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Mário
de Andrade: vagabundo
MARIA
AUGUSTA FONSECA
"Água
do meu Tietê,
Onde me queres levar?
Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar..."
Engana-se
quem se apega ao fato concreto de Mário de Andrade ter sempre
resistido a viajar ao exterior, creditando à recusa um traço
de apego nacionalista, ou mesmo ranço de mentalidade provinciana
Mas deveria indagar. Trafegar pelo mundo colocava em risco o caráter
ou desnudava o medo de si mesmo? Se Mário fez do Brasil o
porto de parada para a reflexão de sua consciência,
o fez com o gesto vagaroso, mas contínuo, sem descanso, da
preguiça. Para ele a produção artística,
as realizações do prazer, a busca da integridade do
homem, a desautomação cotidiana só floresceriam
numa sucessão de relaxamento e tensões: "A arte
nasceu porventura dum bocejo sublime, assim como o sentimento do
belo deve ter surgido duma contemplação da natureza",
completa ele próprio em A divina preguiça (1918).
O
olhar descansado do poeta sobre um quadro executa também
o movimento da contemplação, exercício do ócio/preguiça,
prazer do viajante. Pelos espaços de sua casa, Léger
gira um compasso no guache s/papel para uma "Composição".
Pelas mãos de Lasar Segall, Mário de Andrade pode
se ver, qual Narciso, na tela sob o fundo azulejado do mundo moderno
contra a aparência composta do modelo. No entra-e-sai, "locomotivas
e bichos nacionais/geometrizam as atmosferas nítidas"
(Oswald de Andrade) nas telas de Tarsila. Lúdico, "O
Futebol" de André Lhote dribla em muitos ângulos
o olhar fascinado do observador modernista. Picasso, Chagall, Cícero
Dias orquestram e inquietam o ambiente. Movem as paredes. "O
homem amarelo" destaca o vigor expressionista no elenco de
pinceladas largas e agrestes de Anita Malfatti. Gravuras chinesas
e japonesas acompanham Dürer e Rugendas, Di Cavalcanti e Guignard.
Desespero, pânico são talhados por Lívio Abramo
- xílogravuras da guerra na Espanha franquista que dividem
paredes com garças e peixes noturnos de Goeldi. É
um passeio incansável por mais de 600 obras de infinitas
possibilidades que embalam a imaginação. O espaço
que emoldura esse caminho "Das mil cavernas das quarenta mü
perguntas" ("Brasão") se enche com longínquos
prelúdios de Mozart, imagens de Stravinski, "pancadas
do ganzá", brinquedos e "Bachianas" de Villa-Lobos.
De 1927, um fragmento de poema assinado por Marioswald:
"Villa
Lobos
Não compõe mais
Com dissonâncias
De estravinsqui
NUNCA!
Ele é a Mina Verde
Cataguazes"
Na
casa da rua Lopes Chaves, em São Paulo, Mário de Andrade
revisita a pinacoteca, constrói diálogos com as artes,
cruza o mundo em muitas vertentes contemporâneas, trança
a tradição e a cultura popular. Fruir as surpresas
dessa caixa de mágicas pressupõe o preparo consciente
do viajante: lavor intelectual, leituras noite a dentro, anotações,
sensibilidade acurada, disposição de aprender e de
mudar os rumos do olhar para ver o novo. O cultivo do estético
deve transportar ao "estado de cisma", de "rêverie",
como escreve para situar, por exemplo, o surrealista Aragon, o dadaísta
Hans Arp.
E aquece o olhar nesse teatro moderno, em que a obra interfere na
cena representada (Brecht) no traveling, indagando sobre seu jogo
de tensões e paradoxos num close seu jogo de tensões
e paradoxos num close reading, descarnando-lhe as formas pelo distanciamento.
O poeta épico sonha depois da batalha. Mário de Andrade
"cisma" nos intervalos de batalhas. E é todo sentidos.
No baile das artes seus ouvidos estão atentos ao "murmurejo
do Uraricoera", à bulha da cidade, às sinfonias
de Beethoven. Do gosto pelo folclore, às lições
dos clássicos, desenhou seu perfil de rapsodo moderno. Convidou
para um mesmo banquete a virtuosa Siomara Ponga e o Pastor Fido.
Mesclou "doce música" à aspereza da prosa.
Conjugou rigor e blague. Ensaiou, errou, corrigiu, brilhou, mas
também muita vez se retirou do palco, aturdido pelas vaias,
sem completar a cena.
