Navegando pelo rio das Amazonas


Drª Maria Izilda S. Matos *


Mulheres Guerreiras

Difundido mais diretamente pela mitologia grega, o mito das Amazonas antecede essa cultura, sendo encontradas referências em culturas pré-helênicas que viviam às margens do Mar Negro (Cítia) e no norte da África, onde o mito relata mulheres conquistadoras que combatiam duas a duas, unidas por cintos e juramentos, e teriam subjugado os númides, etíopeos e os atlantas africanos, americanos ou oceânicos. O nome "amazonas" denota "ligação" (do grego ama = união + zona = cinto), sendo o cinto também identificado como guardião de seu voto de virgindade.



























Imagem do Rio Amazonas


















































































 

 


Muiraquitã
(Amuleto sagrado das Amazonas)




As Amazonas foram também identificadas como um agrupamento de mulheres guerreiras que teriam habitado a região do rio do Ponto (Ásia Menor). Segundo a etimologia tradicional, mas pouco comprovada pela iconografia, queimavam e mutilavam o seio direito (a = sem, privação + mazon = seio) para poderem mais facilmente manipular o arco ().

Na Ilíada de Homero e nos livros de Heródoto são apresentadas como numerosas, decididas e insignes com os cavalos; comunicavam-se através de curtos e rápidos diálogos, possuiam espírito aventureiro, fundaram cidades, eram exímias caçadoras e guerreiras. Gregos e Amazonas tornar-se-iam inimigos históricos, como mostram alguns relatos: o rapto da princesa Antíope por Teseu, que levou-as a invadir a Ática; o combate entre a rainha Hipólita e Hércules, cujo nono trabalho foi obter o seu cinto de poder; Pentessiléia destacou-se entre suas companheiras enfrentando Ulisses na Guerra de Tróia, tendo sido morta por ele.

Na Antiguidade, como o poder mágico feminino fosse considerado necessário à vitória, a inclusão de mulheres guerreiras nos exércitos não foi pouco usual, sendo encontradas referências à sua participação entre vários povos ().

Plutarco, Hipócrates e Platão fazem referências aos costumes e às façanhas das Amazonas. A estatuária, os vasos e os baixo relevos popularizaram suas lutas e as tornaram um símbolo de vigor e de poder.

Segundo alguns autores, o mito das Amazonas representaria a época histórica em que o matriarcado reinou na humanidade. Seu declínio, nessa interpretação, pode estar vinculado ao destronamento da divindade suprema feminina e à substituição de um governo de mulheres. O mito também é identificado com a transição do matriarcado para o patriarcado, já que as Amazonas sempre eram vencidas e acabavam domadas.

O mito das mulheres guerreiras permaneceu ao longo do tempo presente no imaginário e na história de vários povos: gregos, eslavos, germânicos, celtas, hindus, africanos. Nas sagas nórdicas encontramos as Valquírias, que possuiam o poder de decisão da batalha,recolhendo em seus cavalos alados os corpos mortos para conduzi-los ao Valhala, na versão das Edda ou da Volsunga Saga (). Destacou-se entre elas a figura lendária de Brunhilda, rainha da Islândia.

Relatos descrevem a presença de batalhões femininos na Irlanda até o século VII, quando a cristianização, de uma certa forma, condicionou as mulheres a abandonar as armas. Reaparecem menções à presença feminina no exército norueguês, quando de sua invasão à Irlanda no século X.

As guerreiras freqüentavam as epopéias de cavalaria dos fins da Idade Média e início do Renascimento, em momentos de convocação para a guerra, como na Reconquista da Península Ibérica, quando a imagem da mulher guerreira foi intensamente recuperada ().

Alguns escritores que trataram sobre "mulheres ilustres" incorporaram quase sempre o mito, inclusive em relação a Joana D'Arc. O mito, além de utilizado em relação à mulher guerreira, também esteve vinculado à legitimação do governo feminino, como no caso de Elisabeth I, da Inglaterra e outras rainhas européias.

