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quando
uma visita vale mais do que o mais inspirado dos discursos.
por Clóvis Bulcão
Assim
como muitas pessoas de minha geração,
41 anos, sempre quis conhecer Cuba. Em geral os turistas
que visitam a Ilha, voltam fazendo os comentários
os mais diferentes, adoram ou detestam. Hoje, sei que
as pessoas que viajam para lá, podem ser comparadas
aos peregrinos muçulmanos que
vão para Meca (hadji) ou aos cristãos
que visitam a Terra Santa, procurando confirmar a sua
fé. Cada qual com a sua crença:
uns revolucionários, outros anti-revolucionários
e, ainda,
aqueles, ideologicamente, simpáticos ao sistema
cubano. Acho que essa é a principal razão
de termos relatos tão diferentes sobre a terra
de Fidel.
Minhas viagens são sempre marcadas por uma frase
do filme de Bernardo Bertolluci, "O Céu
que nos protege", quando três europeus chegam
à África e são chamados de turistas.
Prontamente, eles corrigem o interlocutor africano e
esclarecem: não são turistas, e, sim,
viajantes. Assim, eu conheci cinco continentes e assim
eu iria desvendar Havana.
Como não conheço nenhum cubano eu não
teria como penetrar na intimidade da vida do dia-a-dia
das pessoas. Então utilizei o meu velho arsenal
de viagens, o contato com tudo aquilo que revelasse
um pouco da alma do povo: imprensa, supermercados, mercados
populares, templos religiosos, formas de lazer, e, claro,
livrarias.
Durante a semana em que estive em Havana para o Congresso
de Pedagogia, estava acontecendo a Feira Internacional
de Livros. Como nas outras viagens eu já tinha
programado a visita, só que, desta vez, a primeira,
como escritor..
Por
pura sorte, a Feira estava sendo realizada na magnífica
Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, o maior
forte do Novo Mundo e o segundo do planeta em área
construída. Para mim seria uma dupla emoção
visitar um prédio do século XVIII e ainda,
um evento literário, afinal, estou escrevendo
um livro sobre o corsário francês Dugauy-Trouin
que em 1711 invadiu o Rio de Janeiro. La Cabanã
fica bem na entrada do porto guarnecendo a margem oriental
da baía de Havana, onde passaram os galeões
espanhóis levando os ricos carregamentos de prata.
Um dos meus navegadores preferidos do século
XVII o holandês Piet Heyn também esteve
em Cuba.
Portanto a visita a essa fortaleza já
seria uma preciosa oportunidade de fingir que estava
voltando ao passado, e bem no tempo dos meus personagens.
Além disso, em la Cabaña, existe uma cerimônia
que acontece desde a sua construção: o
canhonaço das nove horas que marca o fechamento
do porto. Não sendo suficiente, o acesso ao forte
pode ser feito por via marítima, algo que lembra
a travessia entre Rio e Niterói.
Embarquei para uma feira de livros acompanhado de gente
simples do povo, a lembrança não era geográfica
e, sim, social. O preço da travessia e do ingresso
transformavam o evento em algo muito popular.
Após escalar a colina ocidental da fortaleza
cheguei ao século XVIII. Primeira grande surpresa,
assim que entrei, a guarda setecentista disparou o canhão.
O canhonaço das nove aconteceu na hora em que
eu entrava. San Carlos de la Cabaña era um complexo
militar gigantesco, mas parecia pequeno para a multidão
de visitantes, eram crianças, jovens, velhos,
homens e mulheres que superlotavam todas as dependências
externas do forte. Hora da verdade, entrar nas profundezas
da fortaleza, visitar o interior da feira.
Um primeiro e longo corredor separado por arcos baixos
abrigava salas com os diferentes expositores. Todas
as salas estavam cheias, se locomover estava difícil.
A oferta de livros era bem interessante, os preços
mais ainda. Editoras espanholas ( a Espanha era o país
homenageado), mexicanas, inglesas, caribenhas etc. estavam
presentes. Em uma das salas, com lotação
esgotada, debatiam a globalização. Em
outra, vários computadores ofereciam produtos
de informática. Uma das casas literárias
vendendo livros, muito bem produzidos, por um dólar,
fazia a alegria dos compradores.
Para ilustrar a diferença de preços entre
os livros no Brasil e em Cuba, dois dias antes eu perguntara
em uma livraria carioca o preço do Corão
( Ed. Record) traduzido por Mansur Chalita: vinte e
quatro reais. Em Havana, uma edição bilíngüe
espanhol/ árabe ricamente encadernada custa dez
dólares.
Mas, ao encontrar os últimos exemplares dos livros
de Paulo
Coelho, comecei a achar que estava em um lugar como
outro qualquer. Nem tanto! Ao sair das entranhas de
la Cabaña me dei conta de que realmente estava
em um país singular: eram centenas de pessoas
de todas as idades espalhadas pelos jardins do forte
lendo. Literalmente, todos estavam lendo. Quanto mais
caminhava por La Cabaña, mais leitores eu encontrava.
Na hora de embarcar de volta para Havana Velha, esperando
na fila, vi um número absurdo de pessoas com
livros abertos.
Fico
com uma ponta de inveja dessa sociedade que conseguiu
popularizar o livro. Enquanto isso nossas feiras são
realizadas em locais sem conforto (Riocentros, Anhembis,
etc.), e os preços seguem pouco convidativos.
Nossa cultura do livro, como a habanera, deveria ir
aonde o povo está. Mesmo assim, fui informado
pelos professores cubanos reunidos no Congresso de Pedagogia
que estimular a leitura junto aos jovens é algo
cada vez mais difícil. Até nisso Cuba
caminha bem na nossa frente. Atualmente eles tentam
trazer as famílias para as escolas, acreditam
que incentivando o gosto pela leitura dentro de casa
terão mais chances de sucesso.
Leitor amigo, eu acho que se eu estivesse no seu lugar,
não acreditaria no que acabo de contar. Todas
as estórias sobre Cuba são contadas comprometidas
pela visão de mundo de seu narrador. Eu o faço
sob a ótica de quem quer ver a literatura popularizada
no Brasil e em todas as partes do mundo. Sobre esse
aspecto temos muito o que aprender com os cubanos. As
soluções são baratas e literalmente
revolucionárias. Tudo começa com um bom
sistema de ensino. Lembrem que toda essa riqueza cultural
construída na escola pública é
fundamental para o sucesso de qualquer nação.
A experiência na Feira Internacional do Livro
de Havana valeu mais do que todos os discursos oficiais
do governo cubano, um verdadeiro triunfo, uma verdadeira
revolução.
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