Fragmento
do cap.:
A Verdadeira História de Amanda
do romance
O Rico Vinho da Juventude
Légua e tanto até chegar à escola de
taipa caiada. A chuva da noite anterior encharcara
a terra e o ar. O nariz escorrendo, ardia de frio,
vermelho e dolorido de tanto esfregar tentando expirar
os micróbios que tomaram sua garganta inflamada de
tossir a noite inteira. Doíam as nádegas, o anu irritado
pelas diarréias dilatava-se ao compasso da montaria,
as roupas ásperas roçavam como lixa os bicos dos seios,
duros de frio. O vapor saindo das narinas do animal
lhe lembrava da bebida quente que ainda não bebera.
De calor. Algumas horas depois iria maldizer o calor
que abraçaria todos os espaços, incluindo as sombras.
Mas nesse momento, o frio do amanhecer fazia tiritar
o corpo todo e os dentes dar mordidelas nos lábios
para faze-los parar de tremer. Os cantos agudos dos
pássaros a irritavam como se fossem gritos. A aparente
alegria por estarem vivos só podia ser inocência ou
ignorância – pensou Amanda. Como eles saberiam que
a vida podia ser tão estúpida e dolorida? Deviam eles
ter seu jeito de sofrer, certamente. Por que todo
mundo sofria. E provavelmente ela, mais que ninguém!
Estaria pensando em morrer se assim não fosse? Ela,
uma mulher de quase vinte e cinco anos; os poucos
espelhos por onde passara lhe diziam que feia não
era. Atraente. Sim, isso. Atraente devia ser, porque
o padre da paróquia que sustentava a escola, onde
ela dava aula para aquele montinho de raquíticos meio
índios que ainda podiam andar, acariciava seus peitos
sempre que podia, olhando para ela com um jeito de
pedinte, que em pouco se diferenciava do que lhe mostrava
o Damião, caboclo mulato e alegre que a desflorara
aos doze, treze anos, sem que ela tivesse feito nada
para impedi-lo. Aconteceria do mesmo jeito. Os dois
sozinhos, o dia inteiro naquele sitio onde crescera
com os pais. Pais? Nem os conhecera direito,
pouco os via. Saiam ainda de noite escura trabalhar
na terra dos outros, só assim para manterem aquela
terrinha e alguns bichos que o Damião cuidava em troca
de algum feijão acompanhado de ovos e às vezes, nacos
de carne de galinha, que ela devia cozinhar. Nos porcos?
Nem chegar perto! Os bichos comiam melhor que eles
dois. Esses animais eram a razão de viver dos pais
e por Damião estar ali na propriedade. Coitados daqueles
dois. A vida não existia para eles. Só o futuro. E
o futuro era a criação dos porcos, que um dia seriam
vendidos para depois comprarem mais e depois mais.
Mas a morte chegou antes do futuro e os levou sem
nunca terem voltado nem para avisar que estavam empestados
de cólera ou coisa assim.
Depois da noticia, ouvida pela
boca de um desconhecido cristão, semanas depois de
serem enterrados na mesma terra onde trabalhavam como
peões, olhou para Damião e entendeu imediatamente
que teria de se deitar com ele, como fazia a mãe com
seu pai. Depois de comerem todos os porcos e as galinhas,
e antes de comerem o único cavalo, decidiram usa-lo
para ir até a cidade. Venderia ele! Alegrava-se Damião.
Com o dinheiro se manteriam por alguns dias até encontrar
trabalho nalguma fazenda perto. Já ouvira falar disso.
Poderiam ser contratados os dois. Ela faria as coisas
da casa, ele, da terra e dos animais.
Légua. Uma légua antes de avistar
o povoado, o bicho arriou as patas. Moribundo abandonado
à beira da estrada, deve ter morrido pouco depois.
Mudança de plano: agora ela trabalharia nalguma casa
de família da cidade, poderiam comer e dormir sob
um teto! Alegrava-se Damião. Na cidade... –Cidade?–...No
vilarejo, chegaram de tardinha. Os pés esfolados,
as costas alquebradas, a fome do tamanho de um cavalo
morto. Pareciam dois esqueletos vivos e vestidos entrando
pela rua. Ao vê-los, cachorros e crianças os perseguiram
aos gritos, se divertindo com a vista dos dois em
fuga. Uns morderam a perna de Damião, outros a empurraram
fazendo-a cair sobre pedras que esfolaram mãos e pernas.
Acudiu um padre espantando os animais, quando sangrando
e quase no desmaio. Foi benção.
Pouco tempo depois, Damião,
alegre, partiu para alguma fazenda para tomar conta.
Nunca mais o viu e nunca sentiu, nem de sua falta
nem de sua alegria. Ela, morando nos fundos da igreja...
–Igreja?– ...da capela pobrinha. Limpava santos
e chão o dia inteiro. À noitinha, na luz do candeeiro
o velho padre lhe ensinara a ler a bíblia. E depois
a ensinar as letras e leitura para algumas pobres
crianças. Após ano, daí até Dourado foi um padre,
visitando o velho. A pedido deste, –que a tira-se
dali antes de morrer–. Dourado. –Dourado?– Até hoje
lá e nada tinha de dourado. Morando num casebre de
propriedade da igreja nas aforas da cidade em troca
das aulas. E comendo ovos! Pelo menos agora podia
estrangular algumas galinhas de vez em quando para
misturar sua carne com verduras da horta atrás da
casa, que cuidava e regava... –Regava?–... cuspia.
Cuspiu agora, não de catarro,
mas de aborrecimento. Por estar viva. Por não ter
a coragem de acabar com essa vida grotesca. E cada
vez mais estúpida, à medida que sabia, lendo nos livros
e nos poucos jornais que caiam nas suas mãos, da imensidão
do mundo, feito de milhares de léguas, onde existiam
pessoas que não eram índios nem caboclos. Nem padres!
Sabia dessas pessoas se vestirem de dourado. Bebiam
bebidas douradas. Usavam jóias douradas. Alguns até
tinham dentes dourados! E o único dourado que conhecia,
sabia agora, era este mundo... –Mundo?–...este
fim de mundo! Morrer tão jovem. –Jovem?– Aos
25 anos, quase uma solteirona? Sim, já estava na hora
de morrer. Amanhã veria como faria. Lera na Bíblia
sobre isso e dizia horrores. Horror maior como estar
nessa estrada... –Estrada?–...vereda estreita
e barrenta cheia de insetos e pássaros berrando como
doidos, nariz escorrendo, doendo o corpo todo, com
vontade de cagar?...–Cagar?–... de morrer?
Poderia morrer agora? Poderia. Isso. Morreria. Esticou
as rédeas e o cavalo relinchou baixinho, mal-humorado,
cabeceou recuperando a folga das rédeas e continuou
a marcha.
– Pangaré maldito! Puxou com
mais força. Antes de parar de vez, o animal resmungou
irritado, mastigou o cabresto exalando densas nuvens
de vapor. E esperou. Ambos esperaram. Coragem? –Não!–
Como faria para morrer? –Sim!– Como
faria? Pendurada pelo pescoço num ramo de árvore?
–Cadê a corda?– Jogar-se no próximo precipício?
–Qual. Cuspiu de novo e soluçou. Fechou os
olhos e assoou o nariz ruidosamente. Embaralhada com
os gritos dos pássaros e zumbidos de insetos, ouviu
detrás dela:
– Salúd, senhorita!
A partir do momento daquela
voz desconhecida lhe desejar saúde –Amanda jamais
poderia supor –, sua vida iria se transformar... -Transformar!?-...
transtornar completamente.