Anna Maria, fale um pouco de sua formação cultural.

Anna Maria - Estudei em colégio de freiras francesas, onde aprendi a falar fluentemente o francês e o inglês - desse idioma tive aulas particulares já no primário, antes que fizesse parte do currículo escolar. Líamos aos 13, 14 anos, trechos de Corneille, Racine, Molière. Aprendíamos sobre Geoffrey Chaucer e os Canterbury Tales. E tínhamos uma boa professora de português, mas que, não fugindo à regra geral da época, nada nos informava a respeito do que estava surgindo em literatura brasileira. Analisávamos apenas obras clássicas, cristalizadas.

E quando você começou a se interessar pela literatura brasileira contemporânea?

Anna Maria - Antes de conhecer os autores brasileiros contemporâneos, como toda a jovem dessa geração, paguei meu tributo a M. Delly, Ardel e congêneres. Felizmente logo troquei essa literatura insossa pelos saborosos tachos do nordeste. Li José Lins do Rego, Raquel de Queiroz, Jorge de Lima, Ascenço Ferreira. E encontrei o grande Graciliano. Vim, então, de descoberta em descoberta, lendo poesia, prosa, crítica literária. Procurava me informar sobre o que estava sendo publicado e valia a pena ser lido. E, ao lado de autores brasileiros, lia os estrangeiros, poetas de língua inglesa - Auden, Stephen Spender, T.S. Elliot - e francesa - Aragon, Eluard.

Quando começou a escrever?

Anna Maria - Comecei fazendo traduções - coisa que fiz até há algum tempo e não pretendo mais fazer. É um trabalho pessimamente remunerado, ao qual os editores, na maioria, não dão o devido valor. O tradutor - qualificado - se esfalfa na busca da palavra exata, na transposição do estilo, na responsabilidade de não desvirtuar o pensamento do autor. E, no final, além de receber uma quantia irrisória pelo trabalho - salvo raras exceções - muitas vezes nem vê seu nome mencionado nas resenhas que comentam a obra. O tradutor é simplesmente ignorado. Ainda.

Quando trabalhava em traduções você já escrevia contos?

Anna Maria - Fiz poesia primeiro, alguns poemas que enviei para o Jornal de Letras. Os poemas tinham certas qualidades literárias, foi a resposta, mas eu ainda estava imatura para tratar de temas como amor e morte. No que concordo, e vou além: minha poesia era imatura para qualquer tema. A poesia não era, realmente, a minha forma de expressão. Comecei a escrever textos em prosa, que eu não sabia eram contos ou não. Até que tomei conhecimento da definição de Mario de Andrade sobre conto, e passei a considerá-los como tal.

Você, uma escritora que só tem publicado contos, como encara a possibilidade de escrever romance?

Anna Maria - Não encaro. Ou melhor, não encarei até agora. Considero de fôlego curto a minha ficção, e conto, parece-me, é o gênero em que ela melhor se enquadra. Mas, como nunca digo dessa água não beberei, pode acontecer, eventualmente, que o fluxo da minha narrativa se estenda e venha a exigir escoamento mais longo. Aí, então, trabalharei num romance.

Como mulher, você precisou romper barreiras para escrever ou publicar? A mulher interfere na autora?

Anna Maria - Quero deixar claro que a literatura a meu ver não tem sexo. Existe a boa ou a má literatura. É evidente que a mulher - escritora, artista plástica, ou profissional em qualquer outra área - age e sente como mulher e, ao criar, não se despoja da condição feminina, que, eventualmente, pode aparecer em seu texto. Mas, em contrapartida, há escritoras cujo texto o leitor não saberia identificar se de homem ou de mulher. Quanto a romper barreiras, sim. No início eu escrevia muito amarrada. Fui obrigada a me violentar para escrever de maneira mais solta. E nem mesmo sei até que ponto consigo me desvencilhar das marcas de uma educação rígida, preconceituosa. Com relação à mulher/escritora, a seu espaço e condições de trabalho, creio que as dificuldades são semelhantes às de qualquer mulher que atua profissionalmente em outras áreas. Isto é, a sobrecarga - fruto da divisão injusta do âmbito familiar - a luta para mostrar que sabe fazer tão bem quanto ou melhor, a luta contra resquícios - às vezes velados - de preconceitos que subsistem.

Anna Maria, qual a sua preocupação fundamental como escritora?

Anna Maria - Minha preocupação fundamental e contínua é o compromisso com o ser humano. O homem, suas angústias, sua capacidade, suas limitações. O homem e seu estar no mundo. De algum tempo para cá tenho me valido de um certo tom satírico para exibir (denunciar?) circunstâncias, fatos e hábitos de uma determinada camada social, dentro do contexto urbano. Embora ache que o compromisso precípuo do escritor é para com a literatura, considero que o intelectual não pode permanecer omisso em relação a fatos que estrangulem o ser humano. Mais precisamente: julgo ser a denúncia uma obrigação do escritor toda a vez que o indivíduo for aviltado em seus direitos básicos de sobrevivência. O escritor não se pode calar. E jamais pode ser calado. Ele imprime, para a sua geração e para as posteriores, seu testemunho, visão e interpretação de sua época.


Entrevista com a Escritora Ana Maria Martins concedida à revista NUMEN e
cedida pela própria escritora para este espaço.