Jailton Garcia



O ESCRITOR DA PEDROSO

Morador das ruas de São Paulo há quase 25 anos, Raimundo Arruda Sobrinho conhece a obra de grandes escritores como Machado de Assis, Camões e Paulo Prado, escreve pequenos livretos sobre psiquiatria, política, tecnologia; e exibe uma lúcida consciência sobre sua condição de marginalizado.

Ademir Assunção




Quem passa freqüentemente pela avenida Pedroso de Moraes não tem como deixar de perceber a presença de um homem vestido com roupas encardidas, calças rasgadas, uma espécie de coroa de plástico na cabeça, sentado num latão de óleo no meio do canteiro central. Há cerca de cinco anos está ali, no mesmíssimo lugar, como se já pertencesse à paisagem. Visto da janela dos carros que cortam o elegante bairro de Alto de Pinheiros, não passa de mais um dos quase 5.000 moradores de rua de São Paulo, sem carteira de identidade, conta bancária, cartão de crédito, sem sequer um barraco de madeira e telhado de zinco para se abrigar. O que intriga, porém, é que ele cultiva um hábito nada comum aos que estão nas suas condições: ao invés de pedir trocados no semáforo mais próximo, passa o dia todo escrevendo.
Poucos suspeitam que Raimundo Arruda Sobrinho conhece a obra de escritores como Machado de Assis, Camões, Castro Alves, Mário de Andrade e Augusto de Campos, admira o ensaísta Paulo Prado, de quem leu e releu "Retratos do Brasil", cita em seus escritos o psiquiatra espanhol Myra y Lopes e tem uma aguda lucidez sobre sua condição de marginalizado. "Vivem perguntando se sou um escritor? Ora, como alguém em sã consciência pode achar que um escritor estaria na situação em que me encontro?". Assim como não gosta de ser "confundido" com um escritor, também detesta ser chamado de mendigo. "Sou uma vítima das oligarquias econômicas."

Goiano, nascido na zona rural em 1938, Raimundo veio para São Paulo aos 23 anos de idade. Foi vendedor de livros, teve uma boa biblioteca e uma coleção de fotografias. Em 1976 sofreu um surto e acabou internado num hospital psiquiátrico. Quando saiu, foi morar na rua. Isso é tudo o que se sabe sobre sua vida. "Uma vez ele me contou que cursou o magistério. Não sei se chegou a dar aulas", comenta o taxista Laércio Gonçalves, que trabalha em um ponto do outro lado da rua. "Ele não gosta de falar do passado. Passa o dia inteiro escrevendo, não pede esmolas e distribui para os outros mendigos tudo o que ganha das pessoas. De vez em quando, faz uns discursos no meio da rua, quase sempre atacando os militares". Há quem suspeite que tenha engrossado as fileiras dos oposicionistas ao regime militar. Mas ele não confirma. Considera-se apenas um civil, "um proletário, um cidadão comum que defende a legalidade".

Embora afirme que seus escritos são anotações pessoais, diários, coisas que não interessam a ninguém, Raimundo escreve pequenos livretos, confecciona as próprias capas, os encaderna com linha e agulha e distribui cópias feitas a mão. As tiragens geralmente são de 45 exemplares. Logo na primeira página, uma advertência: "o autor só distribui o que produz em páginas autografadas. Este, se não for original manuscrito, hipnotizaram o autor, roubaram-lhe o original e fizeram reprodução". No pé da página, salienta: "distribuição gratuita e perpétua do exemplar pelo autor". Todos são assinados com um pseudônimo: O Condicionado. Bem-humorados, críticos e enxutos, os textos versam sobre psiquiatria, eletrônica, política e relatos das peripécias que observa nas ruas da metrópole.

Um dos livretos narra a história da polícia. Dividido em oito pequenos capítulos, com linguagem telegráfica, traça paralelos imaginosos e irônicos: "Atendo-se à Lenda Bíblica, o primeiro policial foi o Criador de todas as coisas e a primeira ocorrência policial, a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden. Natureza da ocorrência: Atentado ao Pudor".
"Não sou escritor, nem poeta. Não gosto de escrever. Escrevo por necessidade", afirma Raimundo. Do pouco que revela da sua vida, diz que era assíduo leitor do Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, na década de 60. "Naquela época havia intelectuais de verdade, que sabiam polemizar, sabiam escrever um texto. Não estou falando de escritores que lêem os outros, roubam argumentos e escrevem seus livros. Esses não valem nada. Infelizmente, são a maioria".

