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A
brandura germânica de Lya Luft.
'Tu és é tão inquieta, Lya, que até a cegonha teve de dar-te uma bicada
para te sossegar', disse Wally Fett à filha nascida com uma marca no dorso
da mão esquerda. Carimbo do desassossego ou sintoma de que estava em formação
uma personalidade forte, contestadora, não colérica? Lya Luft era diferente
das demais meninas de Santa Cruz do Sul (RS), onde nasceu, em 15 de setembro
de 1938. Descende de alemães, gente dura na queda, disciplinada, rígida,
persistente, e num interior em que mulheres enfrentavam as primeiras luzes
com os destinos mais ou menos cruzados, ou melhor, traçados.
A senhora é brasileira?, ainda se espantam na Alemanha às vésperas do
século XXI. Mas é branca e tem olhos claros! Pois ainda pensam assim.
O preconceito para Lya não tem nada de ingênuo ou inadvertido. É sintoma
de atraso, incomoda-lhe. Então, imagine lidar com ele há 40 anos. Talvez
por isso a romancista intimista, poetisa por agregação, escreva sem geografias.
Lya focaliza o percurso existencial de personagens femininas tentando
se autodefinir em meio a recordações às vezes amargas, temores incontíveis,
perdas irreparáveis, fantasmas pairando sobre o convívio familiar. Algo
bastante universal. Virginia Woolf, tão traduzida por Lya para o português,
conhecia melhor que ninguém a amplitude de todas essas conexões existenciais.
Apaixonada pela mágica biblioteca do pai intelectual, o primeiro grande
homem de sua vida, Lya encantou-se com os nomes-flores Açucena e Magnólia.
Por que não me deu um desses nomes, mãe? Reclusa em seu mundo de ruídos
e silêncios muito particulares, Lya Luft podia ficar um bom tempo olhando
flores, totalmente absorta, como se o futuro não fosse além do presente,
ou vice-versa. Parecia querer entender cada coisa, respirar as árvores.
Comportamento estranho? 'Sou contemplativa. Desligo-me fácil. Chegaram
a pensar que eu era louca de verdade, não essa louca engraçada de hoje.'
Risos.
Tudo por ser uma jovem não-convencional, contradição das contradições
em um cosmo previsível. E ainda mais porque detestava (ainda detesta,
na verdade) os afazeres domésticos, cozinhar, passar, etc. E também pagar
o BNH, decidir o que fazer da vida. Quando garota, se fosse obrigada a
querer ser alguém, seria a Scarlet O'Hara (Vivian Leigh) de 'E o Vento
Levou'. No internato protestante era preciso arrumar cama, armários. Argh!
Contemplativa, mas plugada. Preguiçosa, mas cumpridora. Em sentido germânico,
talvez. 'Histórias do Tempo', 14º livro, será lançado em outubro alternando
poesia e prosa, memórias e reflexões, autobiografia e ficção (leia trecho).
'Minha vida foi uma luta contra a disciplina alemã e o convencional.'
Foi a filha que o pai desejou e a mãe jamais imaginara. Dona Wally Fett
morria de medo de Lya não 'arrumar marido' porque lia muito. E como Lya
lia. Começou com os contos de fadas dos irmãos Grimm e de Hans Christian
Andersen. 'Me impressionava nos contos de fadas a ameaça à felicidade,
tanto quanto o sofrimento dos personagens das tragédias gregas.' E Monteiro
Lobato? 'Ah, claro que gostava. Eu era a Emília, a que infringia.'
Quando criança, já achava um absurdo mulher obedecer a marido. Mas os
vaticínios da mãe não se confirmaram. Lya casou duas vezes. O primeiro
marido, conheceu-o no dia em que foi fazer vestibular para a Faculdade
de Letras da PUC de Porto Alegre, com 21 anos. Ela, que raramente se atrasa,
atrasou. Quando abriu a porta da sala onde ia fazer a prova, deparou 'com
o homem mais bonito que já vi na vida'. O nome dele? Irmão Arnulfo, na
época. Como? Irmão Arnulfo, isso mesmo. Era irmão marista, não padre,
embora usasse batina. Antes de tudo era o Celso, Celso Pedro Luft, filólogo.
Estremecida, Lya se sentou, fez a prova, passou no vestibular e foi ser
aluna do futuro marido durante três anos e esposa não-doméstica outros
22. Ele largou a batina por sua causa? 'Graças a Deus!'.
Até hoje, quase 30 anos de carreira, responde a certas perguntas enfadonhas
de leitores suspeitos de que Lya é 'complicada' como suas personagens.
'Eu sou o que deixaram sob o tapete, o que à noite se esgueira pelos corredores,
chorando. Sou o riso no andar de cima muito depois que uma criança morreu.
