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Corrrespondente-sem:
TEM JABOTI NA CHÁCARA!
Cobrindo
para o klickescritores os Prêmios Jaboti 2001
na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, relato antes de
tudo que, sem engano, vi a evolução em
funcionamento. Há duas décadas, quando
andei por Ipanema pela última vez, era preciso
olhar com cuidado para não pisar em cocô
de cachorro. Eram meia dúzia em média
por metro quadrado nos trechos de tráfego canino
mais intenso. Num coquetel numa livraria, apesar de
muita gente perfumada, o cheiro e o assunto predominantes
acabaram sendo o que todos tinham trazido nos sapatos.
Agora não se vê um cocozinho nem pra remédio.
O gari confirma que o pessoal se educou:
- E o povo sem-cão reclamou.
Domingo uma das passarelas da avenida beira-mar é
fechada para os carros e vira uma imensa passarela,
ao lado da ciclovia do calçadão. Um festival
trepidante de celulite e suor, cachorros e carrinhos
de nenê. Coisa sem par.
Fui pegar talão de choques no banco, passando
ali pela esquina onde Tom e Vinicius fizeram Garota
de Ipanema, até de passagem tomei um chopinho
em homenagem. Era domingo, o banco estava só
no automático, mas as máquinas ou estavam
sem-dinheiro ou sem-cheque ou sem-funcionar. Acabou
sendo uma bela desculpa para não gastar com livros,
minha renda é de escritor brasileiro. Sou um
sem-livros.
Na Bienal do Livro, quase não se vê mais
estudantes pedindo aos escritores autógrafo em
guardanapo poroso da lanchonete. E, se pedirem, o escritor
sempre pode retrucar:
- Quando fizerem livros nesse tipo de papel, me traga
que eu autografo.
Sem-ofensa. O que importa é que, em todas as
áreas, parece que o Brasil sem-vergonha vai ficando
sem-espaço.
Vamos à entrega do Jaboti. O prêmio em
dinheiro é micharia, o grande valor do Jaboti
é sua exposição na mídia,
como o mais antigo e mais estruturado prêmio literário
nacional, a começar pela grande comissão
julgadora de dezenas de críticos.
Há alguns degraus para a plataforma da mesa de
honra, onde a estatueta é entregue ao escritor
e ao editor de cada categoria. A de romance é
a primeira a ser chamada, de forma que nem tive tempo
de ficar nervoso, quando vi já tinha recebido
e estava diante de muitas câmeras e luzes, com
a editora Luciana Villas-Boas, que é uma beldade
e então pensei bem, é o momento ideal
para um tropeço na escada.
Foi só então na descida, prestando atenção
nos degraus, que reparei serem seis.
O primeiro é o talento, fazer o que se gosta.
O segundo é a dedicação, orientar
a vida para o talento.
O terceiro é a determinação, manter
o curso apesar das marés.
O quarto é o relaxamento, gozar a caminhada.
O quinto é ter princípios, para ir longe.
E o sexto é nada esperar, para agradecer tudo
que vem. Sem-ambição, sem-ilusões,
mas com trabalho toda manhã e férias diárias
cuidando da chácara, cujo maior fruto acabou
sendo um livro, O Caso da Chácara Chão.
E finalmente descubro que tem o zen e tem o sem. E tem
também o tem: tem jaboti na chácara, e
tem correspondente assim.
Próximo passo: o Nobel, sem dúvida. O
plano é infalível: viver até os
140 como Moisés, escrevendo um livro por ano.
Um dia, não poderão deixar de prestar
atenção`no velho Pellegrini. Mas já
desisto do plano porque me ocorre que, ganhando o Nobel,
teria o problema do que fazer com um milhão de
dólares. Ou então já vou gastando
por conta. Sem erro.
Domingos
Pellegrini
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