Apesar da antiga paixão pela leitura, há mais de duas décadas não lê absolutamente nada, desde que se "desligou do mundo", em 1976. Para ele, não existiram o videogame bélico da Guerra do Golfo, o desmantelamento do império soviético, o impecheament de Fernando Collor de Mello, a evolução tecnológica da informática e os 500 anos de Brasil. "Não sei quem é o prefeito, quem é o governador ou o presidente da República; não leio jornais nem vejo televisão. As notícias do mundo simplesmente não me interessam", observa, taxativo.


Figura famosa no bairro, conhecido como "o filósofo da Pedroso", leva uma vida duríssima, mas mantém uma incrível dignidade, temperada com boa dose de orgulho. Não pede nem aceita nada que oferecem. Nem mesmo papel para escrever. Apenas dinheiro, quando está necessitando muito. Faz questão de comprar tudo o que precisa: da comida ao material para seus livros. As refeições, ele mesmo prepara, em uma lata de óleo velha, aquecida com galhos secos que laça das árvores com uma corda. Antes de preparar o arroz com feijão, lava as mãos com sabonete. Quando precisa ir ao banheiro, cobre-se com um plástico preto, estende um jornal no chão, faz suas necessidades e depois joga o embrulho em uma boca de lobo. Debaixo de chuva, cobre-se com um outro plástico, transparente, velho, encardido, e continua escrevendo.













Jailton Garcia


Mesmo isolado, sem amigos, família ou parentes, não demonstra nenhuma inclinação para abanar o rabo aos que o procuram para uma conversa. Aqueles que o tratam como um desprotegido ou doente mental, invariavelmente recebem palavras duras em troco. "A minha selvageria é equivalente a falta de cultura das pessoas. Só porque estou na rua, exposto a tudo, se acham no direito de me aborrecem com conversas vazias. Será que não percebem que estou trabalhando e cuidando da minha vida?" Apesar da agressividade, revela-se um homem educado, interlocutor atento e dono de uma fantástica memória. Um dos poucos assuntos capazes de o animar para uma conversa mais duradoura é literatura. Quando envereda pela arte poética, uma de suas grandes paixões, pelo menos no tempo em que ainda estava "ligado" no mundo, os comentários são desconcertantes. "Depois dos Campos, aqueles dois irmãos que criaram a poesia concreta, não aconteceu nada de extraordinário na poesia brasileira".

Ainda mais incrível uma pequena aventura crítica que realizou quando morava nas ruas do bairro do Morumbi, há mais de 12 anos. Certo dia, um dos seus ricos "vizinhos" deixou-lhe um livro de presente. Não sabe dizer se era o próprio autor: o poeta Mário Chamie. Durante algumas semanas, Raimundo se ocupou em analisar os poemas, através de gráficos, contagem de palavras e outros métodos que se assemelham à análise estruturalista, metodologia muito usada em alguns cursos universitários. O resultado do exaustivo exame crítico, em suas palavras, é surpreendente: "Fiz uma série de linhas na horizontal, outra na vertical, de modo que o papel ficou quadriculado. Passei a analisar os poemas e transformá-los numa espécie de gráfico. Cheguei a conclusão que não diziam absolutamente nada".

Como um homem que discorre com desembaraço sobre literatura, exibindo um vocabulário rico e flexível, foi parar nas ruas de São Paulo? Essa é uma pergunta que muitos dos que o conhecem vivem se fazendo. Para Raimundo, a resposta é simples: violação dos direitos humanos. Desiludido com o sistema político e as desigualdades sociais no Brasil, afirma que gostaria de deixar o país. Se pudesse, cruzaria o Atlântico e tentaria a sorte na França. Conta que já tentou procurar o consulado francês para pedir "asilo político", mas nenhuma autoridade se interessou pelo seu caso. Na verdade, não o deixaram sequer cruzar a porta de entrada.

