Poemas
de Olga para Drummond:
Homenagem de Olga Savary a
Carlos Drummond de Andrade
Caricatura
de Drummond
Desenho deOlga Savary
Rio
de Janeiro, agosto 1988
|
31 de outubro de
2000: 13 anos sem Carlos Drummond de Andrade, falecido
em 1987, e que, se vivo, estaria fazendo aniversário
nesse dia, 98 anos. Poucos dias antes dele, morria sua
filha Maria Julieta, considerada como melhor amiga e
cúmplice literária e de vida. Quando Maria
Julieta faleceu, tive um sobressalto. Não quis
pensar, mas pensei: Carlos não vai durar muito
tempo mais. Era pelo primeiro nome que CDA (como muitas
vezes assinou suas crônicas) gostava de ser chamado
pelos amigos mais próximos e pelos parentes.
Era o nosso caso. Amigos muito próximos desde
sempre, eu ria na adolescência e Carlos Drummond
já na casa dos 50 anos, só mais tarde
é que ele me revelou nosso parentesco. Pelo livro
da escritora mineira Maria Rita de Lima Lustosa, filha
do poeta Augusto de Lima (que até virou nome
de avenida em Belo Horizonte), Quarta-feira da semana
passada (Rio de Janeiro, Editora Presença em
co-ediçao com o Instituto Nacional do Livro,
1977), de memórias, relatava isto. Depois, Os
sapatos de Orfeu, livro que o jornalista José
Maria Cançado escreveu sobre CDA, nos colocava
personagens desse encantamento que costuma ocorrer entre
primos.
Na verdade, entre nós dois, nunca houve nada
- e houve tudo. Preparo um livro que contará
um pouco dessa correspondência de amizade-amorosa,
mo eu dizia. E que CDA rebatia chamando de amor, amor
mesmo. Era curioso: morando na mesma cidade, no mesmo
bairro, bem próximos, trocávamos cartas,
poemas, presentes, confidências. Tudo muito lúdico
e profundo, que é possível a união
desses dois adjetivos na relação das pessoas,
desde que haja verdade. Nós nos sentíamos
profundamente comovidos um com o outro - e tudo era
muito engraçado ao mesmo tempo, ríamos
sempre de tudo.
De Buenos Aires
dizem cartas e postais
enviados por Julieta
a mim e ao poeta,
falando de Augustas,
Flávio e Flávia
e nossos Pedros*,
a erguer-me em ti, cidade,
para eu não estar completa.
* Escritora Julieta
Drummond de Andrade, filha do poeta CDA, cuja mãe
era Julieta Augusta, sendo o nome da Autora Olga Augusta.
O parentesco traz mais coincidências: CDA, antes
da filha, teve um filho Carlos Flávio, OS tem
uma filha Flávia. E Pedro é o nome dos
filhos de JDA e OS.
início
Altaonda
A Carlos Drummond
de Andrade
Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento,
e esta imagem me invadindo as tardes,
eu deixando, certo certo
contaria todos os meus ossos.
Então é isso:
o rigor da ordem sobre o ardor da chama
de história simples com alguma coisa de fatal,
estátua banhada por águas incansáveis,
tigre saltando o escuro
nos degraus da escada, apenas pressentido,
este ir e vir sobre os passos dados,
rua sem saída, esbarro no muro.
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido,
um mistério que é teu signo e mapa
sumindo no fundo do mar.
Rio de Janeiro,
31 outubro 1977
(OLGA SAVARY em Altaonda)
início
Presente
Carlos Drummond
de Andrade
Rosas vermelhas as mais
vermelhas já ofertadas
vêm na crista da manhã
trazendo-te, amigo amado,
acompanhando o poema
que de tão belo e tão terno
empina alegria qual pipa
e a luz deste mais dia.
Mesmo depois de secas
estas flores guardarei,
duas dúzias na braçada
nunca mais nenhuma igual.
Amizade-quase-amor
ou amizade amorosa,
o presente é tua presença
imponderável nas rosas
e inteiro no poema.
OLGA
SAVARY
Espelho Provisório
início
Noturno
A Carlos Drummond
de Andrade
E como o óleo
sobre a desconsolada cabeça
que não mais o suportasse
quisesse a solidão
que te decifra,
mãos em vôo além
da janela aberta
foram beber no ar
teu sortilégio,
retrato da lua e seu inventor.
Rio de Janeiro,
setembro 1955
OLGA
SAVARY
Espelho Provisória (1970)
início
Numa Praia Deserta
A Carlos Drummond
de Andrade
Para que servem conchas
na deserta praia, para que servem
esses bocados de algas e sargaços,
se não estás aqui e de nada adianta
apanhá-los para te dar.
Sei fazer poemas: de que servem?
Nada sei do mar.
RJ/Rio das Ostras
OLGA SAVARY
Espelho Provisório
início
Jogo na Tarde
A Carlos Drummond
de Andrade
Desafio um deus tardo
que te mostra e esconde
como jogo de vagas submersas
ao aproximar do som de teus sapatos
pisando cuidado e aéreo ferro
em tua pupila azul doce-feroz
- concha aturdida que se anuncia
no último cristal da tarde.
Mariscos que se incrustam no teu
flanco
e te ferem sem que alguém os possa ver
são os sinais da violência interna,
a marca do fogo, fera-caramujo
impassível de serena aparência.
Imaginado
eras único ser que se percorre
entre o sal e duas ondas.
