Ruy Tapioca




Admirável Brasil novo é um sonho, um pesadelo ou uma reflexão?

O que pretendi, ao escrever essa ficção política futurista sobre o Brasil, foi chamar atenção para a crise cultural, política e social por que passa o país, no limiar do erceiro milênio, a despeito da estabilidade econômica conseguida e da excelência dos indicadores econômicos oficiais. A população brasileira ainda convive com elevados índices de analfabetismo, sofre de moléstias e endemias típicas da época da colonização e do império, a fome ainda grassa no Vale do Jequitinhonha, no Nordeste e Centro-Oeste brasileiros, o número de natimortos é elevado e o país completou 500 anos sem solução para o grave problema de ocupação e distribuição de terras. Quais as causas para que um país tão rico não consiga transformar suas riquezas em benefício para a sociedade que nela vive? A reconhecida passividade e submissão de largas parcelas da sociedade brasileira para com as arbitrariedades e abusos perpetrados pelos governos e classe dominante, aliados a histórica e atávica indiferença desta sociedade em particular da vida política do país, revelas características sociológicas e culturais comprometedoras para a construção de uma cidadania. A comprovada alienação histórica do povo brasileiro explica, apenas para exemplificar, a eleição de um Collor; a assunção de governantes que têm por divisa "ele rouba, mas faz"; elegias de aforismos canhestros como "farinha pouca, meu pirão primeiro"; aceitação inconteste do neoliberalismo vigente no país, regime econômico e político que se traduz em redução da massa salarial, desemprego da população, silêncio e desmoralização do movimento sindical, entrega do patrimônio público a capitais apátridas, entre ouros insidiosos efeitos. Não é coincidência a circunstância de o ladrão mais procurado do país, até há pouco tempo, ser juiz de Direito, e que o seu "sócio de empreitada", entre outras ínclitas figuras, seja um senador da República. Acredito que esta situação é conseqüência da mistura explosiva da ignorância (falta de escola, instrução) de largas parcelas da população com uma alienação política. Intentei denunciar esse estado de coisas, escrevendo uma alegoria orwelliana sobre o futuro do Brasil.

Você não foi muito cruel nas suas previsões? Ironizou a esquerda, a direita, criticou as novas correntes literárias, representadas no livro pela escritora Astrid Junqueira.

George Orwell foi muito mais cruel em 1984: o protagonista, no final do romance, já condenado à morte, passa a amar o seu algoz, o Big Brother. Franz Kafka foi desumanamente impiedoso com Gregor Samsa no magnífico A metamorfose. O selvagem, do Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, enforca-se, na última página, desiludido com o novo mundo. O protagonista de Admirável Brasil novo, ao contrário, renasce para a vida ao final do romance, tem a chance de mudar o curso da história, de evitar que aquele pesadelo se concretize. Se atentarmos para os noticiários das TVs e dos jornais do Brasil, nos dias que correm, verificaremos que as previsões do meu romance já fazem parte do cotidiano (poluição na baía de Guanabara, desemprego tecnológico, bancos sem funcionários, linhas de montagem industrial sem funcionários, violência urbana, crime organizado, dissensão entre a esquerda, conluio perene entre a direita, multidões de camelôs pelas ruas, proliferação de templos religiosos, mediocrização dos ritmos musicais). A realidade vivida hoje pelo país é infinitamente mais caricatural que a mais deslavada ficção. Nos dois magníficos poemas de Brecht (clique aqui para ler), que servem de epígrafe para o para o romance, reside a essência da minha mensagem em Admirável Brasil novo.

Em que medida Orwell, Zweig, Huxley influenciaram sua obra? Até mesmo Freud, Jung e Brecht marcaram presença.

Sempre gostei de ficção científica política (1984, Admirável mundo novo, Nós, Zero, Não verás país nenhum) e, há muito tempo, não lia uma. Resolvi me distrair escrevendo ficção científica tupiniquim: achei o momento político do Brasil propício para a empreitada.

