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"Entrevista"
com Machado de Assis
Machado de Assis foi a maior figura literária
do século XIX. Quais seriam suas opiniões
sobre amor, dinheiro, política, literatura, mulheres?
Para satisfazer a sua curiosidade, imaginamos uma "entrevista"
com o famoso escritor. Todas as respostas foram extraídas
de textos que ele escreveu ao longo da vida (crônicas,
ensaios, artigos, romances, contos etc.).
Autor - Vamos começar por um tema muito explorado
em sua obra: o amor. O que é o amor?
Machado - A melhor definição do amor não
vale um beijo de moça namorada.
Autor - Mas o amor muda muito as pessoas, não?
Machado - Não há como a paixão
do amor para fazer original o que é comum, e
novo o que morre de velho.
Autor - O senhor disse certa vez que as mulheres
parecem ter uma queda especial pelos tolos, parecem
gostar mais deles dos homens de espírito. Por
que o senhor tem essa opinião?
Machado - O homem de espírito é o menos
hábil para escrever a uma mulher. Quando se arrisca
a escrever uma carta, sente dificuldades incríveis.
Quer ser reservado e parece frio; quer dizer o que espera
e indica receio; confessa que nada tem para agradar
e é apanhado pela palavra. Comete o crime de
não ser comum ou vulgar. O tolo é fortíssimo
em correspondência amorosa e tem consciência
disso. Longo de recuar diante da remessa de uma carta,
é muitas vezes por aí que ele começa.
Tem uma coleção de cartas prontas para
todos os graus da paixão. Alega nelas em linguagem
brusca o ardor de sua chama; a cada palavra repete:
meu anjo, eu vos adoro. As suas fórmulas são
enfáticas e chatas; nada que indique uma personalidade.
Não faz suspeitar excentricidade ou poesia; é
quanto basta; é medíocre e ridículo,
tanto melhor. Efetivamente o estranho que ler as suas
missivas, nada tem a dizer; na mocidade, o pai da menina
escrevia assim; a própria menina não esperava
outra coisa. Todos estão satisfeitos, até
os amigos. Que querem mais?
Autor - E quanto à amizade?
Machado - Não te irrites se te pagarem mal um
benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro
andar.
Autor - O homem não é capaz de solidariedade?
Machado - Suporta-se com paciência a cólica
do próximo.
Autor - Na sua opinião, o homem se deixa influenciar
bastante pelo dinheiro?
Machado - O dinheiro faz ouvir os surdos e ensurdecer
os que ouvem bem.
Autor - O dinheiro seria capaz de consolar os homens?
Machado - Bem-aventurados os que possuem porque eles
serão consolados.
Autor - Mesmo em família, o dinheiro seria
capaz de perturbar as relações entre as
pessoas?
Machado - Há dessas lutas terríveis na
alma de um homem. Não, ninguém sabe o
que se passa no interior de um sobrinho, tendo de chorar
a morte de um tio e receber-lhe a herança. Oh,
contraste maldito! Aparentemente tudo se recomporia,
desistindo o sobrinho do dinheiro herdado; ah! mas então
seria chorar duas coisas: o tio e o dinheiro.
Autor - O senhor viveu na época da escravidão
e soube de muitas fugas de escravos. Por que eles fugiam
tanto?
Machado - Há meio século, os escravos
fugiam com freqüência. Eram muitos, e nem
todos gostavam da escravidão. Sucedia ocasionalmente
apanharem pancada, e nem todos gostavam de apanhar pancada.
Grande parte era apenas repreendida; havia alguém
de casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não
era mau; além disso, o sentimento da propriedade
moderava a ação, porque dinheiro também
dói.
Autor - O senhor gosta de observar o comportamento
das pessoas?
Machado - Eu gosto de catar o mínimo e o escondido.
Onde ninguém mete o nariz aí entra o meu,
com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto.
Autor - Além de escritor, o senhor foi também
crítico literário por muito tempo. Como
é ser crítico?
Machado - Exercer a crítica afigura-se a alguns
que é uma fácil tarefa, como a outros
parece igualmente fácil a tarefa do legislador;
mas, para a representação literária,
como para a representação política,
é preciso ter algumas coisa mais que um simples
desejo de falar à multidão. lnfelizmente
é a opinião contrária que domina,
e a crítica, desamparada pelos esclarecidos,
é exercida pelos incompetentes.
Autor - Que qualidades deve ter o crítico?
Machado - Não compreendo o crítico sem
consciência. A ciência e a consciência,
eis as duas condições principais para
exercer a crítica.
Autor - Gostaríamos de saber suas opiniões
políticas. O que o senhor acha da democracia?
Machado - É uma santa coisa a democracia, não
a democracia que faz viver os espertos, a democracia
do papel e da palavra, mas a democracia praticada honestamente,
regularmente, sinceramente. Quando ela deixa de ser
sentimento para ser simplesmente forma, quando deixa
de ser idéia para ser simplesmente feitio, nunca
será democracia, será esperto-cracia,
que é sempre o governo de todos os feitios e
de todas as formas.
Autor - Falando de uma forma mais prática:
o que devem fazer os nossos vereadores?
Machado - A câmara, para bem desempenhar os seus
deveres e levantar a instituição do abatimento
em que jaz, deve observar três preceitos. Esses
preceitos são os seguintes: 1o) Cuidar do município;
2o) Cuidar do município; 3o) Cuidar do município.
Se fizer isso, terá cumprido um dever, sem que
daí lhe resulte nenhum direito à menor
parcela de louvor, e contribuirá com o exemplo
para que as câmaras futuras entrem no verdadeiro
caminho de que, tão infelizmente, se hão
desviado.
Autor - Se o senhor pudesse organizar o mundo à
sua maneira, o que faria?
Machado - Qualquer de nós teria organizado este
mundo melhor do que saiu. A morte, por exemplo, bem
podia ser tão-somente a aposentadoria da vida,
com prazo certo. Ninguém iria por moléstia
ou desastre, mas por natural invalidez; a velhice, tornando
a pessoa incapaz, não a poria a cargo dos seus
ou dos outros. Como isto andaria assim desde o princípio
das coisas, ninguém sentiria dor nem temor, nem
os que se fossem, nem os que ficassem. Podia ser uma
cerimônia doméstica ou pública;
entraria nos costumes uma refeição de
despedida, frugal, não triste, em que os que
iam morrer dissessem as saudades que levavam, fizessem
recomendações, dessem conselhos, e se
fossem alegres, contassem anedotas alegres. Muitas flores,
não perpétuas, nem dessas outras de cores
carregadas, mas claras e vivas, como de núpcias.
E melhor seria não haver nada, além das
despedidas das verbais e amigas...
Autor - O senhor viveu bastante e viu muitas coisas.
Que balanço faz dessas experiências?
Machado - Tudo isto cansa, tudo isto exaure. Este sol
é o mesmo sol, debaixo do qual, segundo uma palavra
antiga, nada existe que seja novo. A lua não
é outra lua. O céu azul ou embruscado,
as estrelas e as nuvens, o galo da madrugada, é
tudo a mesma coisa. Lá vai um para a banca da
advocacia, outro para o gabinete médico; este
vende, aquele compra, aquele outro empresta, enquanto
a chuva cai ou não cai, e o vento sopra ou não;
mas sempre o mesmo vento e a mesma chuva. Tudo isto
cansa, tudo isto exaure.
Douglas
Tufano
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