Sou o anjo no alto da escada de onde alguém acaba de rolar. Sou todos
os que chegam quando ninguém suspeita: saem de trás das portas, das entrelinhas,
do desvão', escreve ela na pele do menino-narrador de 'O Ponto Cego' (1999).
Essa literatura da porta para dentro, de quarto fechado, de toque estritamente
pessoal, é o modo com que Lya desvenda as mulheres, principalmente. As
que conheceu, as que gostaria de ter conhecido, as que imagina conhecer.
Assim, percorre o caminho de Clarice Lispector, mas com outra tonalidade.
Os romances 'A Asa Esquerda do Anjo' (1981, traduzido para o italiano),
'O Quarto Fechado' (1984, traduzido para o inglês), 'Reunião de Família'
(1982) e 'As Parceiras' (1980), os dois últimos vertidos para o alemão,
abordam a contínua luta entre o princípio da vida e o da morte. São mulheres
marcadas. 'Eu queria solidão, para não ferir os outros nem ser machucada.
Arestas demais. Agora, moça, você tem sua solidãozinha, com a caseira,
o cachorro e a veranista que volta e meia aponta no morro. Um bando de
mulheres sozinhas e doidas', escreve em 'As Parceiras', o primeiro romance
após três livros de poesia, escrito no limiar dos 40 anos. O que teve
maior acolhida pela crítica.
'Na época, não tinha a menor idéia do que estava fazendo. Nem sabia se
havia escrito um romance ou o quê. Eu era muito insegura. As críticas
em geral foram tão favoráveis que me espantei. Então me dei conta de que
havia nascido para fazer isso.' E se fosse o contrário, uma crítica demolidora?
'Fico 15 minutos triste, como já aconteceu. Não mais. Mas reconheço que
o crítico e o bom leitor podem apontar caminhos interessantes.'
Lya nunca se preocupou e até hoje não se ocupa em filosofar, psicanalisar,
debruçar sobre suas próprias obras. Enquanto isso, exércitos de mestrandas
e doutorandas vasculham linha por linha seus livros. Perscrutam os interditos
e os avessos; sondam solidões e perplexidades; as posturas feministas,
as escrituras femininas; matrizes de gênero, individuações; o olhar diferenciado,
o das minorias; reclusões e repressões representadas; o que é e o que
não é 'luftiano'... 'Nunca me preocupei com técnicas. Escrevo unicamente
por prazer, e para mim mesma. Antes me angustiava escrevendo, hoje me
divirto.'
Lya costuma dizer que tem um olho alegre que vive e um triste que escreve.
'Há um grande desencontro, talvez insolúvel, na espécie humana.' Seus
olhos translúcidos parecem esconder mistérios. 'Eu, misteriosa? Sou um
bicho da minha casa. Como dizia o Érico [Veríssimo], eu me amo, mas não
me admiro. Sou uma pessoa sem graça.'
Celso Luft, professor de português e lingüística, foi o guru de Lya. Paternal,
companheiro, sujeito tranqüilo que a confortava, sóbrio e intelectualmente
afinado com a protegida. O problema é que a vida é feita também de acabamentos.
Até as relações acabam ou clamam renovação. Mas como se livrar desse monstro
metade infantil metade adulto que nos faz achar muito esquisito que coisas
ou pessoas morram? A longa paixão com Celso se tornaria amizade e confiança.
'Não é possível viver em tesão permanente.
' Rio, março
de 1985, vésperas da morte de Tancredo Neves. Nélida Piñon apresenta Lya
ao psicanalista mineiro Hélio Pellegrino. Consta que, na primeira oportunidade
em que ficaram a sós, foi Lya quem puxou assunto. Falaram sobre Fernando
Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, que formavam com Hélio
um quarteto inseparável. De todos, só Hélio Lya ainda não havia conhecido
pessoalmente até aquele momento. O casual virou uma paixão avassaladora.
Eram já dois separados, garante Lya, duas granadas de amor a incitar fuxicos
e indiscrições abomináveis. Ele e ela, mineiro e gaúcha, e o Rio como
ponto de encontro.
'Hélio representou um vendaval, a reabertura de todo tipo de polêmicas.'
O próprio certa vez lhe disse: 'Alemoa, você me conheceu na minha melhor
fase.' Referia-se a já poder controlar um pouco mais suas vociferações,
seus ataques de fúria, a refrear sua compulsão à sedução. Lya não aceitava
com naturalidade suas idiossincrasias. Os paradoxos de Hélio estavam exacerbados.
O agitador de esquerda vituperava as tradições da família, fazia pouco
do conforto material, mas era capaz de repreender a filha que dormiu com
o namorado. Com Lya, Hélio cismou de cumprir todos os rituais. Significava
casar. 'Mas eu sou desquitada', exclamou. Não importava. Ele dizia que
os dois formavam um casal CCC, em referência à sigla Comando de Caça aos
Comunistas. No dizer de Hélio, eram, na verdade, cabeça, coração e cama.
