Renato Resende




Paraíso Perdido
(ou pré-poema)

Nenhum de nós jamais pensaria
em partir, em despegar-se deste corpo
que nos une e nos consome. Mas todas as noites agora
acordo com a dor de ir embora.

Não mais os aromas,
a côr, o brilho
das partículas do paraíso?

Nenhum de nós, desprovidos de suas asas
gostaria de encostar na terra, decaído.
No entanto, já me acena o mundo
com seu jogo de luz e trevas.

Mas, e o amor, o verdadeiro
Amor que sustenta tudo, que me permite
estar ainda erguido sobre esta nuvem?

Desço, em desespero, com o peso do corpo
à terra da impermanência
para nela destruir o que em mim não é eterno

como o fogo se apaga com fogo
como o ferro se forja no ferro?

Pensei que já não mais desceria.
Pensei que ficaria nesta esfera
até me unir em definitivo
no mais alto círculo divino.

Mas é o meu próprio desejo
que me leva de volta ao solo,
e de novo me descubro
homem.

Pensei que aqui ficaria até a memória
de tudo que vivi antes na terra
desaparecesse da minha memória.

Mas já sinto a própria memória
com sua sede de aranha e infância
arrombar todas as portas.

Que não seja longo, ó anjos, este passeio.
Mas, ao tocar os pés no chão
já começo a andar, e em cada passo
mais me esqueço.





As Moiras

Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
no aterro do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessaria-
mente um sinal de menos.





O Balde

Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.

Me preencho
com seu peso.

Sou um balde que flutua
com um furo
em suas águas sujas
e pouco a pouco afunda.

As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra

desde o Império romano?

Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo

(quase findo).

O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.

Tempo de menos. De desvalorização
do mendigo, do índio
que dorme sob uma marquise
numa rua de Brasília.

Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.

A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).

Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.

Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.

Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.

Atravesso vários bairros
várias vidas.

Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e teu excremento.

Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.





O Bicho

Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.

Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.

No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?

Sou uma alma em sua jaula.



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