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Lya Luft desvenda através de seus escritos o submundo em que vive
a mulher. Sua literatura extremamente intimista percorre o caminho
desenhado por Clarice Lispector, mas com uma nota absolutamente
pessoal. A questão feminina é tratada sob o ponto de vista feminino,
configurando, dessa forma, a écriture féminine .
Zila Bernd, referindo-se a Luft afirma que: "Sua escrita é uma volta
ao interior da casa, ao interior do desejo, encenando o mito do
eterno retorno que é uma das principais marcas da escritura feminina".
Os romances A asa esquerda do anjo, Reunião de família, O quarto
fechado e As Parceiras abordam, principalmente, a luta contínua
entre o princípio da vida e da morte, entre Eros e Tanatos. A criação
das personagens esta ligada à sua visão de mundo, não aceita mais
a perpetuação do poder masculino, embora aponte para a decadência
do patriarcado. A contestação aos valores patriarcais se revela,
em Lya Luft, de forma cortante, mostrando o drama da mulher, educada
dentro de rígidos padrões moralistas. As protagonistas continuam
presas à família, presas às regras do jogo social. A situação social
da personagem tem importância à medida que representa condicionamentos
impostos por práticas sociais.
As personagens femininas são flagradas num determinado momento de
sua trajetória: o momento em que o mundo, carecendo de sentido,
se esvazia sob a ótica feminina. Lya Luft constrói em suas obras
um mundo decadente que se desagrega e se desmancha, compondo um
universo feminino marcado pela loucura, pela doença e pela morte;
o jogo e o grotesco, o trágico e o grotesco se articulam para desvelar
as regras, desvendando os absurdos de uma sociedade repressora e
injusta, em que a mulher é o "lado esquerdo", que fica sempre à
margem da sociedade.
Na obra romanesca de Luft a narrativa é sempre feita por uma mulher
que relata sua problemática, partindo de um universo fragmentado,
procurando sua verdadeira identidade. Em As Parceiras é Anelise,
adulta, que busca explicação para os destinos das mulheres da família;
em A asa esquerda do anjo é Guísela/ Gisela, também adulta que refaz
sua trajetória em busca de sua identidade; em Reunião de família
é Alice, que rememora, na sua história familiar, a repressão; em
O quarto fechado, há quase uma exceção, pois a narrativa é feita
em 3ª pessoa, mas o discurso interior de Renata é forte e alterna-se
com a voz narrativa.
O existencialismo percorre toda a escritura luftiana, as protagonistas,
se analisadas do ponto de vista existencialista, representam a negação,
o nada, pois não conseguem, do ponto de vista sartreano, realizar
seus projetos - Sartre afirma que "o homem nada mais é do que aquilo
que projeta ser" - Anelise, Guísela / Gisela, Alice, Renata são
impedidas de se realizarem como seres humanos plenos, independentes,
sujeitos ativos de seu destino. Algo se rompe dentro delas: Alice,
em Reunião de família, torna-se escrava da rotina, mas encontra
no espelho a outra Alice que simboliza a liberdade; Anelise, em
As Parceiras, fixou-se na maternidade para vencer seus fantasmas,
Gisela, em A asa esquerda do anjo, sofre por ser a imagem da exclusão
e pelo autoritarismo da matriarca da família; Renata, em O quarto
fechado, é a própria imagem da fragmentação (mãe-esposa-profissional),
diante do filho morto, ela é o nada.
Na concepção de Sartre, o homem também é angústia, e as personagens
de Lya são a própria imagem da angústia, angústia na solidão ou
na ausência dela, angústia de viver e morrer. A casa, a solidão,
o moralismo, todos este impulsos configuram a morte do desejo e
o auto-exílio.
Ela constrói com ambigüidade suas personagens, aponta para realidades
diversas, inserindo o ser humano numa eterna contradição. O mundo
psíquico das mulheres de Luft está continuamente envolto, nas levas
apaixonadas e sem fronteiras de um ambíguo sentimento simultâneo
de amor e ódio, cujos limites não são possíveis de traçar e, exatamente
por esta razão, retêm a personagem num universo melancólico . Para
a pesquisadora Lucia Helena:
A ficção de Lya Luft dedica-se a narrar a tematização da passagem
de uma sociedade regida pelos laços ainda telúricos da experiência
e da tradição torna-se pouco a pouco um outra, um mundo movido pelo
choque, pela fragmentação, pelo spleen corrosivo e melancólico.
Esta transformação é vivida melancolicamente pelo imaginário soturno
da personagem, que se debate nas fímbrias da morte do desejo compulsivamente
barrado (1991:86).
