povo. Tanto isso é
verdade que, quando a Cristina Pomorska, mulher do Roman
Jakobson, esteve no Brasil, ela fez questão de
visitar as famílias de ucranianos que haviam
se estabelecido em Carapicuiba, antes da Primeira Guerra
Mundial. Nessa visita chamou-lhe a atenção
o fato de o ucraniano que se falava em Carapicuiba já
não ser mais falado na Ucrânia há
muito tempo. O ucraniano daqui, sem a interferência
dos jornais nem da TV, havia parado no tempo. É
sempre bom lembrar que o português não
nasceu do latim, mas da mistura do romanço lusitânico
com o vulgar, uma corruptela do latim. Mas sem norma
culta não há língua. Não
há jornalismo, não há cinema, não
há música popular. Por parte da população,
o que se percebe é uma fome crescente por parâmetros
mais claros, daí a ascensão de jovens
professores como é o caso do Pasquale Cipro Neto.
O problema é que no mundo lusófono, diferente
do espanhol e do anglo-saxão, por exemplo, não
há norma culta. Por isso nem mesmo nossos gramáticos
conseguem se entender; por isso cada jornal tem seu
manual de redação, que nada mais é
do que a tentativa de fixar modelos claros onde não
os há. Somente depois que uma comissão
de especialistas, de gente nível A, montar um
sistema de norma culta com manuais práticos de
uso para todos os países de língua portuguesa,
as posições extremadas deixarão
de fazer sentido. Gramáticos ortodoxos, como
o Napoleão, não existem mais. Eles fazem
parte de um mundo arqueológico, folclórico,
sem nenhuma visão de lingüística,
sem nenhum conhecimento de Saussure ou de Chomsky.

Mia
Couto:
Nem o povo nem os gramáticos são os sujeitos
dessa construção. O mérito é
de um processo sem rosto, uma dinâmica social
erguida entre a norma e a desobediência. Como
um rio que é feito de água e margem. A
língua é um poder, sim. No caso de Moçambique,
em que convivem num mesmo mosaico diversas línguas,
a escolha de uma - o português - implica uma relação
de dominação / subordinção
das restantes. Escreveram artigos sugerindo que eu abandonasse
a via da recriação e da transgressão.
Mas todo o escritor é um criador de uma língua
nova - a sua própria, individual e única.

Mas falar de português
é falar, inevitavelmente, não só
de literatura, mas de escola, palavrinha maldita, que
ainda hoje dói muito nos ouvidos dos sobreviventes
- no meu caso, dos herdeiros dos sobreviventes - de
maio de 68. Sem se referir ao pega-pra-capar entre estudantes
e polícia nas ruas de Paris, Napoleão,
agora no verbete "Língua brasileira?",
detém-se apenas na questão do orgulho
à terra de origem: "Muito válida
é a afirmação de Rui: 'Entre nós,
bem ao contrário do que se passa na França,
os melhores alunos transpõem os cursos secundários
e superiores sem o menor germe de estímulo do
idioma pátrio'. Cinqüenta e poucos anos
após essa afirmação, lemos no TIME
de 12 de março de 1973: 'Quanto aos franceses,
ensina-se-lhes tão jactanciosamente nas escolas
que eles devem vangloriar-se da cultura e da superioridade
lingüística (é nosso o grifo) que
João Cocteau chegou a confessar: 'Quando menino,
eu pensava que só os franceses sabiam falar e
que os estrangeiros fingiam que sabiam'."
De
fato, o estudo do português não é
algo fácil; requer tempo e paciência.
Há armadilhas por toda a parte, e quanto
mais progredimos mais prisioneiros ficamos do estágio
intermediário de que nos fala John Cage,
na anedota sobre o zen.
|
 |
Numa
conferência, o dr. Suzuki havia dito que,
antes de estudar zen, homens são homens e
montanhas são montanhas; enquanto se estuda
zen as coisas se tornam confusas: não se
sabe exatamente o que é o que e qual é
qual; depois de estudar zen, homens são homens
e montanhas são montanhas. Após a
conferência, a pergunta inevitável:
|
|
"Dr. Suzuki, qual é a diferença
entre homens são homens e montanhas são
montanhas antes de estudar zen e homens são
homens e montanhas são montanhas depois de
estudar zen?". A resposta: "A mesma coisa,
só um pouco como se você tivesse os
pés um tanto fora do chão." |
O conceito de norma e de correção
lingüística não é claro nem
entre os Napoleônicos, os verdadeiros puristas
da língua, que constantemente entram em conflito
entre si, nem entre os Andradinos, tão radicais
quanto aqueles, fazendo parte deste grupo tanto os autores
que praticaram, no passado, a chamada "literatura
regionalista", quanto os que praticam, hoje, a
chamada "literatura urbana", e nos apresentam
em seus livros a verdadeira fala do submundo. Anticorretista
é como é chamado, por Celso Cunha e Lindley
Cintra, na Nova gramática do português
contemporâneo, o que defende a idéia "de
que o povo tem o poder criador e a soberania em matéria
de linguagem", e considera "elemento perturbador
ou estéril a interferência da força
conservadora ou repressiva dos setores cultos".
Os autores também nos lembram que, para definir
os dois exércitos, Adolf Noreen, lingüista
sueco, criou os termos histórico-literário
e histórico-natural. De acordo com o critério
histórico-literário, a correção
linguística está no respeito aos exemplos
a nós deixados pelos escritores do passado. Tal
critério é o tradicional, fundado nos
clássicos. O segundo critério, o histórico-natural,
baseia-se na idéia de que a linguagem é
organismo que se desenvolve melhor em estado de completa
liberdade, sem empecilhos. Sendo assim, não pode
haver, em princípio, nada correto ou incorreto
na língua. Ambos os critérios, reconhece
Noreen, são arbitrários e absurdos, quando
levados às últimas conseqüências.
Haveria um caminho intermediário? Segundo o que
se pode depreender dos depoimentos reproduzidos acima,
a procura desse caminho é bobagem, pois o equilíbrio
já está estabelecido; do que precisamos
é zelar pra que nenhum dos pratos da balança
penda mais do que o outro. Ou, no modo de pensar de
Ariano Suassuna: "Deixar o povo fazer a língua,
e os escritores e os gramáticos de bom senso
imprimir a ordem necessária, que a mantenha una".
O que de fato devemos procurar com mais afinco está
melhor expresso num clamor de Soljenitzyn. Por mais
que soem demagógicas, rés-do-chão,
ou, pior, de esquerda (argh!), tentemos, depois de tirar-lhes
a camada de imundície, fazer nossas suas palavras:
"O que é preciso é desenvolver um
sentimento por nossa língua nativa, por nosso
solo nativo, por nossa história". Somente
assim um dia poderemos jactar-nos como João Cocteau.
Leia mais:
|