Semelhante aos outros milhares de moradores de rua, Raimundo sabe que as portas estão fechadas para ele. Como um personagem das peças de Samuel Beckett, simplesmente aceita a passagem dos dias, sem esperar nem desejar nada. Nem mesmo diante da violência das ruas ele esboça algum temor ou destemor. "Na situação em que me encontro, de que adiantaria ter ou deixar de ter medo?", questiona. Como um enigma, uma acusação explícita às injustiças sociais, ele simplesmente permanece ali, no meio do canteiro central de um bairro rico de uma metrópole que gaba-se de ser internacional, escrevendo seus tratados contra a corrupção humana cotidiana. "Muitos fingem desconhecer a realidade em que vivemos e me perguntam por que estou morando aqui. Não tenho mais paciência para explicar o que elas se recusam a ver", dispara, com sua lucidez cortante. Aos que insistem, Raimundo responde categórico: "Há uma famosa lei da física que diz que um corpo tem que ocupar um lugar no espaço".




FRASES


Dura lucidez

"A maioria das pessoas que param para conversar comigo não tem cultura. São pessoas vazias. Não entendem o que eu digo. O que elas querem comigo? Não quero ser grosseiro com ninguém. As pessoas não deveriam puxar conversa comigo. Porque eu me aborreço e acabo também as aborrecendo".


Imprensa e mentira

"Não sou doente mental nem mentiroso. A imprensa é".

"Antigamente eu gostava de ler jornais, hoje não. Pra que vou perder o meu tempo?

"Quando vou poder ler a verdade nas páginas dos jornais?"


Escravidão psiquiátrica

"Se as pessoas não têm conhecimento de psiquiatria por que querem conversar comigo? Elas não sabem o que significa ser um escravo psiquiátrico. A maioria está nesta condição e nem sabe".

"Minha escravidão visa fins econômicos (essência de toda escravidão)".


Legalidade

"Sou um civil. Nunca tive problemas com militares nem com a polícia. Podem procurar minha ficha. Sou apenas um homem que defende a legalidade".



TRECHOS DOS LIVROS


Caligrafia e loucura

"Através da imprensa comum, sabemos que as enfermidades mentais ocupam o 1º lugar entre os pacientes do INPS. Cérebro humano, obra prima da Natureza, credor de nossos maiores cuidados e desvelos. Analfabeto, que já li páginas de alguns expoentes da psiquiatria, descobri que pode diagnosticar-se a sanidade mental de qualquer pessoa analisando-se simplesmente sua caligrafia. Texto sem erros, razuras, borrões, sanidade mental 100%. Caligrafia desigual, feia, cheia de erros, quanto maior a quantidade, mais grave seu estado. Qualquer pai, mãe, membro da família, pode examinar por este método e enviar ao psiquiatra (da família), sem perca de tempo, os necessitados de tratamento".

"Sua família pode ser sadia 100%, entretanto pode estar escravizada psiquiatricamente como estou".

"O modestíssimo autor destas despretensiosas auto-observações, não é doente mental, porém 100% escravizado psiquiatricamente pela oligarquia dominante".


Evolução da Espécie

"A pretenção de qualquer homem que iria concorrer para o Progresso Humano, prejudica muito menos a ele, que a própria humanidade".


Futuro do Mundo

"O futuro do mundo reside hoje, fundamentalmente em duas coisas: Eletrônica e Psiquiatria".

(O Maior Casamento na Ciência) é o do Pensamento com a Eletrônica. Ambos, abstratos. (...) Só a Eletrônica pôde fazer a grandeza da Psiquiatria, que é pensamento. E este, é o responsável por toda a Civilização".

Despesas policiais

Quanto o Estado gasta em 24 horas para manter o aparato policial? Quanto economizaria se não tivesse que gastar com polícia?

História da Polícia

Atendo-se à Lenda Bíblica, o primeiro policial foi o Criador de todas as coisas e a primeira Ocorrência Policial, a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden.
Natureza da ocorrência: Atentado ao Pudor.