O autor de `Dois Irmãos', livro lançado no ano passado que lhe valeu a indicação para o Prêmio Multicultural 2001 Estadão Cultura e para o Prêmio Jabuti, na categoria de ficção, faz conviver lembranças afetivas de sua origem árabe e amazonense, com uma sólida formação literária

por DANIEL PIZA

Milton Hatoum está enrolando um cigarro com fumo Drum, à mesa do restaurante Carlota. Hábito adquirido no período em que viveu em Paris, como estudante de literatura hispano-americana. Hoje mora em São Paulo, depois de 15 anos em Manaus, para onde voltou depois da temporada européia. Nascera em Manaus em 1952, de pai libanês, e também depois de 15 anos a deixara; viveu ainda em Brasília, Madri, Barcelona, Taubaté e outro período em São Paulo, os anos 70. Bebe água, dispensa entrada porque quer espaço para a torta de maçã com sorvete na sobremesa, pede um linguado. E começa a contar as histórias de sua infância e juventude, que são fundo e origem de seus dois romances publicados, Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos (ambos pela Companhia das Letras).

A seqüência enquadra as características do autor e sua obra: convivência com diversas culturas, modos amenos e estudados de quem busca a palavra certa como bom discípulo de Flaubert, referências intelectuais francesas e lembranças afetivas manauaras. Hatoum é um escritor de integridade rara, capaz de não publicar livro nenhum por 11 anos, mesmo depois do sucesso de estima que obteve com sua estréia, o Relato, premiado com o Jabuti e traduzido para seis países, com 8 mil exemplares vendidos de 1989 até hoje.

O livro mais recente, Dois Irmãos, que lhe valeu a indicação para o Prêmio Multicultural Estadão e também para o Prêmio Jabuti de ficção, já vendeu a mesma quantidade em alguns meses e seus direitos de tradução foram adquiridos por sete países. Entre um romance e outro, Hatoum não ficou parado. Pelo contrário. Apenas decidiu não publicar enquanto não estivesse satisfeito com o livro. Depois de sete versões, Dois Irmãos ganhou capa, contracapa e a tiragem inicial de 3 mil exemplares. E o leitor ganhou por esperar.

"Devo ser o maior escritor de livros não publicados", brinca Hatoum. Pelo menos três foram completados, incluindo um romance de 600 páginas que mistura saga imigrante, história política e a experiência parisiense. "Os temas não se misturaram. Ficou troncho." Quando Hatoum decidiu deixar o Brasil, em 1980, era "um poeta bissexto e um contista inédito". Doze poemas haviam sido publicados no volume Amazonas, um Rio entre Ruínas, com fotos ilustrativas. Os contos foram todos para a lata de lixo. Também já havia escrito uma novela histórica, sob influência de Alejo Carpentier, mas sem a publicar. Os manuscritos "reprovados" pelo próprio autor não são inúteis:

além do amadurecimento do estilo, muitos são engavetados para futuro reaproveitamento. É o caso neste momento: Hatoum reescreve uma antiga história, sobre um pintor que é proibido pelo pai de seguir carreira.

Cenários: Manaus e Rio.

Influências - Carpentier é sinal da presença da literatura hispano-americana em sua vida. Para Hatoum, o melhor livro escrito sobre a Amazônia não é de um brasileiro, mas de Carpentier: Los Pasos Perdidos. Um ano na Espanha e três na França foram marcados pelo estudo das literaturas hispano-americana e francesa. Formado em arquitetura pela USP em 1977, Hatoum sempre mostrou mais interesse pela arquitetura textual de autores como Carpentier, Juan Carlos Onetti, Mario Vargas Llosa, Lezama Lima, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Gabriel García Márquez. Sua obra não partilha o barroquismo da maior parte desses autores, mas tem alguns pontos em comum, como a descrição de uma vida em clã e seus efeitos no tempo.