Na literatura, em relatos e em provérbios a imagem das Amazonas também se manteve presente. Christiane de Pisan, em 1626, se encantava em expor exemplos de antigas mulheres conquistadoras, acrescentando personagens à lenda das Amazonas.

Essa presença das Amazonas na literatura e na iconografia foi reforçada por viajantes europeus que desde o século XVI se referiam com admiração e espanto às guerreiras entre a população da América e da África. Viajantes portugueses do século XVI informavam de Amazonas na Etiópia e, mais ao sul, na Monomotapa (atual Rodésia). Estas, como as do Daomé, eram guerreiras a serviço de um monarca africano, que lhes havia concedido um território no qual viviam sós.

Em 1493, Colombo, imaginando que iria ancorar na Ilha da Mulher, que segundo Marco Polo ficava no Oceano Índico, escreveu aos reis de Espanha que ouvira falar da Ilha do Matrimônio (atual Martinica), onde viviam apenas mulheres, que usavam armaduras de cobre.

Elas apareceram também nos relatos de viagem, como no Diário da expedição de Fernão de Magalhães, escrito por Antonio Pigafetta:


"Também nos contaram que a Ilha Ocolora, abaixo de Java,

é habitada exclusivamente por mulheres. Estas são fecundadas

pelo vento e quando nasce o bebê, se é macho matam

imediatamente, se é fêmea, a criam. E matam todo o homem

que se atrever visitar sua ilha."()


Já em 1524, Francisco Cortés, a caminho de explorar a costa pacífica do México, levava entre suas instruções a de que ficasse atento às Amazonas, que provavelmente ali viviam escondidas entre as árvores.

Depois de longa viagem pelo Amazonas, De La Condamine (1743-44) propagou a lenda das Amazonas americanas pela Europa. Segundo ele, essas mulheres conheciam os segredos das pedras-verdes (muiraquitãs: amuletos duríssimos semelhantes ao jade), e estavam organizadas numa república. Alexandre von Humboldt (1799-1804) também recuperou o mito, levantando a possibilidade de as mulheres de uma ou de outra tribo, fartas da opressiva escravidão em que os homens as mantinham, terem fugido para as selvas, se reunido em hordas e adotado pouco a pouco, para a manutenção de sua independência, um modo de vida belicoso.

Em plena era vitoriana, viajantes ingleses se referiram com admiração e espanto aos esquadrões femininos do exército do Daomé, cujas tropas de elite eram integradas por mulheres ().

Assim, a persistência do tema da mulher guerreira e poderosa continua a manter o fascínio e a instigar pesquisadores de diferentes períodos.



Representações e Poder


Nos relatos percebe-se que, emcontraposição ao perfil esboçado das Amazonas, simultaneamente se constroem as noções de virilidade masculina e castidade feminina. De fato, não há contradições no processo, que são mutuamente dependentes e relacionados com a questão da normatização da sexualidade.

As imagens masculinas e femininas construídas nesses discursos não só consolidam diferenças como contêm hierarquias. São imagens de poder que explicitam visões mais voltadas para o "deve ser" do que para o "ser", num processo de construção das identidades de gênero regido por uma dinâmica de relações de dominação e exclusão. O discurso masculino sobre a mulher vai ficando cada vez mais agressivo, marcado por variações de misoginia que se apresentavam ora violentas, ora sutis e paternalistas, embuídas pelo desejo de enquadrar as mulheres dentro de leis e normas. Tornando-se explícito através da desvalorização prática e simbólica da mulher, o prestígio se consubstancia na noção de honra, que resulta ameaçável nos termos da conduta moral feminina (). Tal configuração cultural promove um sistema de relações com alto grau de tensão e violência, em que a idéia de prestígio, honra e governo se encontrava vinculada ao poder masculino, cujo exercício estaria na centralidade da moral e do controle femininos.

Nos relatos desses cronistas percebe-se o entrelaçamento das imagens femininas e masculinas, que se constituíram num processo interno de influência mútua, ou seja, simultaneamente constituintes e constituídas, movimentos internos geraram transformações na enunciação que procurou definir e obscurecer as contradições existentes. Assim, a construção do gênero é simultaneamente o produto e o processo de sua representação.

