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O
NOVO CONTO BRASILEIRO:
APOCALIPSES
Nelson de Oliveira
Apresentação
1
O
título deste comunicado, propositadamente bombástico, é uma falácia.
Ele grita aos quatro ventos que o que será dito aqui é algo muito
mais ambicioso do que de fato é. Afinal, o que se espera de alguém
que se proponha a apresentar “o novo conto brasileiro” é que tal
pessoa exponha um painel hegemônico e minucioso da narrativa curta
que está sendo praticada hoje no Brasil. E isso é impossível. Primeiro
porque há já algum tempo, desde que as escolas literárias se fragmentaram,
está havendo uma diáspora estética e cada novo autor, longe de querer
se associar a grupos mais ou menos coesos, está preferindo formar
seu próprio clube de um só associado. Segundo porque, devido à vasta
extensão do território nacional e ao precário sistema de distribuição
de livros, o que se vê atualmente são ilhas literárias separadas
por largas faixas de vácuo. Dessa maneira, já nos acostumamos a
falar, mais do que em literatura brasileira, em literatura do sul,
do sudeste, do centro-oeste, do norte e do nordeste. Todas muito
diferentes, cada qual com suas próprias características e seus autores
canonizados. Isso do ponto de vista da divisão política do país.
Há outras divisões que merecem ser levadas em conta: a étnica e
a sexual, principalmente. Já começa a engatinhar, aqui e ali, a
literatura produzida pelas minorias: a dos negros, a dos índios,
a dos homossexuais etc.
Por tudo isso, sou
o primeiro a reconhecer que minha apresentação será apenas parcial,
não passando, na melhor das hipóteses, de mero depoimento pessoal
sobre os autores que conheço e admiro. Tentar transformar este depoimento
num estudo mais sério, que ambicionasse cartografar o novo conto
brasileiro, seria temerário. Também não creio que tal empreendimento
seja passível de ser levado a cabo, neste momento, por quem quer
que seja. Ele demandaria esforço e sensibilidade sobre-humanos,
e, é claro, ferramentas teóricas que não excluíssem a produção das
minorias citadas — em resumo, exigiria uma nova crítica.
Por razões que conhecemos
bem, a literatura brasileira ainda é a literatura do homem branco,
de classe média-alta, europeizado e heterossexual. Não é à toa que
não há nenhuma jovem escritora no pequeno grupo sobre o qual comentarei
a seguir. Também não há, nesse grupo, nenhum contista negro ou índio,
nenhum contista homossexual (ao menos nenhum disposto a abrir mão
do jargão francamente hetero). Como já disse, a produção literária
brasileira segue o modelo europeu e norte-americano, que só recentemente
começa a perceber a importância cultural de deixar falar “outras
vozes” — a dos excluídos — se não quiser sofrer uma grande estagnação.
2
Sou,
talvez, o último dos otimistas. E sofro todas as conseqüências que
essa postura costuma trazer aos que, otimistas como eu, vivem num
meio social quase que exclusivamente de apocalípticos. Apesar dos
pesares, acredito piamente que nos últimos dez anos a literatura
brasileira só fez crescer. Tanto na prosa quanto na poesia. Não
estou dizendo que o número de leitores aumentou, nem que nossos
livros passaram a ser mais traduzidos e respeitados no exterior.
Isso de fato não aconteceu: a maior parte da população do país continua
subnutrida e analfabeta, e nossos grandes autores continuam, na
melhor das hipóteses, circunscritos aos limites do idioma português.
Se há algum intercâmbio perceptível, ele se dá entre os países lusófonos,
e só. Nem a Europa nem a América do Norte parecem interessadas no
que está sendo feito aqui. Curiosamente, amigos meus residentes
fora do país têm mais interesse pela produção local, seja ela francesa,
alemã, americana ou canadense, do que pela vernácula — mas sempre
é bom frisar que isso não é crime, é apenas uma constatação minha.
Trocando em miúdos, quando o assunto é literatura o Brasil continua
ocupando posição periférica, de mero consumidor.
Esse estado de coisas
induz alguns a crer que a literatura brasileira não tem qualidades
suficientes que a tornem produto de exportação. Os apocalípticos
mais ortodoxos costumam dizer que não existe o que se convencionou
chamar, da parte de otimistas como eu, de “literatura brasileira”.