Mas a literatura veio como castigo e se revelou liberdade bem antes, quando Hatoum leu trechos de Os Sertões, de Euclides da Cunha. O "gênio verbal" de Euclides e sua capacidade de perceber o choque de dois mundos brasileiros no conflito de Canudos lhe abriram a consciência. "Apesar das idéias racistas, Euclides percebeu o impasse da República. No fim, o exército é mais bravo naquela luta fatricida. A prosa euclidiana me pegou para o resto da vida."

Não à toa, atualmente Hatoum trabalha numa tese de doutorado sobre Euclides e a Amazônia. Euclides visitou a região de Hatoum em 1905. De novo, percebeu antes dos outros o estado de semi-escravidão vigente nos seringais.

Percorreu o rio Purus convencido de que um país com 50% de sua natureza em estado de indomabilidade não teria muito futuro. Vítima de impaludismo, planejou escrever sobre a região sua obra-prima da maturidade, Um Paraíso Perdido. Mas, para tristeza de Hatoum e da literatura brasileira, o tiro de Dilermando acabaria com o projeto.
O "castigo" de ler e fichar Os Sertões foi imposto a Hatoum no Ginásio Amazonense Dom Pedro II, um colégio público de disciplina férrea, onde os alunos marchavam engravatados sob o sol de Manaus. Outro livro que teve de ler foi O Ateneu, de Raul Pompéia, que marcou Hatoum pela semelhança entre as infâncias escolares. Que a leitura desses livros tão diferentes seria significativo para o futuro escritor, cujo livro de estréia só apareceria aos 37 anos, ele não podia imaginar. A força da literatura de Hatoum vem de sua capacidade de combinar as duas correntes predominantes na ficção brasileira: a urbano-intimista de um Pompéia, a natural-épica de Euclides. A primeira é definida pelos atritos psicológicos, muitas vezes desenredados de qualquer contexto histórico-social, salvo como pano de fundo. A segunda é definida pelos limites ambientais, muitas vezes determinantes dos comportamentos individuais, subprodutos rasos.

Outros brasileiros na lista de influências de Hatoum são Pedro Nava e Machado de Assis. Esaú e Jacó, de Machado, é obviamente uma referência central para Dois Irmãos. Mas em Machado a história dos dois gêmeos, Pedro e Paulo, é tomada como conflito de duas ideologias, a monarquia e a República.

"Machado já naquela época percebeu o impasse brasileiro", diz Hatoum. "Ele mostrou a desfaçatez da elite nacional. Na verdade, monarquia ou república seria a mesma coisa." Em Dois Irmãos os gêmeos não encarnam diferenças ideológicas, mas antes comportamentais: Omar é extrovertido e boêmio, Yaqub, introvertido e calculista. Omar fica em Manaus e acompanha a decadência da cidade sob o capitalismo selvagem pós-Zona Franca. Yaqub vai a São Paulo estudar na Politécnica e fazer carreira de sucesso, mas "faz tanto mal" aos outros quanto seu irmão desregrado. São, como em Machado, dois destinos nacionais - ambos insatisfatórios, frustrantes. Hatoum não tem o humor de Machado, mas deriva diretamente do estilo machadiano em sua capacidade de observar o comportamento humano em suas minúcias escamoteadoras. Poucos autores brasileiros conseguiram ser machadianos sem serem imitadores de Machado.

Pedro Nava, claro, marcou Hatoum pelo memorialismo, pela estrutura ramificadora de suas narrativas, em que as linhas do clã vão se encontrando e desencontrando no ritmo das associações. Tudo, primeiro, está em Marcel Proust, cuja imagem da mãe que beija o filho antes do sono é usada em Relato. Dos franceses, Hatoum cita também Flaubert (escreve introdução a Salambô para a editora Cosac & Naify no momento) e Stendhal. E há ainda Joseph Conrad, com sua escrita que trafega da ação à reflexão no cipoal do choque de culturas. Hatoum faz o mesmo em sua ficção, sem o tom grandioso - o contraste moral com a natureza - que existe em Conrad. Apesar de muitas dessas leituras, nacionais e internacionais, sugerirem um gosto pelo épico, Hatoum não o adota em sua ficção. "O romance nasceu da fragmentação do épico. Põe a história em perspectiva, mas com objetividade e com desencanto", diz. "O romance é uma busca de sentido num mundo que, ao final, não faz sentido."

