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Admirável Brasil novo é um sonho, um
pesadelo ou uma reflexão?
O
que pretendi, ao escrever essa ficção
política futurista sobre o Brasil, foi chamar
atenção para a crise cultural, política
e social por que passa o país, no limiar do erceiro
milênio, a despeito da estabilidade econômica
conseguida e da excelência dos indicadores econômicos
oficiais. A população brasileira ainda
convive com elevados índices de analfabetismo,
sofre de moléstias e endemias típicas
da época da colonização e do império,
a fome ainda grassa no Vale do Jequitinhonha, no Nordeste
e Centro-Oeste brasileiros, o número de natimortos
é elevado e o país completou 500 anos
sem solução para o grave problema de ocupação
e distribuição de terras. Quais as causas
para que um país tão rico não consiga
transformar suas riquezas em benefício para a
sociedade que nela vive? A reconhecida passividade e
submissão de largas parcelas da sociedade brasileira
para com as arbitrariedades e abusos perpetrados pelos
governos e classe dominante, aliados a histórica
e atávica indiferença desta sociedade
em particular da vida política do país,
revelas características sociológicas e
culturais comprometedoras para a construção
de uma cidadania. A comprovada alienação
histórica do povo brasileiro explica, apenas
para exemplificar, a eleição de um Collor;
a assunção de governantes que têm
por divisa "ele rouba, mas faz"; elegias de
aforismos canhestros como "farinha pouca, meu pirão
primeiro"; aceitação inconteste do
neoliberalismo vigente no país, regime econômico
e político que se traduz em redução
da massa salarial, desemprego da população,
silêncio e desmoralização do movimento
sindical, entrega do patrimônio público
a capitais apátridas, entre ouros insidiosos
efeitos. Não é coincidência a circunstância
de o ladrão mais procurado do país, até
há pouco tempo, ser juiz de Direito, e que o
seu "sócio de empreitada", entre outras
ínclitas figuras, seja um senador da República.
Acredito que esta situação é conseqüência
da mistura explosiva da ignorância (falta de escola,
instrução) de largas parcelas da população
com uma alienação política. Intentei
denunciar esse estado de coisas, escrevendo uma alegoria
orwelliana sobre o futuro do Brasil.
Você
não foi muito cruel nas suas previsões?
Ironizou a esquerda, a direita, criticou as novas correntes
literárias, representadas no livro pela escritora
Astrid Junqueira.
George
Orwell foi muito mais cruel em 1984: o protagonista,
no final do romance, já condenado à morte,
passa a amar o seu algoz, o Big Brother. Franz Kafka
foi desumanamente impiedoso com Gregor Samsa no magnífico
A metamorfose. O selvagem, do Admirável mundo
novo, de Aldous Huxley, enforca-se, na última
página, desiludido com o novo mundo. O protagonista
de Admirável Brasil novo, ao contrário,
renasce para a vida ao final do romance, tem a chance
de mudar o curso da história, de evitar que aquele
pesadelo se concretize. Se atentarmos para os noticiários
das TVs e dos jornais do Brasil, nos dias que correm,
verificaremos que as previsões do meu romance
já fazem parte do cotidiano (poluição
na baía de Guanabara, desemprego tecnológico,
bancos sem funcionários, linhas de montagem industrial
sem funcionários, violência urbana, crime
organizado, dissensão entre a esquerda, conluio
perene entre a direita, multidões de camelôs
pelas ruas, proliferação de templos religiosos,
mediocrização dos ritmos musicais). A
realidade vivida hoje pelo país é infinitamente
mais caricatural que a mais deslavada ficção.
Nos dois magníficos poemas de Brecht (clique
aqui para ler), que servem de epígrafe para o
para o romance, reside a essência da minha mensagem
em Admirável Brasil novo.
Em
que medida Orwell, Zweig, Huxley influenciaram sua obra?
Até mesmo Freud, Jung e Brecht marcaram presença.
Sempre
gostei de ficção científica política
(1984, Admirável mundo novo, Nós, Zero,
Não verás país nenhum) e, há
muito tempo, não lia uma. Resolvi me distrair
escrevendo ficção científica tupiniquim:
achei o momento político do Brasil propício
para a empreitada.