Tanto a prosa quanto a poesia que se produz hoje, no país, não passaria
de arremedo raquítico do que de melhor se tem feito no resto do
mundo economicamente desenvolvido. De qualquer maneira, tal posicionamento
não condiz com os fatos. Ou porque o que se está produzindo hoje,
no mundo economicamente desenvolvido, deixa muito a desejar, ou
porque certa miopia tem impedido o leitor mais incrédulo de enxergar
o apocalipse estético (o melhor que poderia haver) onde ele realmente
está ocorrendo: a um palmo do nariz. É o que pretendo demonstrar
a seguir, ao comentar a obra de cinco novos contistas brasileiros.
Para efeito de análise,
optei por focalizar apenas os autores que, nascidos em torno de
1960, apesar de relativamente jovens já superaram o trauma do primeiro
livro, e, no caso de Marçal Aquino, até mesmo do segundo. Sei muito
bem que, procedendo dessa maneira, corro o risco de não fazer justiça
a grandes promessas do conto brasileiro surgidas recentemente, como
é o caso do gaúcho Altair Martins, do pernambucano Marcelino Freire,
do mineiro Sérgio Rodrigues e do paulista Ronaldo Bressane, que
estrearam este ano com primorosos livros de contos, e de Michel
Laub, também gaúcho, Aleilton Fonseca, baiano, e Ademir Assunção,
paranaense que, conhecido por sua poesia de excelente qualidade,
publicou um livro de contos que não fica nada a dever ao restante
de sua obra. O que não posso deixar de dizer é que cada um destes
sete determinou e passou a seguir seu próprio caminho, distinto
dos demais e de seus antecessores, fato muito raro em autores estreantes.
Os contos de Altair
Martins, presentes em Como
se moesse ferro, são longos e sinuosos, com vigorosas pinceladas
do melhor surrealismo, como certas composições de teor místico e
maravilhoso que hipnotizam e devoram a assembléia. Já os de Marcelino
Freire, enfeixados em Angu de Sangue, são, ao contrário, enxutos
e ríspidos, e por isso mesmo extremamente ácidos, quando não prenhes
do lirismo azedo típico desta virada de século. Os de Sérgio Rodrigues,
d’O homem que matou o escritor, e os de Ronaldo
Bressane, d’Os infernos possíveis,
fazem uso da metalinguagem, do pasticho, do reaproveitamento de
histórias escritas por outros autores, tudo isso mesclado com o
impacto do fantástico, no caso de Bressane, e do sexo e da violência,
no caso de Rodrigues. Por sua vez A máquina peluda, de Ademir Assunção, lançada
em 1998, também finca raízes no terreno da paródia e da metalinguagem,
do texto que se volta sobre si mesmo para nos mostrar os absurdos
que o discurso verbal, dogmático, costuma impingir aos que o utilizam.
Não depois do que aconteceu, de Michel
Laub, também publicado em 1998, quando o autor contava vinte e cinco
anos, traz um conjunto de narrativas cuja epiderme ainda guarda
o viço da juventude, fase da vida em que a gíria e a linguagem corrompida
por estilhaços do inglês, típicas dos adolescentes, dão o tom aos
vários mergulhos de natureza psicológica que compõem a obra. No
polo oposto temos os contos de Aleilton Fonseca, reunidos em Jaú
dos bois, de 1997, cuja valorização do corriqueiro e da gente
humilde o aproxima da João Carrascoza, sobre quem falarei em breve;
Aleilton (e Carrascoza) tem habilidade incomum de provocar e retratar
certa riqueza interior em pessoas simples, geralmente tidas como
massificadas e de sensibilidade embotada. Sete autores, sete pontos
de partida distintos. Só nos resta agora torcer para que comecem
a trilhá-los condignamente — transformando cada passo numa surpresa
para o leitor.
3
Nas últimas décadas,
depois do Modernismo e do Concretismo, não se viu no Brasil nenhum
movimento estético bem definido. O que, na minha opinião, é muito
bom. O que há hoje (não só na prosa curta, mas também em todos os
demais setores artísticos) é a diversificação de tendências difíceis
de serem agrupadas sob rótulos genéricos. Apesar disso, criou-se
o hábito a meu ver estéril de rotular a produção ficcional pura
e simplesmente ou de urbana
ou de regional. Como os
próprios termos indicam, literatura urbana é a que trata de cenários
e personagens metropolitanos, dos conflitos decorrentes da superpopulação,
envolvendo pessoas geralmente niilistas e autodestrutivas. A literatura
regional, em contrapartida, lida com tudo o que se passa fora dos
grandes centros habitacionais, com as miudezas do povo de pequenas
municípios e vilas do interior do país: regiões de fauna e flora
quase que medievais, onde ainda existe forte vínculo entre o homem
e a terra.