Hatoum nota que na literatura brasileira há raras obras de fôlego épico, como Os Sertões. "Houve também Quarup, de Antonio Callado, um grande livro."

Na literatura hispano-americana ele é mais comum, como em García Márquez e Vargas Llosa. Até mesmo em Borges é possível ver "uma nostalgia do épico", pois Borges escreve sobre a impossibilidade de escrever um épico hoje. "Não que não existam romances desencantados. Basta pensar nos dramas faulknerianos de Onetti, infelizmente pouco conhecido no Brasil." Também nota que a literatura brasileira não tem grandes ficções políticas, como Conversa na Catedral, de Llosa. "Mais uma vez, a exceção é Callado, Reflexos de um Baile. Mas é curioso como faltam romances políticos no Brasil. Por que será?"

Desterro - A política deixou marcas em Hatoum e em sua ficção. Até 1968, quando se mudou para Brasília, levava o que chama de uma vida provinciana, estudando, farreando e até cantando serestas de todos os gêneros musicais sob encomenda. O seresteiro manauara estava em Brasília no auge do regime militar, quando o governo baixou o AI-5. Lia "Sartre, Camus, Graciliano", escrevia crônicas políticas e participava do movimento estudantil. Mas Brasília não ajudava: "Era o oposto de uma cidade como Manaus, que nos anos 60 era belíssima. Em Brasília faltavam vizinhos, e a atmosfera da época era de delação e violência." Hatoum veio para São Paulo.

Entrou na FAU, trabalhou na seção cultural da revista IstoÉ por dois anos, deu aula de arquitetura em Taubaté, fez cursos na Faculdade de Letras da USP com professores como Irlemar Chiampi, Leyla-Perrone Moisés e Davi Arrigucci, que assinou a orelha de Relato e é um dos críticos mais admirados por Hatoum. Mas "o Brasil estava cansando".

Em 1979 foi para Madri como bolsista de uma instituição ibero-americana.

Depois de seis meses, trocou de cidade: passou outros seis meses em Barcelona, que o fascinou. Deu aulas de português, até traduziu Jorge Amado.

Mas em 1980 conseguiu uma bolsa para estudar na Sorbonne, em Paris. Ficou ali até 1984, quando decidiu voltar para Manaus. Professor de francês e literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas, não vivia fácil: chegou a fazer traduções de textos de odontologia. Mas o impacto maior foi a cidade que encontrou, 16 anos depois. Saíra um ano depois da criação da Zona Franca de Manaus. Ao retornar em 1984, encontrou uma cidade parecida com um "bazar oriental", povoada de indianos, chineses, coreanos, além das indústrias montadoras - ou, na versão irônica, "maquiadoras" - que lá se instalaram a partir de 1975.

Manaus, que poderia ter sido uma "Curitiba do Norte" (Hatoum tem uma irmã que mora há 30 anos na capital paranaense), ressaltava apenas "o lado bárbaro": uma cidade corroída por populismo, fisiologismo, má administração, um exemplo perfeito da "modernidade manca" brasileira. "A elite brasileira não quer mudar o País", diz Hatoum. "Chamo de elite tanto o vereador que desvia verba da educação quanto o ministro suspeito e o empresário sonegador. Eles inviabilizam a cidadania do povo brasileiro."

O primeiro trauma tinha sido na partida: deixar a cidade natal aos 15 anos, de avião, sabendo que não voltaria tão cedo, fôra "uma ruptura". Retornar a uma cidade "caótica e favelizada" não estava nos planos. "Falta água numa cidade que está às margens do maior rio do mundo", diz Hatoum, que ficou ali até 1999, a cidade pior ainda. "Hoje é uma cidade cheia de viadutos e obras grandiosas, mas sem infra-estrutura. A política habitacional é desastrosa."

A morte do pai e o fim do casamento levaram Hatoum a voltar para São Paulo, onde se casou de novo. Mas a política populista também o afastou de Manaus.