Recolheu "cheganças", documentou cirandas, boi-bumbá,
cocos, lundus, modinhas e muito mais. Desse trabalho de pesquisador,
estudioso, teórico, o artista forjou metáforas de
sua poesia de vida. Gentil, reto, esquivo, tumulto subterrâneo-palmeira
cacto rio. Para os íntimos a gargalhada solar. Apolo e Dionísio.
"No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói
de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve
um momento em que o silêncio foi tão grande escutando
o murmurejo do Uraricoera que a índia tapanhumas pariu uma
criança feia".
Apreciador da pureza estética dos volumes, da luz, dos sons,
sua mão prefere desenhar nas pautas e na tela branca do papel
a palavra, matéria impura, elemento interessado. E é
exigente no tratamento da forma e da técnica como fundamentos
para se consignar a obra de arte. São contos, poemas, rapsódia,
idílio (como designou o romance Amar, verbo intransitivo),
tingindo com humor e amargura, lirismo e sarcasmo as estranhas da
poesia, a crônica de jornal
O caráter que procurou na língua e os rascunhos de
uma Gramatiquinha da fala brasileira partilham a viagem com verbetes
de um pensado dicionário de zoofonia. Navega pelo Amazonas,
Nordeste, perambula pelos monumentos de pedra sabão nas Minas
de Aleijadinho. El paulista de la calle Florida (Raúl Antelo),
Mário de Andrade entra pelos espelhos dos cafés na
Buenos Aires de Borges.
No
Rio de Janeiro, entre serpentinas, pergunta: "Onde que andou
minha missão de poeta, Carnaval?".
Quer
nos amigos porto seguro. Aprende alemão, francês, inglês.
Tudo para ler poetas e as últimas novidades no original.
Para alguns poucos, desabafa, discute, critica, expõe-se.
Manu(el) Bandeira. - "Vamos, irmão pequeno, entre palavras
e deuses,/Exercer a preguiça, com vagar" -, amigo maior,
partilhou dessa intimidade. Foram décadas de cartas, visitas,
encontros nas ruas, nos bares. Um fragmento do canto de Bandeira
exprime a ligação fraternal. "A Mário
de Andrade Ausente":
Anunciaram
que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Viajou
pela arte para encontrar a si mesmo, entender o caráter de
sua cultura, dialogar com o mundo seu contemporâneo. Abandonou
e retomou portos. Dor, paixão e morte entram pelo escândalo
familiar diante da "Cabeça de Cristo", de Brecheret.
Num acesso de fúria, então, para Paulicéia
Desvairada. E seus versos ecoam em mais escândalo, provocado
involuntariamente pelos elogios de Oswald no artigo, "O meu
poeta futurista" (1921). Não sou futurista de Marinetti,
dirá, para depois gravar o termo, modernista. Tudo filtra
a sensibilidade. Das partituras executadas ao piano, às linhas,
planos e ritmos arrojados de Paul Klee, impressas nas engrenagens
da cidade industrial palco da épica moderna. E o professor
de Conservatório, diretor do Departamento de Cultura do Município,
subverte o cotidiano com a poética do desvairismo. Implacável
consigo mesmo, atormentado por eros, amargurado com a injustiça,
inflexível quando esbarravam nas suas fragilidades. Certa
vez ilustrou o papel do artista:
"Gritam de longe: Louco!! Louco!! Volto-me. Respondo: Loucos!
Louco! É engraçadíssimo. E termino finalmente
achando em tudo um cômico profundo: na humanidade, em mim,
na fadiga, na inquietação e na famigerada liberdade".
Da reflexão sobre a identidade cultural brasileira nasce
Macunaíma o herói sem nenhum caráter (1928).
O ainda amigo Oswald de Andrade anuncia (Revista de Antropofagia,
la dentição) "nossa Odisséia e por cinqüenta
anos o idioma nacional". Mário de Andrade deixou aberta
a cicatriz do herói sem consciência, "herói
de nossa gente". E crítico, o trovador somou-se ao dilaceramento:
"Sou um tupi tangendo um alaúde!".
Maria
Augusta Fonseca, foi professora de Literatura Brasileira da Universidade
Federal de Santa Catarina, atualmente leciona no Departamento de
Teoria Literária e Literatura Comparada da Faculdade de Filosofia
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo,
é autora de A Carta pras icamiabas: Mestiçagem Literária
- ensaio publicado na edição crítica de Macunaíma,
1988, entre outros. Participou da Coleção Archivos/
Unesco de 1988 e de 1995.
"Se
Mário fez do Brasil
o porto de parada para
reflexão de sua consciência,
o fez com o gesto vagaroso,
mas contínuo, da preguiça"
"Na
casa da rua Lopes
Chaves, em São Paulo,
Mário de Andrade revisita
A pinacoteca, constrói
Diálogos com as artes..."
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