Não tenho nada contra
esse tipo de demarcação territorial. Ela nos ajuda a categorizar,
a compartimentar a produção ficcional não só do passado recente,
mas principalmente do presente — desse momento tão fluido, que nos
escapa das mãos. Mas não há como negar que a brincadeira das etiquetas
fica mais interessante quando incrementada. Partindo de pressupostos
bipolares, dialéticos, poderíamos extrapolar os gêneros “urbano”
e “regional” e sair à procura de outros mais condizentes com nosso
tempo, tais como: literatura hedonista e literatura altruísta, consciente
e inconsciente, analítica e sintética, física e metafísica, biológica
e anímica, objetiva e subjetiva, pacifista e belicista, teísta e
ateísta, monológica e dialógica, figurativa e abstrata, racional
e emocional, masculina e feminina, e assim por diante. Brincadeiras
à parte, penso ser conveniente, a fim de expor o principal caminho
que o conto brasileiro tomou nos últimos anos, lançar mão do famoso
dualismo nietzschiano, que divide o mundo entre dois elementos básicos:
o apolíneo e o dionisíaco.
O curioso é que, se
observarmos os pontos altos que a narrativa curta brasileira atingiu
nos últimos cem anos, fica fácil ver que o que se deu foi uma passagem
gradual do apolíneo para o dionisíaco, na preferência do escritor
brasileiro. Enquanto Urupês (1918) de Monteiro Lobato, Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) de Antônio
de Alcântara Machado, Sagarana
(1946) de Guimarães Rosa e Contos
novos (1947) de Mário de Andrade nutrem-se da dicção racional
típica do realismo, a partir d’O
ex-mágico (1947) de Murilo Rubião e dos Contos
do imigrante (1956) de Samuel Rawet, essa situação começa a
mudar. Doses maciças de irracionalidade passam a ser injetadas na
trama e na sintaxe. O fluxo de consciência é adotado largamente
e a prosa torna-se menos racional, mais ligada ao onírico e ao inconsciente.
Pouco a pouco até mesmo as normas gramaticais, até então absolutas,
deixam de ser respeitadas, como por exemplo em Os cavalinhos de Platimplanto (1959) de
José J. Veiga, Laços de família
(1960) de Clarice Lispector, Histórias
escolhidas (1961) de Lygia Fagundes Telles e Ficções (1977) de Hilda Hilst. Mesmo onde certa frieza estilística
é mantida, como é o caso das Novelas
nada exemplares (1959) de Dalton Trevisan e d’Os prisioneiros (1963) de Rubem Fonseca, a supervalorização da violência
e do sexo, dos instintos mais baixos do ser humano, em suma me faz
pensar se não seria isso também uma possibilidade anti-realista,
uma outra espécie de radiografia do irracional.
4
Uma rápida passada
de olhos pelos contos de Luiz Ruffato, Marçal Aquino, João Carrascoza,
Jorge Pieiro e Marcelo Mirisola — os cinco contistas que pretendo
lhes apresentar, hoje — já é o suficiente para se perceber que,
nos tempos correntes, o espírito dionisíaco encampou totalmente
o modo de escrever destes autores. Se, por um lado, ainda sobra
algum espaço — pequeno! — para o discurso apolíneo nos textos de
Aquino e Carrascoza, por outro ele foi completamente excluído dos
de Ruffato, Pieiro e Mirisola.
Deu-se entre os escritores
da geração anterior à minha um fenômeno curioso de negação do modelo
cientificista, aristotélico-cartesiano, do mundo. Esta geração,
que se viu obrigada a produzir literatura em porões, sob a sombra
da ditadura militar que impôs o AI-5 e sufocou a cultura brasileira
durante vinte anos, de 1964 a 1984, pôs em cheque a mente positivista.
A capacidade do homem de, por intermédio da razão, estabelecer um
mundo justo e confortável para nossa espécie foi questionada. Todo
o sangue que correu nas guerrilhas e nas prisões brasileiras, durante
a ditadura, alimentou tanto os autores determinados a escrever o
mais abertamente possível sobre o momento político presente — Ignácio
de Loyola Brandão, Moacyr Scliar, Márcio Souza, Domingos Pellegrini
Jr. — quanto os determinados a falar por metáforas e hipérboles
— Sérgio Sant’Anna, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e Rubem
Fonseca.
É justamente essa estética
antiiluminista, cujas origens remontam ao Romantismo e às suas conseqüências
naturais, o Simbolismo, o Dadaísmo e o Surrealismo, que vão se apresentar
como a impressão digital do novo conto brasileiro.
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