Mas há os episódios inexplicáveis, ou explicáveis somente por uma ótica
que a poucos é dada a oportunidade de enxergar. A morte interrompe a cena.
Restam gestos inacabados, beijos presos à garganta. Os descomedimentos
de Pellegrino afetaram-lhe a saúde. O furacão estava mais contido, mas
talvez o estrago já tivesse sido feito. No hospital, dois dias depois
de um infarto não tão grave, Hélio despertou Lya com o rosto sorridente.
Pouco depois, teve algumas convulsões e revirou os olhos.
Rio, 23 de março de 1988. Silêncio. Começava um dos períodos mais difíceis
- o primeiro de dois - da vida da escritora emudecida. Os dois nem tiveram
tempo para monotonias e desgastes. Tudo ainda era mágico. A dor se transformou
nos poemas de 'O Lado Fatal' (1988): 'Nesta minha peculiar viuvez / sem
atestado nem documentos, / apenas com duas alianças de pesada prata /
e no peito um coração de chumbo, / instalo ao meu redor objetos que foram
dele: / a escova de dentes junto da minha na pia, / o creme de barbear
entre os meus perfumes, / e com minhas roupas nos cabides / a camisa dele
de que eu mais gostava. / Na gaveta, vidros com os remédios / que o preservaram
para o nosso breve tempo. / (Finjo a minha vida como ele finge a sua morte.)
' Então podia a menina distraída, caseira mas nada doméstica, um dia virar
adulta acadêmica? Bem que tentou, não deu certo. O máximo que suportou
foram dez anos como professora de lingüística. 'Não tenho jeito para a
academia. Meu espírito é anticientífico, de pouca capacidade racional.'
Seu negócio é lidar com a imaginação. Solidões e desencontros, jogos de
poder entre homens e mulheres, histórias que 'não acontecem', e que no
entanto são de arrepiar os cabelos. Os equilíbrios entre a poesia e a
prosa, a sutileza e o tranco, são convites narrativos ao interior de tudo,
da casa, da mente, do celestial.
Lya é hoje uma mulher encantada com as possibilidades tecnológicas. Uma
avó no computador. Uma cyberavó, melhor dizendo. Teve três filhos - Suzana,
35, médica; André, 34, agrônomo e arrozeiro; e Eduardo, 30, professor
de filosofia na PUC-RS, que está escrevendo um livro sobre Hegel. Ao todo,
quatro netos amados e adaptáveis a uma avó carinhosa, não propriamente
maternal, porque passa boa parte do tempo escrevendo e traduzindo do inglês
e do alemão. E permanentemente plugada na internet. Na verdade, uma avó
tão transgressora quanto a menina leitora dos irmãos Grimm.
Entre o atual trabalho de tradução da biografia de Nietzsche, de Rudiger
Safranski, Lya troca e-mails ágeis. 'O correio eletrônico veio revalorizar
a palavra. As pessoas são estimuladas a escrever. Diferentemente do que
pregam por aí, acho que a internet veio para unir mais as pessoas, não
para aumentar a solidão. O progresso nos permite ficar mais tempo em casa,
por exemplo. E se esse tempo for usado para coisas boas, como ler ou conversar
com a família, acho ótimo. Quem é gregário irá usar a internet para continuar
sendo.'
A tradutora de Günter Grass, Bertolt Brecht, Thomas Mann, Doris Lessing,
Rainer Maria Rilke e outros grandes da literatura universal vive hoje
o que chama de 'uma falsa vagabundagem lírica'. Só faz o que quer e por
prazer. Seja caminhar, conversar à toa, almoçar com amigas no restaurante
Gatopardo. Filme, se não for intelectual. Policiais americanos com serial
killers captam-na. E não venha com badalações. O último livro com noite
de autógrafos foi 'Exílio' (1987).
Em 1992, quatro anos depois da morte de Hélio, Lya aceitou a proposta
de Celso para 'refazerem a vida'. Voltou então para a casa do bairro Chácara
das Pedras, onde mora. Celso adoeceu meses depois e foi piorando até a
morte em dezembro de 1995. O segundo tranco, de que custou a se recuperar.
'O amor é exclusivo e excludente. Minha ética é a da lealdade, e com regras
de convivência. Hoje as pessoas podem casar e separar com muita facilidade.
Nem por isso tenho visto menos sofrimento. Em última análise, sou uma
mulher sozinha, e menos angustiada por isso. Esta casa é meu ancoradouro.'
Para lê-la é preciso saber que ela não escreve sobre a ternura como normalmente
a imaginamos. (Fim de Semana/Página 14) (Sergio Vilas Boas)
Entrevista com a escritora Lya Luft concedida ao Caderno
Fim de Semana
da Gazeta Mercantil em 25 de agosto de 2000 - Porto Alegre.


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