"Aqui em São Paulo ainda é possível viver sem pensar na política o tempo inteiro", diz. "Lá você fica muito perto da política, emparedado por ela. E a cidade decaiu muito culturalmente. São Paulo está muito caída, mas ainda está viva."

Manaus confirma a percepção de Euclides, que, quando esteve lá, a comparou com Belém, mais civilizada e organizada, e sentenciou: "Uma cidade comercial e insuportável." Ali Euclides encontrou "brasileiros desterrados dentro de sua própria pátria" que parecem, nas palavras de Hatoum, estar em Manaus como num "lugar de passagem", onde estão lado a lado a floresta e uma fábrica de computadores - muitos séculos em oposição. "Vejo conflito em tudo", confessa Hatoum. "Talvez porque Manaus é assim, cheia de atemporalidades, atemporalidades traumáticas." Mas, pelos paradoxos da arte, é essa Manaus que habita Hatoum e lhe dá matéria para a ficção, uma cidade misturada, tomada por aventureiros de todas as partes do Brasil e do mundo, "pessoas que vão e vêm, como é típico de uma vida portuária". Dessa Manaus flutuante é que Hatoum puxa os rios dos conflitos.

Memórias - "Estou aqui tomando este sorvete de baunilha e me lembrando do sorvete de cupuaçu", diz Hatoum. O cupuaçu pode ser como a madeleine de Proust, o aroma que traz os ambientes e as gentes do passado.

Pode trazer a lembrança da avó "fortíssima", de sua "presença matriarcal" sobre toda a família, como algumas mulheres em seus romances. Pode revelar a "formação clânica" da vida manauara, meio tribal, em que primos, vizinhos e amigos são matéria-prima para os personagens finamente manufaturados pelo autor. Pode lembrar os pescadores ribeirinhos, que mantêm a tradição oral da cidade, com suas histórias e lendas, uma oralidade que, somada à elaboração inventiva, dá memorável frescor às narrativas de Hatoum, ao equilíbrio dinâmico de sua linguagem: rica em vocábulos, mas sem dialeto; direta e fluente, mas também densa e triste - encontro do Negro com o Solimões, pulsando sob o desencanto.

A família Hatoum esteve pela primeira vez no Brasil no início do século, quando seu avô foi para Xapuri (AC) animado pelo milionário ciclo da borracha e depois de 11 anos voltou para Beirute, Líbano. Contou histórias do Brasil para o pai de Milton, que durante a Segunda Guerra também decidiu ir para o Acre e, mais tarde, se instalou em Manaus como comerciante, tal como outros libaneses, sírios e judeus marroquinos que vieram "fazer a América" - uma outra América - no norte do Brasil. A Manaus dos anos 50 em que Hatoum cresceu já tinha a mescla de imigrantes, nordestinos e gente do interior, "que vinha para a cidade para ser excluída, uma das perversidades brasileiras", como as índias que serviam como empregadas da família Hatoum.


"Os gazais de Abbas na boca do Halim! Parecia um sufi em êxtase quando me recitava cada par de versos rimados. Contemplava a folhagem verde e umedecida, e falava com força, a voz vindo de dentro, pronunciando cada sílaba daquela poesia, celebrando um instante do passado. Eu não compreendia os versos quando ele falava em árabe, mas ainda assim me emocionava: os sons eram fortes e as palavras vibrantes com a entonação da voz. Eu gostava de ouvir as histórias. Hoje, a voz me chega aos ouvidos como sons da memória ardente. Às vezes ele se distraía e falava em árabe. Eu sorria, fazendo-lhe um gesto de incompreensão: "É bonito, mas não sei o que o senhor está dizendo". Ele dava um tapinha na testa, murmurava: "è a velhice, a gente não escolhe a língua da velhice. Mas tu podes apresentar umas palavrinhas, querido".

trecho do livro: "Dois Irmãos"




A ascendência materna não é muçulmana como a paterna, mas cristã maronita, e chegou também do Líbano com o bisavô Hana, dono de pensão em Manaus. A pensão de Dois Irmãos nasce daí, mais do que dos romances sociais franceses que Hatoum leu.