Então leio teus versos como leio a água
e vejo claro o cristal na tarde
em que te exaures.
Rio de Janeiro,
janeiro 1969
OLGA SAVARY
Espelho Provisório
início
O Caramujo e seu Espelho
A Carlos Drummond
de Andrade
Caramujo
concha
coral mais que escondido
Vaga
onda
menos real que pressentida
Vento
fumo
acostumando ao sono
Margem
meio
submergidos no silêncio
Ganho
perda
na mais ausente permanência
Igual
espelho
fragmentado como o riso
Jade
mar
água mais que ferida
Sal
espuma
abalando viga submersa
Espelho
reflexo
de um mesmo revolvido interior
Reserva
mudança
de frio escondendo a chama
Calma
guerra
que se move não se sabe onde
Lasca
seta
inserida agora e no que foi
Ferro
fera
pedra suportando tantas cicatrizes
Sol
fogo
marcas de fogo como línguas.
Rio de Janeiro,
janeiro 1969
REPERTÓRIO
SELVAGEM
Obra Poética Reunida
início
Cantilena em Setembro
A Carlos Drummond
de Andrade
E embora eu não quisesse
essa vontade estranha me anulou,
me fez somente desejo de sair
contigo pelo ar (na distância
uma cidade de pedra nos chamava),
te castigar de toda memória,
fugir com toda memória que trouxesses
e nela te guardar como coisa secreta
nunca revelada.
E de roer pacientemente
como fera verde teu passado
sem outro medo que o prolongamento
dessa impossível febre que me perturbara;
e por isso mesmo
depois de devastado embalar
teu sono de criança numa ilha
que a gente imagina e desenha no ar
ou nas ondas, e saber ficar
tão de manso como flor pisada
ou passarinho morto à pedrada
na beira do caminho.
Rio de Janeiro,
setembro 1955
REPERTÓRIO
SELVAGEM
Obra Poética Reunida
início
Do Outro Lado
A Carlos Drummond
de Andrade
Mas embora seca eu estivesse
a fonte longamente esperada
abriu-se na manhã cinzenta
como noite clara.
Veio a vontade de dizer as coisas
mas as coisas se atropelaram.
Depois, as luzes avistadas eram
de cidade tão estranhada agora
que eu mudara para outra não sabida.
A lua, a sempre mesma (verdadeira),
era parca. Crio outra lua
que melhor destile
tua tristeza minha tristeza.
O caminho não é
mais só pela calçada:
brincando de fantasma, gênio das águas,
o menino de pedra finge dois passos a mais
comigo - seguimos de mãos dadas.
Suspensos num jardim suspenso
- invisíveis, penso -
devoramos um inteiro
canteiro de estranhas folhas.
Melhor talvez fora cortar
as flores divisadas
e replantar
outras que nos bastassem.
Jardim incultivado: nosso remorso.
Rio de Janeiro,
setembro 1955
REPERTÓRIO
SELVAGEM
Obra Poética Reunida
início
As Mãos Estendidas
A Carlos Drummond
de Andrade
Nessa direção
da janela aberta
vem o Murundu,
o bicho-papão
metendo medo em
quem anda acordado
inda a essas horas.
Em outro lugar
cisma outra criança.
Triste é não poder
ter um outro vôo
que não o poético
da imaginação
para a consolar.
E assim ficamos
entre o querer
estendendo as mãos
e deixando-as
cair.
Rio de Janeiro,
setembro 1955
REPERTÓRIO
SELVAGEM
Obra Poética Reunida
início
Abstrata
A Carlos Drummond
de Andrade
Há horas não sou
- e me pressinto
no que não sou e me visito
no relógio, no vazio do tempo
onde, irmãos na solidão,
a confidência teceu um elo
invisível a nos unir.
E me pergunto se me começo a ver no escuro
que não o desta casa mas de outra
- geografia vedada a um mesmo uso.
E penso no que serei agora:
passeio de quartos da casa que não sei,
fantasma.
Rio de Janeiro,
setembro 1955
REPERTÓRIO
SELVAGEM
Obra Poética Reunida
início
O Menino, um Dia,
no Retrato
A Carlos Drummond
de Andrade
Vou te descobrindo - ou redescobrindo?
-
atrás da fechada janela
na remota cidade que desconheço
(ou reconheço? através da seta
de teu olho - bicho fugido, sigilo
de um silêncio úmido de furna -
como vejo vagas formas que se movem
no escuro do interior da casa
que ficou guardada
sem uso, na memória)
e desse jogo obscuro e perigoso
de que fugimos mas retemos fórmulas
e de que tudo foi guardado do outro lado
das coisas que jamais podem ser ditas,
restou como tocável permanência
o menino, um dia, no retrato.
Rio de Janeiro,
fevereiro 1969
REPERTÓRIO SELVAGEM
Obra Poética Reunida
início
Balanço
A Carlos Drummond
de Andrade
Olho teu rosto como imagem
parada um instante
refletida no profundo fundo
de um poço.
E da memória
não me interessa nada mais que isto.
Rio de Janeiro,
novembro 1969
OLGA SAVARY
Espelho Provisório
início
Depois
A Carlos Drummond de Andrade
Depois da confidência
me retirei da tarde.
O céu ficou vazio
vazio
onde era vôo de pássaros
(os pássaros estavam quietos).
Uma febre roía meus ouvidos:
voltei mais velha (exilada)
com um toque de infância entre meus dedos,
reserva de sal dentro dos olhos.
Rio de Janeiro,
setembro 1955
início
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