Admirável Brasil novo é uma espécie
de 1984 carnavalizado, tropicalizado. Para torna-lo
divertido tive que incorporar o humor, a ironia e o
deboche, típicos do carioca. Utilizei o livro
do Stefan Zweig sobre o Brasil para contrapontear a
narrativa, tentando conferir-lhe foros de ensaio sociológico.
Considerei extremamente divertido e interessante cotejar
as previsões ufanistas do escritor austríaco,
autor de Brasil, país do futuro, com a realidade
dos dias atuais de nosso país. A leitura e o
estudo de A interpretação dos sonhos de
Sigmund Freud, foram necessários para construir
um dos personagens principais do romance, o psicanalista
Artemidoro de Daldis, que tenta decifrar (e consegue!)
o estranho pesadelo recorrente do personagem Lázaro
das Dores. Aproveitei também para criticar a
charlatanice em voga da psicanálise espiritual.
Sempre admirei obras de escritores que, para conferir
verossimilhança às suas narrativas, tiveram
a preocupação de realizar pesquisas verossimilhança
às suas narrativas, tiveram a preocupação
de realizar pesquisas aprofundadas e rigorosas sobre
as temáticas nelas abordadas (Thomas Mann, Joseph
Conrad, Euclides da Cunha, Herman Melville). Para evitar
tornar maçante a descrição recorrente,
no bojo da narrativa, do ambiente futurista do Brasil,
em 2045, utilizei o recurso de reproduzir primeiras
páginas de jornal e de crônicas da época,
de autoria dos próprios personagens.
Você acha que o Brasil em 2045 terá
alguma semelhança com o descrito no livro?
Tomara que não. Uma das coisas que mais aprecio
no futuro remoto é que não estarei nele:
essa certeza para mim, é absolutamente reconfortante!
Mas tenho que pensar nos que nele viverão; é
preciso alertá-los que é necessária
muita luta e trabalho, muita participação
política, para evitar que aquele pesadelo ficcional
se transforme em realidade. Não desejo o futuro
de Admirável Brasil novo para país nenhum
no mundo, muito menos para o Brasil. No entanto, acho
um comportamento extremamente irresponsável perfilar
ao lodo dos ufanistas patrioteiros do "Brasilzão
varonil, il, il, il, tetracampeão do mundo!".
Admirável Brasil Novo, repito, é uma alegoria
ficcional, não um manifesto premonitório.
Não consta que naves americanas ou russas tenahm
topado, neste ano de 2001, com o monólito negro
do Kubrick boiando no espaço sideral. Tampouco
a Inglaterra, em 1984, vivenciou o pesadelo orwelliano,
embora existam ingleses que achem que madame Thatcher
chegou pertíssimo da personificação
da Big Sister.
Apesar
de traçar um panorama bastante amargo, mesmo
que com uma dose de humor, no surpreendente final há
sinais de que existe sempre a famigerada esperança?
Há
um aforismo de Kafka, sobre o tema, em que o genial
tcheco diz: "Há muita esperança,
só não para nós". Saída
sempre haverá, com certeza, mas não necessariamente
faremos parte da geração que dela se beneficiará.
Qual a sua próxima obra?
Estou
escrevendo um romance - uma alegoria fantasiosa, mágica,
lúdica - sobre o uso do poder, a dominação
e exploração dos homens pelos homens.
A temática, embora árida, ganha em alacridade
e ludicidade pela circunstância de que todos os
personagens são meninos e meninas, entre 9 e
13 anos, habitantes de uma aldeia serrana, encarapitada
no alto de uma montanha (encantada). Após uma
estranha tempestade, descobrem que todos os adultos
da aldeia haviam sumido, inexplicavelmente. Impossibilitados
de deixar a aldeia, as crianças passam a discutir
formas de convivência e de trabalho para administrarem
suas vidas na aldeia, sem os adultos. Os meios e recursos
que elegem para convivência tendem a repetir a
experiência que aprenderam com os pais e os adultos,
embora de forma peculiaríssima. A narrativa tem
muito humor, sofrimentos e terrores, mas o final é
de história da carochinha.


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