Hatoum é um escritor que ouve e observa essa Manaus multicultural, complexa, mestiça. O narrador de Dois Irmãos é um agregado de uma casa libanesa, filho de uma cabocla que vive ali de favor. É esse ponto de vista meio assimilado meio deslocado que dá a "obliqüidade" machadiana do livro: por sua condição, o narrador é o único capaz de olhar com algum distanciamento para o passado e reconstruir a memória daquele conflito fraternal. "Preciso de 20 anos de distância", diz Hatoum. Seu narrador, também. Só então ele pode lembrar de sua mãe, Domingas, que sofre a meio caminho entre os dois irmãos e esconde do filho a identidade do pai, que pode ser Yaqub (a quem ela ama) ou Omar (que numa de suas bebedeiras a agarrou à força). Outra que padece, paralisada, entre os pólos é a irmã deles, Rânia, numa relação incestuosa que a faz pensar que o homem ideal seria um híbrido de Yaqub e Omar. Rânia, como os personagens de Machado subjugados pela indefinição entre dualidades, jamais encontra o homem ideal. Pai e mãe, cada um ligado mais a um filho (Yaqub e Omar, respectivamente), têm seu destinos ainda mais marcados pelo conflito.

Aqui está a energia de Hatoum, que lhe dá ao mesmo tempo originalidade e continuidade em relação à tradição literária brasileira. Não há nele a crença ou descrença no mito do hibridismo. "A mestiçagem em si é boa", diz, "mas não deve ser colocada em primeiro plano. Mestiçagem com desigualdade brutal não é salvação de nada." Em sua Manaus os atritos são incessantes. A passagem do tempo traz o desfocamento da memória, mas a imaginação ajuda a recuperá-la. Esta é a arte do romance, é o que liberta até o possível o narrador do futuro, que tenta manipular aquela massa de lembranças, dar-lhe "coerência interna", na expressão de Flaubert que Hatoum evoca. E essa coerência não rima com falsificação, com facilidade: ela é aperfeiçoada em sucessivas versões.

A primeira versão de Dois Irmãos, escrita em ritmo impulsivo, era mais curta. Foi a avaliação do professor Arrigucci que fez Hatoum reescrever o romance. O gênero não estava definido, disse Arrigucci; Hatoum tinha de decidir se era novela ou romance - ou seja, teria de adensar ou esticar a narrativa. Ele esticou. Fundiu histórias que ouvia de conhecidos e parentes, acrescentou tipos folclóricos como Wyckham, Laval e Perna-de-Sapo. O livro é fértil em cenas fortes, descritas com ritmo e plasticidade impressionantes: aquela em que a mãe, Zana, busca o filho Omar no cais e o retira dos braços da mulher com quem tem feito contrabando; a morte do pai, Halim; a surra que Omar dá em Yaqub, quando se descobre traído pelo irmão nos negócios; e muitas outras. Escrevendo tanto tempo depois ("o futuro, essa falácia que persiste"), o narrador conta as histórias, mas também sofre com elas, expõe seus sentimentos ambíguos quanto aos gêmeos, luta para manter o barco em águas tão tumultuosas, serpenteia entre o passionalidade de Omar e o racionalismo de Yaqub.

Hatoum explica que seu nome, que em árabe se diz "Ratúm", vem do radical "hátma", que significa "despedaçar". É o que ele faz em seus romances. O clã de Dois Irmãos vai se desfazendo e, como é próprio dos desmoronamentos, a partir de um momento vemos como tudo aquilo é irreversível. Essa coerência narrativa não pode ser confundida com um passo apressado do autor. O tempo mesmo é que acelera a dissolução daqueles laços tão fortes quanto instáveis, que o equilíbrio da escrita serve para revelar, não ocultar. Hatoum se diferencia de todos os outros escritores brasileiros ativos (já que Raduan Nassar largou a ficção) por correr riscos, por andar na fronteira entre mundos distintos, entre o culto e o coloquial, o simbólico e o real, o imaginado e o vivido, o particular e o histórico, o íntimo e o regional. É ao leitor que cabe o encanto

(matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo no dia 26 de março de 2001)





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