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AI! QUE PREGUIÇA...

"Ai! que preguiça...", desabafo-chave que percorre
a rapsódia de Mário de Andrade, Macunaíma o
herói sem nenhum caráter (1928), sugere na sua aparência
marcas de uma certa indolência nativa associada também
ao prazer carnal, tendo alcance limitado. Seria assim uma expressão
que à primeira vista se encerraria em si mesma. Entretanto,
há razões para conjecturar que, ao cunhá-la,
Mário de Andrade teve motivações mais complexas,
ligadas a seu interesse pelas manifestações do caráter
nacional enraizadas na língua. Preocupado em se aproximar
de um padrão lingüístico que expressasse a identidade
cultural brasileira, o escritor pode muito bem ter se atraído
pelo recurso sonoro e avançado em muitas direções
nessa expressão que forjou e emprestou para desafogo do herói
Macunaíma no percurso da rapsódia.
Essa
complexidade subjacente que a expressão acolhe tem um rastro
na obra do Padre Anchieta, leitura conhecida de Mário de
Andrade. Na carta em que faz "a descrição das
inúmeras coisas naturais, que se encontram na província
de S. Vicente hoje S. Paulo", em fins de maio de 1560, Anchieta
observa: "Há outro animal (que os índios chamam
Aig, e nós 'Preguiça' por causa de sua morosidade
realmente vagarosa [...]".
Além da interjeição "ai", o desabafo
abriga elementos sonoros que, sem dúvida, fazem reavivar
a explicação de Anchieta: Aig ... Preguiça.
Dicionários etimológicos, de zoologia e não
especializados trazem diversas grafias transliteradas do tupi como
sendo equivalentes ao substantivo "preguiça": ai,
aí, ahú, aig, aígue. O filólogo Antenor
Nascentes registra que esse vocábulo tem origem onomatopaica,
traduzindo o som emitido pelo animal que "articula um a fechado,
muito prolongado, seguido de i curto e aspirado". A Mário
de Andrade, poeta, professor de música, crítico, e
pesquisador interessado em zoofonia não devem ter escapado
as possibilidades de exploração desse amálgama
entre o tupi e o português, abrindo espaço para especular
que o refrão não se resume a uma simples interjeição
individual, mas pretende reforçar, na mestiçagem lingüística
e na sonoridade musical, mais um traço expressivo da mescla
da nacionalidade.
Em Macunaíma, na expressão elaborada de forma poética
ecoaria, portanto, o som emitido pelo bicho preguiça, animal
emblemático, totêmico, paradisíaco, no entender
de Mário de Andrade. De um lado o ai (aig) emaranhando-se
nas raízes primitivas de Pindorama e irmanando-se ao ócio
criador (sublimado nas artes). Esse ócio tão bem diferenciado
por Mário de Andrade em seu artigo de 1918, "A Divina
Preguiça", difere daquele sentido de preguiça
que traduz a indolência e marca o improdutivo, o inoperante:
"Forçoso é continuar, para que o idealismo floresça
e as ilusões fecundem, a castigar os que se aviltam no 'far
niente;' burguês e vicioso e a exalçar os que compreenderam
e sublimaram as artes, no convívio da divina Preguiça!"
E é nessa trilha do ócio-criador, propício
ao florescimento da poesia, que Mário de Andrade evoca também,
nesse mesmo artigo de 1918, o poema ELDORADO, de Edgar Allan Poe,
como exemplo de resquício da preguiça divinizada.
Vale lembrar, ainda, que as preguiças aparecem no roteiro
de seu livro de viagem, O turista aprendiz (1927), no papel de -
antepassados dos imaginários índios Do-Mi-Sol, que
teriam como peculiaridade comunicar-se por meio da música.
E o "turista" Mário de Andrade expande a explicação:
"Também poderia por junto da tribo Do-Mi-Sol, outra
tribo inferior, escrava dos Do-Mi-Sol, justamente porque falava
com palavras como nós, e daí um, estreitamente de
conceitos que a tornava muito inferior. Mas por intermédio
desta tribo, poderei criar todo um vocabulário de pura fantasia,
mas com palavras muito mais sonoras e de alguma forma descritivamente
expressivas onomatopaicamente expressivas, dos meus sentidos".
Nessa trilha, não se pode esquecer também que, ao
se despedir da cidade de São Paulo, Macunaíma a transforma
em pedra, na imagem do bicho preguiça, como que totemizando-a:
"- Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil
são... Enxugou a lágrima, consertou o beicinho tremendo.
Então fez um caborge: sacudiu os braços no ar e virou
a taba gigante num bicho preguiça todinho de pedra. Partiram."
O feitiço de Macunaíma resguardará no bicho-estátua
sua tradição cultural, trazendo uma vez mais presente
aquela "Lenda do aparecimento do homem" contada pelos
índios Do-Mi-Sol. O "ai! Que preguiça..."
embute, portanto, o desejo ancestral, o princípio de prazer
e o de realidade, em níveis distintos, além de sugerir,
entrançados na musicalidade da língua e na expressão
feita, seu hibridismo e, metaforicamente, uma fratura, a consciência
cindida, o traço de divisão de nossa identidade cultural.
(Este artigo, de Maria Augusta Fonseca, foi extraído,
com alterações feitos pela própria autora,
do ensaio A CARTA PRÁS CAMIABAS, em MÁRIO DE ANDRADE,
MACUNAÍMA O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER. Edição
crítica de Telê Porto Ancona Lopez, Unesco/Edusp, Coleção
Archivos, 1996 (1988), pp. 229-245. Maria Augusta é professora
de Teoria Literária de Literatura Comparada, na USP. Estudiosa
e pesquisadora do Modernismo brasileiro, tem livros publicados sobre
Oswald de Andrade e ensaios sobre Mário de Andrade.)
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