Admirável Brasil novo é uma espécie de 1984 carnavalizado, tropicalizado. Para torna-lo divertido tive que incorporar o humor, a ironia e o deboche, típicos do carioca. Utilizei o livro do Stefan Zweig sobre o Brasil para contrapontear a narrativa, tentando conferir-lhe foros de ensaio sociológico. Considerei extremamente divertido e interessante cotejar as previsões ufanistas do escritor austríaco, autor de Brasil, país do futuro, com a realidade dos dias atuais de nosso país. A leitura e o estudo de A interpretação dos sonhos de Sigmund Freud, foram necessários para construir um dos personagens principais do romance, o psicanalista Artemidoro de Daldis, que tenta decifrar (e consegue!) o estranho pesadelo recorrente do personagem Lázaro das Dores. Aproveitei também para criticar a charlatanice em voga da psicanálise espiritual. Sempre admirei obras de escritores que, para conferir verossimilhança às suas narrativas, tiveram a preocupação de realizar pesquisas verossimilhança às suas narrativas, tiveram a preocupação de realizar pesquisas aprofundadas e rigorosas sobre as temáticas nelas abordadas (Thomas Mann, Joseph Conrad, Euclides da Cunha, Herman Melville). Para evitar tornar maçante a descrição recorrente, no bojo da narrativa, do ambiente futurista do Brasil, em 2045, utilizei o recurso de reproduzir primeiras páginas de jornal e de crônicas da época, de autoria dos próprios personagens.


Você acha que o Brasil em 2045 terá alguma semelhança com o descrito no livro?


Tomara que não. Uma das coisas que mais aprecio no futuro remoto é que não estarei nele: essa certeza para mim, é absolutamente reconfortante! Mas tenho que pensar nos que nele viverão; é preciso alertá-los que é necessária muita luta e trabalho, muita participação política, para evitar que aquele pesadelo ficcional se transforme em realidade. Não desejo o futuro de Admirável Brasil novo para país nenhum no mundo, muito menos para o Brasil. No entanto, acho um comportamento extremamente irresponsável perfilar ao lodo dos ufanistas patrioteiros do "Brasilzão varonil, il, il, il, tetracampeão do mundo!". Admirável Brasil Novo, repito, é uma alegoria ficcional, não um manifesto premonitório. Não consta que naves americanas ou russas tenahm topado, neste ano de 2001, com o monólito negro do Kubrick boiando no espaço sideral. Tampouco a Inglaterra, em 1984, vivenciou o pesadelo orwelliano, embora existam ingleses que achem que madame Thatcher chegou pertíssimo da personificação da Big Sister.

Apesar de traçar um panorama bastante amargo, mesmo que com uma dose de humor, no surpreendente final há sinais de que existe sempre a famigerada esperança?

Há um aforismo de Kafka, sobre o tema, em que o genial tcheco diz: "Há muita esperança, só não para nós". Saída sempre haverá, com certeza, mas não necessariamente faremos parte da geração que dela se beneficiará.


Qual a sua próxima obra?

Estou escrevendo um romance - uma alegoria fantasiosa, mágica, lúdica - sobre o uso do poder, a dominação e exploração dos homens pelos homens. A temática, embora árida, ganha em alacridade e ludicidade pela circunstância de que todos os personagens são meninos e meninas, entre 9 e 13 anos, habitantes de uma aldeia serrana, encarapitada no alto de uma montanha (encantada). Após uma estranha tempestade, descobrem que todos os adultos da aldeia haviam sumido, inexplicavelmente. Impossibilitados de deixar a aldeia, as crianças passam a discutir formas de convivência e de trabalho para administrarem suas vidas na aldeia, sem os adultos. Os meios e recursos que elegem para convivência tendem a repetir a experiência que aprenderam com os pais e os adultos, embora de forma peculiaríssima. A narrativa tem muito humor, sofrimentos e terrores, mas o final é de história da carochinha.








Copyright © 2001 Klickescritores