O discurso dessas narrativas compreendia uma rede de significados intrincada, lacunar e fragmentada, mas que pretendia mostrar-se universal. Camuflava essa contradição procurando apresentar-se como coerente e íntegro; com uma trama multidimensional, visava persuadir e ocultar. Há uma contradição irreconciliável entre a mulher como representação e as mulheres como sujeitos históricos situados dentro e fora da representação.

O texto de Acuña, posterior ao Concílio de Trento, apresenta de forma mais explícita a influência religiosa e filosófica da Companhia de Jesus, do Concílio e da Inquisição, permeada de referências à Biblia e aos clássicos, destacando como virtude feminina a honestidade e derivando o ideal de virtude feminina do ideal de honra masculino. Mais do que apresentar o que deveria ser a mulher, mostra para o que não deveria estar voltada: a guerra, o governo e o Estado.

Cabe ainda ressaltar que a imagem das Amazonas, imagem invertida do ideal masculino sobre o feminino, nem sempre atuou para manter as mulheres em sua situação. Sendo o desempenho guerreiro um papel masculino em toda parte, e também um comportamento em geral vedado àsmulheres, a imagem das Amazonas, operou primeiro para ampliar as oposições ao comportamento das mulheres dentro e fora do casamento e segundo para sancionar o motim e a desobediência políticas de homens e mulheres. A representação da Amazonas na literatura e iconografia, freqüente nos séculos XVI e XVII, nos leva a crer que a imagem teria a potencialidade de inspirar em algumas mulheres a ação e levá-las a refletir sobre suas possibilidades. Além do mais, a "mulher fora de lugar" alimentou a fantasia de algumas mulheres reais e pode ter inspirado ações excepcionais.

Na literatura, relatos e provérbios, a imagem das Amazonas em vários momentos foi diretamente recuperada e relacionada às potencialidades femininas, à mulher rebelde, à inversão da sexualidade (), ao poder feminino e até à loucura feminina.

Representar a mulher no poder foi recurso de reflexão feminina sobre as potencialidades da mulher. O mito volta periodicamente modificado, alternando-se. No início do século XVIII, as especulações sobre as "virtuosas" Amazonas estariam relacionadas à legitimação ao governo das rainhas européias, senão também à sugestão da possibilidade de ampliar a cidadania das mulheres. Pierre Petit e Claude Guyon trataram de encontrar argumentos plausíveis para explicar sua bravura, bem como de comprovar a sua existência. Já Poullain de la Barre usou-as em seus argumentos para a entrada das mulheres na magistratura, e nos primeiros anos da Revolução Francesa Condorcet e Olympe de Gouges fizeram um apelo em favor da plena cidadania das mulheres com argumentos sustentados na potencialidade feminina-amazona.

As Amazonas se mantêm como personagens constantes na literatura e na pintura dos séculos XVIII e XIX. Duas figuras femininas se destacam: a do anjo da casa e a das que se rebelam contra as regras selecionando livremente o celibato, libertando-se do matrimonio as Amazonas liberadas. Michelle Perrot lembra que, nos finais do século XIX e começo do século XX, Nathalie Clifford-Barney, Renée Vivien, Gerthudes Stein e suas amigas, além de outras artistas do Art Nouveau ou da vanguarda, formavam uma plêiade de "mulheres novas" - escritoras, artistas, advogadas, médicas, professoras. Algumas lésbicas reconhecidas em "toda Paris" reivindicavam o direito de viver como os homens, recuperando o mito das Amazonas (), o mito também é recuperado por quem tem medo dessa liberdade das mulheres que ameaça privilégios erelaçõesestabelecidas.

Movimentos de mulheres e feministas durante o século XX também usaram a imagem das Amazonas, instigando à luta pelos direitos femininos de igualdade e de cidadania.

Primeira e última parte do ensaio.
Para ler o texto em sua versão integral click aqui.

 

* Profª Associada do Departamento de História da PUC-SP e Coordenadora do Núcleo de Estudos da Mulher-NEM/PUC-SP