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Visconde de Castilho por artista desconhecido.

Henry James
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É claro
que, como em qualquer reprodução, a obra, sobretudo a literária,
perde alguma coisa ao ser passada para uma língua diferente daquela
na qual foi concebida; na poesia pura, então, a perda é praticamente
total; quando não, o tradutor criou sua própria poesia em cima do
original, o que continua sendo uma perda. Essa é uma limitação do
ofício, não do oficiante.Não há porém como negar que, também como
em qualquer ramo, existem bons e maus profissionais, e que no Brasil
predominam os últimos. Mas há sérios motivos para isso.
A nossa
indústria editorial, sobretudo no campo literário, é quase exclusivamente
uma agenciadora de autores estrangeiros; não precisa do escritor
brasileiro, e de bom grado o dispensaria, se pudesse. Como todo
o resto da indústria e do comércio nacionais, existe para faturar
a curto prazo, o que jamais cria grande coisa, muito menos nomes
famosos. Dentro desse esquema, portanto, seria de esperar que o
tradutor fosse o senhor absoluto da situação, uma vez que as editoras
se mantêm nas suas costas.
Ledo engano. Aqui, mais que em qualquer outra parte do mundo civilizado,
o tradutor é o primo pobre da literatura. Recebendo pagamentos vis
e tendo de alienar em definitivo o fruto de seu trabalho — a tradução
é vendida, em caráter
irrevogável, segundo contratos abusivos que despossuem filhos, netos
e todos os demais descendentes — ele dificilmente pode ser um profissional,
viver do seu ofício. Daí proliferarem os que traduzem como bico: jornalistas, advogados, diplomatas, e quem quer que tenha passado
algum tempo num país estrangeiro; daí, também, a má qualidade das
traduções.
Não
é só o editor, porém, que tripudia sobre o profissional da tradução.
No Brasil, absurdamente, a imprensa se arvora em árbitro da língua
e do gosto literários, como se o escritor ou tradutor devessem se
ater aos manuais de redação dos jornais. Se a tradução parece boa
a esses senhores, raras vezes capacitados para tal julgamento, não
se fala nisso; a justificação é que o tradutor não fez mais que
sua obrigação, como se traduzir uma obra literária fosse produção
em série. Se não parece boa, meros repórteres de jornal, que mal
podem dispensar um copidesque, deitam e rolam quando descobrem ou
julgam descobrir — geralmente o último caso — um deslize num bom
trabalho.!
Na verdade,
o ideal seria que o tradutor fosse escritor, pelo menos no caso
de obras literárias, mas quantos estariam dispostos a viver, profissionalmente,
com tão minguados proventos? Isto não significa que não escritores
— quer dizer, autores de obras próprias, ficção, poesia, ensaio
— não sejam bons tradutores. Um dos melhores hoje ainda na praça,
Donaldson Garschagen, jamais publicou, que se saiba, um volume ou
peça de coisa alguma. Outros, igualmente bons, são no máximo escritores
originais bissextos, ou têm apenas veleidades. Seja como for, nesses
casos até que o ideal acaba por cumprir-se, pois os bons tradutores
são escritores.
A primeira
condição para ser-se um tradutor não é, ao contrário do que parece,
o domínio da língua da qual se está traduzindo, mas o da sua própria.
Quem não sabe expressar por escrito seus próprios pensamentos dificilmente
poderá enfrentar a tarefa muito mais difícil de expressar os alheios.
Pode-se mesmo radicalizar esta afirmação com um exemplo. Até hoje,
uma das melhores traduções — senão a melhor — do Fausto, de Goethe, para o português é a de Antônio Feliciano de Castilho.
Pois bem, conta-se que o bom Visconde de Castilho simplesmente não
sabia alemão. Como fez? Pediu a um alemão residente em Portugal
que vertesse as palavras, de preferência adaptando a sintaxe, e
depois passou a trabalhar em cima do aranzel criado pelo homem.
Em grande
parte das más traduções, o problema é exatamente esse; não a infidelidade,
em si, mas a má redação em português do Brasil. Por isso abundam
excrescências como “ele levou sua mão à sua cabeça e alisou seus
cabelos”, uma construção tipicamente inglesa; a repetição desnecessária
do nome da personagem ou do “ele” e “ela” inúmeras vezes num mesmo
parágrafo; ou “a mulher americana, o homem velho, o homem branco”,
detritos de uma língua original em que americano, velho e negro
são adjetivos e precisam de um substantivo para defini-los. Depois
de cem anos de cinema, muitos tradutores — incluindo ou sobretudo
de filmes — ainda não perceberam que Attention! na linguagem militar inglesa, não é Atenção! mas Sentido!
São
erros desse tipo, e não os realmente sérios, que chamam a atenção,
porque o pretenso crítico de jornal dificilmente teria condições,
intelectuais ou materiais, de cotejar o original com a tradução.
E aí é que vem o problema realmente importante: que é uma má tradução?
É a mal escrita, com seus errinhos irritantes, ou a de fato mal
feita? Pois o tradutor pode
ser traidor, e muitos o são, apresentando textos quase impecáveis
com graves traições ao texto original. E no caso da má linguagem,
o problema é do tradutor ou do autor?
O que
se quer é que o tradutor seja cúmplice do autor, escondendo seus
erros, seus vícios — em suma, que seja co-autor, o que seria, aí,
sim, a suprema traição. A grande literatura hoje torna-se cada vez
mais restrita ao gueto da universidade, que tem uma linguagem própria,
bastante específica, cheia de neologismos. Os “pensadores” atuais,
principalmente os franceses, na falta de novas idéias viraram verdadeiros
moinhos de novas palavras. O pobre do tradutor, ao adaptar os malabarismos
lingüísticos desses textos, é massacrado porque as tais palavras
“não estão no Aurélio”. Há até casos em que o resenhista, mais ignorante
pouquinha coisa, se mete a corrigir erros inexistentes, apenas porque
uma determinada grafia “não está no Aurélio”. Quem conhece a língua,
logo detecta a burrice; para a maioria dos leitores, porém — e os
editores — o analfabeto fica sendo o tradutor.
Outro
caso sério é o do autor de linguagem difícil, empolada — Henry James,
por exemplo. Dizem que nem falando esse esnobe americano naturalizado
inglês conseguia se expressar diretamente, e um dos seus críticos
chega a afirmar, como um elogio, que enquanto nas obras de outros
autores o leitor busca descobrir o clássico quem
foi, em James o objetivo é descobrir o que ele quer dizer. Não estranhamente,
é um ídolo dos pernósticos de todo mundo, a maioria dos quais, auto-intituladas
autoridades no mestre, jamais consegue descobrir o que ele diz, e
se vale de tudo que é interpretação exótica produzida por exegetas
sem nada melhor que fazer. O pior é que não descobrem nem na tradução
e, claro, põem a culpa no tradutor, que deveria ter transformado James
em Maugham, para possibilitar-lhes, finalmente, a leitura e a compreensão.
Enfim,
é uma luta ingente, mas que se vai fazer? A tradução, embora não
na escala avassaladora em que ocorre no Brasil, é indispensável,
e muita gente que nada mais sabe fazer além de escrever precisa
ganhar a vida, mesmo precariamente. Logo, como em tudo mais aqui,
é agüentar a barra e rezar por dias melhores — mesmo os não crentes
— que, pelo menos no momento, é o que resta aos espoliados da terra,
sempre os culpados da história: os traidores.
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