A linguagem simbólica torna sua narrativa universal e perpassa toda
a obra, e a morte, encarada sob o prisma mitológico, torna-se uma
alegoria. Lya Luft recorre a símbolos recorrentes (árvores, noite,
verme, anão) que possuem em sua carga semântica uma duplicidade
de sentidos, configurando, sempre, a eterna contradição humana,
a luta eterna entre Eros e Tanatos.
Há, também, em seus escritos, a presença da circularidade, pois
fica evidenciado que suas personagens sempre retornam ao ponto de
partida, a narradora é flagrada num momento de caos interior e tenta
recuperar o elo entre o eu e o mundo. Essa voz feminina revela-se
e encontra coragem para enfrentar o passado, porém sempre retorna
ao presente. Além disso, sua obra está construída sobre uma circularidade
de elementos que dão suporte a sua narrativa, que se configura,
também, por meio da recorrência de temas.
As personagens da obra de Lya Luft carregam uma culpa imemorial,
a culpa de Pandora, a culpa de ser incapaz de reter o tempo perdido;
a felicidade, se aconteceu é só uma lembrança, pois num mundo dominado
pelo tempo, Eros será mera recordação do passado, Tanatos é sempre
o vencedor. A morte não acontece apenas no plano físico, mas também
configura-se através da incapacidade de amar. Se, por um lado, todas
as personagens têm dificuldade para lidar com a morte (e todo ser
humano tem), também demonstram incapacidade para lidar com a vida
e com o amor.
Lya Luft é uma voz feminina que busca sua identidade literária num
mundo em que a mulher, ainda, continua à margem esquerda da sociedade.
Mas que luta para se fazer sujeito da História. Desta ficção se
pode também dizer que abandona a narrativa centrada na vida pessoal
de uma personagem quase que autobiográfica e se aprofunda no exame
crítico dos múltiplos papéis da mulher na sociedade. A condição
feminina, vivida e transfigurada esteticamente, é um elemento estruturante,
não se trata de um simples tema literário, mas da substância de
que se nutre a narrativa. A representação do mundo é feita a partir
da ótica feminina, portanto, de uma perspectiva diferente (para
não dizer marginal), com relação aos textos reconhecidos pelo cânone
literário. A mulher, vivendo uma condição especial, representa o
mundo de forma diferente.
O discurso da escritura feminina é conseqüência de um processo de
conscientização, não que o discurso feminino se confunda com feminismo,
mas traz como alicerce a consciência da situação social da mulher.
Este discurso subverte a ordem vigente, questionando papéis sociais,
representando a mulher dividida, numa linguagem que também subverte
os padrões normais.
Este é o discurso feminino, uma necessidade de um tempo e de um
espaço especiais. Dessa forma, não há como considerá-lo algo segregado
do acervo literário. Ele representa uma tendência altamente significativa
do ponto de vista estético e social, pois é uma representação artística
da situação da mulher feita por mulheres.
Notas:
1- Citação retirada do ensaio de Luiza Lobo, "A Literatura Feminina
na América Latina", publicado na Revista Brasil de Literatura (on-line),
1999, reimp. De idem, ibidem, Registros do Seplic, Seminário Permanente
de Literatura Comparada, Departamento de Ciência da Literatura,
Faculdade de Letras da UFRJ, n. 4, 1997. 40 p.
2 - Adrienne Rich citada por Heloísa Buarque de Holanda in Tendências
e Impasses- o feminismo como crítica da cultura (1994).
3 - Heloísa Buarque de Holanda cita Kolodny in idem (1994).
4 - Ver Luiza Lobo, "Auto-retrato de uma pioneira abolicionista",
in Crítica sem juízo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992, p.
222-38; "O negro de objeto a sujeito", idem, p. 205-21; José Nascimento
de Moraes Filho, ed. Maria Firmina dos Reis - fragmentos de uma
vida. São Luís, Governo do Estado do Maranhão, 1975.
Referências
Bibliográficas:
GOTLIB,
Nádia Batella, org. A mulher na literatura. Belo Horizonte: Imprensa
da UFMG,1990
HOLLANDA, Heloísa Buarque, org. Tendências e impasses
- O feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
LOBO, Luiza. "A Literatura feminina na América Latina." Revista
Brasil de Literatura, on-line, 1999. Reimp. de idem, Registros do
Seplic, Seminário Permanente de Literatura Comparada, Departamento
de Ciência da Literatura, Faculdade de Letras da UFRJ, n. 4, 1997.
p.40.
"Auto-retrato de uma pioneira abolicionista", in Crítica
sem juízo, Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1992, p. 222-38; "O
negro de objeto a sujeito", idem, p. 205-21.
- LUFT, Lya. A Asa Esquerda do Anjo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
1984.
Reunião de família. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
O quarto fechado. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
As Parceiras. Rio de Janeiro: s. ed., s. d.
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