Jorge Miguel Marinho


 

De caso com a literatura

“Eu sei que vou te amar,
Por toda a minha vida...”
Vinícius de Morais



Para mim, um sujeito mais que subjetivo, a leitura de fato, aquela leitura boa e feliz, acontece ao acaso, e, não por acaso, às vezes pode até se tornar um caso de amor.

Falando de intimidade, eu acho interessante contar como comecei a ler porque a minhahistória de leitura inicial é muito precária, retardatária e clandestina, diferente do mundo de livros que fez parte da vida de outros escritores. Por isso mesmo, ela me parece muito singular — ao menos serve para questionar ou até implodir um certo senso comum: para ser escritor é preciso ter lido os clássicos, sem esquecer a filosofia, a história, os contos da carochinha e quetais.

No meu caso, ninguém me contou histórias, não havia livros em casa, meus pais mal sabiam ler e aquela biblioteca escolar nunca existiu. Não houve clássicos na minha infância e a classe que me recebeu muito bem veio de um pai caminhoneiro e de uma mãe alegre e asmática que pensavam nos livros com respeito, mas muito depois da garimpagem do arroz com feijão.  Quando penso como comecei a ler, lembro de um peixe alado sem saber muito bem a razão. Talvez porque essa imagem - do espinhaço às asas invariavelmente azuis — me revele a realidade e o sonho casados em partes iguais.

Mas o que interessa dizer é que a leitura chegou muito tarde na minha vida e esse atraso acabou se tornando o meu encontro mais pontual. Explico melhor: o meu primeiro contato com livros só aconteceu aos quinze anos e a obra que me abriu as portas do maravilhoso mundo das narrativas foi Os Padres Também Amam de Adelaide Carraro, para muitos leitura apelativa, de “sacanagem” mesmo, principalmente esta que mistura sexo com religião. Na época eu gostei muito e li os outros livros dessa minha primeira autora, todos eles emprestados por uma amiga que lia sempre às escondidas, um dos melhores métodos como convite à leitura densa, tensa e curiosa.

Foi isso: comecei com a pornografia, no meu caso salutar e necessária para a satisfação de algumas curiosidades sexuais da adolescência. Bem depois, só com dezoito anos, fui lendo Saint Exupèry, Machado de Assis e Clarice Lispector que é a minha companheira de leitura de sempre e, mais uma vez subjetivamente, a escritora que eu pedi a um peixe alado, sem a menor noção de palavras ou anzóis. Vieram então Graciliano Ramos, Cortázar, García Marquez, Murilo Rubião e tantos outros. Hoje eu acredito mesmo que essa ausência de leitura até a adolescência e depois, um excesso de livros, personagens e pessoas fizeram de mim um escritor. Um toque inicial do acaso seguido de um caso definitivo de amor.

Às vezes as pessoas me perguntam: “O que é escrever para você?”

Só posso responder com impressões mais subjetivas ainda, sobretudo por se tratar de literatura. O melhor é sempre atirar palavras como iscas no anzol, acreditando naquele mesmo peixe alado que muito eventualmente mora no mar. Qualquer coisa como tentar seduzir alguém e se entregar à sedução, fazendo a corte com um olho vesgo e um olho quase bom.

Pronto! Com esse final alguma coisa eu fisguei. Sim, porque esses dois olhos me parecem importantíssimos para escrever. Com um, eu busco inquietar a realidade sempre precária e, com outro, eu procuro não perder o foco desse mundo fantasticamente real. No fundo, obstinação e um diálogo com uma porção significativa da vida, momentaneamente na palma da mão.E não podia ser diferente. Afinal, a minha relação com a literatura é um caso de amor à primeira página, olho no olho, um se completando no outro em silêncio, através de simples acidentes do amor. E tem mais: tendo eu me tornado um leitor obsessivo e um escritor “com desejo de ser”, sei muito bem que escrever não é matéria quantificável. Pescando melhor: “escrever não é um ser de vontades, escrever é uma vontade de ser.’

Enfim, leio e escrevo e a impressão mais tocável  é um certo sentimento de carência e mais uma certeza utópica de que a literatura, “sonhando nas palavras o sonho de todos”, é capaz de cobrir os vazios do real. Nesse sentido, ela é talvez a forma mais generosa de linguagem — quase sempre incompleta e nunca definitiva, por mais pessimista que seja, é sempre uma proposição de felicidade como o Mário de Andrade já falou mais de uma vez.

É isso: sou feliz por escrever e sei que a literatura faz viver porque revela, para quem escreve e para quem lê, um mundo que está por se fazer. Sinto também que, escrevendo, nunca se está só, embora o ato de escrever seja extremamente solitário. Simples: como ninguém escreve para si mesmo, da solidão da escrita busca-se a solidariedade do leitor. Difícil dizer mais.

Depois que eu escrevo um livro, ele está escrito e pouco ou nada sobra para eu dizer. O que resta é uma expectativa de leituras e a única palavra possível é a voz do leitor. Esta sempre chega para abreviar os espaços e aproximar as pessoas. Então eu sei que algo se cumpriu como se aquele peixe alado fosse a palavra amorosamente grávida de realidade à espera de alguém.

Jorge Miguel Marinho




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