Miguel Angel Fernandes


 

Fragmento do cap.:
A Verdadeira História de Amanda
do romance O Rico Vinho da Juventude

Légua e tanto até chegar à escola de taipa caiada. A chuva da noite anterior encharcara a terra e o ar. O nariz escorrendo, ardia de frio, vermelho e dolorido de tanto esfregar tentando expirar os micróbios que tomaram sua garganta inflamada de tossir a noite inteira. Doíam as nádegas, o anu irritado pelas diarréias dilatava-se ao compasso da montaria, as roupas ásperas roçavam como lixa os bicos dos seios, duros de frio. O vapor saindo das narinas do animal lhe lembrava da bebida quente que ainda não bebera. De calor. Algumas horas depois iria maldizer o calor que abraçaria todos os espaços, incluindo as sombras. Mas nesse momento, o frio do amanhecer fazia tiritar o corpo todo e os dentes dar mordidelas nos lábios para faze-los parar de tremer. Os cantos agudos dos pássaros a irritavam como se fossem gritos. A aparente alegria por estarem vivos só podia ser inocência ou ignorância – pensou Amanda. Como eles saberiam que a vida podia ser tão estúpida e dolorida? Deviam eles ter seu jeito de sofrer, certamente. Por que todo mundo sofria. E provavelmente ela, mais que ninguém! Estaria pensando em morrer se assim não fosse? Ela, uma mulher de quase vinte e cinco anos; os poucos espelhos por onde passara lhe diziam que feia não era. Atraente. Sim, isso. Atraente devia ser, porque o padre da paróquia que sustentava a escola, onde ela dava aula para aquele montinho de raquíticos meio índios que ainda podiam andar, acariciava seus peitos sempre que podia, olhando para ela com um jeito de pedinte, que em pouco se diferenciava do que lhe mostrava o Damião, caboclo mulato e alegre que a desflorara aos doze, treze anos, sem que ela tivesse feito nada para impedi-lo. Aconteceria do mesmo jeito. Os dois sozinhos, o dia inteiro naquele sitio onde crescera com os pais. Pais? Nem os conhecera direito, pouco os via. Saiam ainda de noite escura trabalhar na terra dos outros, só assim para manterem aquela terrinha e alguns bichos que o Damião cuidava em troca de algum feijão acompanhado de ovos e às vezes, nacos de carne de galinha, que ela devia cozinhar. Nos porcos? Nem chegar perto! Os bichos comiam melhor que eles dois. Esses animais eram a razão de viver dos pais e por Damião estar ali na propriedade. Coitados daqueles dois. A vida não existia para eles. Só o futuro. E o futuro era a criação dos porcos, que um dia seriam vendidos para depois comprarem mais e depois mais. Mas a morte chegou antes do futuro e os levou sem nunca terem voltado nem para avisar que estavam empestados de cólera ou coisa assim.

Depois da noticia, ouvida pela boca de um desconhecido cristão, semanas depois de serem enterrados na mesma terra onde trabalhavam como peões, olhou para Damião e entendeu imediatamente que teria de se deitar com ele, como fazia a mãe com seu pai. Depois de comerem todos os porcos e as galinhas, e antes de comerem o único cavalo, decidiram usa-lo para ir até a cidade. Venderia ele! Alegrava-se Damião. Com o dinheiro se manteriam por alguns dias até encontrar trabalho nalguma fazenda perto. Já ouvira falar disso. Poderiam ser contratados os dois. Ela faria as coisas da casa, ele, da terra e dos animais.

Légua. Uma légua antes de avistar o povoado, o bicho arriou as patas. Moribundo abandonado à beira da estrada, deve ter morrido pouco depois. Mudança de plano: agora ela trabalharia nalguma casa de família da cidade, poderiam comer e dormir sob um teto! Alegrava-se Damião. Na cidade... –Cidade?–...No vilarejo, chegaram de tardinha. Os pés esfolados, as costas alquebradas, a fome do tamanho de um cavalo morto. Pareciam dois esqueletos vivos e vestidos entrando pela rua. Ao vê-los, cachorros e crianças os perseguiram aos gritos, se divertindo com a vista dos dois em fuga. Uns morderam a perna de Damião, outros a empurraram fazendo-a cair sobre pedras que esfolaram mãos e pernas. Acudiu um padre espantando os animais, quando sangrando e quase no desmaio. Foi benção.

Pouco tempo depois, Damião, alegre, partiu para alguma fazenda para tomar conta. Nunca mais o viu e nunca sentiu, nem de sua falta nem de sua alegria. Ela, morando nos fundos da igreja... –Igreja?– ...da capela pobrinha. Limpava santos e chão o dia inteiro. À noitinha, na luz do candeeiro o velho padre lhe ensinara a ler a bíblia. E depois a ensinar as letras e leitura para algumas pobres crianças. Após ano, daí até Dourado foi um padre, visitando o velho. A pedido deste, –que a tira-se dali antes de morrer–. Dourado. –Dourado?– Até hoje lá e nada tinha de dourado. Morando num casebre de propriedade da igreja nas aforas da cidade em troca das aulas. E comendo ovos! Pelo menos agora podia estrangular algumas galinhas de vez em quando para misturar sua carne com verduras da horta atrás da casa, que cuidava e regava... –Regava?–... cuspia.

Cuspiu agora, não de catarro, mas de aborrecimento. Por estar viva. Por não ter a coragem de acabar com essa vida grotesca. E cada vez mais estúpida, à medida que sabia, lendo nos livros e nos poucos jornais que caiam nas suas mãos, da imensidão do mundo, feito de milhares de léguas, onde existiam pessoas que não eram índios nem caboclos. Nem padres! Sabia dessas pessoas se vestirem de dourado. Bebiam bebidas douradas. Usavam jóias douradas. Alguns até tinham dentes dourados! E o único dourado que conhecia, sabia agora, era este mundo... –Mundo?–...este fim de mundo! Morrer tão jovem. –Jovem?– Aos 25 anos, quase uma solteirona? Sim, já estava na hora de morrer. Amanhã veria como faria. Lera na Bíblia sobre isso e dizia horrores. Horror maior como estar nessa estrada... –Estrada?–...vereda estreita e barrenta cheia de insetos e pássaros berrando como doidos, nariz escorrendo, doendo o corpo todo, com vontade de cagar?...–Cagar?–... de morrer?

Poderia morrer agora? Poderia. Isso. Morreria. Esticou as rédeas e o cavalo relinchou baixinho, mal-humorado, cabeceou recuperando a folga das rédeas e continuou a marcha.

– Pangaré maldito! Puxou com mais força. Antes de parar de vez, o animal resmungou irritado, mastigou o cabresto exalando densas nuvens de vapor. E esperou. Ambos esperaram. Coragem? –Não!– Como faria para morrer? –Sim! Como faria? Pendurada pelo pescoço num ramo de árvore? –Cadê a corda?– Jogar-se no próximo precipício? –Qual. Cuspiu de novo e soluçou. Fechou os olhos e assoou o nariz ruidosamente. Embaralhada com os gritos dos pássaros e zumbidos de insetos, ouviu detrás dela:

– Salúd, senhorita!

A partir do momento daquela voz desconhecida lhe desejar saúde –Amanda jamais poderia supor –, sua vida iria se transformar... -Transformar!?-... transtornar completamente.



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