Pedro Rodrigues Salgueiro


 

(TRÊS HISTÓRISA DE VELHOS)



Um Velho

Segurou a maçaneta com as mãos trêmulas, os olhos entre serenos e assustados; fez um esforço enorme e subiu no ônibus pela porta da frente. Cumprimentou o motorista sem obter resposta, levando muito tempo para atravessar o espaço desde os degraus até as primeiras cadeiras.

Tinha um ar de marinheiro de muitas viagens; os olhos acesos procuravam, brilhando quando encontraram outros bem mais jovens; selecionou uns tantos e ficou à espreita - um caçador analisando a presa. Segurou-se no suporte da cadeira e suspirou fundo, disfarçando em um assovio baixo, tentando se acalmar - os olhos, mais acesos, vasculhavam; mirou um par deles, bem novos, quase infantis; aguardou por instinto, paciente... e a moça, pensando entender o olhar, retribuiu com uma simpatia que puxou um sorriso no canto do lábio. O velho renasceu, a respiração dobrou, a pele do pescoço ficou avermelhada que nem galo em briga. As idéias rodopiavam na cabeça, no longo espaço entre o sorriso da moça e as primeiras palavras.
- O senhor quer sentar!? Sente-se - e, sem dar tempo à resposta, foi levantando-se.

O moço antigo sentiu o golpe, murchando; as idéias rodopiavam mais e mais na cabeça; pigarreou tentando ganhar tempo, e a boca, sem o seu consentimento, respostou:
- Não... não, obrigado! - Mas o corpo já vencido o levava à cadeira, frente à insistência da moça, que alegava notar seu cansaço, e ainda por cima o segurou pelo ombro na ajuda inesperada.
O homem murchou de vez, encolheu os ombros; as mãos - que, até o sorriso, se mantinham firmes - retomaram o ligeiro tremor, o pescoço novamente enrugou-se, e ele então sentiu uma paz tranqüila e triste... como nunca havia sentido na vida.

PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO





Epopéia

A florzinha de bem-me-quer grudada no dedo trêmulo. O bolso da calça cheinho de bombons - as pernas bambas tentando completar a ronda diária pela vizinhança.

- Seu Joãozinho tá cada dia mais caviloso. A mamãe disse que ele tá caducando.

- É a solidão, viu, Candinha. Ele só quer um dedinho de prosa.
Desde as três da tarde ele começava sua eterna peregrinação pelas calçadas: distribuía as balas, pregava os cravos no cabelo das meninas, apertava demoradamente a mão das senhoras. A brilhantina do cabelo reluzindo, o bigodinho discretamente arrumado com o polegar.

- Mamãe contou que foi depois da morte de dona Hermínia. Antes ele só saía com ela; falou também que os dois andavam sempre abraçados, numa união danada...

O velho agora se despedia das irmãs Firmino, dava um beijo na testa da mais crescida, apertava o bracinho magro da pequena. Demorava-se um pouco para retirar novamente alguns bombons do bolso - e os entregava sem deixar de reter um instante a mão da menininha.

- Não sei que maldade mamãe vê nisso; só sei que ela não quer nem que eu chegue perto...

- Só pode ser por causa das mãos dele, que faltam não largar mais a da gente.

- Foi ele que me ensinou a ler as mãos, cada linha tem um significado. Essa bem daqui é a linha da vida, disse que eu vou viver muitos anos.

- Pra mim também, mas a mamãe quase me bateu quando eu lhe contei.

João Trindade atravessava a rua em ziguezague a todo instante, bastava avistar alguém na calçada - evitando apenas a de dona Amélia, que sempre lhe virava as costas e entrava em casa apressada se benzendo muito.

- Seu Joãozinho tem mel-de-abelha? Não vá dizer que se esqueceu de mim!? - disse Lurdinha, dando antes uma olhada na direção de casa.

- Que nada, minha florzinha. É que não tem mais no armazém; mas trouxe aqueles azedinhos... são bem mais refrescantes.
- Mas Seu Joãozinho, o senhor não sabe que eu prefiro...
- Sei, sei... minha querida, mas você já é muito doce, experimente estes... - e retirava com as mãos trêmulas os bombons amarrotados; em seguida avistava a viúva Campelo botando a cadeira de balanço embaixo do benjamim. Esquecendo-se de entregar os bombons à garota, batia em retirada para completar sua volta de todas as tardes.
- Mamãe disse que ele tá quase cego. Já chegou até a paquerar com a neta sem saber... mas também a mamãe aumenta demais.
- Que maldade...

PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO




Soluço Antigo ao J.A.P

Antigas visitas já mortas
retornam à antiga sala de visitas
cumprimentam o cadáver de minha mãe
recebem um aceno eufórico de
meu pai moribundo.

- Cala a boca, velho caduco, deixa de falar só.

Grita a negra Suzete da pia.

PEDRO RODRIGUES SALGUEIRO



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