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o cânone da literatura de autoria feminina se modificará muito se
a mulher retratar vivências resultantes não de reclusão ou repressão,
mas sim a partir de uma vida de sua livre escolha, com uma temática,
por exemplo, que se afaste das atividades tradicionalmente consideradas
"domésticas" e "femininas" e ainda de outros estereótipos do "feminino"
herdados pela história, voltando-se para outros assuntos habitualmente
não associados à mulher até hoje.
A literatura de autoria feminina precisa criar o seu espaço próprio
dentro do amplo universo literário mundial. Desde fins do século
XIX e principalmente no século XX, a principal transformação pela
qual passou a literatura de autoria feminina é a conscientização
da escritora quanto a sua liberdade e autonomia e a possibilidade
de trabalhar e criar sua independência financeira. Ocorreu, assim,
a mudança da condição "feminina" para a condição "feminista".
Desde a década de 1970, a consciência do corpo e o questionamento
da existência, com a maciça entrada das escritoras na Universidade,
pelo menos desde a década de 1950, tornaram suas vozes mais intensas.
As escritoras passaram, então, a expressar suas realidades. Até
muito recentemente, a crítica feminista não possuía uma base teórica.
Assim, a crítica feminista era um ato de resistência, uma confrontação
com os cânones e julgamentos existentes. Enquanto a crítica científica
lutou para se purificar do subjetivo , a crítica feminista reafirmou
a autoridade da experiência.
Existem duas formas de crítica feminista, e misturá-las é permanecer
num território confuso. A primeira forma é ideológica, diz respeito
à feminista como leitura e oferece leitura feministas de textos
que levam em considerações as imagens e estereótipos das mulheres
na literatura, as omissões e falsos juízos sobre as mulheres na
crítica. A leitura feminista pode ultrapassar estas considerações;
pode ser uma ação intelectual que busca a libertação, como propõe
Adrienne Rich:2
Uma crítica radical da literatura feminista mostraria como vivemos,
como temos vivido, como fomos levados a nos imaginar, como nossa
linguagem nos tem aprisionado, bem como liberado, como o ato de
nomear tem sido uma prerrogativa masculina, e de como podemos começar
a ver e nomear, e, portanto, viver de novo.
Buscando a escritura feminina A leitura feminista ou crítica feminista
é, em essência, uma forma de interpretação, uma das muitas que qualquer
texto complexo irá acomodar e permitir. Mas, a crítica feminista
só pode competir com leituras alternativas. Kolodny, teórica da
interpretação feminina afirma:
Tudo que a feminista está defendendo, então, é seu próprio direito
de libertar novos (e, talvez, diferentes) significados destes mesmos
textos; e, ao mesmo tempo, seu direito de escolher quais os aspectos
de um texto que ela considera relevantes, pois ela está, afinal
de contas, colocando ao texto novas e diferentes questões. Durante
o processo, ela não reivindica que suas leituras e sistemas de leitura
diferentes sejam considerados definitivos ou completos estruturalmente,
mas somente que sejam úteis para o reconhecimento das realizações
específicas das mulheres como autoras, e que sejam aplicáveis na
decodificação consciente da mulher como signo.
Toda crítica é revisionista, questiona as estruturas aceitas. A
crítica feminista revisionista retifica uma injustiça e está construída
sobre modelos já existentes. Contrapondo-se à teoria crítica masculina,
ela tem como objetivo suplementar, revisar, humanizar conceitos
baseados na experiência masculina e apresentados como universais.
A segunda forma da crítica feminista é que se propõe analisar a
mulher enquanto escritora e sus tópicos são a história, os estilos,
os temas, os gêneros e as estruturas dos escritos de mulheres, a
criatividade feminina. Como não existe um termo para este discurso
crítico especializado Elaine Showalter o define como ginocrítica.
A ginocrítica não pretende mais reconciliar pluralismos revisionistas,
as o que faz a diferença nos escritos das mulheres.
O conceito da écriture féminine, estabelece a diferença feminina
na língua e no texto, possibilitando uma maneira de se discutir
os escritos femininos que reafirmam o valor do feminino e identificam
o projeto teórico da crítica feminista como a análise da diferença.
Tecnicamente, não se poderia falar em literatura "feminista" antes
que o termo fosse cunhado, na década de 1960.
Para Luiza Lobo :
O termo "feminino" vem sendo associado a um ponto de vista e uma
temática retrógrados, o termo "feminista", de cunho político mais
amplo, em geral é visto de forma reducionista, só no plano das ciências
sociais. Entretanto, deveria ser aplicado a uma perspectiva de mudança
no campo da literatura. A acepção de literatura "feminista" vem
carregada de conotações políticas e sociológicas, sendo em geral
associada à luta pelo trabalho, pelo direito de agremiação, às conquistas
de uma legislação igualitária ao homem no que diz respeito a direitos,
deveres, trabalho, casamento, filhos etc. (1999:4)
Considerando que o texto literário feminista é o que apresenta um
sujeito consciente de seu papel social, sempre houve autoras "feministas"
dentro do contexto de suas épocas, tornando-se o termo impróprio
apenas por uma questão cronológica. Como exemplo, Safo, Sóror Juana
Inés de la Cruz, possuidoras de uma consciência política ou esclarecida
de sua existência em face da história excepcionais para seu tempo,
e poderiam ser eventualmente identificadas com o "feminismo".
A alteridade, ou seja, a ênfase na diferença, da literatura de autoria
feminina tornou-se a base da abordagem feminista na literatura.
Ser o outro, o excluído, o estranho, é próprio da mulher que quer
penetrar no "sério" mundo acadêmico ou literário. Não se pode ignorar
que, por vários motivos sócio-político-culturais, a mulher foi excluída
do mundo da escrita - só podendo introduzir seu nome na história
através das fendas que conseguiu, arduamente, abrir.
Na literatura brasileira, até o presente momento, considera-se o
romance Úrsula (1859)4 de Maria Firmina dos Reis, escritora maranhense,
a primeira narrativa de autoria feminina. O romance reduplica os
valores patriarcais, construindo um universo onde a donzela frágil
e desvalida é disputada pelo bom mocinho e pelo vilão da história.
Contrariando os finais felizes, a narrativa termina com a morte
da protagonista, vítima da sanha do cruel perseguidor.
Mais recentemente, a preocupação em ser sujeito da própria escrita,
deixando de ser só uma representação literária na ficção masculina,
tem como principais expoentes (entre outras): Clarice Lispector,
Sônia Coutinho, Maria Adelaide Amaral, Lya Luft (objeto principal
deste ensaio).
Agora
Leia a segunda parte do ensaio da Profa. Níncia Cecília
Ribas Borges Teixeira:
Lya
Luft: Caos e Reconstrução.
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