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De
caso com a literatura
“Eu
sei que vou te amar,
Por toda a minha
vida...”
Vinícius de Morais
Para mim, um sujeito mais que
subjetivo, a leitura de fato, aquela leitura
boa e feliz, acontece ao acaso, e, não por acaso, às
vezes pode até se tornar um caso de amor.
Falando de intimidade, eu acho interessante
contar como comecei a ler porque a minhahistória de leitura
inicial é muito precária, retardatária e clandestina,
diferente do mundo de livros que fez parte da vida de
outros escritores. Por isso mesmo, ela me parece muito
singular — ao menos serve para questionar ou até implodir
um certo senso comum: para ser escritor é preciso ter
lido os clássicos, sem esquecer a filosofia, a história,
os contos da carochinha e quetais.
No meu caso, ninguém me contou
histórias, não havia livros em casa, meus pais mal sabiam
ler e aquela biblioteca escolar nunca existiu. Não houve
clássicos na minha infância e a classe que me
recebeu muito bem veio de um pai caminhoneiro e de uma
mãe alegre e asmática que pensavam nos livros com respeito,
mas muito depois da garimpagem do arroz com feijão.
Quando penso como comecei a ler, lembro de um peixe
alado sem saber muito bem a razão. Talvez porque essa
imagem - do espinhaço às asas invariavelmente azuis
— me revele a realidade e o sonho casados em partes
iguais.
Mas o que interessa dizer é que
a leitura chegou muito tarde na minha vida e esse atraso
acabou se tornando o meu encontro mais pontual. Explico
melhor: o meu primeiro contato com livros só aconteceu
aos quinze anos e a obra que me abriu as portas
do maravilhoso mundo das narrativas foi Os Padres
Também Amam de Adelaide Carraro, para muitos leitura
apelativa, de “sacanagem” mesmo, principalmente esta
que mistura sexo com religião. Na época eu gostei muito
e li os outros livros dessa minha primeira autora, todos
eles emprestados por uma amiga que lia sempre às escondidas,
um dos melhores métodos como convite à leitura densa,
tensa e curiosa.
Foi isso: comecei com a pornografia, no meu caso salutar
e necessária para a satisfação de algumas curiosidades
sexuais da adolescência. Bem depois, só com dezoito
anos, fui lendo Saint Exupèry, Machado de Assis e Clarice
Lispector que é a minha companheira de leitura de sempre
e, mais uma vez subjetivamente, a escritora que eu pedi
a um peixe alado, sem a menor noção de palavras ou anzóis.
Vieram então Graciliano Ramos, Cortázar, García Marquez,
Murilo Rubião e tantos outros. Hoje eu acredito mesmo
que essa ausência de leitura até a adolescência e depois,
um excesso de livros, personagens e pessoas fizeram
de mim um escritor. Um toque inicial do acaso seguido
de um caso definitivo de amor.
Às vezes as pessoas me perguntam:
“O que é escrever para você?”
Só posso responder com impressões
mais subjetivas ainda, sobretudo por se tratar de literatura.
O melhor é sempre atirar palavras como iscas no anzol,
acreditando naquele mesmo peixe alado que muito eventualmente
mora no mar. Qualquer coisa como tentar seduzir alguém
e se entregar à sedução, fazendo a corte com um olho
vesgo e um olho quase bom.
Pronto! Com esse final alguma
coisa eu fisguei. Sim, porque esses dois olhos me parecem
importantíssimos para escrever. Com um, eu busco inquietar
a realidade sempre precária e, com outro, eu procuro
não perder o foco desse mundo fantasticamente real.
No fundo, obstinação e um diálogo com uma porção significativa
da vida, momentaneamente na palma da mão.E não podia
ser diferente. Afinal, a minha relação com a literatura
é um caso de amor à primeira página, olho no olho, um
se completando no outro em silêncio, através de simples
acidentes do amor. E tem mais: tendo eu me tornado um
leitor obsessivo e um escritor “com desejo de ser”,
sei muito bem que escrever não é matéria quantificável.
Pescando melhor: “escrever não é um ser de vontades,
escrever é uma vontade de ser.’
Enfim, leio e escrevo e a impressão mais tocável é
um certo sentimento de carência e mais uma certeza utópica
de que a literatura, “sonhando nas palavras o sonho
de todos”, é capaz de cobrir os vazios do real. Nesse
sentido, ela é talvez a forma mais generosa de linguagem
— quase sempre incompleta e nunca definitiva, por mais
pessimista que seja, é sempre uma proposição de felicidade
como o Mário de Andrade já falou mais de uma vez.
É isso: sou feliz por escrever
e sei que a literatura faz viver porque revela, para
quem escreve e para quem lê, um mundo que está por se
fazer. Sinto também que, escrevendo, nunca se está só,
embora o ato de escrever seja extremamente solitário.
Simples: como ninguém escreve para si mesmo, da solidão
da escrita busca-se a solidariedade do leitor. Difícil
dizer mais.
Depois que eu escrevo um livro,
ele está escrito e pouco ou nada sobra para eu dizer.
O que resta é uma expectativa de leituras e a única
palavra possível é a voz do leitor. Esta sempre chega
para abreviar os espaços e aproximar as pessoas. Então
eu sei que algo se cumpriu como se aquele peixe alado
fosse a palavra amorosamente grávida de realidade à
espera de alguém.
Jorge Miguel Marinho
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